
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Momento Feio

quarta-feira, 28 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (XII): uma medalha vermelha pela (falta de) coragem

As críticas que tenho dirigido à RTP2 não se prendem com a qualidade dos filmes que esta mostra em sessão dupla aos sábados, mas, repito, com a forma como esta (não) os enquadra e liga entre si. Muito bem, para mim, que conheço razoavelmente bem a obra de Huston, não me é estranho o (aparente) eclectismo de este ter na sua filmografia um filme de guerra tão brilhante como "The Red Badge of Courage" (1951) e depois, nos anos 70, fazer um arrojado filme político, de título "The MacKintosh Man".
Eu, que vejo tanto cinema na televisão como comprado e sacado - e compro muito -, agradeço estes excelentes momentos de cinema, atomizados e saídos a conta-gotas, que a RTP2 lá nos vai proporcionando. Contudo, agora que "5 para a Meia-Noite" merece dose dupla quase todos os dias da semana, eu pergunto: não acham que podia haver uma melhor programação de cinema no canal 2? Melhor: não teremos nós, o seu público, o seu meio de subsistência, direito a mais do que esta prática de enxotar filmes para o sábado, como quem atira lixo para debaixo do tapete? Vou ser franco: eu sinto que ando a comer migalhas num prato que poderia estar farto de boa comida e manter, sem dificuldade, uma boa apresentação.
Obrigado RTP2 pelos Hustons, mas eu quero mais Hustons e quero que nos ajudem - a mim, que já conheço algumas obras-primas do realizador, e ao espectador que não conhece nenhumas - a apreciá-los em toda a profundidade.

Peço a todos para votarem na sondagem colocada na coluna à direita. Também gostava de ouvir/ler as vossas opiniões sobre este assunto, sobretudo daqueles que não concordam comigo e acham que a programação de cinema da RTP2 é muito boa, boa ou suficiente.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (XI): tempo de tirar a venda
Vamos a factos.
1. A RTP2 passa dois filmes ao sábado quando, há coisa de 5 anos, estava a passar um filme todos os dias.
2. Nesse espaço, muitas vezes, verifica-se uma repetição das escolhas, dentro da própria rubrica ou em relação à RTP1.
3. Nem sempre é evidente a escolha desses dois filmes, faltando ao público-médio (é para ele, antes de mais, que se destina a TV pública) instrumentos para que seja levado a ver e/ou a saber descodificar o que vê - relembro as introduções de Bénard da Costa ou dos entrevistados de Inês de Medeiros em "Filme da Minha Vida".
5. A falta de oferta de cinema na RTP2 espelha a falta generalizada de cinema no resto dos canais, cabo ou não, pagos ou gratuitos. E curto é o leque de filmes que todos estes canais passam, tal como curta acaba por ser a própria oferta dos vídeo clubes, onde o predomínio de cinema norte-americano é desproporcionado em relação a outros interessantes cinemas do mundo (como o português). Face a isto, o segundo canal tem perdido uma boa oportunidade para se afirmar como uma "alternativa", dever a que está vinculado pelo disposto no Artigo 54.º da Lei da Televisão.
Concordam que se podia fazer mais neste domínio numa estação que, a bem ver, é financiada por todos nós? Se sim, como diz o outro, é tempo de mais acção e menos conversa - ou melhor, é tempo de transformar a conversa em acção! Para tal, sugeria começar por se juntar a nós via peticaortp2@hotmail.com.
(Sublinho que não está aqui em causa o concordar ou não com cada uma das opiniões que expressei. A ideia até é haver uma saudável troca de ideias entre os membros que se queiram juntar ao grupo-base, que só depois de formado com um número mínimo de pessoas - que cubram mais ou menos o espaço nacional - irá debater entre si as versões do texto da petição.)
sábado, 17 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (X)

Por que surge agora a ideia de uma petição? Por duas razões.
A primeira prende-se com o global decréscimo de conteúdos de cinema na televisão portuguesa, incluindo a TV por Cabo, em benefício de um batalhão de séries com um número infindável de temporadas que se repetem sobre si mesmas em vários canais temáticos (os canais Fox e semelhantes). Encontramos cada vez menos espaços dedicados ao visionamento de filmes e nenhuns reservados à análise aprofundada dos mesmos.
A minha paciência atingiu um ponto de saturação quando constatei que o talk show "5 para a Meia-Noite" ia continuar, na sua milésima temporada, a preencher as noites da RTP2 - e agora, imaginem só, temos este degradante programa em dose dupla (com uma repetição) madrugada dentro!
A segunda razão prende-se com o facto de ter regressado recentemente a uma das minhas actividades favoritas: a gravação de filmes. Isto graças à box MEO que possuo há pouco tempo. Olho para as várias dezenas de filmes que gravei nas últimas semanas e vejo que a esmagadora maioria deles vieram dos canais Hollywood e TCM, sendo que na RTP2 como na RTP1 e RTPMemória gravei cerca de 5 filmes. Comparando com os tempos do "5 Noites, 5 Filmes" e "Filme da Minha Vida" esta situação parece-me inaceitável: quer dizer, multiplicam-se os canais, mas os conteúdos não se diversificaram, pelo contrário!
