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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Cinema na RTP2: história de uma fachada sem edifício


No ano televisivo que passou o "5 Noites, 5 Filmes" regressou à antena da RTP2, mas pouco ou nada foi feito para a solidicação de uma verdadeira programação de cinema. Para quem está minimamente atento à programação das duas televisões públicas, foi-se tornando cada vez mais evidente que o segundo canal estava a ser usado como despensa dos filmes que haviam passado na RTP1 ao longo do ano anterior.

Assistimos a ciclos avulsos, produzidos sem a preocupação, como manda o contrato com o Estado, de contextualizar pedagogicamente as obras difundidas. Quando chamámos o canal à atenção, a resposta foi (a ameaça de) um empobrecimento da sua programação cinematográfica. No início do Verão, a RTP2 terá decidido suspender o "5 Noites, 5 Filmes", passando no seu lugar séries americanas ou/e reprises de séries portuguesas. Durante os últimos meses, não tivemos sequer o direito a dois filmes semanais, como acontecia no tempo de Jorge Wemans. Na realidade, a situação actual é ainda mais preocupante, já que hoje a RTP2 se escusa de programar cinema, para lá do "Onda Curta".

O DN falou do "fim do cinema na RTP2", tentámos perceber o que se passava junto do grupo do "5 Noites, 5 Filmes" no Facebook que foi tão expedito a reagir às nossas críticas passadas, mas, desta vez confrontado com as nossas dúvidas quanto ao futuro do cinema no canal, não só não foi esclarecedor como, para nosso espanto, disse ser apenas uma "página de fãs" do programa. Apesar de alegar agora ser "só isso", este grupo que antes respondera a título oficial às nossas críticas não hesita em afirmar, com um sentido de humor igualmente surpreendente (sejam eles representantes legítimos ou somente "fãs" fazendo-se passar por representantes do canal), que é "irrevogável" a saída do cinema da RTP2. Contudo, para melhor esclarecimentos, e transcrevo a resposta ipsis verbis, "isso têm de Perguntar a RTP!!!"

Nenhum filme aparece previsto na programação do canal para este mês. Contudo, desde o dia 9 de Setembro, a RTP2 não designa qualquer programa para as 23:30 e para as 00:30. Manda o contrato com o Estado que a RTP2 consagre espaços regulares dedicados ao cinema. Não esperamos por isso outra coisa que não seja a restituição de um espaço de cinema no segundo canal, ou seja, que a RTP2 esteja à altura do compromisso que fez com o Estado português e do melhor que fez pela cultura e as artes num passado, infelizmente, já longínquo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Confirmadíssimo: "5 Noites, 5 Filmes" veio para ficar

Agora, caros amigos, é de vez: "5 Noites, 5 Filmes" está de volta à grelha da RTP2.

Depois de uns tantos falsos alarmes - ainda no tempo da direcção anterior -, a RTP2, no anúncio de hoje da sua nova grelha, relança, e passo a citar, uma rubrica "que já faz parte da história do canal".

A nossa causa Pelo regresso da exibição regular de cinema à RTP2, gerada espontaneamente entre bloggers e cinéfilos há cerca de dois anos, chega assim ao seu ponto culminante.



A partir daqui, conquistado que está o espaço que era devido à Sétima Arte na televisão pública, cabe-nos apenas acompanhar criticamente a forma e o conteúdo da "nova velha" rubrica "5 Noites, 5 Filmes". Contudo, penso que o passo maior já foi dado: é que agora temos, de facto, um espaço - com um nome que a responsabiliza directamente aos olhos dos espectadores com memória - onde se veja, se dê a ver, onde se pense e se dê a pensar os grandes filmes da história do cinema ou cinematografias menos vistas ou - pode ser o bastante - "apenas" Cinema.

***


Jorge Mourinha (jornal Público): Esta insistência cívica de um grupo de pessoas que vêem algo de errado na política cultural da televisão e acham que vale a pena continuar a pugnar pelo seu objectivo explica muito bem que é este o público-alvo da RTP-2 que o canal teima em não servir como deve ser: atento, activo, interessado, fiel Jorge Campos: o óbvio dispensa o comentário. Eduardo Paulo Rodriguês Ferreira: É um Canal do Estado. O Estado somos nós. Portanto nós exigimos uma programação. E mais, é caso para dizer: Eu pago para ver! João Mário Grilo (em entrevista ao JN): Foi na televisão que aprendi a ver cinema, com programas como "as noites de cinema". A televisão tem um papel muito importante num país onde os cinemas não estão a abrir, mas a fechar. É um direito das pessoas e um dever da televisão. Manuel Mozos (em entrevista): Há actualmente alguma programação de Cinema da RTP2? Inês de Medeiros (em entrevista ao JN): A uma petição que diz 'gostaríamos de mais' não se pode responder com contratos de concessão e tabelas mínimas. Concordo com mais cinema e penso que é importante terem atenção ao pedido, o que não quer dizer que a RTP2 não passe cinema. Paulo Ferrero (em entrevista): QUE HAJA CINEMA, do Mudo ao Digital. Vasco Baptista Marques (em entrevista): diria que a programação de cinema do segundo canal do Estado se destaca, sobretudo, pela sua inexistência.Alice Vieira (em entrevista ao JN): Para mim, cinema é no cinema, mas temos de pensar nas pessoas que estão longe do cinema por várias razões. E muitas vezes vejo-me a ir ao canal Memória para ver filmes e que aguentariam perfeitamente na Dois. A RTP2 deveria insistir mais no cinema e aí estaria a cumprir o seu papel. João Paulo Costa (em entrevista): Adoraria assistir ao regresso de uma rubrica do género "Cinco Noites, Cinco Filmes" que, há uns anos, me fez descobrir realizadores como Bergman ou Truffaut e crescer enquanto apreciador de cinema. João Milagre (em entrevista): é preciso aprender a amar. Eduardo Condorcet (em entrevista): Numa altura de crise é difícil compreender que a RTP2 não cumpra a sua função de serviço público, nomeadamente no que toca à produção audiovisual.Fernando Cabral Martins (em entrevista): [A programação de cinema da RTP2] parece-me errática e é raro dar por ela.Daniel Sampaio (em entrevista): A programação [de cinema da RTP2] caracteriza-se pela escassez e por não ter uma linha editorial, referente à escolha de filmes. Não se percebem os critérios de escolha. Maria Armanda Fernandes de Carvalho: e que o cinema mostrado seja do mundo e não só o chamado cinema comercial ou dos chamados autores consagrados. Deana Assunção Barroqueiro Pires Ribeiro: Cinema de qualidade é inprescindível em televisão José Perfeito Lopes: Como director do Cine Clube de Viseu, nos anos 73 a 77, vejo com mágoa o que estes senhoritos fizeram ao "canal 2". Manuel António Castro de Sousa Nogueira: Há muito e bom cinema à espera de ser exibido na RTP2, assim queiram os seus responsáveis que este canal seja efectivamente uma alternativa real à pobreza franciscana da programação dos restantes canais generalistas portugueses (incluindo, infelizmente, a RTP1). LUIS PEDRO ROLIM RIBEIRO: JÁ ERA SEM TEMPO António Manuel Valente Lopes Vieira: A televisão é o cinema daqueles que não podem ir ao cinema. Que o cinema volte à televisão. Miguel Barata Pereira: Aprendi muito do que sei de cinema a ver a saudosa rubrica "5 noites, 5 filmes". Marta Sofia Ribeiro de Morais Nunes: Como cresci a poder ter acesso ao melhor do cinema através da RTP2, quero continuar a poder crescer com ele. Maria do Carmo Mendes Carrapato Rosado Fernandes: As pessoas estão a "desaprender" de ver cinema, e isso não é bom...que regressem os ciclos de cinema, que regressem os bons filmes nos anos 30/40/50 do seculo passado, que regresse o cinema americano, japonês, europeu, que regres, se faz favor. Obrigada. JORGE MANUEL DOS SANTOS PEREIRA MARQUÊS: Só neste paraíso político à beira-mar plantado é que se tem de pedir e justificar o óbvio,o justo,os direitos e o razoável...Amadeu José Teixeira da Costa: Foi na RTP2 que vi cinema como nunca mais vi na minha vida. TODOS ESTES E OUTROS COMENTÁRIOS DOS NOSSOS SIGNATÁRIOS AQUI

