Começo o balanço de um ano de cinema com as minhas grandes descobertas caseiras. Esta é uma
elencagem puramente pessoal, do que melhor se viu aqui por casa, entenda-se.
SafdieNo
top do ano este nome estará lá, bem destacado. No balanço caseiro, tenho de destacar o meu primeiro "
Safdie film": a média-metragem "
The Pleasure of Being Robbed". Fabuloso "filme de rua" sem rumo certo, que se faz de saídas dentro de saídas, como que levado pela vertigem dos nossos tempos - mas a ideia de tempo aqui é alvo de brincadeira "irresponsável", como se também o tempo fosse uma, ou fosse "a principal", produção nostálgica dos irmãos
Safdie.
Budd BoetticherQuatro filmes que passaram no canal Hollywood e que tive oportunidade de ver este ano, sempre com fome de ver mais logo a seguir... "
Buchanan Rides
Alone" e "Ride
Lonesome" parecem-me ser verdadeiros emblemas do melhor
western dos anos 50: uso deslumbrante do
scope, cores
techcnicolor de nos fazerem rebentar o coração de nostalgia e encanto e temas de amargura e, precisamente, de avassalador desencanto. É o belo crepúsculo num género nobre, em si mesmo, tremendamente, ou, diria,
fordianamente, crepuscular.
Musicais de Lubitsch"The
Love Parade" e "Monte
Carlo", da
caixa da Eclipse dedicada aos musicais do génio alemão. Estes são provavelmente os filmes mais arrojados que vi este ano. A música é
diegética, prolongamento divertido e erótico dos diálogos que celebrizaram
Lubitsch - e
Hawks e
Wilder e
Sturges - na grande arte da
screwball comedy. A dinâmica homem-mulher aparece pontuada com afiado sentido de humor, numa época em que os códigos de censura em Hollywood ainda não se haviam implantado. Liberdade e ousadia - coisas
inestimáveis dentro do estilo clássico.
EastwoodDois filmes, fora dos mais recentes do "último dos clássicos", reciclaram o meu fascínio por Eastwood depois das desilusões que foram "
Changeling", "
Gran Torino" e "
Invictus" - e antes da que mais que se adivinha que será "
The Hereafter". Esses filmes foram
"Escape From Alcatraz" (mostrado no canal Hollywood), realizado pelo primeiro mestre de Eastwood, o grande Don
Siegel (realizador que vem do classicismo mais "seco" de Hollywood e que, nos anos 60 e 70, desagua na perfeição no
rough style dos
movie brats); e a obra-prima
"Bronco Billy" (exibido no canal FOXNext), comédia realizada por Eastwood em 1980 e que tem tudo lá dentro: nostalgia por um passado que não volta mais e uma doce evocação, comovente mesmo, da infância-de-Hollywood-que-é-a-de-
Billy. Todo o
western reduzido ao acto
performativo de um grupo de circo falido. Nada mais crepuscular. Também... (Eastwood é confesso fã de Boetticher...)
Lloyd por Lloyd e Lloyd por Sturges"The Sin of Harold Diddlebock", editado recentemente pela BACH
Films, em complemento do obrigatório "
The Freshman", clássico
slapstick do génio cómico Harold
Lloyd,
constituíram o
double bill mais perfeito que fiz aqui por casa. O primeiro pega no final deste último e "alonga-o" em todo um "novo filme", celebração
wacky q.b. de toda uma carreira que, com o sonoro, se eclipsou... até aos dias de hoje.
A pirâmide humana de RouchObrigado
)intermedio( por me teres dado a descobrir cineasta tão moderno. Para quem ainda se deslumbra, hoje, com as fronteiras ténues que separam
documentário e filme de ficção, ora
experimentem espreitar qualquer um dos
documentários que Jean
Rouch realizou nos anos 50 e 60, por toda a África francófona e anglófona, sobre a experiência (muitas vezes traumática) da
desconolização, sobre o racismo do homem branco
versus o racismo do homem negro, sobre as relações entre tradição e modernidade, entre "campo" e cidade, entre mulher e homem, jovem e velho... Está tudo aqui, devidamente "dirigido" por um realizador que se "imerge para fazer emergir" a realidade. "La
pyramide humaine" (1961) é tudo isto e mais: uma espécie de "Tabu" da
Nouvelle Vague francesa, filmado na Costa do Marfim, com estudantes brancos (franceses) e negros (costa-marfinenses), sobre, precisamente, a interacção entre brancos e negros num país (de)formado por eles (por ela). Este filme tem o lirismo trágico do filme de
Murnau, a doce "itinerância" de um
Rohmer ou Godard e o calor - melhor, A ENERGIA - do continente africano. Belo e intenso.
