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domingo, 30 de janeiro de 2011

Os melhores de 2010

Demorei, porque tinha de ver mais alguns filmes. A maior parte que queria ver está vista e, por isso, sem mais delongas aponto os dez mais de 2010, uma selecção feita com base no universo dos cerca de 50 filmes que vi lançados em Portugal no ano transacto, em sala ou directamente em DVD. O maior destaque do ano vai, precisamente, para a qualidade dos direct-to-DVDs ou, se preferirem, para a falta de arrojo de muitas das distribuidoras que puseram fora de sala obras de Reichardt, Mendoza e Wes Anderson.


1. "Go Get Some Rosemary" de Ben & Josh Safdie

2. "Shirin" de Abbas Kiarostami

3. "O Tempo que Resta" de Elia Suleiman

4. "Mistérios de Lisboa" de Raoul Ruiz

5. "Old Joy" de Kelly Reichardt (DVD)

6. "Shutter Island" de Martin Scorsese

7. "Fantastic Mr. Fox" de Wes Anderson (DVD)

8. "Toy Story 3" de Lee Unkrich

9. "Yuki & Nina" de Nobuhiro Suwa e Hippolyte Girardot

10. "Noite e Dia" de Hong Sang-soo

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Prémios CINEdrio 2010

O top CINEdrio de 2010 sai amanhã, mas antes publico os outros destaques deste ano de cinema.

Melhor filme: "Go Get Some Rosemary" - é um cinema sem trela, à deriva pelas ruas (da infância), à deriva por referências passadas, de um cinema bastardo, o do New American Cinema, mas, mais do que isso, é um convite perfeito para se entrar num universo feito, adulto, de dois jovens cineastas: Ben & Josh Safdie. Obviamente, o melhor filme do ano.

Melhor realização: Raoul Ruiz ("Mistérios de Lisboa") em ex aequo com Kelly Reichardt ("Old Joy") - de um lado, a sumptuosidade viscontiana/ophulsiana de um realizador em perfeito estado de graça e, do outro, a fragilidade dura e doce de uma grande cineasta nascente.

Melhor plano: Elia Suleiman em "O Tempo que Resta". Uma das pequenas narrativas, tatiescas, em apenas um plano: o do hospital, em que um doente anda de um lado para o outro entre corredores - pertence ou não pertence àquele lugar? Toda a problemática do conflito israelo-palestiniano na arquitectura de um gag visual de puro génio.

Melhor actor: Adriano Luz ("Mistérios de Lisboa") - quantos papéis interpreta Adriano Luz em "Mistérios de Lisboa", ou melhor, a quantos papéis Adriano dá Luz em "Mistérios..."?

Melhor actriz: Michelle Williams ("Wendy & Lucy") em ex aequo com Juliette Binoche ("Copie conforme") - uma jovem actriz praticamente sozinha, com o seu cão..., faz um filme, ao passo que uma actriz intocável, monumental, rebenta/desorienta/desfaz em pedaços o equilíbrio de outro.

A revelação: Reichardt e irmãos Safdie - por motivos já expostos.

A desilusão: David Fincher ("The Social Network") - conseguiu fazer um biopic-antes-do-tempo de um figura cujo principal interesse é o seu progressivo auto-anulamento quanto mais se envolve na sua torre de Babel cibernética, que tem convertido em ideologia uma era que se diz da transparência, das solidões interactivas, do "desindivíduo" (este, se calhar, inventei-o eu agora...). Interessante objecto? Muito interessante, mas Fincher perde-se em detalhes secundários (como a batalha judicial) e não tem coragem de lidar directamente com o bicho do momento: o Facebook e o seu criador mabusiano (no sentido de totalitário, omnipresente, "invisível") chamado Mark Zuckerberg*. Enfim, aquele que podia ter sido um brutalíssimo "Zodiac II" é, afinal, um biopic insípido by the book.

*- Acho graça a todos aqueles que elogiaram "The Social Network" pelo facto do Facebook "não estar lá", associando este filme a uma atemporalidade careta, completamente desfasada do real interesse que moveu quem fez e quem foi ver o filme, que é basicamente um "como andam estes tempos?" ou um "o que fazer com um futuro à imagem de Zuckerberg?". Enfim, come disto quem quer.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Os rostos de 2010

Figura do ano (internacional)

Kelly Reichardt

Estreou "Wendy & Lucy" (depois de ter sido exibido no IndieLisboa), aquele que pode ser descrito como o seu "Umberto D.", e teve um desonroso lugar no mercado direct-to-dvd português deste ano, com a edição do magnífico "Old Joy". Disse desonroso? Se calhar nem tanto... se atendermos ao facto de outra grande descoberta do ano, Brillante Mendoza, ter visto o seu melhor filme, "Kinatay", vencedor do prémio de melhor realização em Cannes, ser lançado unicamente em DVD no nosso país - ao passo que "Lola" teve estreia comercial, vá lá! De qualquer modo, voltando àquela que é, para mim, a figura do ano, tenho a dizer que Reichardt é um dos grandes valores do actual cinema independente norte-americano, não só pela qualidade dos filmes estreados, mas também por aquilo que esta promete oferecer no futuro próximo, nomeadamente, o seu último filme, um western, muito elogiado em Veneza, chamado "Meek's Cutoff".