Exponho estas razões no seguimento dos vários posts que tenho publicado aqui, mas não só, em defesa de uma (melhor) programação de cinema na RTP2. Se se quiser juntar à causa, antes do lançamento da petição on-line, por favor, mande as suas informações pessoais para peticaortp2@hotmail.com. Estamos a construir uma mailing list com todos os contactos daquela que será a espinha dorsal desta iniciativa.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (IX): uma carta de Laughton
Perguntei ao nosso excelso jurista Charles Laughton como é que a lei portuguesa define a figura da petição pública. A resposta veio em carta lacrada escrita à mão pelo insigne advogado - Laughton é MESMO um fulano do século passado. Tento traduzir aqui a sua resposta:
Caro Luís,
Folgo em saber que tenciona avançar com esta nobre causa. Ainda hoje me pasmo com o facto de haver no mundo uma estação de serviço público que não passa um filme em que eu entro, ou a obra-prima que realizei*, num período superior a 365 dias. Inaceitável!
Bem, quanto ao seu pedido, transcrevo de seguida o disposto no artigo Artigo 2.º, número 1, da Lei n.º 43/90: "Entende-se por petição, em geral, a apresentação de um pedido ou de uma proposta, a um órgão de soberania ou a qualquer autoridade pública, no sentido de que tome, adopte ou proponha determinadas medidas". No seu caso, as medidas reivindicadas são claras: mais conteúdos de cinema na grelha programática do segundo canal. Poderá ou não especificar que tipo ou de que forma esses conteúdos deverão ser tratados, à luz daquilo que a lei define como serviço público.
Quanto ao destinatário da petição, sugiro que pondere os seguintes: Ministro dos Assuntos Parlamentares Jorge Lacão, figura que tutela a televisão pública nacional; a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e/ou Ministério da Cultura.
Quanto aos requisitos para a subscrição, lê-se no Artigo 6.ª, número 3: "Os peticionários devem indicar o nome completo e o número do bilhete de identidade ou, não sendo portador deste, qualquer outro documento de identificação válido". Lembre-se também que, quanto à forma, o Artigo 9.º estipula, nomeadamente no número 3, que "O direito de petição pode ser exercido por via postal ou através de telégrafo, telefax, correio electrónico e outros meios de telecomunicação". Não se esqueça: é mister que o objecto da petição seja o mais claro e concreto possível sob pena de indeferimento (Artigo 9.º , número 5 e Artigo 12.º da mesma lei).
Mais alguma questão, tem a minha morada - olhe, estive a pensar e se calhar queria que me pagasse os honorários com uma dessas maquinetas modernas que mandam cartas pela corrente.
Seu,
Sir Charles Laughton
Programação de cinema na RTP2 (VIII): reunir tropas, já!
Alguns têm-me acusado, e se calhar com alguma razão, de criticar em demasia o trabalho que a RTP2 tem feito em matéria de cinema. Digo "se calhar com alguma razão", porque a RTP2 não deixou completamente de passar cinema e mesmo algum cinema que foge à oferta das outras estações. A sessão dupla de cinema romeno há pouco tempo é disso exemplo.
A questão é que passar aqui e ali um bom double bill é fazer muito muito pouco, primeiro lugar, tendo em conta o contributo que a RTP2 deu no passado para a formação de uma sensibilidade cinéfila ou puramente áudio-visual e, em segundo lugar, tendo por referência aquilo que poderia ser e, sem motivo aparente, não é. Já citei, ou melhor, o Sir Laughton já citou, os artigos que, no fundo, definem aqueles que são os deveres de uma estação concessionária do serviço público. É comparar o que está na lei com aquilo que o canal de Wemans nos oferece (sobretudo, e perdoem-me a perseguição, às "5 para a meia-noite").
Peço a todos para votarem na sondagem aqui à direita. Será um indicador precioso saber a opinião dos frequentadores deste blogue ou/e da blogosfera em geral. Peço também que continuem a debater o estado da RTP2 à luz de todos os posts que escrevi aqui e dos muitos outros que os meus compagnons de route têm escrito nos seus espaços.
Se quiserem pertencer ao grupo redactor, basta enviarem as vossas informações pessoais para peticaortp2@hotmail.com. Estamos a trabalhar na criação de uma espécie de mailing list, com os dados mais relevantes de cada um dos elementos para ter uma visão panorâmica de quem está verdeiramente connosco neste começo de "batalha". Daí pedirmos para além do nome, idade e mail de contacto, o local de onde nos escrevem - acreditamos que só seremos consequentes se cobrirmos, dentro dos possíveis, o espaço nacional.