Vérité ou não.
"Trilogia da Guerra" de RosselliniDificilmente alguém me convencerá que houve edição em
DVD mais relevante este ano. Falo da
"Trilogia da Guerra" de Rossellini, editada pela Criterion Collection com o rigor e "amor à arte" que lhe reconhecemos por inteiro. Redescobrir o grande cinema saído da experiência inominável da guerra é rever "Roma, Cidade Aberta", "
Paisà" e "Alemanha, Ano Zero" (na sua versão original, isto é, em alemão) em excelentes cópias. Para quem conhece as outras cópias que havia no mercado - "
Paisà" já nem se encontrava... - perceberá facilmente a dimensão desta renovação, que, para mim, foi uma revolução para os olhos!
The Red Badge of Courage"The Red Badge of Courage" (mostrado
numa das sessões duplas da RTP2) é, de longe, o melhor filme sobre a guerra civil norte-americana que vi. Mas vou mais longe: o mais honesto, brutal e belo retrato psicológico sobre o homem (ou
o rapaz que se torna homem) no campo de batalha. Facilmente rivaliza com outros grandes retratos do indíviduo em face do horror inumano da guerra, como o velhinho "The Big Parade" e os recentes "Letters From Iwo Jima", "A Barreira Invisível" ou "Full Metal Jacket". Se dúvidas houvesse - no meu caso, nunca houve - está aqui provado o génio inesgotável de Huston.
Memories of MurderO
thriller que interessa. Filme de 2003 do realizador sul-coreano
Bong Joon-
ho, que estreou este anos nas nossas salas o excelente "
Mother", mas que em "Memories
of Murder" realiza uma verdadeira
magnum opus dentro desse género tão
predominantemente americanizado do filme obcecado em seguir o rasto de um
serial killer de rosto anónimo. Não é o
plot que me leva a colocar "Memories
of Murder" aqui, mas o nível de inspiração de cada plano; no fundo, toda uma
arquitectura visual, que é um assombro. Urge uma edição deste filme em Portugal.
10 Rillington PlaceRichard
Fleischer em Londres, tenebroso e gélido. Foi o filme de terror mais brutal que vi este ano, onde tanto John
Hurt como, acima de tudo, Richard
Attenborough têm interpretações que nos cravam a pele pela sua lancinante crueza.
Fleischer é magistral a criar o ambiente sinistro adequado a uma Londres cinzenta, "sem estação", assombrada por uma série de homicídios cometidos na morada que dá título ao filme. Numa palavra,"10
Rillington Place" (mostrado no canal TCM) é um dos mais aterradores pedaços de "não-ficção" pós-clássica passada numa Londres sob a ameaça de um psicopata pervertido (
superior a "Peeping Tom" e a "The Collector", e, talvez, maior que "Frenzy"...).
O noir do anoFoi
"Pépé le Moko" , provavelmente, o primeiro
noir da história do cinema, entre o
gangster movie norte-americano e aquilo que se veio a
institucionalizar como um estilo autónomo dentro do estilo maior de Hollywood: o
film noir. "
Pépé le Moko" é obrigatório para seguidores do
film noir americano, na medida em que abre portas para todo um universo que carece, hoje, de uma maior divulgação: os primórdios do
noir, em pleno coração do realismo poético francês, de que um Marcel
Carné e
Julien Duvivier ( o realizador de "
Pépé...") foram nomes cimeiros, mas que acabaram por ser engolidos por nomes como Vigo e Renoir. "
Pépé le Moko" tem tudo aquilo que adoro nos clássicos do género, de
Dassin, de
Huston, de
Lang, de
Hawks, de
Dmytryk, de
Tourneur, etc.: estilizado labirinto mental, com EXPRESSÃO no cenário e no próprio
plot, entre a sedução e o crime, a culpa e a redenção, onde as mulheres e homens são víboras e santos ao mesmo tempo. O final de "
Pépé le Moko" ainda arrepia visto hoje - eu disse visto? Ainda arrepia recordado neste instante, enquanto escrevo!
Para o próximo ano espero aprofundar a obra de alguns destes cineastas e de outros que tenho em vista, como Hong Sangsoo, Josef Von Sternberg, Mikio Naruse, Frank Borzage, Chantal Akerman e Joseph Losey. Até lá, bom ano!