sábado, 21 de fevereiro de 2009
Redbelt (2008) de David Mamet
Qualquer obra que David Mamet produza, escreva e/ou realize merecerá seguramente a nossa atenção. Contudo, parece-nos óbvio que esta não é, longe disso, a melhor fase da sua carreira. Dos seus últimos filmes, "Heist" (2001) é o mais equilibrado, melhor interpretado, escrito e, sobretudo, filmado. "Spartan" (2004), um thriller político com um excelente Val Kilmer, começa como nenhum outro filme de Mamet - a câmara, vertiginosa, quase sequestra o espectador, levando-o para o coração de uma investigação policial que já vai em andamento -, porém a sua segunda parte vai mais ao encontro das expectativas mornas que qualquer thriller do género nos provoca - a câmara larga o espectador e traça, à sua frente, não atrás, um labirinto de factos e provas que não nos leva a lado nenhum.Depois o realizador de "House of Games" escreveu "Edmond" (2005) com base numa peça sua e supervisionou de perto este filme realizado por Stuart Gordon ("Re-Animator"). O elenco é mametiano (William H. Macy, Joe Mantegna e Rebecca Pidgeon), os diálogos robotizados também nos são familiares, mas o resto é um desastre em toda a linha. Foi lançado directamente em DVD cá em Portugal. O mesmo aconteceu, de forma totalmente despropositada, com este "Redbelt". Não que seja uma obra fundamental, mas bastava a qualidade do elenco para merecer o seu visionamento em sala. Os filmes de Mamet são sempre uma experiência diferente; mesmo quando estão longe da sua obra-prima ("Homicide", um dos incríveis filmes dos anos 90).
As debilidades de "Redbelt" são as mesmas das de "Spartan", ainda que o desequilíbrio aqui se tenha acentuado. O filme começa fora do universo Mamet, (falsamente) empenhado em contar a história mais banal do mundo (um treinador de jiu-jitsu falido, um acidente no seu ginásio e um convite para integrar um torneio com os melhores dessa arte marcial...). Qualquer cinéfilo desconfia de tanta "normalidade" num filme de Mamet e com razão: a meio, a acção dá uma volta de 180 graus (digna de um "The Spanish Prisioner") e factos acidentais ou personagens aparentemente inócuas ganham sentido numa intriga de grandes dimensões, que espanta a "normalidade" do ecrã.
O resultado deste twist é avassalador e renova o nosso interesse pelo filme: afinal, caímos no bluff que Mamet, um vicíado no jogo, nos montou, o que se traduz no avanço de alguns peões no campo de jogo e a queda de outros tantos. É nesta altura que a escrita de Mamet ganha alguma inspiração, ao mesmo tempo que entram em cena dois dos seus actores-fetiche mais emblemáticos: Joe Mantegna e Ricky Jay. Contudo, pouco tempo depois o filme volta ao registo inicial, com um romance enfiado a martelo entre as personagens de Emily Mortimer e Chiwetel Ejiofor e com este último a (quase) participar, como muito se sugeria no começo, no torneio de artes marciais.
O final resume um filme com uma grande dispersão de personagens-objecto que têm uma função excessivamente pontual na narrativa e, nesse sentido, algumas delas (claro, Mantegna, Ricky Jay e até Tim Allen) justificavam um maior aprofundamento. Enfim, um Mamet menor, que nem por isso merecia ser lançado directamente para o mercado de aluguer.
Ler mais aqui: IMDB.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Regressar em 2009 (IV)
"Public Enemies", o filme mais votado até agora na nossa pequena sondagem, tem uma série de imagens a circular pela Internet. Uma delas inclui a personagem interpretada por Christian Bale - começamos a imaginar um duelo urbano à "Heat", mas passado na Chicago dos anos 30."Los abrazos rotos" tem teaser já disponível. Com estas imagens, tão belas... (pois, fotografia de Rodrigo Prieto), e esta música (de novo, Alberto Iglesias) dificilmente este filme falhará.
Sobre o último de Kathryn Bigelow, "The Hurt Locker", numa fase mais avançada de promoção (o filme já foi mostrado, nomeadamente, em Veneza e no festival do Estoril), podem ver o trailer aqui.
Terminamos com o inevitável "Inglorious Basterds": um cartaz, muito explícito, anda aí a circular...
