
"
Gran Torino" é apontado como o último filme com
Clint Eastwood. Trata-se, portanto, de um filme de despedida, o render das armas de uma figura viril, solitária, muitas vezes sem nome, com passado incógnito ou demasiado traumático para ser recordado, que se pauta por princípios
rígidos, inalienáveis, que acredita na família que se escolhe e não naquela que Deus nos impinge; logo, um crente mais ou menos esperançoso no Homem ou um homem que age por amor. E daqui retiramos dois temas basilares da sua obra: a família e a religião. A primeira, como dissemos, é quase sempre abnegada pelas suas
personas como um "conceito" estanque e inultrapassável - cá está o maldito "conceito do conceito" a intoxicar uma conversa sobre afectos,
vide o polvoroso debate em torno dos casamentos
gay.
De facto, nos seus filmes a ideia de família é, quase sempre, a origem da frustração ou mesmo do ódio das personagens. Vejam-se dois exemplos: "
Absolute Power" e "
Million Dollar Baby". Se no primeiro
Clint é um ladrão "à beira da reforma" que procura reatar a relação com a filha, que justamente prefere pensar que este não existe nem nunca existiu, no segundo temos um treinador de pugilismo que envia cartas a uma filha que abandonou e que, à falta de resposta, acaba por perfilhar, para ocupar o vazio no coração, a rapariga que a muito custo aceitou treinar. E o que dizer da família desta última? Um bando de
rednecks, dissimulados e oportunistas, que sugam até ao tutano cada centavo que a pobre rapariga ganha com o seu suor.
A cena em que a horrorosa mãe procura sacar dinheiro da sua filha, quando esta está acamada, às portas da morte, parece equivaler à cena em que o filho e a nora de
Walt Kowalski, o veterano de guerra irascível e reaccionário de "
Gran Torino", procuram convencê-lo a mudar-se para um lar de terceira idade, com o mal disfarçado objectivo de ficaram com a sua bela casa, com uma bela mobília
retro e a
pièce de résistance, um imaculado Ford
Gran Torino de 1972.
Kowalski nunca se deu bem com a sua família e a morte da sua mulher, fiel companheira, abre até rasgar as suas cicatrizes interiores. O ocaso de
Kowalski começa com a morte e a solidão que vem com ela. São estas que o despertam, como um
epifania, para a realidade: ele olha à volta e já não reconhece o seu bairro, o seu país.
Kowalski é remetido, ou melhor, remete-se a uma espécie de
apatrídia forçada num país que não é para velhos (sobretudo, os da sua estirpe).
Em suma, a viuvez leva-o a desenterrar o passado e a confrontar-se finalmente com o seu próprio reflexo, a saber: os fantasmas da Guerra da Coreia, de todos os homens e crianças que matou, a constatação tardia de que é um pai falhado e o desolador cenário do seu bairro, o microcosmos de uma América descaracterizada, empestada como nunca pelo vírus da
multiculturalidade (os "
chop-
soys", "os carvões", os italianos filhos da
puta e, por que não?, ele, um polaco de merda). E, por tudo isto, o seu organismo de idoso sangra por dentro, como uma bala vinda do coração - lembram-se de "
Blood Work"? Uma hemorragia interna que não estanca e um reflexo, no espelho ou fora dele, que se impõe.
O anti-herói de "
Gran Torino" é, entre outros, o
Dirty Harry (a ideia fascista de vingança como princípio de uma certa
higienização da sociedade), o "homem sem nome" (sem dúvida, só um
cowboy fuma, cospe e puxa o gatilho daquela maneira), o treinador
Frankie Dunn (na relação com Deus e no seu propósito sacrificial), o general
Kuribayashi (mais por dentro do que por fora) e o sargento
Highway (mais por fora do que por dentro) num só corpo, que está velho e exausto e que busca redenção ou paz, como
Kowalski lhe chama, no amor. "
Old school", portanto.