Figura do ano (nacional)

Manuel Cintra Ferreira

Sempre por amor ao cinema, Manuel Cintra Ferreira não deixou de dedicar os últimos meses, semanas e dias a levar mais longe a descoberta renovada que é, ou pode ser, o cinema, o grande e o pequeno cinema, indistintamente. Para o falecido crítico do Expresso, programador de excelência da Cinemateca, não havia bons e maus filmes, ou melhor, não havia filmes dispensáveis - o cinema não se dispensa, nunca. E, assim, com uma capacidade enorme de se deslumbrar com o mais improvável dos objectos - e de se espantar renovadamente, cá está, com os grandes clássicos que sabia acarinhar como poucos - Manuel Cintra Ferreira trilhou o seu caminho como um dos mais empenhados e democráticos críticos nacionais. A coluna deixada vazia no Expresso pesa sobre todos aqueles que o seguiram, semana a semana, em respeitosa concórdia ou em muito saudável discórdia. Cinco estrelas para ele.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Balanço caseiro do ano de cinema

Começo o balanço de um ano de cinema com as minhas grandes descobertas caseiras. Esta é uma elencagem puramente pessoal, do que melhor se viu aqui por casa, entenda-se.

Safdie

No top do ano este nome estará lá, bem destacado. No balanço caseiro, tenho de destacar o meu primeiro "Safdie film": a média-metragem "The Pleasure of Being Robbed". Fabuloso "filme de rua" sem rumo certo, que se faz de saídas dentro de saídas, como que levado pela vertigem dos nossos tempos - mas a ideia de tempo aqui é alvo de brincadeira "irresponsável", como se também o tempo fosse uma, ou fosse "a principal", produção nostálgica dos irmãos Safdie.

Budd Boetticher

Quatro filmes que passaram no canal Hollywood e que tive oportunidade de ver este ano, sempre com fome de ver mais logo a seguir... "Buchanan Rides Alone" e "Ride Lonesome" parecem-me ser verdadeiros emblemas do melhor western dos anos 50: uso deslumbrante do scope, cores techcnicolor de nos fazerem rebentar o coração de nostalgia e encanto e temas de amargura e, precisamente, de avassalador desencanto. É o belo crepúsculo num género nobre, em si mesmo, tremendamente, ou, diria, fordianamente, crepuscular.

Musicais de Lubitsch

"The Love Parade" e "Monte Carlo", da caixa da Eclipse dedicada aos musicais do génio alemão. Estes são provavelmente os filmes mais arrojados que vi este ano. A música é diegética, prolongamento divertido e erótico dos diálogos que celebrizaram Lubitsch - e Hawks e Wilder e Sturges - na grande arte da screwball comedy. A dinâmica homem-mulher aparece pontuada com afiado sentido de humor, numa época em que os códigos de censura em Hollywood ainda não se haviam implantado. Liberdade e ousadia - coisas inestimáveis dentro do estilo clássico.

Eastwood

Dois filmes, fora dos mais recentes do "último dos clássicos", reciclaram o meu fascínio por Eastwood depois das desilusões que foram "Changeling", "Gran Torino" e "Invictus" - e antes da que mais que se adivinha que será "The Hereafter". Esses filmes foram "Escape From Alcatraz" (mostrado no canal Hollywood), realizado pelo primeiro mestre de Eastwood, o grande Don Siegel (realizador que vem do classicismo mais "seco" de Hollywood e que, nos anos 60 e 70, desagua na perfeição no rough style dos movie brats); e a obra-prima "Bronco Billy" (exibido no canal FOXNext), comédia realizada por Eastwood em 1980 e que tem tudo lá dentro: nostalgia por um passado que não volta mais e uma doce evocação, comovente mesmo, da infância-de-Hollywood-que-é-a-de-Billy. Todo o western reduzido ao acto performativo de um grupo de circo falido. Nada mais crepuscular. Também... (Eastwood é confesso fã de Boetticher...)

Lloyd por Lloyd e Lloyd por Sturges

"The Sin of Harold Diddlebock", editado recentemente pela BACH Films, em complemento do obrigatório "The Freshman", clássico slapstick do génio cómico Harold Lloyd, constituíram o double bill mais perfeito que fiz aqui por casa. O primeiro pega no final deste último e "alonga-o" em todo um "novo filme", celebração wacky q.b. de toda uma carreira que, com o sonoro, se eclipsou... até aos dias de hoje.