(continua)
El ángel exterminador (1962) de Luis Buñuel
Analisar um filme de Buñuel é em si uma heresia ou, pelo menos, procurar algum sentido que não aquele que está à vista nas imagens é um acto redundante que mereceria o desprezo de qualquer surrealista. Mas qualquer surrealista acharia graça a uma boa heresia. Sendo assim, e que nos perdoem os mais crentes e os menos socialistas, vamos a ela! Antes de tudo, "El ángel exterminador" (1962) pode ser abreviadamente descrito como uma "sátira surrealista" à sociedade capitalista e aos rituais postiços da classe burguesa, aquela que se alimenta da pobreza dos outros em "Viridiana" (1961), aquela que tem desejos de carne a meio da noite em "Le charme discret de la bourgeoisie" (1972)...Em 1962, Buñuel provava de novo ser dos poucos cineastas do seu tempo - senão o único - que fazia questão de sujar as mãos enquanto brincava com o absurdo na sua feição mais chocante. Começamos a ver "El ángel exterminador" com um sorriso (receoso, ainda assim, porque nada é previsível aqui) e acabamos com pesadelos e a engolir em seco. E com isto queremos dizer: se este seu filme se resumisse a um retrato cómico dos maneirismos, etiquetas e modus vivendi inane e frívolo de uma classe social, Buñuel era quase inofensivo, mas não é, porque o problema não está na classe burguesa, está sim na própria ideia de classe - ai, como nos dói hoje...
Quando os "excelentíssimos" convidados de um sarau exclusivo e ultra-chic estão de roupas rasgadas, descalços, a cheirar mal e famintos diríamos que o filme começa a ampliar o alvo. O que está ali, a nu, em todo o seu esplendor, são os instintos animais, burgueses e não burgueses, do Homem. É que, em "El ángel exterminador", Buñuel converte os "pobres" burgueses nos loucos, andrajosos e malcheirosos, que não tinham onde cair mortos em "Viridiana". Esta desconstrução esquerdófila da sociedade tal qual a conhecemos faz-se na progressiva eliminação das marcas sociais que dividem ricos e pobres.
O difícil exercício que Buñuel nos propõe é, em traços largos, o seguinte: imaginem que, num serão quase perfeito, isto é, uma ida à ópera seguida por um jantar requintado num luxuoso palacete, onde há caviar e as mais divinais e raras iguarias servidas por vários empregados, nenhum dos ilustres convidados toma a iniciativa de sair - como resolveria tão complicada equação?
No filme, como um simulacro, aclaram-se algumas respostas. No início, todos os presentes como que ficam enredados nas malhas da etiqueta burguesa: "se ninguém se decide pelo fim do serão, então, por solidariedade e cortesia, também nos deixamos ficar...". Face a cenário tão imponderável, os anfitriões deixam-se tomar, passivamente, pela incredibilidade: "ninguém sai, deixam-se ficar... mas não ousamos sequer sugerir outra coisa, pois isso constituiria um ataque ao seu bom-nome e estragaria uma noite até agora tão correcta".
Enfim, o tempo passa e eles lá vão ficando em sala alheia um, dois, três, quatro... dias. O ritual, a verdadeira "razão de ser" de toda uma classe de gente honrada, fica bloqueado ali - "um encantamento", tenta explicar, muito seriamente, o médico. À medida que os dias se transformam em meses, esta gente, que se tem como imputrescível, vai perdendo literalmente "a classe".
No fim, temos homens sem máscara (roupa, maquilhagem, pose...) a comerem-se vivos por uma gota de água ou pelo apuramento do responsável por tão terrível impasse. O que é escusado, pois o autor desta trama é (será?) Deus ou, porque ele não acreditava Nele, o génio Perverso: Luis Buñuel.
Ler mais aqui: IMDB e DVDbeaver.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Regressar em 2009 (III)
Falámos dele no último post (com link desactualizado) e temos de falar dele outra vez: o Ípsilon acaba de divulgar, "em exclusivo", o primeiro trailer oficial de "Inglorious Basterds" (não há gralha; o título do filme tem "e" em vez de "a", opção estética do próprio Tarantino). O texto de Joana Amaral Cardoso dá conta de outras dados interessantes sobre o filme: por exemplo, a forte possibilidade de Tarantino voltar a assaltar Cannes, na corrida à Palma de Ouro que começa em Maio deste ano. Ficámos (ainda mais) em pulgas depois de vermos o trailer: promete acção, violência, spaghetti, humor despudorado, realização ultra-estilizada... cool e over the top à boa maneira do realizador de "Pulp Fiction".Sobre "Two Lovers", temos para mostrar um dos momentos televisivos mais awkwards da história recente: David Letterman em delírio com a qualidade do filme (muito melhor que o lixo que anda para aí, diz ele) e um Phoenix com barba e cabelo de sem-abrigo, totalmente "pedrado", a falar em monossílabos quase imperceptíveis. Vejam.
Para além das fotos de rodagem do próximo filme de James Cameron, encontrámos a imagem de uma Na'vi, um dos aliens de "Avatar". Acreditamos pouco na fidedignidade desta informação, mas vale sempre a pena espreitar. Mais relevante que isto, ainda que pouco substancial, é o teaser do filme que está, há já uns tempos, on-line.