Kowalski continua a ser todos eles quando se afeiçoa a uma família
hmong que vive na casa ao lado da sua. Ele adopta-a tal como
Dunn perfilhou a jovem lutadora de "
Million Dollar Baby". Ele desembaraça-se dos seus preconceitos racistas e xenófobos tal como aquele se desembaraçou do seu machismo e tal como um caçador branco mostrou, num dos seus filmes, ter um coração negro.
Clint Eastwood filma esta mudança na sua personagem como se fosse uma transfusão de sangue novo para o seu organismo. É a partir deste momento, crucial, que a sua reabilitação começa: torna-se numa espécie de pai/avô para a rapariga e o rapaz
hmongs e a este último empresta-lhe a sua experiência de vida, classicamente simbolizada pela "doação" das ferramentas da garagem e, por fim, do seu
Gran Torino.
Toda a simbologia da história de
Kowalski resume de forma lapidar alguns dos principais traços de Eastwood. Contudo, nem tudo é perfeito aqui. Desde logo, a mudança de
Kowalski parece-nos abrupta ou pelo menos apressadamente resolvida em duas cenas algo
desinspiradas: o "assalto" do
gang de asiáticos à casa dos vizinhos, por causa de
Thao, o rapaz, e o assédio do grupo de negros a Sue
Lor, a rapariga. Estes são os
trigger events que nos transportam para a segunda parte do filme,
desencandeando a tal metáfora da "transfusão de sangue". As duas cenas, mais a segunda, parecem-nos artificiais e mal interpretadas.
Aqui entram dois problemas de "
Gran Torino": a intermitência, algo redutora, das personagens na narrativa (veja-se a do padre) e, coisa rara em Eastwood, a por vezes aflitiva falta de qualidade de alguns actores (à cabeça, o miúdo que faz de
Thao e a rapariga que incarna a adolescente h
mong, Sue
Lor). Por muito que admiremos a interpretação de Eastwood, a proeminência da sua
persona como que seca dramaticamente as outras personagens, o que é agravado pela inconsistência congénita de alguns actores.
(alerta para spoilers, a partir daqui)Por outro lado, e apesar de toda a história de
Kowalski ser filmada com a clareza e limpidez que conhecemos em Eastwood, o trabalho de claro-escuro de Tom Stern não nos parece tão inspirado aqui como, por exemplo, em "
Million Dollar Baby". Mas, acima de tudo, a imagem da queda redentora de
Kowalski parece-nos pouco subtil. O paralelismo
crístico devolve ao filme a questão do religioso com um sentido, a nosso ver, algo perigoso. Nesse momento Eastwood procede a uma sacralização ou uma purificação litúrgica de
Kowalski, quando o seu sacrifício é feito por
Thao e não por Deus. Tal como a sua confissão (forjada) ao padre é feita para cumprir a vontade da sua mulher e não a vontade de Deus.
Da mesma forma, ele não perdoa toda a humanidade pelos seus pecados como Cristo na cruz, o que é mais do que visível na cena em que ficamos a saber o que
Kowalski deixou no testamento para os seus familiares de sangue
versus de coração. É que, para nós, "
Gran Torino" não é a história de uma conversão, mas de uma descoberta íntima, interior... Nada tem de divina ou mitológica. O que urgia aqui era a desmontagem do mito e não a sua consagração.
A confusão agudiza-se ainda mais num dos últimos planos do filme. Provavelmente, o mais violento de toda a
filmografia de Eastwood: o corpo de
Kowalski, isto é, o de Eastwood, deitado no caixão. O realizador filma a sua própria morte da forma mais despida possível: de caixão aberto. O divino dá finalmente lugar à matéria. Mas este plano assombroso chega tarde demais para nos demover do sentimento de desilusão em ver o segundo filme consecutivo de Eastwood sem a solidez e a inspiração dos seus melhores trabalhos. Enquanto não o revemos, ficamos a remoer a muito dolorosa sensação de uma despedida que não está à altura do melhor
Clint Eastwood.
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