Durante todo este tempo, fiz desta "animada" galeria de subscritores da nossa petição, postada na barra lateral do blogue, uma janela sempre aberta para que o leitor, no confronto com a realidade, pudesse aferir o que mudou e produzir a crítica... Durante demasiado tempo, essa crítica nascia do vazio de uma das partes. A partir de hoje, com toda a segurança, podemos passar a criticar a televisão pública, especificamenta a RTP2, não "na ausência" mas "na presença" de uma programação de cinema. Fecho, por isso, a janela, para que, enfim, se abra aquela porta - que nunca perdemos de vista - chamada serviço público.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Make my day: estará o 5 Noites, 5 Filmes de regresso à RTP2?


Já sem Wemans ao leme e com o cancelamento do ornitorrinco artístico-cultural "Câmara Clara", a RTP2 entra numa nova fase da sua vida. Quer dizer, isto se de facto não acabar por ser privatizada, extinta ou outra solução qualquer que o governo improvise entretanto em cima do joelho. Num momento em que se anunciam novas grelhas, não é evidente ainda o rumo que a programação do segundo canal vai tomar em 2013, contudo, os sinais que tem dado em matéria de cinema não oferecem ainda grandes garantias: se, por um lado, muito se lamenta o fim do programa "Onda Curta", por outro lado, perguntamo-nos se o regresso do "5 Noites, 5 Filmes" - que na próxima semana homenageia Clint Eastwood - é para ser levado a sério ou se este canal "de serviço público" continuará a usar o cinema - e essa rubrica histórica, tão acarinhada pelos telespectadores com memória - como tapa buracos da programação. Outro sinal pouco claro prende-se com o fim (definitivo? Não sei...) das sessões duplas de sábado, espaço que era usado, insidiosamente, pela anterior direcção para vender a ideia de que passava cinema em qualidade e em quantidade.

Das duas uma: ou este regresso de "5 Noites, 5 Filmes" é outra piada do canal, poeira lançada para os olhos dos milhares de espectadores que há anos pedem - exigem! - mais cinema na RTP2, ou então estamos na presença de uma mudança de política, que só dá razão a quem sempre associou a estagnação do cinema no segundo canal à direcção chefiada por Wemans e Paula Moura Pinheiro. Obviamente que o meu desejo é que esta segunda hipótese se confirme, porque, caso contrário, ficaremos definitivamente sem cinema no segundo canal, logo, estaremos condenados de vez à falsa oferta dos privados - até porque parece que em 2013 teremos menos cinema na RTP1. Não quero acreditar que se vá descer mais baixo e rasgar de modo ainda mais notório o contrato que vincula a RTP ao Estado, ignorando de vez a obrigação de dar a ver e a missão de contextualizar os grandes filmes da história do cinema.

Adenda (dia 13 de Janeiro): para minha felicidade, constato que a ausência de "Onda Curta" na programação da RTP2 terá sido apenas temporária. Este domingo e, pelo menos, nos próximos dois domingos o programa histórico da televisão nacional tem espaço garantido na antena da RTP2. Uma boa notícia.

sábado, 25 de agosto de 2012

Contra o fim da RTP2


Em português temos a muito feliz divisão entre "o que é" e "o que está". A RTP2 "que está" não pode ser confundida com "o que é". Penso que isso tem sido bem traduzido nas redes sociais, onde só tenho apanhado recuperações de imagens, símbolos, programas e experiências do segundo canal anteriores, bem anteriores, ao segundo canal que tem "estado" sob ocupação da actual direcção.

Hoje passa cinema no segundo canal das 22:42 até às 05:35. Como sempre fiz, a título pessoal e em nome da Petição pelo Regresso da Exibição Regular de Cinema à RTP2, peço para usufruírem desta maratona, servindo este canal de audiências numa área em que tinha obrigação de prestar mais e melhor atenção.

Como é óbvio, não defendo a extinção do segundo canal, isso seria confundir o "ser" com o "estar". As 3000 pessoas que apoiam a nossa causa amam "o que é", gostam menos de "o que está". Por isso, não haverá segmento da população que se sentirá mais atingido pela extinção deste canal com um passado tão querido na formação cultural e cívica dos portugueses.

Por tudo isto, apoio iniciativas como esta ou esta. E também por tudo isto me irei demitir de fazer o choradinho retórico, amnésico e acrítico, em torno das maravilhosas "migalhas" que a estação de Wemans nos oferece hoje. Isto é: não me verão a relativizar o "que é" a RTP2 em favor de "o que está". A RTP2 foi criada em 1968, há uma história e muita memória boa a respeitar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O fim da RTP2: pelo apuramento de responsabilidades


Vamos lá ver se não perdemos "a perspectiva" sobre a evolução desta história, a meu ver lamentável, em torno da privatização do segundo canal.

Quem a dirige há mais de quatro anos? Quem decidiu investir sobretudo numa programação infantil e desinvestir nas outras áreas culturais previstas no contrato com o Estado, como por exemplo no cinema, no teatro e na música? Quem cortou com o passado da estação e não ouviu, nunca ouviu, o seu público? Quem fez da RTP2 o "elo mais fraco" hoje, em tempos de horror à despesa e de obsessão pelo dinheiro? Quem fez da RTP2 um canal sem um público suficientemente convicto para sair à rua na sua defesa? (Os meninos e meninas de 5 e 6 anos, infelizmente, não deverão conseguir muito, agora que se anuncia o fim de tudo, ou conseguirão?)

