domingo, 26 de abril de 2009

Cannes 2009: a Palma que falta dar e as outras (IV)

Pensamos que a rectificação merece novo post: anunciámos aqui que Francis Ford Coppola e Werner Herzog não iriam a Cannes, o que não foi totalmente rigoroso. O filme "Tetro", de Coppola, abrirá a competição na Quinzena dos Realizadores, mas, de facto, não estará na corrida pela Palma de Ouro. Esta subalternização de um realizador já laureado com a Palma não parece incomodar o implicado.

No site dos Cahiers du Cinéma, Francis Ford Coppola afirma-se mais do que contente com esta opção, revelando, um pouco como já fizera na entrevista que deu ao Expresso, a vontade de ter novamente 18 anos (sonho possível apenas para o protagonista de "Youth Without Youth"...): "I am extremely pleased to bring TETRO to Director’s Fortnight. This film embodies my original passions as a filmmaker, and is a reflection of my goals and ideals when I first began. It is so difficult to work in a personal way in the cinema today, between the business constraints and commercial realities, that you must let your work be a cry for independence, which is why it is so appropriate that TETRO is premiered in the Director’s Fortnight, where young filmmakers go".

Quanto a "Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans", presumimos que não terá caído minimamente nas graças do júri de selecção e, por isso, nem a Quinzena lhe valeu. Nobuhiro Suwa, realizador nipónico que já foi herói independente do IndieLisboa, teve sorte diferente: "Yuki & Nina", filme também assinado pelo francês Hippolyte Girardot, estará na Quinzena dos Realizadores.

Nesta secção ainda podemos encontrar, para além dos portugueses Pedro Costa ("Ne Change Rien") e João Nicolau ("História de Amor e Saúde"), as novas obras de Alain Guiradieu ("Le Roi de l’évasion"), cineasta francês que estreou entre nós o surpreendente "Pas de repos pour les braves", e o veterano cineasta da Nouvelle Vague Luc Moullet ("La Terre de la folie"). Mas a grande extravagância desta secção é, sem dúvida, um filme norte-americano: "I Love You Phillip Morris" , primeira realização da dupla que escreveu "Bad Santa", Glenn Ficarra e John Requa, com uns muito gays Jim Carrey, Rodrigo Santoro e Ewan McGregor nos principais papéis.

(continua)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cannes 2009: a Palma que falta dar e as outras (III)

Pois é, afinal, Francis Ford Coppola e Werner Herzog não vão concorrer pela Palma de Ouro. Se ao primeiro ainda foi dada a oportunidade de mostrar a sua última obra, "Tetro", na Quinzena dos Realizadores, já o segundo viu o seu remake de "Bad Lieutenant" ser completamente ignorado pelo Comité de Selecção - por que este último não vem, então, ao IndieLisboa? Acaba de sair a lista com o alinhamento da 62ª edição do Festival de Cannes. Em relação às previsões da Variety, confirmaram-se quase todas, ainda assim importa vermos algumas nuances importantes.

Desde logo, a presença de um português na secção "Un Certain Regard": "Morrer Como um Homem", última obra de João Pedro Rodrigues. "Mother" de Bong Joon-ho, "Air Doll" de Hirokazu Kore-eda e a dupla presença romena, "Police, Adjective" de Corneliu Porumboiu e o filme omnibus "Tales from the Golden Age" (que é assinado, entre outros, por Cristian Mungiu) são outros destaques possíveis nesta secção. A Quinzena de Realizadores também não se esqueceu do cinema de origem portuguesa. Falamos das exibições de "Ne Change Rien" de Pedro Costa, sobre a cantora e actriz Jeanne Balibar, e a curta "Canção de Amor e Saúde" do muito promissor João Nicolau.

Na competição temos uma série de pratos fortes: para além dos realizadores já laureados com a Palma (Ken Loach, Jane Campion, Lars von Trier e Quentin Tarantino), mostram-se as últimas obras de Ang Lee, Pedro Almodóvar, Isabel Coixet, Marco Bellochio, Michael Haneke, Elia Suleiman, Chan-wook Park, Johnnie To, Lou Ye, etc. A Europa e a Ásia são os continentes mais representados na competição, mas entre os países a proeminência de filmes da casa é outro dado diferente desta edição de Cannes: na competição confirmam-se Alain Resnais, Jacques Audiard e acrescenta-se um nome muito polémico, Gaspar Noé ("Enter the Void").