(continua)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Regressar em 2009 (II)
Segundo as últimas notícias, Carpenter irá realizar "The Ward", história de terror passada num hospital psiquiátrio, dentro do qual uma paciente (a jovem actriz Amber Heard) é perseguida por um fantasma - a informação que dispomos é tão insipiente quanto isto. No IMDB, este projecto e "Riot" estão em fase de "pré-produção", sendo que, por ora, se preveja que Carpenter irá lançar o primeiro em 2010 e o segundo ainda este ano. Não há qualquer confirmação neste sentido. Ainda assim, começamos a suspeitar da concretização de "Riot", na medida em que escasseiam dados concretos sobre o filme (para além de um primeiro poster). Quanto a "The Ward" isto já não é bem assim: Carpenter tem vindo a público defender o projecto. Sobre o argumento do filme terá dito: "The Ward is the kind of script that I've been looking for: a complex, visceral story, full of suspense and scares". O realizador acrescentou, entretanto, estar muito contente com a escolha da actriz principal: "I am especially pleased to be working with Amber because I know she will create a powerful central performance". De qualquer maneira, acreditamos que a indecisão de Carpenter indicia algum receio da parte deste em levar outra "tampa" do público e da crítica (sobretudo) norte-americanas, a que acresce naturalmente a criteriosidade típica de um grande autor na escolha do seu próximo filme.
Virando a página para outro dos filmes em sondagem: foram divulgadas on-line algumas imagens de "Inglorious Bastards". Ao vê-las, pressentimos que este será o filme ideal para consagrar, finalmente?, Brad Pitt como um grande actor e, como consequência ou não, reconciliar Tarantino com o público, depois do subvalorizado "Death Proof". Estamos aparentemente mais no domínio da saga "Kill Bill", ou seja, de um cinema pejado de referências cinematográfias, mergulhado em sangue e humor negro. Um Tarantino mais mainstream? "Nim", as usual.(continua)
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Soylent Green (1973) de Richard Fleischer
"Soylent Green" (1973) é a concretização distópica, à frente do seu tempo, dos avisos que Al Gore (qual Thomas Malthus, qual carapuça!) e os seus sofisticados power point fizeram ao mundo: em 2022, o planeta terra é um lugar inóspito, estéril, sem alimentos e onde, por causa disso, vigora um modelo de sociedade quase medieval. Nos apartamentos luxuosos - senhoriais... -, os mais ricos comem carne, bebem bourbon e são servidos por voluptuosas mulheres tratadas como e apelidadas de "furnitore" (mobília).Fora deles, a cidade é um inferno: as pessoas dormem, comem e morrem nas ruas como animais. Para estas, comer um bife ou uma alface pertence ao mundo dos sonhos; a sua alimentação é baseada numa substância química, de enigmática composição, chamada "soylent green", umas pastilhas verdes sensaboronas que dão à população as proteínas suficientes para sobreviverem. Thorn (Charlton Heston) é uma dessas pessoas, quer dizer, ainda assim, vive em melhores condições e com uma certa independência: trabalhando como detective, lá vai surripiando nos "locais de crime" uma garrafa de álcool ou um pedaço de comida "a sério"... Para mais, Thorn partilha um exíguo apartamento com Sol Roth (excelente Edward G. Robinson), um velho sábio que foi professor no tempo em que a terra ainda era azul.
A intriga do filme arranca precisamente com o homicídio de uma pessoa importante (Joseph Cotten) e a subsequente investigação (mui escorregadia...) levada a cabo por Thorn e Sol. Neste filme, tal como na maior parte das distopias do género, a intriga é usada como um motivo para a apresentação de uma terrível (pre)visão do futuro. Na realidade, Fleischer, realizador clássico que fez coisas tão notáveis como "The Narrow Margin" (1952), molda este pequeno plot de conspiração política - com alguma, assaz pertinente, paranóia pakuliana - à imagem do film noir: um detective que, por integridade ou mera curiosidade, decide aprofundar uma investigação que o encaminha para as esquinas mais sombrias da sociedade em que vive. Enquanto não reúne todas as peças do puzzle, Thorn resgata das casas de suspeitos rastos de uma certa civilização humana - aquela que ficou lá para trás no tempo - e... apaixona-se por uma "mobília", leia-se, a lindíssima Leigh Taylor-Young.
Por outro lado, "Soylent Green" é um competente filme de acção que encontra em Charlton Heston o típico tough guy, mas com bom coração, que não se intimida com pressões ou ameaças. Simplesmente, ele vai até onde as suas convicções o deixarem ir - e nada, nem ninguém, o fará parar. Acreditamos que Verhoeven - naturalmente, mais cínico e ácido que Fleischer - terá visto "Soylent Green" antes de escrever, e conceber, o universo lamacento que gira à volta de Arnold Schwarzenegger em "Total Recall" (1990). "Idem idem, aspas aspas" para Carpenter e a sua parábola adorniana "They Live" (1988).
Apesar desta ponte interessante entre o clássico - Fleischer + Cotten + Robinson + Heston - e o moderno - inclusive, uma certa atitude fuck the whole world and the people who live in it dos anos 80/90 -, o que mais nos fascinou em "Soylent Green" é o modo como Fleischer trabalha a história, aparentemente secundária, da aventura de Heston pelos "prazeres do mundo perdido". Veja-se a forma como este filma Heston a comer uma refeição de carne, a trincar uma maçã, a pôr na boca de Sol uma colher com restos de doce de morango (hmm, delicious), a lavar a cara com um sabonete, a tomar um bom banho quente, a beber bourbon pela garrafa e, last but not the least, a cheirar o cabelo da mulher/mobília que ama.