A pirâmide humana de Rouch

Obrigado )intermedio( por me teres dado a descobrir cineasta tão moderno. Para quem ainda se deslumbra, hoje, com as fronteiras ténues que separam documentário e filme de ficção, ora experimentem espreitar qualquer um dos documentários que Jean Rouch realizou nos anos 50 e 60, por toda a África francófona e anglófona, sobre a experiência (muitas vezes traumática) da desconolização, sobre o racismo do homem branco versus o racismo do homem negro, sobre as relações entre tradição e modernidade, entre "campo" e cidade, entre mulher e homem, jovem e velho... Está tudo aqui, devidamente "dirigido" por um realizador que se "imerge para fazer emergir" a realidade. "La pyramide humaine" (1961) é tudo isto e mais: uma espécie de "Tabu" da Nouvelle Vague francesa, filmado na Costa do Marfim, com estudantes brancos (franceses) e negros (costa-marfinenses), sobre, precisamente, a interacção entre brancos e negros num país (de)formado por eles (por ela). Este filme tem o lirismo trágico do filme de Murnau, a doce "itinerância" de um Rohmer ou Godard e o calor - melhor, A ENERGIA - do continente africano. Belo e intenso. Vérité ou não.

"Trilogia da Guerra" de Rossellini

Dificilmente alguém me convencerá que houve edição em DVD mais relevante este ano. Falo da "Trilogia da Guerra" de Rossellini, editada pela Criterion Collection com o rigor e "amor à arte" que lhe reconhecemos por inteiro. Redescobrir o grande cinema saído da experiência inominável da guerra é rever "Roma, Cidade Aberta", "Paisà" e "Alemanha, Ano Zero" (na sua versão original, isto é, em alemão) em excelentes cópias. Para quem conhece as outras cópias que havia no mercado - "Paisà" já nem se encontrava... - perceberá facilmente a dimensão desta renovação, que, para mim, foi uma revolução para os olhos!

The Red Badge of Courage

"The Red Badge of Courage" (mostrado numa das sessões duplas da RTP2) é, de longe, o melhor filme sobre a guerra civil norte-americana que vi. Mas vou mais longe: o mais honesto, brutal e belo retrato psicológico sobre o homem (ou o rapaz que se torna homem) no campo de batalha. Facilmente rivaliza com outros grandes retratos do indíviduo em face do horror inumano da guerra, como o velhinho "The Big Parade" e os recentes "Letters From Iwo Jima", "A Barreira Invisível" ou "Full Metal Jacket". Se dúvidas houvesse - no meu caso, nunca houve - está aqui provado o génio inesgotável de Huston.

Memories of Murder

O thriller que interessa. Filme de 2003 do realizador sul-coreano Bong Joon-ho, que estreou este anos nas nossas salas o excelente "Mother", mas que em "Memories of Murder" realiza uma verdadeira magnum opus dentro desse género tão predominantemente americanizado do filme obcecado em seguir o rasto de um serial killer de rosto anónimo. Não é o plot que me leva a colocar "Memories of Murder" aqui, mas o nível de inspiração de cada plano; no fundo, toda uma arquitectura visual, que é um assombro. Urge uma edição deste filme em Portugal.

10 Rillington Place

Richard Fleischer em Londres, tenebroso e gélido. Foi o filme de terror mais brutal que vi este ano, onde tanto John Hurt como, acima de tudo, Richard Attenborough têm interpretações que nos cravam a pele pela sua lancinante crueza. Fleischer é magistral a criar o ambiente sinistro adequado a uma Londres cinzenta, "sem estação", assombrada por uma série de homicídios cometidos na morada que dá título ao filme. Numa palavra,"10 Rillington Place" (mostrado no canal TCM) é um dos mais aterradores pedaços de "não-ficção" pós-clássica passada numa Londres sob a ameaça de um psicopata pervertido (superior a "Peeping Tom" e a "The Collector", e, talvez, maior que "Frenzy"...).

O noir do ano

Foi "Pépé le Moko" , provavelmente, o primeiro noir da história do cinema, entre o gangster movie norte-americano e aquilo que se veio a institucionalizar como um estilo autónomo dentro do estilo maior de Hollywood: o film noir. "Pépé le Moko" é obrigatório para seguidores do film noir americano, na medida em que abre portas para todo um universo que carece, hoje, de uma maior divulgação: os primórdios do noir, em pleno coração do realismo poético francês, de que um Marcel Carné e Julien Duvivier ( o realizador de "Pépé...") foram nomes cimeiros, mas que acabaram por ser engolidos por nomes como Vigo e Renoir. "Pépé le Moko" tem tudo aquilo que adoro nos clássicos do género, de Dassin, de Huston, de Lang, de Hawks, de Dmytryk, de Tourneur, etc.: estilizado labirinto mental, com EXPRESSÃO no cenário e no próprio plot, entre a sedução e o crime, a culpa e a redenção, onde as mulheres e homens são víboras e santos ao mesmo tempo. O final de "Pépé le Moko" ainda arrepia visto hoje - eu disse visto? Ainda arrepia recordado neste instante, enquanto escrevo!

Para o próximo ano espero aprofundar a obra de alguns destes cineastas e de outros que tenho em vista, como Hong Sangsoo, Josef Von Sternberg, Mikio Naruse, Frank Borzage, Chantal Akerman e Joseph Losey. Até lá, bom ano!

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