Fora da competição, Terry Gilliam mostra os últimos minutos de Heath Ledger e Amenábar regressa com "Agora". "Drag Me to Hell", de Sam Raimi, será mostrado na secção "Midnight Screenings".

(continua)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

The Strangers (2008) de Bryan Bertino

Enquanto os filmes de terror continuarem a encarar o mal como produto de uma série de circunstâncias socialmente identificáveis, dificilmente nos aproximaremos da sua essência. Essa força terrível que vive dentro de todos nós e que, por vezes, é puxada à superfície, sob a forma de um pesadelo ou de uma qualquer manifestação física ou verbal de violência, nem sempre se pauta por relações simples de causalidade. Pois o cinema de terror norte-americano, treslendo em toda a linha as suas bases, tem perdido muito do seu e, sobretudo, do nosso tempo a tentar racionalizar as causas do mal nas nossas sociedades. E, por isso, Columbine superou o cinema. E, por isso, o 11 de Setembro superou o cinema. Também por isso continuamos sem respostas para a pergunta que todos os filmes de terror nos colocam: porquê isto?

Erro primário, quase ingénuo, por exemplo, comete Rob Zombie no seu sofrível "Halloween" quando nos tenta convencer, bem para lá das intenções de Carpenter, que Mike Myers é o resultado de um lar destroçado; logo, Mike Myers podia ser qualquer um de nós - atenção pais deste mundo, nas vossas mãos poderá estar um assassino carniceiro em potência! Mas nada disto explica, de facto, o seu talento para as artes do esquartejamento de teens inanes que consomem drogas ou fazem sexo enquanto os pais não estão em casa - o que é quase sempre.

No filme de Carpenter, obra-prima maior do cinema (não esperem pelo qualificativo "de terror", pois este só vem estreitar a importância de um dos mais impressionantes exercícios de câmara da Sétima Arte, onde a forma implica directamente com o conteúdo e vice-versa), o mal é Mike Myers, vilão sem face visível que corporiza um mal maior: a hipócrita sociedade norte-americana, que com os seus bairros doentiamente simétricos, com os seus relvados impecavelmente aparados, que só são pisados pelas famílias mais castas do planeta, não consegue evitar que, por trás da fachada, quando a figura paterna não está a vigiar, seja tão igual ou pior que as outras. Não estão os pais, está Mike Myers a cumprir, em jeito de ama-seca, uma função institucionalizante de segundo grau. Ele é a prova de que o mal é uma fabricação cultural profundamente enraizada nos nossos espíritos, algo cuja origem transcende a lógica escapista do "2+2=4".

"The Strangers", do estreante Bryan Bertino, chega-nos como uma reinterpretação da lição dos mestres (Romero, Carpenter, Hitchcock, De Palma e, por que não?, o Shyamalan de "Signs" e "The Village"): o mal existe, não se explica, mas poderá ser traduzido em imagens e sons. Por que atormentam os "estranhos" do título um casal que não fez mal a ninguém, a não ser, quanto muito, a si mesmo? Se calhar foi mesmo porque a personagem de Liv Tyler rejeitou o pedido de casamento da personagem de Scott Speedman, o que não é lá muito cristão, mas não vamos por aí: como um dos "estranhos" chega a dizer, nós fazemos isto porque vocês "estavam em casa".

E aqui entra a ideia de ocupação de um espaço, a que, entre todas, mais se aproxima ao "Halloween" de Carpenter. Neste, o mal tem um corpo que se confunde no espaço com o corpo da câmara (daí a proliferação de planos subjectivos), mas por vezes estes dois corpos desencontram-se, produzindo uma tensão: o plano que parecia subjectivo revela-se objectivo, mas rapidamente passa de novo a subjectivo, uma indecisão que poderá desaguar numa espécie de objectivização do sujeito do mal ou, por outras palavras, numa absolutização da ideia de mal. É aqui que entra a coreografia terrificante de Carpenter que "The Strangers" tão inteligentemente absorve: a imobilidade, terrível, perscrutadora, vigilante, total, do mal, coisa abstracta em ameaçadora simetria com a condição - também ela, imóvel - do espectador, em choque com a mobilidade vertiginosa da câmara (do cinema).