Sim, a ideia de concessionar a RTP1 a um privado é uma não-medida ridícula - afinal, o problema não começa com "quem" a chefia, mas com "quem" fiscaliza o cumprimento ou não das obrigações de serviço público... e, já agora, "que serviço público?" - e sim, também acho que a orientação correcta é aquela que a RTP2 em tempos personificou, na realidade, que personificou durante a maior parte da sua existência. Contudo, e infelizmente a maioria cederá à diabolização simples deste executivo - e, logo, a culpa morrerá solteira, coisa que essa mesma maioria irá afirmar a plenos pulmões como se não fosse nada com ela... -, a história do fim da RTP2 tem como primeiro carrasco a sua actual e, pelos vistos, derradeira direcção. Na realidade, esta foi a coisa mais conveniente que podia ter acontecido a um governo que parece estar pouco preocupado em gizar uma hipótese séria de serviço público de televisão.

(Um dia a Dra. Paula Moura Pinheiro apelidou de "mal-entendido" uma causa que reuniu mais de 3000 cidadãos, pois eu agora digo que ela e a direcção de que faz parte é que nunca entenderam nem quiseram entender o que estava em jogo... Talvez agora fossem, pelo menos, 3000 a lutar empenhadamente pela sobrevivência do canal.)

domingo, 5 de agosto de 2012

O fim da RTP2


Uma notícia recente dá conta da eventual venda da RTP2. Chegámos ao momento que pessoas como o Professor João Mário Grilo já anteviam no debate que a petição pelo regresso da exibição regular de cinema à RTP2 organizou, há quase um ano. Momento para a defesa da RTP2, mas que RTP2 é essa que as pessoas poderão defender, face a um presente tão descaracterizado e a uma direcção que nunca quis ouvir o seu público?

Agora vão aparecer meia dúzia de vozes, mais ou menos sonantes, que só sabem defender aquilo que é e não aquilo que devia ser um segundo canal de televisão. A discussão vai-se politizar, pior!, vai-se "partidarizar", mas algo me parece incontestável: nesta altura de vacas magras, em que se anuncia a reestruturação da televisão pública, o governo percebeu que o elo mais fraco era a estação de Jorge Wemans, um canal que se alicerça apenas numa boa programação infantil, numas quantas séries norte-americanas que duplica com outros canais do cabo e nalguma informação cultural mal amanhada e snobe (leia-se, o insuportável "Câmara Clara").

A direcção da RTP2 arrastou-se durante anos a mais, perdeu força e credibilidade e, agora, arrisca-se a levar consigo não só o passado e bom nome do canal mas também o canal propriamente dito. Parece uma daquelas ditaduras do norte de África: só acabam com a decapitação do ditador. Pena que esta "decapitação", se acontecer, seja executada pelo Poder e não seguindo a vontade dos cidadãos. Será não uma revolução "primaveril", mas a implosão de uma direcção decadente. RTP2, a estação que Jorge Wemans enterrou?

(Quanto ao ministro Miguel Relvas querer um canal público mais próximo da RTP1 do que da RTP2 ou dizer que não quer um canal "residual" a nível audimétrico, claro que isto constitui o triunfo da perspectiva tecnocrática que já impera há muito na televisão pública; logo, a machadada final sobre qualquer possibilidade de vir a existir - como já existiu um dia, na RTP2 - um serviço público de televisão.)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um ano depois, o cinema continua a tapar buracos na RTP2


Já passou mais de um ano sobre o debate Cinema na RTP2, no qual o director da estação, Jorge Wemans, surpreendeu todos quando assumiu a pouca atenção que tem dado ao cinema desde que assumiu a liderança do segundo canal (já lá vão 5 anos!). Recordo as suas palavras precisas: "E aceito que em relação ao cinema a memória destes anos não seja uma memória que acrescente, digamos, algum passo decisivo em frente". Palavras que recebi como um sinal positivo no sentido de ver respondidas as reivindicações constantes da nossa petição pelo regresso da exibição regular de cinema à RTP2.

Apesar de cumprimentar o director por ter aceite, nessa altura, o convite que lhe endereçámos e pela auto-crítica que fez, não consigo disfarçar a decepção, partilhada seguramente pelos mais de 3000 apoiantes desta causa (no facebook já são 3 289 amigos!), agora que passou um ano e três meses sobre esse encontro.

O "5 Noites, 5 Filmes" voltou aos nossos ecrãs, mas apenas foi recuperado como "marca" ao serviço da programação do canal em tempos de férias. Esta tímida e incompleta recuperação de um espaço mítico dedicado ao cinema também pouco ou nada acrescentou ao estado das coisas na estação, já que, nos seus mini-ciclos da Páscoa, detectámos um número excessivo de repetições de títulos exibidos no canal há pouco tempo ou "casamentos forçados" entre títulos escolhidos sem arrojo.

Em Agosto, como já fora prometido, o cinema volta a ocupar as emissões diárias do canal, mas a lógica mantém-se: logo na primeira semana, percebe-se que a RTP2 continua a tratar o cinema como tapa buracos, por isso, volta a passar títulos recentemente exibidos no espaço da sessão dupla de sábado. Este comeback não foi ainda anunciado como aconteceu na Páscoa, isto é, em comunicado da estação, de qualquer modo, desconfio dos critérios que presidiram à selecção de títulos tão diferentes e tão distantes estética, temática e historicamente entre si.

Ainda assim - já me começo a contentar com as migalhas da refeição que eu e, aliás, todos os contribuintes pagámos na íntegra - saúdo a estreia, penso que absoluta, no nosso país do filme "Pa Negre" do talentoso cineasta catalão Agustí Villaronga (lembram-se do seu intenso "El Mar"?). Também espero que, desta vez, a direcção da RTP2 perceba que o público quer o "5 Noites, 5 Filmes" em permanência na grelha do canal. Lamentavelmente, penso que isso só acontecerá se soubermos "mexer" com o indicador que rege a política desta estação dita "de serviço público": as audiências. Sugiro, então, que vejamos os filmes do regressado "5 Noites, 5 Filmes" para, dessa forma, relembrarmos a estação de Wemans das suas próprias obrigações.

Post Scriptum: Apesar de não vir na programação como fazendo parte do regressado "5 Noites, 5 Filmes", o meu camarada de petição Ricardo Lisboa fez bem em me apontar o seguinte: já nesta semana, a RTP2 passa durante 5 noites 5 filmes, todos sempre às 4 da madrugada. (E depois dizem que são regulares na sua programação de cinema...) Desta feira, o cinema serve não para tapar o buraco deixado aberto pelas séries da preferência de Jorge Wemans, mas para cobrir a falta do espaço Euronews na grelha. Posto isto, a dita selecção de filmes é a mais aleatória que nos poderia ocorrer: "Forget Paris" de Billy Crystal (segunda-feira), "O Atalho" de Kelly Reichardt (terça-feira), "As Praias de Varda" de Agnès Varda (quarta-feira), "Tetro" de Francis Ford Coppola (quinta-feira) e outra vez "The Fearless Vampire Killers" de Roman Polanski (sexta-feira). Que confusão e trapalhada de canal.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O cinema na RTP2: estrada para nenhures (sem destino)


Para onde nos leva a estrada de "Road to Nowhere" ("Sem Destino", em português)? Que estrada é essa? Que "nowhere" é esse que não, talvez, o "now here" da produção de um filme dentro de outro? O filme de Monte Hellman é um enigma sobre o cinema, que aponta num sentido - indefinido - que parece levar a lado nenhum para lá do que as suas imagens e encenações/associações "en abîme" nos oferecem. Mas e se esta "road" nos levasse a 1959, ao filme que terá lançado, oficialmente, as bases da Nouvelle Vague? A RTP2 diz-nos que o caminho de Hellman tem como destino "Os 400 Golpes", pelo menos, deixa isso implícito no seu double bill agendado para a "Sessão Dupla" do próximo sábado, dia 2 de Junho.