São todos estes pequenos grandes prazeres que levam ao êxtase o protagonista deste filme; é através deles que o seu interesse pelo passado tal como a vontade de resolver o caso para que foi destacado se agudiza. Isto para dizer que, em "Soylent Green", percebemos a saudade que enche o coração do velho Sol e, por isso, sentimos um prazer não tão culpado como seria em 1973 de ainda vivermos no passado (a 13 anos do Apocalipse), num mundo não tão mau quanto isso - e, agora, "a moral da história" - que precisa urgentemente de ser melhor tratado. Pois é, Al Gore dar-lhe-ia, sem hesitar, cinco estrelas; nós divertimo-nos muito. Apenas (?!) isso.
Ler mais aqui: IMDB.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Regressar em 2009 (I)
O CINEdrio declara aberta a votação do mais aguardado regresso de 2009. Por outras palavras, qual dos seguintes filmes quer mais ver este ano?
O primeiro filme da lista é o já aqui muito publicitado comeback de John Carpenter, oito anos depois de "Ghosts of Mars": "Riot". Nada de especial tendo em conta a duração do blackbout de um dos cineastas mais populares dos anos 80 e 90: James Cameron. Será que o thriller de ficção de ficção científica "Avatar" irá compensar os 12 anos de projectos relativamente inócuos e de distribuição limitada que tem realizado no domínio do 3D? Compensará, e esta é a verdadeira pergunta aqui, os 11 Óscares (11 espetos no coração) de "Titanic", a sua última verdadeira longa-metragem? Não sabemos, mas temos saudades da acção nonstop, pura e dura, de um "T2" ou "Aliens". Também temos saudades do cinema ultra-musculado da sua ex-mulher, Kathryn Bigelow - casados pela Igreja, casados pelo cinema. "The Hurt Locker", filme pré-Obama sobre a guerra no Iraque, foi considerado por muitos críticos um dos melhores filmes em competição no último festival de Veneza. Daqui esperamos um dos ossos mais duros de roer de 2009.
Michael Mann também promete regressar em 2009. Três anos após "Miami Vice", intenso filme de acção sobre a noite e a cidade, o realizador de "Heat" prepara um filme cujo título é a versão no plural de um clássico dos gangster movies: "The Public Enemy" (1931) de William A. Wellman, com o grande James Cagney. "Public Enemies" também tem lugar nos anos 30, mas é protagonizado pelo mítico gangster John Dillinger (Johnny Depp). Situado duas décadas depois da acção do último filme de Mann está "Shutter Island" de Martin Scorsese, que tem no papel principal Leonardo "novo Robert De Niro" Di Caprio e que elenca outros nomes de peso como Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Max von Sydow (!). É mais uma adaptação ao cinema de um livro de Dennis Lehane, que dá nome ao filme.
Outro peso pesado: Tarantino e o seu "Inglorious Bastards", que, já disse o cineasta, é tanto dele como de Enzo G. Castellari ("Quel maledetto treno blindato" ou, em inglês, precisamente "Inglorious Bastards") e Robert Aldrich ("The Dirty Dozen"). O elenco é tão ecléctico quanto as referências cinéfilas do realizador: Brad Pitt, Diane Kruger, Daniel Bruhl, Mike Myers, Maggie Cheung, Samuel L. Jackson (narrador)... e um cameo do próprio Enzo G. Castellari.
James Gray começou a sua carreira em 1994 e até ao ano passado tinha lançado apenas três filmes. "We Own the Night" foi para nós um dos grandes filmes de 2008. Os americanos detestaram-no e os europeus acolheram-no calorasamente, o que já aconteceu com "Two Lovers", título que parece nascer de uma urgência - nunca Gray passou de um filme para outro com tanta rapidez. Em Cannes, os americanos detestaram-no e alguns críticos europeus (portugueses incluídos) elegeram-no como um dos melhores filmes em competição. De tal maneira que os Cahiers du Cinéma, ainda o barómetro de uma certa crítica europeia, consideraram "Two Lovers" o quinto melhor filme do ano.
É na Europa, mais concretamente em Espanha, que encontramos outro dos títulos mais aguardados de 2009: "Los abrazos rotos" de Pedro Almodóvar. Protagonizado pela sua nova musa Penélope Cruz, este thriller com, dizem..., um toque noir promete ser uma das obras mais violentas do cineasta espanhol. Ou não seria este um filme sobre um cirurgião plástico que procura vingar-se da morte da sua filha. Esperemos que a crítica o compreenda melhor que o seu último e excelente filme "Volver".