Numa palavra, tudo é uma profanação do real, uma assunção do impossível no cinema e contra o cinema: por exemplo, veja-se a sequência de imagens e sons em que o protagonista regressa ao carro para recuperar o telemóvel e é tocado nas costas por uma mão que seria, julgávamos nós, espectadores exaustos de slashers, mais um susto em falso sacado de um equívoco entre os protagonistas, mas não, não é isso, nem o contrário: a mão feminina que toca nas suas costas não existe, simplesmente, irrompe do vazio. A relação entre a câmara e o objecto converte-se numa esquizofrenia dialógica de feição incerta (afinal, quem são e onde estão, ou de onde vêm, os "estranhos"? Quem é e onde está, ou de onde vem, a câmara?). Eis uma mise en scène convulsa que teoriza sobre si mesma.

Bertino está na mui exclusiva linhagem de cineastas que trabalham o espaço com a precisão de um bisturi e que entendem o mal como coisa que se move entre e, sublinhamos, dentro de nós. A sequência em que Liv Tyler observa um "estranho" pelas costas é uma inversão/perversão inteligentíssima - e, novamente, teórica - dos papéis do bom e do mau na narrativa.

A mesma ideia é explorada na menos subtil, ainda que igualmente tensa, sequência em que estamos lado-a-lado com os protagonistas, ele com caçadeira em riste, num dos quartos da casa e só vemos, à sua/nossa frente, um corredor por onde, a qualquer segundo, poderá passar a personificação impossível de todos os seus/nossos medos. O resultado desta equação é o primeiro homicídio de todo o filme - e, ao pé de Eli Roth e amigos, podemos dizer que poucos acontecerão. Contudo, este não é perpetrado por um "estranho", mas sim por outro "killer" que, ironicamente ou não, merecerá o castigo pelos seus pecados num final aterrador, de montagem quase expressionista - o quintal, uma facada, uma árvore, outra facada -, atravessado, imagine-se, pela luz mais incandescente e fulminante da manhã. Não vamos mais longe que isto: "The Strangers", um exercício vivo de mise en scène onde a verdadeira noite começa de dia.

Ler mais aqui: IMDB.

sábado, 18 de abril de 2009

Cannes 2009: a Palma que falta dar e as outras (II)

Os nomes que irão competir na próxima edição do Festival de Cannes só serão conhecidos no dia 23 de Abril, mas a Variety já avança com uma lista de prognósticos. E, podemos dizê-lo sem reservas, será uma das edições de Cannes com maior concentração de grandes nomes do cinema internacional. Desde logo, contará com cinco realizadores que têm no currículo uma Palma de Ouro: Jane Campion ("Bright Star"), Ken Loach ("Looking for Eric"), Francis Ford Coppola ("Tetro"), Lars von Trier ("Antichrist") e Quentin Tarantino ("Inglorious Basterds").

Vindos da Ásia, deverão marcar presença cineastas tão diferentes como Johnnie To ("Vengeance"), Hirokazu Kore-eda ("Air Doll"), Park Chan-wook ("Thirst") e Tsai Ming-liang ("Face"). Ang Lee, um cineasta taiwanês eternamente interessado (intrigado?) pelas questões da cultura ocidental, mostrará o muito antecipado "Taking Woodstock". Da Europa, esperam-se três habitués do festival: Pedro Almodóvar ("Los abrazos rotos"), Michael Haneke ("The White Ribbon") e Marco Bellochio ("Vincere").

Werner Herzog, herói independente do IndieLisboa deste ano (23 de Abril a 3 de Maio), exibirá o seu já muito polémico remake de uma obra-prima de Abel Ferrara: "Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans", com Nicolas Cage no papel que era antes de Harvey Keitel. Palpita-nos que será, como os de Tarantino e Coppola, um filme para dividir opiniões.

Um pouco à margem deverão ser vistos: "Up", a última animação da Pixar que abrirá o festival; "Drag Me to Hell", o regresso de Sam Raimi ao terror gore (mas aparentemente ainda com os condimentos do mainstream) e “The Imaginarium of Doctor Parnassus" de Terry Gilliam, que é sobretudo falado por conter os últimos minutos da tragicamente curta carreira de Heath Ledger.

O cinema francês poderá ter como principais concorrentes Alain Resnais ("Les Herbes folles"), Jacques Audiard ("A Prophet") e Bruno Dumont ( "Hadewijch"). Claro que o Presidente de Cannes, Thierry Fremaux, e o seu comité ainda estão a trabalhar na Selecção Oficial, que promete trazer mais surpresas. Ficamos ansiosamente à espera do dia 23 de Abril...