A surpresa não é grande, porque nas suas noites de cinema têm-se celebrado os mais inusitados casamentos cinematográficos sem que se preste a mínima explicação - bem, de facto, o amor verdadeiro é incomunicável e, se calhar, estes casamentos são arrebatadores acessos de paixão que confirmam o popular adágio "os opostos atraem-se". O que muda desta vez? Bem, talvez, o facto de o título do primeiro filme parecer comentar, com grande astúcia, a estrada que esta RTP2 tem percorrido, uma estrada para lado nenhum, a começar pela programação de cinema, que surge aqui, transparente, na sua política de ataque a tudo o que implica critério, reflexão e pedagogia.

Se não soubéssemos já que o programador "força" casamentos entre filmes por motivos puramente comerciais ou por expressa falta de cultura cinéfila, socorrendo-se do mais automático método randômico que há no mercado para "lançar ao ar" (antes de "pôr no ar") as suas sessões de cinema..., diríamos que este double bill, "Road to Nowhere" e "Os 400 Golpes", tinha o potencial para provocar o lançamento de, pelo menos, dois livros com algumas das mais espantosas revelações sobre a história do cinema e um punhado de reflexões inovadoras sobre a ontologia da imagem. O problema é que, nesta altura, já sabemos o que sabemos.

A confiança em quem programa é nula. E, por isso, este double bill não passa de um disparate completo a somar-se a tantos outros. Contudo, a autoria é dos mesmos de sempre, de uma pequena elite, que trabalha sem regulação, indiferente à crítica, ou melhor, que inclusivamente faz carreira a desprezar a opinião de quem dela não faz parte, de quem "não vê" o que eles "querem ver": um canal de serviço público naquele lugar que separa a RTP1 da SIC. Um lugar de poucos (para poucos) e, enfim, uma estação que não quer ir muito mais longe do que o lado nenhum onde que está. Elitismo no, já nu e pelo vazio.

domingo, 6 de maio de 2012

Adeus Fernando Lopes e olá José Vieira Mendes ou o parasitismo mediático


Peço desculpa, mas vou ter de voltar a insistir nisto.

Numa altura em que se presta a homenagem, mais do que devida, a Fernando Lopes, não só como realizador maior do cinema novo português, como crítico de excepção (da Cinéfilo, revista de que tanto se orgulhava), mas também como co-fundador da RTP2 e programador que pensou e deu a pensar cinema no mítico Cineclube, numa altura em que faz sentido retirarmos as devidas lições desta vida exemplar, que ainda nos está tão próxima, ligo a RTPMemória e vejo, confesso que com apreensão, mais uma Noite de Cinema apresentada por José Vieira Mendes.

O sorriso de plástico e o fraco conteúdo de Vieira Mendes continuam lá, o que muda (porque nem sempre tem sido assim... como já testemunhei, aliás) é, desde logo, o facto de ter naquele estúdio virtual reles alguém com um discurso desempoeirado e empático: Filipe Melo, músico jazz e uma das cabeças por trás do primeiro filme zombie português, "I'll See You in My Dreams". José Vieira Mendes faz a apresentação do convidado, ao mesmo tempo que o põe desconfortável com uma enxurrada de elogios genéricos e salamaleques artificias, procura promover o seu trabalho na música, no cinema e, mais recentemente, na banda desenhada e depois reserva um minuto para a apresentação propriamente dita do filme.

Se antes criticávamos o tom e a escolha (deslocada) dos convidados (alguns, caídos de pára-quedas ali, nitidamente!) e não tanto os filmes que eram mostrados, uma vez que na RTPMemória havia uma predilecção por grandes clássicos do cinema (de Hawks, Powell, Ford, etc.), agora não pudemos deixar de nos engasgar mal ouvimos o título do filme que, no fim de contas, propiciara aquela reunião: "Academia de Polícias 3". Filipe Melo, simpaticamente, procura falar dos anos 80, do impacto que teve esta série cómica no final da sua infância... não deixa, contudo, escapar a ideia de que, talvez, estas comédias estejam hoje muito datadas.

Eu pergunto: em que consiste esta gestão programática que a RTPMemória está a fazer da memória cinéfila? "Academia de Polícias" é uma obra que mereça revisitações sofisticadas, contextualizações com 10 minutos? Não, aliás, de tal modo que só deram 1 ou 2 minutos a Filipe Melo para falar desse filme. A verdadeira motivação desta "apresentação" não tem nada a ver com a divulgação ou a pedagogia do olhar, aquela por que se bateu Fernando Lopes numa vida; não, os dois grandes objectivos destas falsas contextualizações cinematográficas são: a promoção do trabalho do convidado - mas então por que está este espaço disfarçado de grande "átrio" da cinefilia e da cinefilização? - e, antes de tudo, a projecção da imagem do entrevistador/programador - José Vieira Mendes tem amigos e, como se vê na narcísica troca de elogios que protagoniza sempre, tem feito muito pelo cinema em Portugal...

É terrível que o cinema na televisão pública sirva este puro parasitismo mediático, que lhe é completamente alheio. Penso que, e agora retomando a minha homenagem a Fernando Lopes, é tempo de se começar a dignificar o cinema no espaço público, é tempo de levarmos a bom porto a batalha por uma melhor e mais séria pedagogia do olhar em Portugal. É tempo de sermos mais exigentes e de reivindicarmos - porque pagamos por ela - uma televisão pública de serviço público. Não é tempo para auto-promoções à custa do cinema ou apropriações pífias e parasitárias da memória cinéfila.

sábado, 31 de março de 2012

"5 Noites, 5 Filmes", só na Páscoa?


Ao contrário do que noticiámos, parece que a RTP2 só retomará o espaço "5 Noites, 5 Filmes" durante as duas semanas correspondentes às férias da Páscoa. Uma comunicação da RTP emitida ontem dá conta, ainda que de modo pouco claro, desta muito infeliz notícia. Estaremos, contudo, atentos aos desenvolvimentos que daqui possam advir, porque, na nossa opinião, reabilitar um espaço com nome e com história para o matar logo a seguir é puro sadismo televisivo.

Se quer fazer algo para mudar esta situação, recomendo que deixe comentário nesse comunicado da RTP, manifestando a sua vontade e a vontade da maioria dos telespectadores do canal de que haja um espaço regular de cinema nesta estação de "serviço público".