A votação irá decorrer até dia 30 de Março. Até ao fecho das urnas, iremos publicar as novidades (notícias, trailers e imagens) que considerarmos mais importantes sobre os filmes em sondagem. Pelo facto da maioria deles estar ainda em pós-produção, não garantimos que todos tenham "de facto" estreia comercial em Portugal já este ano. Porque não acreditamos muito na política das nossas distribuidoras, precavemo-nos usando o verbo "quer", no lugar de outro mais efectivo, na formulação da pergunta.
O primeiro filme da lista é o já aqui muito publicitado comeback de John Carpenter, oito anos depois de "Ghosts of Mars": "Riot". Nada de especial tendo em conta a duração do blackbout de um dos cineastas mais populares dos anos 80 e 90: James Cameron. Será que o thriller de ficção de ficção científica "Avatar" irá compensar os 12 anos de projectos relativamente inócuos e de distribuição limitada que tem realizado no domínio do 3D? Compensará, e esta é a verdadeira pergunta aqui, os 11 Óscares (11 espetos no coração) de "Titanic", a sua última verdadeira longa-metragem? Não sabemos, mas temos saudades da acção nonstop, pura e dura, de um "T2" ou "Aliens". Também temos saudades do cinema ultra-musculado da sua ex-mulher, Kathryn Bigelow - casados pela Igreja, casados pelo cinema. "The Hurt Locker", filme pré-Obama sobre a guerra no Iraque, foi considerado por muitos críticos um dos melhores filmes em competição no último festival de Veneza. Daqui esperamos um dos ossos mais duros de roer de 2009.
Michael Mann também promete regressar em 2009. Três anos após "Miami Vice", intenso filme de acção sobre a noite e a cidade, o realizador de "Heat" prepara um filme cujo título é a versão no plural de um clássico dos gangster movies: "The Public Enemy" (1931) de William A. Wellman, com o grande James Cagney. "Public Enemies" também tem lugar nos anos 30, mas é protagonizado pelo mítico gangster John Dillinger (Johnny Depp). Situado duas décadas depois da acção do último filme de Mann está "Shutter Island" de Martin Scorsese, que tem no papel principal Leonardo "novo Robert De Niro" Di Caprio e que elenca outros nomes de peso como Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Max von Sydow (!). É mais uma adaptação ao cinema de um livro de Dennis Lehane, que dá nome ao filme.
Outro peso pesado: Tarantino e o seu "Inglorious Bastards", que, já disse o cineasta, é tanto dele como de Enzo G. Castellari ("Quel maledetto treno blindato" ou, em inglês, precisamente "Inglorious Bastards") e Robert Aldrich ("The Dirty Dozen"). O elenco é tão ecléctico quanto as referências cinéfilas do realizador: Brad Pitt, Diane Kruger, Daniel Bruhl, Mike Myers, Maggie Cheung, Samuel L. Jackson (narrador)... e um cameo do próprio Enzo G. Castellari.
James Gray começou a sua carreira em 1994 e até ao ano passado tinha lançado apenas três filmes. "We Own the Night" foi para nós um dos grandes filmes de 2008. Os americanos detestaram-no e os europeus acolheram-no calorasamente, o que já aconteceu com "Two Lovers", título que parece nascer de uma urgência - nunca Gray passou de um filme para outro com tanta rapidez. Em Cannes, os americanos detestaram-no e alguns críticos europeus (portugueses incluídos) elegeram-no como um dos melhores filmes em competição. De tal maneira que os Cahiers du Cinéma, ainda o barómetro de uma certa crítica europeia, consideraram "Two Lovers" o quinto melhor filme do ano.
É na Europa, mais concretamente em Espanha, que encontramos outro dos títulos mais aguardados de 2009: "Los abrazos rotos" de Pedro Almodóvar. Protagonizado pela sua nova musa Penélope Cruz, este thriller com, dizem..., um toque noir promete ser uma das obras mais violentas do cineasta espanhol. Ou não seria este um filme sobre um cirurgião plástico que procura vingar-se da morte da sua filha. Esperemos que a crítica o compreenda melhor que o seu último e excelente filme "Volver".A votação irá decorrer até dia 30 de Março. Até ao fecho das urnas, iremos publicar as novidades (notícias, trailers e imagens) que considerarmos mais importantes sobre os filmes em sondagem. Pelo facto da maioria deles estar ainda em pós-produção, não garantimos que todos tenham "de facto" estreia comercial em Portugal já este ano. Porque não acreditamos muito na política das nossas distribuidoras, precavemo-nos usando o verbo "quer", no lugar de outro mais efectivo, na formulação da pergunta.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Já saiu a Red Carpet de Fevereiro!