(continua)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Cannes 2009: a Palma que falta dar e as outras (I)

Por muito que se possa discordar desta ou daquela escolha, não há dúvida que o Festival de Cannes continua a ser "o" grande evento dedicado à Sétima Arte. Com a decadência do Festival de Berlim e mais recentemente do Festival de Veneza, a edição deste ano de Cannes tem tudo para reforçar a sua posição dominadora na formação das principais tendências de futuro na arte cinematográfica e voltar a notabilizar-se como palco privilegiado para a descoberta ou redescoberta dos grandes auteurs do cinema mundial.

Entre 13 e 24 de Maio, espera-se que a Croisette receba as maiores estrelas de Hollywood e, entre elas e fora delas, um leque forte de concorrentes, sobretudo, na competição oficial e na cada vez mais forte Quinzena dos Realizadores. O ano passado foi Sean Penn quem presidiu ao júri da competição e que atribuiu o prémio máximo a um homem da casa, Laurent Cantet ("Entre les murs"), o que não acontecia desde 1987, ano da (controversa) consagração de Maurice Pialat por "Sous le soliel de Satan".

Não se sabe muito sobre a próxima edição do certame, mas já foi noticiado que Isabelle Hupert irá ser a quarta mulher na história de todo o festival a sentar-se no lugar de presidente do júri e que, para espanto de muita gente, o festival irá abrir, pela primeira vez na sua história, com um filme de animação: "Up", obra da Disney e da Pixar realizada por Pete Docter e Bob Peterson.

Também já está confirmada a presença do último filme de Tarantino, "Inglorious Basterds". Ele que ganhou uma Palma de Ouro há 15 anos por "Pulp Fiction" e não esteve longe de repetir o feito em 2007 com "Death Proof". Ele que presidiu ao júri no ano em que Michael Moore ergueu a Palma graças a "Farenheit 9/11" (2004) - e George W. Bush, dizem as más línguas, esteve a um palmo de ganhar o prémio de melhor interpretação.

Veremos até que ponto Isabelle Hupert será imparcial na avaliação de "Inglorious Basterds": a actriz francesa esteve para entrar no filme, mas acabou por ser despedida devido ao desinteresse demonstrado pelo projecto. Lars von Trier, outro habitué do certame, deverá ter um lugar assegurado para exibir o seu último filme, "Antichrist", história de horror com Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg (filha de Serge Gainsbourg) nos principais papéis.

Aqui no CINEdrio iremos tentar acompanhar todas as principais notícias relativas à programação do festival. Até ao dia de abertura desafiamos os nossos visitantes a responderem a uma pergunta: qual a Palma de Ouro mais acertada dos últimos 8 anos? As opções são: "Entre les murs" (2008) de Laurent Cantet; "4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" (2007) de Cristian Mungiu; "The Wind that Shakes the Barley" (2006) de Ken Loach; "L'Enfant" (2005) de Luc e Jean-Pierre Dardenne; "Farenheit 9/11" (2004) de Michael Moore; "Elephant" (2003) de Gus Van Sant; "The Pianist" (2002) de Roman Polanski; e "La stanza del figlio" (2001) de Nanni Moretti. Na coluna à direita, poderão exercer o vosso direito de voto. A sondagem termina, precisamente, no dia 13 de Maio.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

El cant dels ocells (2008) de Albert Serra

Estranhamos que um filme repudiado por tanta gente nos dê tão variados motivos de reflexão. Em primeiro lugar, "El cant dels ocells" é um filme sobre um tempo que não é o nosso, ou seja, uma tentativa quase documental de convocar no espaço do cinema uma forma de vivência do e no tempo, cada vez mais profanada pelo ritmo voraz das sociedades modernas. Recapturar o tempo não é fácil e obriga o olhar de hoje a um certo esforço de conversão (no sentido religioso e não religioso do termo): na cabeça de Serra parece habitar a ideia de que filmar uma história com mais de dois mil anos não deve ser igual a filmar uma história com mil, cem ou dez anos; a cadência dos planos pode conter em si a possibilidade de trazer às pessoas de hoje a experiência, o mais embrutecida possível, do Tempo dos seus antepassados.

