Publico aqui uma versão adaptada do artigo que irá sair na Red Carpet de Agosto."
Bigger Than Life" (1956), de
Nicholas Ray, é um verdadeiro
case study, no quadro da Hollywood clássica. É filmado em
CinemaScope, mas não é um
western, um filme sobre o pós-guerra, uma aventura num qualquer país distante, uma obra
sci-fi ou uma
distopia sobre o fim do mundo. Nem tão-pouco é uma narrativa de amor “maior que a vida”. Na realidade, aqui, estamos, ao contrário do que o próprio título poderá indicar, no nível mais terreno da existência humana. Também as cores vivificantes do
technicolor são uma ilusão para os sentidos: dentro de uma caixa de bombons multicolor, que irradia, em todo o seu esplendor, o lustre chique da velha Hollywood,
Nicholas Ray deposita a sua bílis. Douglas
Sirk que se cuide.
O
american dream é um embuste. O patriarcado é a expressão adormecida de uma sociedade autocrática e eugénica. A mulher, passiva, é uma das suas mais gravosas vítimas. O sistema educativo, que apregoa o contrário, cai de podre. A criança, criatura imbecil, é a carne para canhão de tudo isto. E Deus? Não podia estar mais errado, sobretudo, quando impediu Abraão de matar o seu próprio filho, Isaac.
Esta visão terrificante da sociedade norte-americana chega-nos pelos olhos de
Ed Avery (magnífico James
Mason, também produtor do filme), depois de este se tornar viciado em cortisona. Antes disso,
Ed era um simples professor da primária, levando uma vida fastidiosa, típica da classe média suburbana dos anos 50. A sua mulher (Barbara
Rush), o estereótipo da
housewife que abdicou de uma carreira profissional para se dedicar às lides da casa, não sabia que, todos os dias, depois das aulas, o seu marido descia da posição de professor para se tornar telefonista de uma central de táxis.
Até aqui, tudo normal? Nem por isso: um filme que parece respirar Hollywood por todos os poros, surge como um retrato áspero das condições de vida da classe trabalhadora, sobretudo, dos professores, obrigados a fazer trabalhos extra para garantir as despesas do lar. Sobre este ponto, convém referir que
Nicholas Ray era um cineasta conotado com uma certa intelectualidade de esquerda da velha Hollywood, tendo sido um dos nomes investigados no contexto da perseguição anti-comunista levada a cabo pelo senador
McCarthy, entre o fim da década de 40 e meados dos anos 50.
Com efeito, no seu cinema detectamos, quase sempre, uma apetência particular por histórias de marginais. E
Ray é dos poucos cineastas que as filmam sem o paternalismo característico da sociedade capitalista. Em certa medida, algumas das suas mais marcantes personagens levam uma vida
transgressora, contra o sistema. Filmes como "
They Live by Night" (1948) e "
Rebel Without a Cause" (1955) são, nessa matéria, paradigmáticos.
Voltando atrás: quando é que a cortisona entra na vida de
Ed Avery? Dores
excruciantes atacam-no de súbito, com a mesma intensidade com que a saúde financeira do lar colapsa. A sua mulher e o seu pequeno filho dependem das duas: a sobrevivência do pai e o estado de saúde da sua conta bancária. Quando este último adoece, a família sustém a respiração, receando o pior.
Os médicos sossegam a família
Avery: a doença é rara, mas a recuperação, pese embora difícil, será possível. A cortisona surge como a
miracle drug, que
Ed deverá tomar para se curar. Apesar dos avisos dos médicos em relação aos efeitos secundários da cortisona – depressão, megalomania e outras psicoses -, o que acontece à mente desse professor da primária ultrapassa o pior dos cenários.
Numa palavra, a cortisona vai fazer a
Ed Avery aquilo que o isolamento fez a
Jack Torrance em "
The Shining" (1980), de Stanley
Kubrick: o
exacerbamento dos seus impulsos mais secretos. Com um machado em punho ou uma retórica apocalíptica na ponta da língua (caso de
Avery), o novo homem desfaz, numa fúria
psicótica, o coração da sociedade que o criou: a família patriarcal. E não há nada mais assustador que a revolta doméstica do
pater familias. Deste modo,
Ray filma, destemidamente, a implosão do
american dream.
(...)
Quando a cortisona intoxica o organismo frágil de
Ed Avery, os olhos arregalam-se; a voz recusa a conversa de circunstância e eleva-se alto, em exaltados discursos (reaccionários) sobre um grande projecto para a humanidade. Mas a sua figura também cresce em altura – é o próprio
Ed que confidencia à sua mulher que se sente
ten feet tall. Os picados e contra-picados de
Ray e o jogo de sombras
noirish (reminiscente, por exemplo, da sua obra-prima "
In a
Lonely Place" e do menos conseguido "
On Dangerous Ground") dão escala à
monomania de
Ed Avery.
Com efeito, apesar das cores garridas do
technicolor, a iluminação de "
Bigger Than Life" parece saída de um
film noir: os claros-escuros são tão frequentes quanto as oscilações de humor do protagonista e as cores alternam de cinzentos/castanhos escuros e vermelhos/laranjas intensos, como prenúncio de um evento dramático que se avizinha.
As sombras são usadas para realçar estados de alma – técnica expressionista, perfilhada pelo estilo
noir. Na sequência em que
Ed obriga o seu filho a resolver um exercício de matemática – para lhe curar a preguiça! -,
Ray usa um contra-picado que revela, atrás das costas do pai, uma sombra majestosa que quase cobre toda a parede do escritório.
Um dos mais proeminentes
leitmotifs do filme é, sem dúvida, a escada da vivenda, onde reside a família
Avery. É no andar de cima que o reino de terror do
pater familias começa – no quarto,
Ed tem o ataque de dor que o leva ao hospital – e se dimensiona – visto do andar de cima o protagonista cresce como um grande orador que, do alto da tribuna, discursa sobre a multidão.
Também os espelhos atraem a câmara de
Ray, que os usa para materializar um tipo mais clássico de simbologia dicotómica: o reflexo desarmante de uma existência artificial. Como naquela cena em que
Ed Avery contempla o seu rosto reflectido no espelho estilhaçado da casa-de-banho. Perante o que vê,
Ed abraça-se a si mesmo, com uma expressão de dor – e pena? A sua figura mirra, mas por pouco tempo…
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