E já cá está, ainda fresquinha, a última edição da revista de cinema on-line Red Carpet. Neste mês, para além dos vários artigos sobre os Óscares - entre os quais sobre a "oscarizável" Kate Winslet - destacamos o artigo "A Geração de Gus Van Sant", a rubrica "Sob o Signo de..." referente ao genial "Stalker" de Andrei Tarkovski (ambos por Nuno Gonçalves), um "Só para Adultos" dedicado à obra-prima "Crash" de David Cronenberg (por Nuno Cargaleiro) e o delirante "Rapace" de João Nicolau mereceu a atenção de Carlos Pereira no seu espaço do "Cinema Português". Mas antes de tudo isto podemos ler as críticas a alguns dos filmes mais "quentes" do momento: "Doubt", "Slumdog Millionaire", "The Curious Case of Benjamin Button" e "Milk" (esta última assinada por mim). Don Siegel e o seu sci-fi paranóico "Invasion of the Body Snatchers" são objecto de análise no nosso cantinho do "Cinema Clássico": "Eles Vivem!" pode ser lido nas páginas 68 e 69 desta edição. Tudo isto (e muito mais...) à distância de um clique sobre a imagem.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Milk (2008) de Gus Van Sant
Aos 40 anos, Harvey Milk não tinha feito nada que se orgulhasse. Tinha 39 anos quando trocou conversa, pela primeira vez, com o homem que viria a ser o amor da sua vida, Scotty. Aos 40 anos, já o tinha na cama consigo. Tudo isto em apenas um dia, mas não um qualquer: 22 de Maio de 1970, Harvey fazia anos e decidia mudar de vida. Pela segunda vez - ou verdadeiramente pela primeira? - este homossexual de pais judeus, nascido e criado na "maior democracia do mundo", saía do armário. Castro Street foi onde Milk e Scotty montaram aquele que viria a ser o centro nevrálgico de uma das mais espontâneas, e corajosas, carreiras políticas na história recente da América.Foi aí, cidade de São Francisco, estado da Califórnia, que a América ganhou um dos seus mais bem sucedidos activistas gays; o primeiro a empossar num cargo público, para mais, tão importante como o de supervisor municipal. O filme de Van Sant começa com uma história de amor e não a abandona. Ela não é usada como um elemento humanizante, puramente circunstancial, numa não-ficção sobre os bastidores, muito escorregadios, do mundo da política e, à retaguarda, de tudo aquilo que significa ser norte-americano.
O amor é o elemento estruturante da ética, da política apetece dizer, de Harvey Milk. Na cena em que este fala ao telefone com Scotty, percebemos isto. Para chegar àquele "momento" em que finalmente é um pouco mais livre para sentir (e daí as lágrimas), Milk teve de percorrer a história mundial dos preconceitos; lutar contra os falsos-valores profundamente empedernidos numa sociedade tornada cativa de uma ideologia exclusivista e, ulteriormente, autofágica; e pedir a todos os gays para se confrontarem com os seus fantasmas interiores e saírem do armário.
Uma correcção: não foi "pedir", mas sim ordenar sob a forma do slogan com o qual costumava abrir os discursos: "Eu recruto-vos!". Mas Gus Van Sant não tenta fazer de "Milk" um panfleto a favor da causa homossexual ou da glorificação incondicional de Harvey Milk; o recrutamento que Milk faz dentro do filme, pelo coração, pela razão e pelas palavras, não é o mesmo que faz através da câmara-filtro de Van Sant, junto do espectador de hoje.
Uma correcção: não foi "pedir", mas sim ordenar sob a forma do slogan com o qual costumava abrir os discursos: "Eu recruto-vos!". Mas Gus Van Sant não tenta fazer de "Milk" um panfleto a favor da causa homossexual ou da glorificação incondicional de Harvey Milk; o recrutamento que Milk faz dentro do filme, pelo coração, pela razão e pelas palavras, não é o mesmo que faz através da câmara-filtro de Van Sant, junto do espectador de hoje.
Com efeito, este regresso do realizador de "Paranoid Park" ao mainstream faz total sentido: em "Milk" também recai o olhar crítico, distante e razoável, que era tão perturbante em "Elephant", o seu outro "filme político" que, numa grande elipse, abria o ventre de uma sociedade moralmente asfixiante. É que em 2003 a América estava entregue a si mesma, tal como os adolescentes eram filhos de pais ausentes ou problemáticos.
"Elephant" recriava Columbine mas tinha em mente a "América órfã" de George W. Bush. O mesmo acontece em "Milk": a América que muda em 1973-1978 é a mesma América que hoje, em 2009, se transforma aos nossos olhos. Harvey é a figura paterna que os gays americanos procuravam, tal como Barack "black Milk" Obama - "hope", "change", onde é que já ouvimos isto? - acaba de ser perfilhado como o pai da América e do mundo! O cinema de Van Sant não podia ficar indiferente a tudo isto.
E daí esta sua emigração para o mainstream, primeira linha de um novo capítulo na sua obra: a celebração dos bons homens e dos grande ideais. Fazendo aquilo que mais gosta - dirigir homens numa história política de amor -, Van Sant dá o grito que desperta finalmente a América (de "Elephant") do torpor em que estava mergulhada: é para lhe darmos eco que "Milk" (o filme, a personagem, um grande Sean Penn) nos recruta.