Neste aspecto, pode-se dizer que "El cant dels ocells" esconde uma desconstrução muito subtil do entendimento que temos de filme histórico e, até, de filme documental. Senão vejamos: o propósito de Serra passa por filmar à distância, ou observar com a câmara, a viagem épica dos três reis magos pelos climas mais adversos até à reunião com Maria e o seu recém-nascido menino Jesus. Para além das hesitações, contratempos e desconfortos que afectam um qualquer viajante, os três reis magos têm a desvantagem de pertencerem a uma época em que a terra era obscura, espaço incerto controlado por forças mágicas que se manifestavam amiúde nos sonhos e pesadelos dos homens.

Serra não questiona este episódio da Bíblia e põe logo de parte a ideia tão absurda quanto inútil de reescrever, reinterpretar ou "cientifizar" uma história que, rigorosa ou não, se inscreve como uma verdade absoluta no imaginário cultural de toda uma civilização. A sua postura é outra: partindo do princípio que a história aconteceu tal qual como nos "habituámos" a contá-la, a partir da Bíblia e dos livros, das pinturas, das músicas e dos filmes que dela derivaram, como terá sido percorrer desertos infindáveis e densas florestas - sublinhe-se, intocadas pelo homem - para um destino do qual só se tem como referência uma estrela no céu? E, entrementes, como passou o tempo na casa humilde do casal José e Maria? Pensamos que Serra coloca a si mesmo estas questões com o espírito de um documentarista, que parte de uma premissa mística para recuperar uma vivência perdida do mundo - este é o verdadeiro documento histórico em cinema... - , chocante para os nossos dias.

Não concordamos com quem afirma que a estética de Serra é inconsequente ou onanista. Claro que há um certo deleite do criador em parir "imagens bonitas", mas pensamos que "El cant dels ocells" é bem mais do que um filme extraordinariamente lento e belo, na medida em que a estética de Serra serve uma preocupação ontológica de saber o que é isso de (re)encenar a História. Olhar com os olhos de hoje ou olhar com os olhos de então? Fazer a enésima versão do "Ben-Hur" de Wyler, com todos os clichés e velocidade alucinante da modernidade ou procurar reflectir, fazendo uso do poder contemplativo e (est)ético do cinema, um Tempo imemorial? A resposta de Serra parece-nos clara depois de vermos "El cant dels ocells", tal como fora clara a resposta que Tarkovsky deu à mesma pergunta em "Andrei Rublev", visão fragmentada sobre um pintor-santo medieval, mas eivada da mesma preocupação, que agora Serra prossegue, em dar aos olhares e ouvidos saturados de hoje a experiência de um Tempo antigo. São exercícios especulativos, de fé, sobre como seria "ser" há milhares de anos. Uma brutal alteridade de que o cinema não é um meio, mas um fim em si mesmo.

É o preto-e-branco, que por vezes quase extingue as formas e dá lugar à abstracção imagética; é a duração dos planos, uma consciência do tempo que se documenta...; é o som da natureza e a música frágil que assinala a chegada dos reis magos, e o princípio do regresso; é a câmara, que enquadra os três reis magos como três pontos sobre o espaço - um "plano dentro de outro" - ; e é o silêncio, o som suspenso que põe as personagens a voar enquanto nadam, que fazem de "El cant dels ocells" um objecto tão fascinantemente inclassificável, um documentário impossível, por vezes, imbuído de um realismo lírico paradoxal, que é uma purga para o olho moderno. Descansem nas minhas imagens, é a primeira coisa que ele nos pede - e, para nós, a primeira coisa que ele alcança...

Ler mais aqui: IMDB.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Regressar em 2009 (IX - fim de votação)

53 mui solícitos leitores do nosso CINEdrio votaram nesta pequena sondagem. O vencedor é o próximo filme de Michael Mann, "Public Enemies". Ao todo recebeu 38% do total dos votos. Portanto, Mann bate Tarantino e o seu "Inglorious Basterds" (não há equívocos: "Basterds" com "e" e não com "a"), que reuniu cerca de 25% das preferências. Sobre este último já podemos confirmar que irá, de facto, participar na competição da próxima edição do festival de Cannes, marcado para 13 a 24 de Maio.



Não há muita informação disponível sobre "Shutter Island", mas o facto de vir com as assinaturas de Scorsese e de uma série de grandes actores é uma explicação plausível para os 11% de votos. Empatados entre si estiveram os últimos filmes de James Gray ("Two Lovers"), Pedro Almodóvar ("Los abrazos rotos") e James Cameron ("Avatar"). Cada um recebeu 8% dos votos.