Até agora, enviaram-nos os seus dados:
Carlos Ferreira
Carlos Natálio
Cláudia Silvestre
João Palhares
Miguel Domingues
Ricardo Lisboa
Vamos a isto ou quê?
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (VII): Laughton dixit
Eu já escolhi o nosso advogado: Sir Charles Laughton, na imagem, em "Witness for the Prosecution" (1957) de Billy Wilder.Em nossa defesa, do alto do seu génio "interpretativo" e dos seus muitos quilos, Sir Laughton invoca:
Constituição da República Portuguesa (CRP), Artigo 38.º (Liberdade de imprensa e meios de comunicação social):
sábado, 10 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (VI)

A cada sábado que passa, fica evidente a falta de uma política sólida de programação em matéria de cinema no segundo canal. Por este exemplo, demonstra-se que umas vezes os filmes como que respondem a assuntos da "actualidade"; outras vezes, aparecem totalmente desligados desta. O problema é que não há ninguém nem nada que os articule ou desarticule com a agenda mediática.
Se se quiserem juntar ao grupo, basta enviarem um mail com nome, idade, mail e mais o que quiserem para peticaortp2@hotmail.com. O nosso objectivo é criarmos uma espécie de mailing list para lançar a petição num futuro próximo.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (V)
Gravo filmes desde "A Casa Encantada". Devia ter 13 anos quando gravei a obra-prima de Hitchcock (e Dali?) e, depois de o ver três ou quatro vezes, comecei a gravar incessantemente até hoje. O fim do "5 Noites, 5 Filmes" marcou o princípio da minha insatisfação face à forma como a RTP2 estava a ser gerida - e, assim, uma história de amor transformou-se numa história de ódio e vingança... contra aqueles que tiraram do ar aquele que era para mim o espaço mais significativo da televisão portuguesa. Mas não sou partidário do neo-nazismo forçado de um Bickle ou do justicialismo bronsoniano ou dirty harriano (apesar de todos eles serem cool como o caraças). Por isso, a minha via terá de ser a mais democrática que encontro: uma petição pública.
Até agoro, conto com Miguel Domingues do blogue In a Lonely Place e Carlos Natálio do blogue ordet como parceiros peticionários. Se se quiserem juntar, ponham um comentário num destes posts ou enviem mail. Entretanto, peço a todos que respondam à pergunta que coloco já aqui na coluna à direita: "Como classifica a actual programação de cinema na RTP2?".
Programação de cinema na RTP2 (IV): um tête-à-tête com Wemans
Diz-me o senhor Wemans: "Mas, ó caro Luís, você que tem a mania que é bom, devia perceber que as razões para a redução do número de filmes na grelha da RTP2 se deve ao facto da maioria do público cinéfilo hoje em dia - sobretudo, jovem - consumir filmes pela Internet, à la carte". Ao que eu respondo: "Certo, isso é uma realidade, mas o caríssimo senhor Wemans também sabe que os meninos e meninas só vão descobrir coisas como Kitano, Tati, Godard, os checos, os tailandeses, os romenos, os filipinos e, levando ao limite o exotismo, os portugueses se alguém lhes der a ver esse cinema. Senão, como explica o sucesso consolidado que é a Cinemateca e o clamor instalado para que se abram filiais da mesma em vários pontos do país? Há fome de cinema, o cinema está acessível na Internet e em DVD, mas falta mostrar o caminho. Esse caminho chama-se, a meu ver, "serviço público". E é dever da RTP2 desbravá-lo e guiar-nos na viagem".
Face a esta resposta, o senhor Wemans riposta rapidamente com um "Epa, mas tu pensas que se retomássemos uma programação intensiva de cinema as pessoas iam ver? Elas têm imensas alternativas hoje em dia, com os canais temáticos de cinema do Cabo. Nós não conseguiremos fazer frente a tal concorrência". "Concorrência?", isto sou eu, "Mas já passou os olhos por esses canais? São listagens caóticos e aleatórias de filmes acabadinhos de sair das salas, muitos deles, de qualidade duvidosa e que interessam pouco a este "público alvo", termo que seguramente aprecia e que aplico aqui para cair nas suas boas graças...Claro que, aqui e ali, passam filmes raros ou interessantes, mas aparecem descontextualizados, sem o enquadramento que, por exemplo, a Inês de Medeiros e os seus convidados faziam em "Filme da Minha Vida" ou das extraoardinárias apresentações de Bénard da Costa".
"Luís", diz Wemans - mas ele sabe quem eu sou, eu, um mero mortal? -, "O que diz faz algum sentido, mas é totalmente irrealista, sobretudo, nesta conjuntura internacional de crise. Tudo isso sai caríssimo". "Sai?", returco eu, "Mas não está a sair muito mais caro um talk show em directo todas as noites? Ou um magazine cultural que padece do paradoxo do Ornitorrinco (é um programa de entrevistas? É um magazine cultural? É temático? É generalista?)? Ouvi dizer que bom dinheiro tem sido investido nestes "conteúdos", outra palavra que decerto apreciará, o que é muito pouco visível no resultado final, inclusivamente em termos de "share" - ui, outra. Também não se pode dizer que seja uma política financeiramente equilibrada investir em documentários/filmes que depois não promove, ou promove mal, ou/e não divulga no seu canal".