Adenda (no dia 2 de Abril):

sábado, 24 de março de 2012

"5 Noites, 5 Filmes" está de regresso à RTP2


Penso que esta é a verdadeira primeira grande vitória da Petição Pelo Regresso da Exibição Regular de Cinema à RTP2: o saudoso "5 Noites, 5 Filmes" regressa à antena da RTP2 a partir do dia 2 de Abril. A afirmação deste espaço na grelha do canal dá-me alguma segurança de como este não servirá para tapar, provisoriamente, o buraco deixado vago na programação pelo talk show "5 Para a Meia-Noite", até porque, espantem-se, a avaliar pelo teaser e outras informações do site da nova temporada, este também regressa em Abril, não na RTP2, mas na RTP1!

Com estas decisões de transferir aquela que era a jóia da coroa da direcção Wemans do segundo canal para o primeiro e de devolver a este um espaço digno - esperemos que o seja... - dedicado à exibição de cinema, a RTP2 volta a fazer jus ao seu passado, reaproximando-se dos objectivos, a que nunca se deveria ter furtado, de serviço público.

Mas, agora, se me permitem, também quero dizer isto: para quem nunca acreditou na nossa iniciativa por achar que ela não ia a lado nenhum, para quem achava que só fazendo rolar cabeças as coisas podiam mudar, para quem pensava que as críticas públicas que fiz a programas como "5 Para a Meia-Noite" eram "contas de outro rosário", aos cépticos e aos cínicos, aqui têm a resposta. Aos outros, muito especialmente, aos perto de 3000 cidadãos que subscreveram a nossa petição, endereço uma mensagem de parabéns e um grande obrigado por darem provas de que a opinião pública é livre, independente e pode fazer a diferença, nomeadamente, contra a ditadura da opinião publicada.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Canal Hollywood e o programa Estreia da Semana: a indigência mental televisiveira


Até fico arrependido de já ter escrito algumas coisas, mas não posso. Por quê? Porque estou inocente: a mediocridade e a mais obtusa inanidade não me vão pôr aqui a engolir uma única palavra que escrevi sobre este ou aquele indivíduo, sobre esta ou aquela estação. Se já falei aqui no "grau zero" da apresentação ou divulgação do cinema em televisão, tenho então de inspirar bem fundo e dizer que a pobreza intelectual do que li neste post de João Lopes e depois na notícia do Diário de Notícias sobre o novo magazine (des)personalizado do canal Hollywood ultrapassa os limites da minha tolerância.

Quem me conhece minimamente sabe que não coloco, à partida, reservas à existência de programas da TV privada com maior ou menor número de junkets ou que façam gala de passar trailers de filmes distribuídos pela Lusomundo. Já realizei uma conferência onde fiz questão de fazer representar no painel alguém ligado a esta vertente pipoqueira do jornalismo cultural televisivo. Diga-se que essa "alguém" foi Mário Augusto, pessoa que, nesta área, conseguia dar várias lições de seriedade e profissionalismo a qualquer uma destas novas caras do canal Hollywood.

Mas, recuemos: muita coisa me deixa incrédulo. Primeiro, tal como João Lopes, considero, no mínimo, desconcertante a ligeireza com que uma ex-apresentadora do "5 para a Meia-Noite", voluntaria ou involuntariamente, reduz ao mais embaraçoso vazio intelectual o trabalho que deve envolver qualquer espaço concebido para in-formar, pensar e dar a pensar o cinema. Se a rapariga, coitadita, não tem tempo para ver os filmes, a solução - segundo a mesma publicita às escancaras, sem pingo de pudor... - está encontrada: ver trailers e making ofs no YouTube, fazendo depois uma espécie de "share" no programa em questão... O leitor menos atento a estas coisas até poderá pensar que, se calhar, porque o trabalho parece tão ao alcance de qualquer pessoa da geração da apresentadora, esta só lá está ou porque tem uma cara bonita ou porque, tendo uma cara bonita, já apresentou outro programa do género.

Que a Luísa Barbosa, por ser da escola "5 para a Meia-Noite", jóia da coroa da televisão "de serviço público" RTP2, constitui uma mais-valia para programas deste género num canal que é uma playlist aleatória de filmes, não me surpreende, mas que revele "de onde vem" de forma tão pornográfica na sua primeira intervenção pública enquanto apresentadora do "Estreia da Semana", isso já me deixa bem mais preocupado. Estaremos todos assim tão insensíveis à irresponsabilidade e desonestidade intelectual das pessoas que fazem a nossa televisão? Haverá "crítica" capaz de despertar a consciência do espectador para este tipo de abusos discursivos?

É que a rapariga não está só nesta cena degradante. "Estreia da Semana" terá 4 apresentadores, cada com uma exigente pasta em mãos. Bernardo Mendonça tem a seu cargo os filmes de ação e guerra, Luísa Barbosa dedica-se às comédias e aos romances, a Maria de Vasconcelos competem os filmes de animação e infantis e Bruno Pereira está encarregue dos thriller e dos dramas. O objetivo é fornecerem um olhar personalizado sobre o filme em questão. Aguardamos impacientes pelo estilo "personalizado" que esta malta que nem se dá ao trabalho de ver os filmes irá investir nas suas análises aos seus filmes devidamente pré-etiquetados de "guerra" ou "infantil". Mais um contributo para o "engavetamento" - desta feita, "personalizado" - do cinema no espaço mediático.

Enfim, escusado será dizer que, mesmo antes da estreia - a deles no canal... -, este grupo de apresentadores já deu provas de ser um desastroso erro de casting mediático. Mas o que dizer de quem - no caso, alguém chamado Bruno Pereira - se orgulha de escrever os seus próprios textos, de não ser um "papagaio"? Então, não vai o Bruno Pereira papaguear nos seus textos, seguramente, muito "personalizados", as coisas que ele, a Luísa e companhia "apanham" na Internet? O que dirão os outros colegas do Bruno Pereira, os das outras estações, que, no fundo, são, numa frase, enfiados no saco dos "papagaios" da Sétima Arte? O que deve o leitor retirar disto tudo?

Desde logo, eu, enquanto espectador, retiro que o canal Hollywood só pode ser pessimamente gerido. Já pressentia isso face à progressiva redução de qualidade da sua programação estilo "playlist", mas depois desta amostragem fico mais do que convencido. Aliás, registo com quase igual estupefacção a intervenção do director de programação do canal, que diz que não passará - e não passa - cinema português porque o canal se chama Holywood. Faz sentido, é verdade, mas o mesmo canal passou durante anos e até há bem pouco tempo vários grandes clássicos do cinema mundial, como "Ran", "Fahrenheit 451" ou "A Noite Americana". Mas, se fazia algum sentido o que disse no início, Paulo Guedes - é o nome do senhor - apressa-se a concorrer em matéria de indigência mental com os seus pupilos: Temos espaço para outros produtos. Só em termos de filmes é que não podemos apostar tanto nos portugueses. O canal chama-se Hollywood... fará sentido um filme português se for mais comercial, com grande sucesso das salas portuguesas.