No penúltimo lugar ficou "Riot" de John Carpenter, filme de concretização incerta que poderá traduzir-se em mais um projecto pendente na sua filmografia. Nesta altura, Carpenter parece colocar no topo das suas prioridades "The Ward", filme de terror protagonizado por Amber Heard. Perante tão temível concorrência, o regresso de Kathryn Bigelow ("The Hurt Locker") parece não despertar qualquer curiosidade, valendo uns redondos 0 votos.

Ultimamente a produção de posts no CINEdrio tem sido bastante baixa. O desleixo não é propositado nem deverá ser visto como abandono. Na verdade, esta recente falta de produtividade prende-se com dois motivos: primeiro, o trabalho, que tem roubado o tempo que outrora era dedicado à escrita bloggeira e, logo atrás, o entusiasmo que não temos sentido com - ou a incapacidade que sentimos em escrever sobre - os nossos últimos visionamentos. Esperamos voltar em força no futuro próximo. Um abraço e até lá.

terça-feira, 24 de março de 2009

domingo, 22 de março de 2009

Regressar em 2009 (VIII)

O trailer oficial do último filme de Pedro Almodóvar consegue ser mais belo que o seu já aqui divulgado teaser. Nele pressentimos o lado negro de uma história de amor e vingança e a palpitação de um grande drama humano. Foi com a recém oscarizada Penélope Cruz de um lado e Blanca Portillo do outro que Almodóvar iniciou, no passado dia 13 de Março em Madrid, a apresentação de "Los abrazos rotos". Em conferência de imprensa, o realizador espanhol revelou que este é um filme romântico que tem subjacente a história do seu amor pela Sétima Arte. Penélope Cruz sublinhou, por sua vez, a importância de Pedro Almodóvar na sua vida profissional e pessoal. "Los abrazos rotos", o filme mais caro de sempre de Almodóvar (11 milhões de Euros), deverá estrear nas salas portugueses em Setembro.

A informação data de Janeiro, mas, pelo seu valor pedagógico intemporal, decidimos publicitá-la neste post. Falamos do pequeno diário que a cineasta argentina Celine Murga escreveu durante as filmagens do último filme de Martin Scorsese, "Shutter Island". Para além de levantar o véu sobre a forma como Scorsese concebeu algumas cenas do argumento, inclui referências deliciosas às principais influências, literárias e cinematográficas, que Marty teve (directa ou indirectamente) em mente na realização deste filme. A divulgação de tão precioso documento esteve a cargo dos Cahiers du Cinéma. Poderão lê-lo (atenção aos spoilers!) através deste link, que, para além disso, tem em anexo imagens de alguns storyboards do filme.

(continua)

domingo, 15 de março de 2009

Gran Torino (2008) de Clint Eastwood

"Gran Torino" é apontado como o último filme com Clint Eastwood. Trata-se, portanto, de um filme de despedida, o render das armas de uma figura viril, solitária, muitas vezes sem nome, com passado incógnito ou demasiado traumático para ser recordado, que se pauta por princípios rígidos, inalienáveis, que acredita na família que se escolhe e não naquela que Deus nos impinge; logo, um crente mais ou menos esperançoso no Homem ou um homem que age por amor. E daqui retiramos dois temas basilares da sua obra: a família e a religião. A primeira, como dissemos, é quase sempre abnegada pelas suas personas como um "conceito" estanque e inultrapassável - cá está o maldito "conceito do conceito" a intoxicar uma conversa sobre afectos, vide o polvoroso debate em torno dos casamentos gay.

De facto, nos seus filmes a ideia de família é, quase sempre, a origem da frustração ou mesmo do ódio das personagens. Vejam-se dois exemplos: "Absolute Power" e "Million Dollar Baby". Se no primeiro Clint é um ladrão "à beira da reforma" que procura reatar a relação com a filha, que justamente prefere pensar que este não existe nem nunca existiu, no segundo temos um treinador de pugilismo que envia cartas a uma filha que abandonou e que, à falta de resposta, acaba por perfilhar, para ocupar o vazio no coração, a rapariga que a muito custo aceitou treinar. E o que dizer da família desta última? Um bando de rednecks, dissimulados e oportunistas, que sugam até ao tutano cada centavo que a pobre rapariga ganha com o seu suor.