Ler mais aqui: IMDB.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Carmen Jones (1954) de Otto Preminger
"Carmen Jones" (1954) é uma das grandes subversões de Otto Preminger: uma actualização da famosa ópera de Georges Bizet que inclui apenas actores afro-americanos no elenco. O filme tem o nome da sua protagonista, portentosamente interpretada por Dorothy Dandridge.Poderoso, e precoce, símbolo da emancipação feminina, Carmen é a Diane de "Angel Face" e a Linda Darnell de "Fallen Angel" (nunca a de "Centennial Summer"); é uma femme fatale temperamental que odeia compromissos e que vê no ideal dominante de família um inaceitável regime prisional. Joe (Harry Belafonte), o miliar que se apaixona por ela, demora a perceber que Carmen não é mesmo uma mulher como as outras: gosta de passear solta, sem freios, pelas ruas de Chicago e não gosta de dançar sempre com o mesmo homem ou de viver eternamente no mesmo sítio.
Carmen não é só a mulher que dá nome, e protagoniza, este robusto musical de Otto Preminger; ela é, de facto, o filme. Ver "Carmen Jones" é passar pela experiência de ser Carmen. A câmara de Preminger é perfeita para tal; sempre em movimento, quase "aquática" (palavra roubada a Godard), passa de décor em décor com uma suavidade e "sentido de liberdade" notáveis. Não se acanha perante as sumptuosas pernas de Dandridge, os seus olhares provocadores e os seus modos, para a época, no limiar da lascívia.
A entrada em cena de Carmen diz tudo: a partir daí, o espectador como o pobre Joe já não poderão ficar indiferentes à sua presença. Imediatamente, embarcamos numa grande aventura amorosa construída em arco: traição, amor e morte. A música, sempre trágica, atravessa a narrativa como uma flecha.
Monumental o plano que enquadra o presidiário Joe, de tronco nu, a cantar o amor por Carmen; engenhosa a forma como duas, três personagens trocam "diálogos cantados" sem sair do mesmo plano e extraordinariamente sensual a imagem de Carmen a provocar o "foragido" Joe com as suas pernas. A mulher manda aqui: os homens rastejam por ela e sonham com o exclusivo do seu amor. Com efeito, um sonho que pode levar à loucura e depois à morte.
Ler mais aqui: IMDB.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Centennial Summer (1946) de Otto Preminger
Aquela fantasia que praticamente todos os realizadores têm de fazer um musical não deveria ser tão forte em Otto Preminger. Ele próprio assumia-se como alguém com "mau ouvido", mas não podia negar o facto de ter bom gosto musical (Duke Ellington em "Anatomy of a Murder") ou de saber como escolher os compositores para os seus filmes (por exemplo, Dave Raksin e Dimitri Tiomkin). Também não podia negar outra coisa: a música está no modo como filma, na forma como usa a grua ou se movimenta no compasso dos actores. O bailado está sublimado em cada gesto, cada passo das suas personagens. Mas, atenção, tudo leve e invisível, ou melhor, sem a pompa onanista de um Max Ophuls ("Madame de...").E isto para dizer o quê? Bem, se calhar para apresentar "Centennial Summer" (1946), o seu primeiro musical produzido para a 20th Century Fox, que marca uma interrupção na sua bem lançada carreira no noir. Depois do genial (em cada frame) "Fallen Angel", nasce este projecto e, depois, o filme que Otto Preminger mais odiou fazer: "Forever Amber", iniciado por John M. Stahl e continuado, em completo contra-gosto, pelo realizador austríaco. Falemos aqui do primeiro.
A história situa-se na segunda metade do século XIX, em Filadélfia, durante as comemorações do centenário do Tio Sam. Ao mesmo tempo que a cidade se prepara para a grande festa, a família Rogers recebe a tia Zania Lascalles e o francês Philippe Lascalles vindos de Paris. Estas duas personagens vêm desorganizar a vida, sobretudo, os amores no seio do agregado: a tia intromete-se entre o casal mais velho, sendo o pai de família interpretado magnificamente por Walter Brennan, e o jovem parisiense (Cornel Wilde) mete-se entre as duas filhas, sendo que uma delas (Linda Darnell) já estava comprometida com um dos primeiros obstetras do país.
A música ocupa um lugar muito específico, nada supérfluo, na narrativa; aliás, Preminger acaba por conter o espírito delirante do musical clássico, quando integra a música na própria condução da história e não como um inútil "efeito extra-diegético". É, por isso, um musical levado ao seu mínimo, sem grandes canções ou monumentais coreografias. Na realidade, estas últimas são apenas executadas pela câmara, que na grua sobrevoa a multidão envolvendo o espectador num bailado metafísico com as imagens.
Para além disso, "Centennial Summer" é um regresso feliz de Preminger à comédia, lugar onde iniciou a sua carreira em Hollywood (pela mão de Lubitsch). O humor está sobretudo em Walter Brennan e na forma como os vários triângulos amorosos se vão enredando, mas este é um Preminger de estúdio, bem comportado ou politicamente correcto: nele, o amor é um jogo naive, isto é, de "consumo rápido" para as adolescentes de 1946. Por outro lado, como "filme histórico", "Centennial Summer" não consegue fugir da pedagogia que esconde mal a moral puritana da época: no século XIX como no século XX, o trabalho não é coisa para mulheres e a estas apenas se pede que encontrem (a qualquer custo, como se vê no desfecho da história de Linda Darnell) o seu "princípe encantado".