Não vou sequer entrar na discussão do quão relativo pode ser o critério "grande sucesso nas salas portuguesas", porque o disparate está no facto de só fazer sentido passar cinema português num canal chamado Hollywood se este se sair bem nas salas... Primeiro, não faz sentido: se é para não passar cinema não-americano, não passe, mas enganar o leitor e o espectador com retórica televiseira mal amanhada, isso é mais uma machadada na credibilidade de quem dirige o canal. Por outro lado, com essa observação ilógica e desonesta, o senhor director mostra ter a visão mais redutora e ignorante que podia haver da história do cinema nascido em Hollywood - para Paulo Guedes, Hollywood será sinónimo de blockbusters, é isso? - e, segundo, é a visão mais estreita e potencialmente desastrosa para um canal inserido num mercado, cada vez mais, de oferta única. Quer o canal oferecer o que os outros oferecem? Sucessos nas salas, sucessos nos outros canais. Estes são, como o director lhe chama, qual bom tecnocrata televisiveiro, os bons "produtos" do canal Hollywood.

O canal Hollywood não quer oferecer qualquer alternativa mas, muito pelo contrário, oferece a confirmação de todos os preconceitos televisivos em relação aos modos de ver e dar a ver o cinema, pensar e dar a pensar as suas imagens... Esta estação, com este discurso assassino do cinema, profundamente anti-pedagógico e insultuoso, nomeadamente, para o espectador, revela o paradoxo em que está caída: um canal de cinema que quer oferecer "produtos", americanos ou americanizados, que já toda a gente conhece e que quer veicular informação papagueada do YouTube e outros sites da Internet gaba-se da originalidade da sua política de aposta no que é nacional, no que "é nosso". Na parvoíce e na chico-espertice, originalidade não lhe falta.

(Na sequência desta asquerosa peça jornalística, decidi suspender por tempo indeterminado a recomendação de filmes do canal Hollywood na Newsletter do CINEdrio, bem como retirei o meu like da página facebook do canal. O canal Hollywood é uma estação privada de televisão, tem o direito de dar os pontapés que quiser em todos aqueles que trabalham séria e dignamente no, sobre e com o cinema, mas, felizmente, eu também tenho cá em casa um televisor e um computador que são propriedade privada... Enquanto espectador e utilizador da Internet farei o que estiver ao meu alcance para dignificar a pedagogia audiovisual, que tanta falta faz neste país.)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Salaviza vencedor e a sanita que somos nós e o flush away da sheet TV


João Salaviza está duplamente de parabéns. Primeiro, porque fez de novo história e, graças a "Rafa", ganhou o Urso de Berlim para melhor curta-metragem. Segundo, porque dirigiu muito bem o seu discurso aos principais responsáveis pelo esquecimento e desprezo a que está votado o nosso cinema na sociedade portuguesa. Um panorama político - fruto da muita tacanhez de uma certa elite político-partidária que nos governa há décadas - e um panorama mediático - marcado pela muita tacanhez de uma certa elite amiga da elite político-partidária que nos governa há décadas... - que estão apodrecidos e que já mal disfarçam todas as suas inaptidões, tremenda incompetência e inacção, colada à egomania tirânica resultante da fraqueza de uma opinião pública anestesiada, entre outros, pelos senhores jornalistas que, com grande profissionalismo, ou estão entretidos a produzir não-notícias sobre o novo corte de cabelo do Cristiano Ronaldo ou lá vão papagueando - que dá menos trabalho... - os "argumentos feitos" dos excelsos opinion makers, espíritos, está claro, extremamente independentes - e ai de nós pensar o contrário.

Destaco a sugestão mordaz que Salaviza deu em entrevista ao Público, quando o prémio ainda lhe fervia o espírito e o embalava para as palavras justas (sim, acredito em "discursos a quente"):

Era preciso que as televisões, não só a RTP mas as privadas, tivessem um compromisso maior com o cinema português. Para mim é inaceitável que não passe já hoje na televisão, nos três canais, o filme do Miguel Gomes.

O que diz é arrojado - porque ainda não foi pensado bem este esquema de janelas simultâneas entre as obras em competição e as agendas das nossas salas e televisões, associação que, segundo me diz quem sabe disto, foi testada com grande sucesso em "Antichrist" no ano em que "assombrou" Cannes. É arrojado, mas não só: é crítico e põe o dedo na ferida quanto à falta de motivação, ideias e vontade que os "homens da televisão" têm revelado para oferecer/recanalizar/devolver ao seu público Cinema, e muito do Cinema português que - como relembra Salaviza, reportando-se ao também premiado e elogiadíssimo "Tabu" de Miguel Gomes - consegue encher uma sala em Berlim com 1500 pessoas. Os compromissos existem, nomeadamente, na televisão pública para que haja uma programação rica - pensante e crítica e actual - no que diz respeito ao cinema português e internacional.

Com efeito, o problema não é a ausência de compromissos - tenho de vos relembrar? A sério? Ok: Contrato de Concessão de Serviço Público, história e cultura institucional da RTP2 e abertura de pelo menos 3000 cidadãos a mais e melhor cinema em televisão -; digo, o problema não é a ausência de compromissos, mas a ausência de quem cumpra compromissos de forma escrupulosa e séria e, na falta destes, de quem chame à colação e "ponha no sítio" - com punho cerrado - aqueles que andam a brincar aos serviços públicos neste país, usando como escudo um discurso tecnocrata vazio e mal amanhado, que até tem perdido sofisticação nestes tempos em que qualquer gato pingado que se vê num lugar público se acha dono da inteligência - que não tem - do povo - que a tem, mas que estará hoje, talvez mais do que nunca, estagnada... a boiar na água...


A minha sugestão era, também de modo "condicional", dedicar esta vitória aos "rostos" da RTP2, que acham que por dizerem cinema ou teatro ou música 200 vezes por semana no seu magazine cultural estão a levar o público aos cinemas... ou o cinema... aos públicos. Um dia João César Monteiro disse: "o público português que se foda". Noutro dia parecido, Manoel de Oliveira disse que "públicos eram os urinóis". Usando rapidamente um raciocínio lógico, diríamos que o cinema já mandou - muito expressamente - os urinóis deste país se irem foder. Disseram isso uma vez, já aqueles senhores e senhoras dizem isso todos os dias - em modo, acreditem, bem mais ofensivo - quando vão matando a nossa esperança de sermos urinóis que tenham, de uma vez por todas, a capacidade ideológica de "mijar de volta"... e a quem de direito.

Sobre o modo como o cinema pode redimir o estado de "urinol passivo" (passo o pleonasmo) em que estamos mergulhados, Zizek já nos deu, em "The Pervert's Guide to the Cinema", uma boa reflexão em torno da antológica sequência de "The Conversation", passada na casa de banho, em que uma sanita - leitmotif da filosofia althusseriana de Zizek - devolve à tona litros de sangue despejados cano abaixo, depois de accionado o automoclismo.

Are we basically not staring into a toilet bowl and waiting for things to reappear out of the toilet? (...) Is the entire spectacle shown from the screen not a kind of a deceptive view trying to conceal the fact that we are basically watching shit?