"Luís", de novo Wemans - mas que confianças são estas? Ele conhece-me de algum lado para me tratar pelo primeiro nome? -, "Tudo bem. Nós temo-nos desleixado um pouco, mas olha fica descansado que eu irei reflectir sobre esta conversa. Terei em conta as queixas que me transmitiste".
"Obrigado", respondo.
Afinal o Wemans até é um gajo porreiro.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (III)

L. Mankiewicz
Eisenstein
Ford
Truffaut
Tarkovsky
TatiAgora, se preferem ver, ao invés, a fronha do Nilton ou do Alvim, isso já é problema vosso...
Até ver, parceiros peticionários: Miguel Domingues do blogue In a Lonely Place e Carlos Natálio do blogue ordet. Juntai-vos e multiplicai-nos! (Como? É deixar comentário ou enviar mail.)
Programação de cinema na RTP2 (II)
Pior que não haver claramente uma programação de cinema no canal público estatal, supostamente, dedicado à cultura, é o facto de o pouco cinema que existe ser enxotado para as noites de sábado em dose dupla tantas vezes desconexa (porquê passar "Transe" e "Entre os Dedos" juntos? Porque são... portugueses?! Porquê repetir continuamente os mesmos filmes que ou já passaram no próprio canal ou passaram há pouco tempo na vizinha RTP1, que, já agora, consegue ter mais cinema que a RTP2 -- e, meus amigos, que cinema!).
A pobreza desta (não-)programação torna ainda mais embaraçoso este buraco programático: face às escolhas feitas, percebe-se que não há interesse, motivação e/ou conhecimentos dentro da RTP2 (já não há, digo!) para se introduzir nesta área alguma lógica formativa ou, não há que ter medo das palavras, uma certa política educativa empenhada no alargamento dos horizontes culturais dos portugueses. Que saudades das lições de cinema que Bénard da Costa dava antes de um Hitchcock. Foram as suas palavras transmitidas pela RTP2 que me fizeram ver e rever várias vezes "A Casa Encantada", o primeiro filme que gravei na minha vida. Bem-ditos VHS que ainda me permitem voltar atrás no tempo para relembrar como a televisão já celebrou o grande Cinema.
Entretanto, o Miguel Domingues do blogue In a Lonely Place já se juntou a nós na iniciativa de se lançar uma petição pública a reivindicar uma programação de cinema de qualidade na RTP2. Pedimos a quem concorde com ela que se junte a nós - para tal, é só preciso deixar uma mensagem nestes posts ou enviar-me um mail. Vamos a isso?
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Programação de cinema na RTP2 (I)
"Ohayô"/"Good Morning" (1959) de Yasujiro Ozu Não há. Não há e todos temos saudades dos tempos de "5 Noites, 5 Filmes" e "Filme da Minha Vida". Não havia uma cinemateca em cada esquina, mas havia cinema de grande qualidade programado por quem conhece. Foi um período de formação para mim que terminou desde que entrou para aquela estação o senhor Jorge Wemans ou sensivelmente desde que decidiram acabar com o "Acontece". Se ninguém fizer nada e deixar que os serões de um canal com o passado da RTP2 (cada vez mais passado, diga-se) seja ocupado por um bando de ineptos a brincar aos talk shows então serei eu o primeiro a iniciar uma petição. Who's with me?
terça-feira, 6 de julho de 2010
Hoje, na RTP1... (I)
Viva o serviço público.
terça-feira, 9 de março de 2010
A madrugada de Óscares (mais uma)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Ídolos: o neo-nazismo televisivo
Depois de assistir ao episódio dos "Ídolos" em que S... passou à fase final do concurso, tive um pesadelo que envolvia um júri autocrático que arruinava, em directo (eu, no sonho, via isso na televisão), uma miúda vestida à hippie que tinha tido uma performance patética, sentada à chinês sobre um tapete colorido e rodeada por algumas almofadas douradas e brilhantes que pareciam vir da Índia. O elemento mais velho do júri, um homem mal-encarado e arrogante, dizia-lhe repetidas vezes que estava chumbada, que tinha sido vergonhosa. Ainda mais vexatório, cantava, acompanhado por um banjo tocado por si, uma lengalenga idiota - "És um desastre... Vai-te embora...".