Ou seja, e em suma, enquanto comédia, "Centennial Summer" deve tudo a Walter Brennan; enquanto musical, deve tudo à câmara de Preminger e, enquanto filme histórico banal e "instrutivo", deve tudo a todos, especialmente ao establishment de Hollywood (Darryl Zanuck à cabeça) e à moral dominante dos anos 40. A ver com tudo isto em mente.
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Üç maymun (2008) de Nuri Bilge Ceylan
Sem pensarmos muito, diríamos que o último ensaio audio/visual de Ceylan é um exercício de terror como "A Hora do Lobo" (1968) o foi para Ingmar Bergman. "Três Macacos" não é "cinema de género", mas as suas fortes marcas autorais estão aqui empregadas no sentido de uma reinterpretação do receituário de um género que é, em si, eminentemente experimental: o terror.Com base numa premissa thrillesca, a lembrar Hitchcock ("Strangers on a Train"), Ceylan começa a tecer, com imagens e sons, uma atmosfera lancinante, tão aguda quanto insuportável. Desde logo, porque o filme se divide entre duas prisões: a propriamente dita, onde o pai sacrificial passa os seus dias para encobrir um crime do seu patrão, e o apartamento suburbano onde mãe e filho esperam pelo regresso daquele. Até aqui, a tensão é sobretudo espacial: a câmara filma, em planos apertados "entre divisões", as personagens a sufocar de calor num ambiente insalubre - um Verão doentio... -, ao mesmo tempo que estas, fora de portas e sem conhecimento mútuo, se vão afundado em esquemas obscuros.
A "fisicalidade" destas cenas lembra outra excelente criadora de atmosferas (e imagens): Lucrecia Martel. Mas, a nosso ver, Ceylan consegue ir mais longe, na sua falsa-crueza e desassombrada frontalidade. Em primeiro lugar, este é um filme que se povoa literalmente de fantasmas: um ente querido, um filho/irmão que morreu misteriosamente, passeia-se pela casa minúscula, comunica e dorme com os vivos e, acima de tudo, toca neles. São imagens perturbantes que lembram as histórias de fantasmas de Shindo ("Onibaba") ou Teshigahara ("Otoshiana"), mas sem uma gota de sensualismo e instiladoras de uma sensação torturante de impotência. Como se o sonho-pesadelo que o protagonista de "Climas" tem na praia se prolongasse, agora sem interrupções, em todo um novo filme: "Três Macacos".
Em segundo lugar, e queremos sublinhar esta ideia, Ceylan supera-se na montagem dos sons: os que ouvimos e os que não ouvimos. A ventoinha, as portas que se abrem e fecham, o vento que arromba janelas, o comboio que passa e os trovões que lançam o filme para a escuridão do genérico (espécie de blackout pós-orgânico). As imagens alternam em função desta narrativa sonora, que se vai impondo como o esqueleto de "Três Macacos": de tal modo que, quando estes efeitos sonoros estão ausentes, o "chão" do filme parece-nos fugir numa vertigem.
A inacção do som provoca, a certa altura, uma das sensações mais terrificantes que experimentámos em cinema: uma ameaça de suicídio, e um corpo que se estatela no chão que não ouvimos. Assistimos a esta sequência pelos olhos de outra personagem, numa evocação/invocação do típico voyeurismo hitchcockiano, mas com os "ouvidos do filme": cairá, não cairá? Aquele corpo não, mas já há muito que "Três Macacos", super-organismo de som e imagem, caiu violentamente em cima do espectador. Para quem tem estômago - nós tivemos -, é uma experiência singular.
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A irritante moda dos cineastas que dizem não se interessar por cinema
Woody Allen, "Annie Hall"(...) the fact that I see so many films really seems to amaze certain people. Many filmmakers pretend that they never see anything, which has always seemed odd to me. Everyone accepts the fact that novelists read novels, that painters go to exhibitions and inevitably draw on the work of the great artists who came before them, that musicians listen to old music in addition to new music... so why do people think it's strange that filmmakers - or people who have the ambition to become filmmakers - should see movies?
Jacques Rivette, «The Captive Lover», in Senses of Cinema
Considera-se um cinéfilo?
Bem! Espanto-me sempre por encontrar pessoas que trabalham no cinema e não conhecem nada dele. Encontramos os dois extremos. Há pessoas apaixonadas pela história do cinema, como Martin Scorsese, que é capaz de nos dizer que filme George Marshall fez em 1938. E há responsáveis dos estúdios, aqui, que nem conhecem o nome de George Marshall. Quanto a mim, fui sempre fã de Destry Rides Again.
Clint Eastwood, Um Homem com Passado (Cinemateca)
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