Neste caso, nós é que somos a sanita. Ou melhor, digo que é tempo de deixarmos nós de ser "toilet bowls", veículos, canais de porcaria que circula pelos canos cerrados da ideologia assassina do pensamento, da arte e da cultura; cujo grande compromisso com o Estado é, de facto, tratado como merda - e, caríssimo telespe(c)tador, tratado como merda, transformado em merda acaba. Este sábado, a RTP2 repetiu pela milésima vez o filme "Feios, Porcos e Maus", seguido de "The Prince and the Showgirl" de Laurence Olivier e com Marilyn Monroe, o grotesto escatológico com o glamour da Hollywood clássica. Não, nada disso: não há discurso subversivo nenhum neste double bill, é mais um flush away na boca do espectador (que também não tem nada a ver com o "autoclismo" do Renoir, que Luís Miguel Oliveira eternizou com graça e inteligência aqui).

O autoclismo - muito auto - de a sheet tv que é a RTP2 continuará ao serviço de quem nos usa como sanita. É tempo de devolvermos a trampa; é tempo de abrirmos os olhos, para mostrar que não é que quem veja "queira ver", apenas não nos resta grandes alternativas. E depois em Abril, ouvi dizer, regressa o "5 para a Meia-Noite"... Parece que já estou a ouvir: flushhhhhhhhhhhh....

Still de "Merde" (2008) de Leos Carax

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O cinema em televisão

O cinema em televisão: conserva o seu temperamento original, perdendo um pouco do seu fascínio por via da colocação reduzida e da ausência do rito, grande cúmplice de tantos sucessos.

O pensamento é de Ermanno Olmi - tirado do livro O Novo Mundo das Imagens Electrónicas (1985) de Guido Aristarco, editado em Portugal pela Edições 70 - e serve-nos a nós, muito especificamente, para acabar de vez com a ideia, partilhada por muito boa gente, de que "o cinema é só para ser visto no cinema". Os agentes do cinema hoje, ainda para mais, face ao fenómeno do digital, devem pensar muito desassombradamente sobre os meios de conservação do cinema no imagi(n)ário televisivo. É que "cinema na televisão" não quer dizer a destruição do primeiro em virtude do segundo. Bem pelo contrário, quer dizer: a conservação - numa certa memória colectiva - do primeiro pelo segundo. Agora é preciso alguém que restitua, aqui no nosso país, a irmandade perdida entre os dois...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Cinema na RTP2: hora da "desocupação"

Os "vampirismos" de Polanski e Sharon Tate em "The Fearless Vampire Killers" (1967)

Esta semana voltamos a ter cinema todos os dias na RTP2, em ciclo dedicado aos vampiros, que começa com o engraçado "Por Favor Não Me Mordas o Pescoço" de Roman Polanski (hoje, às 23: 39). Os mais ingénuos terão presumido que estaríamos na presença de uma mudança efectiva na programação da RTP2 ou que, aproveitando a passagem para o novo ano, o senhor Wemans e a senhora Paula Moura Pinheiro, que destruíram por completo o canal que lideram - e que "vampirizaram" -, tinham dado o braço a torcer e investido, finalmente, numa política cultural com tronco e membros para a "sua" (ainda "sua") RTP2.

Mas não: consultamos a programação e verificamos, sem espanto - no nosso caso, que já sabemos o que a casa gasta -, que o espaço que o cinema tinha vindo a preencher todos os dias da semana, desde o início da quadra natalícia, vai ser devidamente ocupado por coisas como a nova temporada da "Anatomia de Grey".

Pergunto à actual direcção, que por vezes se diz "amarrada" ao Contrato de Concessão de Serviço Público, com base em que imperativo volta a optar por desprezar olimpicamente as suas obrigações para com o Estado. Ou, se preferirem: com que armas defende esta "desocupação" do cinema, à força de soap americanas tearjerkers, no quadro do conceito de serviço público?

Desafio o senhor Wemans e a senhora Paula Moura Pinheiro a darem uma resposta a estas perguntas simples. (Mas estarei louco? Não saberei já eu, melhor do que ninguém, que a RTP2 se está a borrifar para o seu público?)

sábado, 7 de janeiro de 2012

TCN Blog Awards: o aftermath


Agora que já foram atribuídos os prémios, queria agradecer de novo ao Miguel Reis do CinemaNotebook pela nomeação - não premiada - do CINEdrio na categoria de melhor artigo, um texto crítico que faz o balanço de uma iniciativa que mereceu de mim e dos meus colegas de petição muita dedicação e "amor à arte". (Recordo que a petição já tinha sido nomeada o ano passado para o prémio de melhor iniciativa, sinal do impacto muito positivo que esta teve - e continuará a ter - nalguma blogosfera.)

De resto, acho que toda a blogosfera nacional, mais ou menos subterrânea, mais ou menos profissional ou mainstream, só tem a ganhar com este género de iniciativas. Por isso faço o apelo para que continuem com esta ou ainda melhor qualidade - e, se possível, tomando mais riscos.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Sobre o espírito RTP, o maestro...


... António Vitorino d'Almeida, em entrevista ao Correio da Manhã (publicada no seu "guia televisivo" desta semana), disse:

Qual a sua opinião sobre a privatização de um dos canais da RTP?
Estou-me marimbando! A RTP é péssima, não presta, minimamente, serviço público. Não me afecta nada que seja gerida por um gajo qualquer. Afectava-me se houvesse um verdadeiro serviço público. Que eu saiba, era a RTP e não a RTP2 - a menos que me tenham aldrabado - que devia fazê-lo...tanto o canal um como o dois.

Não partilha o argumento de que um canal de serviço público é insuficiente?
Não pode piorar mais! Podemos sempre dizer que poriam lá outra 'Casa dos Segredos', mas o que é que a RTP lá tem? Coisas parecidas... segredos mais escondidos, mas o espírito é o mesmo.

É caso para dizer: "Bravo, maestro!"

(E também é caso para se fazer a pergunta: já conversou com a sua filhota?)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A tabuada e o espírito: RTP2, Sheet TV



Apetece-me falar da aparição televisiva do autor da série de livros "O Reino" e "O Bairro" por dois motivos.

Primeiro, porque a intervenção pública de Gonçalo M. Tavares é uma verdadeira intervenção pública. E proponho, desde já, que se faça uma limpeza completa da palavra intervenção e que se lhe vistam roupas novas e lavadas. É que, felizmente para nós, humanidade, pessoas pensantes e agentes deste mundo, não é só a Troika e os deputados da nossa Assembleia que fazem intervenções. Ainda há massa cinzenta e ideias que fervilham na cabeça dos que resistem ao regime totalitário, intelectualmente terrorista, imposto dia-a-dia pelos nossos media e classe política.

Segundo, porque no debate Cinema na RTP2 o cineasta João Mário Grilo silenciou a zombaria grosseira do senhor Jorge Wemans. O director da RTP2 iniciou a sua muito antecipada "intervenção" descredibilizando, desde logo, o título da nossa causa, referindo-se especificamente, e com uma certa soberba, à palavra "regular" como um lapso semântico da nossa parte. João Mário Grilo contra-atacou magistralmente separando as águas entre aquilo que deve ser entendido como "coisa regular" (uma realidade estatística, uma coisa que se repete quantitativamente) e uma "regularidade" (algo que, repetindo-se, gera uma certa "identidade", um hábito, uma cultura, o que quiserem chamar...). Wemans falava "de cor" da sua tabuada, Grilo elaborava sobre os assuntos do espírito.