Este sonho tinha uma origem clara, que me fez pensar sobre as razões que levaram a que um programa consensualizado como "mais um irrelevante concurso de talentos" me tenha perturbado mais do que todos os filmes de terror que vi na minha vida - desde o "O Exorcista"... - ou, mais ainda, do que todos os telejornais que me passam pelos olhos diariamente ou, indo mais fundo, do que todas as sessões parlamentares que masoquistamente assisti pela televisão. Deixei o assunto ganhar forma na minha cabeça e foi só na sequência de uma conversa desinteressada que tive cheguei ao que penso ser a raiz do problema. Porque extravasa a meu ver aquilo que é uma questão estritamente pessoal - entre mim e os meus sonhos ou o meu inconsciente - procurarei nas próximas linhas explicitá-la a quem (ainda) me leia.
Para chegar ao cerne da questão tentei, antes de mais, reconstituir a cena que tanto me tinha traumatizado (esta é a palavra, não exagero). Como a maior parte dos telespectadores, sou adepto do zapping e, por isso, todo o lixo televisivo que me passa pelos olhos é consumido em fragmentos - pequenas doses de inanidades que se vão introduzindo no espírito, como uma injecção clandestina de imagens alucinatórias. Não há experiência audiovisual feita por um homem, uma consciência..., que se equipare à viagem (de facto, alucinatória) de um zapping: mais próximos disso estiveram o Buñuel de "Un chien andalou", o Lynch de "Inland Empire" ou, mais ainda, a trip final de "2001". De qualquer maneira, o que apanhei naquela noite típica de prime time pronto a consumir foi mais ou menos isto: quatro pessoas no papel de júri, três homens e uma mulher, de um lado, e um rapaz dos seus vinte e poucos anos de ar muito tenso do outro, completamente, só, sentado numa cadeira que parece uma daquelas desdobráveis feitas de aço que os gorilas do Wrestling usam para se atacar. Apetece dizer que as mãos do rapaz não estavam atadas e este não era nenhuma reconstituição histórica sobre os métodos inquisitoriais da PIDE, Gestapo ou da Stasi. O dispositivo era o de sempre: um campo-contra-campo simples, que sublinha, contudo, uma relação de poder perturbantemente assimétrica.
O rapaz, de mãos no rosto e com o corpo inclinado para a frente - contorcido e irrequieto -, quase não cabe na cadeira. O jurado, ou melhor, a jurada faz friamente o diagnóstico "olhos nos olhos", de cima para baixo (há até um ligeiro contra-picado no seu enquadramento). A relação tensional da montagem é uma relação de poder: do lado do campo temos quem decide e do outro lado quem anseia pelo veredicto. Podia ser uma cena de tribunal, mas, por causa da encenação quase expressionista (o claro-escuro é apenas psicológico, já que a iluminação consubstancia-se num tipicamente televisivo claro-claro asséptico), ultra-dramática, esta parece ser a antecipação perfeita (ao vivo e a cores) do juízo final... de um qualquer pobre desgraçado.
O que deveria estar em jogo é se o rapaz canta ou não canta bem, mas o que se fala é da sua "atitude" e maneira de vestir. A jurada, uma mulher brasileira que rouba aos dois outros homens o "gozo de sentenciar", comunica a decisão final, mas é lenta a fazê-lo. Primeiro, diz-lhe que tem de mudar de atitude, exige-lhe uma postura mais consentânea com aquilo que é, para eles, uma verdadeira pop star. Só mudando ele poderá entrar nos "Ídolos". O S..., a mortificar na cadeira minúscula, de cara inchada de inquietação, diz: "mas eu posso mudar; eu prometo que, se passar, vou mudar". A jurada, impassiva, continua: "nós não acreditamos muito que você seja capaz de mudar (...)". Suspense. Há uma nova troca de olhares e o miúdo sufoca no lugar. "Mas lamento dizer que temos más notícias para você". Outro contra-campo e o rapaz diz, lívido: "já percebi que sim...". Tarde de mais para mudar de atitude, de penteado e roupas: o seu sonho de ser “ídolo” está à beira do fim – pensamos. A jurada, indiferente ao estado do réu, parece aguentar o machado e prolonga mais o suspense – longo e torturante este MacGuffin, não é?
Subitamente, de queixo caído, ouvimos: "Na realidade, temos boas notícias para si: você passou!". O rapaz salta da cadeira e, como que a perdoar ser como é, repete incessantemente: "mas eu juro que vou mudar, vou mudar...". Levanta-se mais aliviado do que contente e dirige-se à porta. Um travelling longo para televisião acompanha-o - a câmara solta-se - e a cena termina com um fade-out branco no momento em que S... abre a porta para a rua. Os portões do Paraíso abrem-se: ele é um dos "seleccionados".
Toda esta cena, um fragmento de um concurso igual a tantos outros, ficou-me na retina, ou a remoer no seu (meu) insconciente e deu no pesadelo que, em linhas gerais, já descrevi. O problema era este: mesmo sabendo que o concurso me desestabilizava, fiquei preso a ver, como que movido não só pela curiosidade sádica do voyeur médio (ver definição do conceito em "Tesis" de Aménabar) mas por um consciente intento masoquista (já que eu sabia que aquilo tudo me afectava). A cena repelia-me e atraía-me ao mesmo tempo; eu queria ver até onde aquilo ia parar para chegar à origem da contradição. Uma coisa é certa: não foi pelo S... que eu parei no canal e acompanhei aquela cena escabrosa até ao fim.