Concordo com esta visão e reconheço que ela também presidiu à formulação do título da petição. Mas quando falámos numa "programação regular" também falámos de uma "coisa regular". É que, como não tive oportunidade de dizer, a RTP2 não é tão constante quanto leva a crer na sua programação de cinema. Por vezes, nomeadamente, em épocas festivas, a RTP2 volta a passar filmes diariamente. Esta semana, por exemplo, o canal de Wemans celebra o cinema de Burton; depois, passa 5 filmes de Almodóvar, mas... e depois? Depois, se quiser manter a coerência da sua política de programação ao longo destes anos, Wemans voltará a dar-nos cinema como quem dá pão a pombos, na sua Sessão Dupla de sábado. Talvez se distraia e nos dê mais uns filmitos ou uns documentáriozitos aqui e ali, "salpicados pela semana", antes da crucificação (da Páscoa).

Estamos, aqui, a falar do espírito, ou ausência dele, da tabuada atabalhoada de um tecnocrata chamado Wemans, homem que intervém no seu canal um pouco como a Troika intervém no país: com balancetes, balanços, déficits... folhas e mais folhas de estatística e uns quantos powerpoint a debitar "perspectivas de negócio". Mas, lamentavelmente, com pouco ou nenhum discurso que transforme a rude opacidade da Folha de Cálculo (sheet). O corolário de tudo isto é ainda termos, hoje, uma televisão pública cativa do fascínio de uns quantos senhores pela "ciência" estupenda da audimetria, loucos amantes de exercícios muito criativos e imaginativos de quantificação da sua programação pouco imaginativa e pouco criativa.

Ouçamos Gonçalo M. Tavares e ouçamos especialmente bem o que envolve o sentido das palavras que citamos em epígrafe.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A Petição Cinema na RTP2 na Comissão para a Ética...: impressões

Já está. Fomos ouvidos na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação. Expus, em linhas gerais, as principais impressões que retivemos desta experiência que já dura há mais de um ano. O texto que publico abaixo, preparado por mim e pelo Ricardo Lisboa, foi lido, em pedaços, à medida que os deputados iam entrando e resume, no fundo, o sentido geral da nossa intervenção neste encontro na Casa da Democracia.

Se me perguntassem qual a sensação que perdurou, após as intervenções dos deputados, nomeadamente, das Senhoras Deputadas Nilza Sena Santos e Inês de Medeiros, responder-vos-ia em duas partes.

Primeiro dir-vos-ia que ficou claro que estamos todos de acordo (aliás, tanto Nilza Sena, do PSD, como Inês de Medeiros, do PS, subscreveram a nossa petição, o que só demonstra o óbvio de tudo isto). A RTP2 não cumpre as suas obrigações no que a uma programação cultural (de cinema) de "serviço público" diz respeito.

Por outro lado, registamos com algum desalento um pouco aquilo que já tínhamos sentido após a audição parlamentar com o Partido Socialista, realizada por iniciativa da Deputada Inês de Medeiros: apesar de concordarem connosco, os nossos deputados não parecem dispostos (ou dizem-se impotentes) a ultrapassar algumas ideias, a nosso ver, falaciosas em torno dos limites que se impõem à liberdade editorial/programática na televisão pública. Porque, a nosso ver, para haver programação de qualidade, a RTP2 tem de operar mudanças, algumas delas, como se tem visto, face à resistência (teimosia...) demonstrada, muito difíceis (vai-se lá saber por quê...) de tomar pela actual direcção (que não mudou uma vírgula na sua programação desde que esta causa começou, isto é, 3000 assinaturas, três sessões parlamentares, um requerimento parlamentar da Deputada Catarina Martins, vários artigos, podcasts e uma conferência depois).

Todavia, para que a RTP2 opere essas mudanças, a força da sociedade civil não é suficiente. Digo-vos rápido e depressa isto: a RTP2 não quer ouvir o seu público. Para isso pensávamos que havia, pelo menos, a ERC - que basicamente não existiu ao longo de todo este processo - e, em última instância, a Assembleia da República (AR). Aí, confesso, pensei que íamos ganhar outro tipo de embalo, mas isso parece não estar a acontecer. A AR responde com obstáculos e muitos paninhos quentes face a um caso flagrante (estamos todos de acordo aqui) de incumprimento do Contrato de Concessão de Serviço Público e ao alheamento da estação pública RTP2 e ERC em relação aos cidadãos-contribuintes que exigem uma programação de cinema de qualidade.

Qualidade. O que é isso? Um conceito excessivamente subjectivo que torna inviável qualquer tipo de intervenção por parte da Assembleia, porque significa "ingerência" nas decisões programáticas da direcção do canal. Para nós, qualidade é um conceito que está na Lei da Televisão e no Contrato de Concessão, que é objectivável como tal: está escrito que a RTP2 tem de prezar os seus conteúdos, porque só assim se tem uma televisão pública respeitadora do seu público; mais ainda, "formadora" de um público. Ora, há perto de 3000 pessoas que afirmam que essa qualidade efectivamente não existe. Cá está, a nosso ver, algo tão subjectivo e tão objectivo quanto o ser proibido passar-se "filmes de teor pornográfico" nos canais de sinal aberto; tão subjectivo e tão objectivo quanto o não se poder fazer propaganda de extrema direita através de quaisquer meios do Estado - e não só -; tão subjectivo e objectivo como a ausência da publicidade comercial na RTP2. Tão subjectivo e objectivo quanto a Lei, qualquer Lei, o é, apetece dizer, inevitavelmente.

Mas, afinal, o que é "teor pornográfico"? Afinal, o que é "extrema direita"? Afinal, o que é "publicidade comercial"? Cá para mim, é tão subjectivo quanto "uma programação de cinema de qualidade"; é talvez "menos subjectivo" - eufemismo para "arbitrário", para os lados da Assembleia - do que aquilo que parte substancial, e por sinal, bastante informada da sociedade civil reclama como uma programação de cinema de qualidade, do que parte substancial da sociedade civil defende ser um atentado ao contrato que uma empresa pública assinou com o Estado. Mas "corrigir" o incumpridor é ingerir no seu espaço de liberdade? Bem, "ingerir" é o que cabe ao Estado fazer quando este é directamente lesado por alguém, no caso, alguém que dele depende por inteiro.

Ingerir no espaço de liberdade do incumpridor não é um atentado ao Estado de Direito. Pelo contrário: é uma intervenção necessária à manutenção do Estado de Direito. Para o caso, é uma intervenção necessária à restauração da transparência da instituição pública, do Estado, que é a RTP2. Mas todas estas ideias, que à partida não ofereceriam grande discussão, parecem estar a "bloquear" politicamente qualquer acção mais visível por parte da Assembleia sobre esta causa que temos, de facto, como "civilizacional".

De qualquer modo, esperamos ainda que a Comissão para a Ética... procure ter um papel actuante até ao final deste processo. É isso, enfim, que todos nós esperamos dos nossos representantes: soluções e não obstáculos. Vamos ter fé...

Audição Parlamentar: Petição Cinema na RTP2 na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação

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