Estavam presentes naqueles poucos minutos de televisão aquilo que estou convencido ser a refinada actualização do "We Are the World, We Are the Children", campanha contra a fome em África de que resultou um videoclipe que Serge Daney num artigo intitulado "Travelling de Kapo" comparou ao tal movimento de câmara num filme de Pontecorvo e à imoralidade dos "factos" chocantes registados em "Noite e Nevoeiro" de Resnais, um dos mais célebres documentos visuais sobre os horrores do Holocausto.
Não critico só o mau gosto da cena, critico também e acima de tudo a forma como toda a cena é montada, numa apropriação perversa das representações culturais (audiovisuais) do flagelo nazi. A pose claramente orquestrada dos jurados é só a ponte do icebergue. Quase todos eles são frios, altivos, crus e calculistas no seu julgamento. Discutem mais a cor do cabelo e a maneira de ser do que as aptidões musicais dos concorrentes. O betinho empertigado, uma das mais ocas figuras da televisão nacional, é o mais rápido a fuzilar quando não gosta da cara de um deles. O mais gordo é uma espécie de good cop que, por piedade, deixa passar um ou outro cromo. A mulher é tão doce quanto incisiva nas suas apreciações. (O outro membro do júri, o único músico a sério do grupo, equilibra a balança mais para o good cop).
Penso no Padre de "Roma, città aperta" e em Adrien Brody de "Pianista" quando me recordo da via-sacra por que aquele rapaz teve de passar para ficar a saber que, contas feitas, era um dos "eleitos". Pensei no padre, mas também um pouco em Lino Ventura no filme sobre a Resistência francesa "L'armée des ombres", quando vi o rapaz sentado na cadeira, enclausurado num contra-campo que assinalava a solidão daquele corpo à beira do inevitável linchamento já anunciado no campo "originário", que nos dava a imagem da jurada que, em representação do concílio divino, o fustigava com palavras e indiferença antes de accionar a guilhotina. Nós não queremos que ele morra, como o herói de "Roma, città aperta", mas pressentimos o pior. Só um milagre pode salvar o Padre e S.... Esse milagre só aconteceu, naturalmente, em televisão. Ou não?
Vejamos a situação dos dois - ia dizer personagens -: S... continua, passa à fase seguinte, MAS só continuará entre os eleitos se "mudar de atitude". A morte do padre é terrível, mas é um alívio e uma libertação em si mesma - ele é um mártir em nome da liberdade, da nossa liberdade! Já S..., figura que nada representa ou que nos representa a todos pelo seu anonimato, tem um destino diferente. A sua permanência no éden televisivo poderá ser apenas temporária, por isso, tudo continua mais ou menos em suspenso. Trata-se portanto de qualquer coisa próxima de um dos vários micro-happy endings - cínicos até às pontas dos cabelos - que minam a narrativa de "Slumdog Millionaire". O rapaz e o amigo fogem dos vilões? Sim, conseguem fugir, mas deixam para traz a rapariga que o primeiro tanto ama. To be continued. O rapaz conseguiu encontrar a rapariga? Sim, mas o seu (suposto) melhor amigo acaba por trai-lo, roubar-lhe a miúda e, com isso, afastá-los de novo. To be continued. A lógica reality show é quase sempre esta: a verdadeira redenção só se dá mesmo no fim, quando o espectador já não se comove com falsas-absolvições.
O desenlace daquela cena é um "Até nova inquisição", uma técnica mais ou menos semelhante àquela que a polícia inglesa usou para sacar uma confissão da personagem verídica de Day-Lewis, em “In the Name of the Father”; para obrigá-lo a ser uma coisa que não é - um mentiroso. Recordo que a brasileira assumiu como facto, e não se corrigiu, o seguinte: “S... não tem atitude, não serve; contudo, damos-lhe uma hipótese... até ele servir ou, melhor, até ele passar a ser uma pessoa que não é” - doentio este raciocínio aos círculos. Lá vai o pobre S... para a sua cela existencial como Fassbender, na pele de um lutador do IRA encarcerado pelas forças britânicas, regressa continuadas vezes, depois de sessões diárias de tareia, para as masmorras forradas a merda de "Hunger". A tortura continua no dia seguinte. E em prime time, com ou sem zapping.
Encaixamos Brody nesta equação pela forma, repito, minuciosamente planificada, como a brasileira anuncia a sua decisão, numa sucessão de MacGuffins que prendem o espectador ao ecrã e afundam o rapaz na cadeira. Primeiro, os seus critérios não são criações do momento; muito pelo contrário, quem assistiu a episódios anteriores deste programa, sabe que o que preside às escolhas do júri é tanto ou mais que a qualidade vocal da pessoa, as suas características físicas (cabelo, pele, altura, etc.) e cosméticas (roupa, maquilhagem e, por vezes, maneira de andar, falar, estar, ser...).
Mais do que uma política de qualidade e mérito, temos uma política (eugénica) da aparência: o invólucro antes do conteúdo - nada que o fenómeno Susan Boyle não comprove a contrario sensu. Também os judeus iam para as câmaras de gás ou para o campo de trabalhos forçados dependendo de uma inspecção apressada dos seus traços físicos – isto é, pelo menos, o que os filmes nos contam. De qualquer forma, para os oficiais nazis, tanto fazia que cantassem ou não. No filme de Polanski, Brody seria quase certo um dos "seleccionados" a trabalhar. Na realidade, chegou a estar a poucos metros do comboio que o iria levar a si e à sua família para um campo de concentração, mas acabou por ser "desviado" por um militar nazi amigo de um amigo seu. Safo quando tudo parecia perdido. Tal como S... - "pois, já vi que sim" - antes de receber a boa notícia - "você passou!". Contudo - há sempre um contudo aqui - a boa notícia de Brody e de S... é relativa. Brody vai refugiar-se no gueto de Varsóvia, onde passa fome e quase é apanhado de novo pelos nazis. S..., por seu lado, permanece no programa, mas vulnerável a nova chamada ao purgatório implacável presidido por zés-ninguéns que brincam com o poder como crianças com os seus primeiros brinquedos.
O impasse, o suspense de uma escolha às portas de um campo de concentração está para sempre ligado à nefanda situação que a personagem de Meryl Streep em "Sophie's Choice" tem de enfrentar. Pressionada por um militar nazi, esta tem de escolher qual dos seus dois filhos pequenos vai levar consigo. Apenas um pode ir. O outro...
Se a autofagia caracteriza, em menor ou maior grau, qualquer grupo de competidores, aquela situação, que se tornou tradicional nos reality shows, como "Operação Triunfo", em que os concorrentes têm nomear entre si quem sai aproxima-se da delação fratricida. Sophie, contrariando o título do filme, não tinha escolha, mas, se virmos, também os concorrentes destes reality shows têm obrigatoriamente de sacrificar "um dos seus". Ou é isso ou é a morte, mediática ou real - qual a diferença? Por isso, nos reality shows, a única coisa verdadeira, autêntica, não orquestrada, são as reacções dos concorrentes. Estes são os programas onde finalmente o mundo pode ver "homens a chorar" que nem bebés, na altura de escolher qual "o irmão" que deve partir – já a seguir, “Quem quer ser Caim?" com o apoio de "cremes Nivea". Esta é a iniciação de um ídolo: sangue, suor e muita "baba e ranho".
Há um ritual de iniciação por trás disto tudo. Por isso, o paradoxo "tu não podes ser um ídolo, mas nós vamos dar-te uma oportunidade" faz sentido ou, pelo menos, resolve-se com outro paradoxo estrutural: "se já és um ídolo, o que é que estás aqui a fazer? Se cantes, mas acima de tudo já te vestes, andas e falas como um ídolo, o que é que estás aqui a fazer?". O júri sabe que, para haver programa, todos os participantes têm de entrar não-ídolos (pecado) para que um deles se torne num ídolo (redenção). S... só entra por exactamente não ser ídolo. Para ser um, ele terá de se vergar aos pés de um júri constituído por mentecaptos, chorar e rir perante as suas palavras, cantar bem, depois pior e finalmente melhor para poder ouvir rasgados elogios temperados com as mais lancinantes críticas. Às vezes, temos ainda de o ver de pijama, a tomar banho, a cagar ou a comer o pequeno-almoço. Pergunto: quantos ídolos "de facto" vimos fazer isto?
No início dos anos 90, Daney dizia que qualquer adolescente se devia sentir enojado com a imagem de várias estrelas pop a cantar "We Are the World, We Are the Children" intercalada com dissolves de crianças esqueléticas de África. Este formato passou à história e hoje talvez nem ia para o ar pelo seu primarismo. (Ainda assim, não foi totalmente posto de parte pela televisão. Um dos anúncios recentes a promover a estação pública nacional usa o mesmo modelo: a acção principal decorre num estúdio onde a família RTP canta animadamente o hino da estação e, alternadamente, vamos vendo cada uma das individualidades no seu habitat característico a dançar, cantar e a fazer o gesto alusivo ao canal.) Não obstante, penso que a mesma filosofia perversa continua a minar, na realidade está ainda mais sublimada, no modo de fazer televisão.
Desta feita, assistimos ao recurso camuflado, acredito que até inconsciente, a um conjunto de convenções associadas à reportagem de um dos crimes mais hediondos da história - a expressão máxima do horror que alguma vez o cinema, a televisão e a fotografia captaram - para a produção de pretensos "programas inofensivos de evasão popular". Pior que a pornografia, que é lato sensu amoral, a televisão desce, aproveitando-se do anestesiamento da maioria e orientada por um sadismo tão fino que é quase imperceptível, à imoralidade extrema. "Ídolos" é disso exemplo. Vi aquele "fragmento", atraído e repelido, como todos nós que não conseguimos virar a cara perante as imagens das pilhas de cadáveres nos campos de extermínio nazis.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
À noite com o Discovery
Em "Caçadores de Mitos", dois especialistas em efeitos especiais põem à prova os mitos mais irrisórios. A título de exemplo, será que: um ninja consegue mesmo defender-se com as mãos de sucessivos ataques de espadas ou um elefante tem mesmo medo de ratos ou o acto de soprar numa bolacha depois de esta ter caído ao chão faz alguma diferença? Há três respostas possíveis: "Busted", "Plausible" e "Confirmed". O resultado nem sempre é o mais óbvio - e se eu disser que os elefantes têm mesmo medo de ratos?
"Brainiac" é um programa de ciência anti-pedagógico e, em certo sentido, os minutos mais divertidamente terroristas num canal tido globalmente como "chato" ou "desinteressante" (muito lixo sobre carros, não é?). Do cardápio fazem parte coisas tão extraordinárias como: mandar roulotes pelos ares e fazer experiências tresloucadas para saber, por exemplo, qual o fruto mais difícil de descascar ou até que ponto comer muitos bombons com álcool embriaga. Existe um conjunto de rubricas que se repete a cada novo episódio, sendo que numa das suas mais interessantes temos a oportunidade de ver "coisas, mas muito lentamente". É qualquer coisa não muito distante da cena da explosão de "Zabriskie Point" de Michelangelo Antonioni, mas aplicada a coisas corriqueiras como fazer bolhas num copo com água ou levar uma chapada (ver abaixo). Numa palavra, se os Monty Python fizessem ciência, por certo gostariam de trabalhar neste laboratório.
"Pesca Radical" é um programa que só cabe num canal temático de ciência (?!?!?!) como o Discovery: dentro dele, e às tantas da noite, é um relaxante reality show onde praticamente nada acontece, sem ser homens de barba rija a esvaziar armadilhas com bacalhaus e caranguejos, em pleno Mar do Norte; fora dele, não me teria como espectador, porquê? Porque se calhar o Discovery é mesmo feito para os espectadores que estão fartos das reprises do "Portugal no Coração" na RTP1, das telenovelas brasileiras na SIC ou do "Levanta-te e Ri" na SIC Radical e já ganharam coragem para se aventurar, noite dentro, pelo desconhecido, sabendo como estimar cada uma das suas insignificantes conquistas. Ou pelo menos é isso que eu gosto de imaginar.
sábado, 9 de agosto de 2008
Na primeira pessoa
Imagem extraída do primeiro episódio de "First Person" : "Mr. Debt"Trata-se de uma solução engenhosa que, no entanto, condiciona, por vezes em demasia, as opções formais existentes em "First Person": pontualmente, sentimos uma certa tontura, devido aos separadores pretos e às imagens de arquivo (reais ou de filmes antigos) que intercalam as entrevistas e também por causa da frontalidade, sempre agressiva, com que estas nos são dadas a ver. Durante 30, 40 minutos, às vezes uma hora, somos confrontados, olhos nos olhos, com as mais mirabolantes histórias de pessoas de carne e osso, mas que podiam ser produtos de uma qualquer ficção tresloucada: desde um senhor de idade respeitável que sonha ver, um dia, uma lula gigante ("Eyeball to Eyeball"), até um homem que esconde algures, num frigorífico, a cabeça da sua mãe ("I Dismember Mam"), passando pela estranha mulher que tem uma especial propensão para se envolver emocionalmente com os piores serial killers ("The Killer Inside Me").
Morris trata todas estas pessoas com o mesmo respeito, atenção e interesse que revelou em "The Fog of War" no contacto com Steve McNamara: esta sua capacidade quase camaleónica de se adaptar a entrevistados tão diversos parece advir, em certo sentido, de uma curiosidade insaciável pelas estranhas formas que a natureza humana pode tomar. Do seu interesse pelos outcasts da sociedade (génios,autistas, homicidas, burlões, viciados, sonhadores), Morris julga poder aproximar-se das respostas para alguns dos maiores enigmas da humanidade: o mal, a morte, o universo e o futuro. Apesar de nos entusiasmarem, as histórias de "First Person" parecem ficar aquém de objectivos tão ambiciosos: não raras vezes, sentimos mais a exploração do fait-divers do que a pretendida indagação sobre a condição humana. De qualquer modo, o simples arrojo da proposta vale, só por si, uma visita.
"The Smartest Man in the World" (episódio 6 da segunda temporada de "First Person") - Parte I
"The Smartest Man in the World" (episódio 6 da segunda temporada de "First Person") - Parte II