A cena em que a horrorosa mãe procura sacar dinheiro da sua filha, quando esta está acamada, às portas da morte, parece equivaler à cena em que o filho e a nora de Walt Kowalski, o veterano de guerra irascível e reaccionário de "Gran Torino", procuram convencê-lo a mudar-se para um lar de terceira idade, com o mal disfarçado objectivo de ficaram com a sua bela casa, com uma bela mobília retro e a pièce de résistance, um imaculado Ford Gran Torino de 1972. Kowalski nunca se deu bem com a sua família e a morte da sua mulher, fiel companheira, abre até rasgar as suas cicatrizes interiores. O ocaso de Kowalski começa com a morte e a solidão que vem com ela. São estas que o despertam, como um epifania, para a realidade: ele olha à volta e já não reconhece o seu bairro, o seu país. Kowalski é remetido, ou melhor, remete-se a uma espécie de apatrídia forçada num país que não é para velhos (sobretudo, os da sua estirpe).

Em suma, a viuvez leva-o a desenterrar o passado e a confrontar-se finalmente com o seu próprio reflexo, a saber: os fantasmas da Guerra da Coreia, de todos os homens e crianças que matou, a constatação tardia de que é um pai falhado e o desolador cenário do seu bairro, o microcosmos de uma América descaracterizada, empestada como nunca pelo vírus da multiculturalidade (os "chop-soys", "os carvões", os italianos filhos da puta e, por que não?, ele, um polaco de merda). E, por tudo isto, o seu organismo de idoso sangra por dentro, como uma bala vinda do coração - lembram-se de "Blood Work"? Uma hemorragia interna que não estanca e um reflexo, no espelho ou fora dele, que se impõe.

O anti-herói de "Gran Torino" é, entre outros, o Dirty Harry (a ideia fascista de vingança como princípio de uma certa higienização da sociedade), o "homem sem nome" (sem dúvida, só um cowboy fuma, cospe e puxa o gatilho daquela maneira), o treinador Frankie Dunn (na relação com Deus e no seu propósito sacrificial), o general Kuribayashi (mais por dentro do que por fora) e o sargento Highway (mais por fora do que por dentro) num só corpo, que está velho e exausto e que busca redenção ou paz, como Kowalski lhe chama, no amor. "Old school", portanto.

Kowalski continua a ser todos eles quando se afeiçoa a uma família hmong que vive na casa ao lado da sua. Ele adopta-a tal como Dunn perfilhou a jovem lutadora de "Million Dollar Baby". Ele desembaraça-se dos seus preconceitos racistas e xenófobos tal como aquele se desembaraçou do seu machismo e tal como um caçador branco mostrou, num dos seus filmes, ter um coração negro. Clint Eastwood filma esta mudança na sua personagem como se fosse uma transfusão de sangue novo para o seu organismo. É a partir deste momento, crucial, que a sua reabilitação começa: torna-se numa espécie de pai/avô para a rapariga e o rapaz hmongs e a este último empresta-lhe a sua experiência de vida, classicamente simbolizada pela "doação" das ferramentas da garagem e, por fim, do seu Gran Torino.

Toda a simbologia da história de Kowalski resume de forma lapidar alguns dos principais traços de Eastwood. Contudo, nem tudo é perfeito aqui. Desde logo, a mudança de Kowalski parece-nos abrupta ou pelo menos apressadamente resolvida em duas cenas algo desinspiradas: o "assalto" do gang de asiáticos à casa dos vizinhos, por causa de Thao, o rapaz, e o assédio do grupo de negros a Sue Lor, a rapariga. Estes são os trigger events que nos transportam para a segunda parte do filme, desencandeando a tal metáfora da "transfusão de sangue". As duas cenas, mais a segunda, parecem-nos artificiais e mal interpretadas.

Aqui entram dois problemas de "Gran Torino": a intermitência, algo redutora, das personagens na narrativa (veja-se a do padre) e, coisa rara em Eastwood, a por vezes aflitiva falta de qualidade de alguns actores (à cabeça, o miúdo que faz de Thao e a rapariga que incarna a adolescente hmong, Sue Lor). Por muito que admiremos a interpretação de Eastwood, a proeminência da sua persona como que seca dramaticamente as outras personagens, o que é agravado pela inconsistência congénita de alguns actores.

(alerta para spoilers, a partir daqui)

Por outro lado, e apesar de toda a história de Kowalski ser filmada com a clareza e limpidez que conhecemos em Eastwood, o trabalho de claro-escuro de Tom Stern não nos parece tão inspirado aqui como, por exemplo, em "Million Dollar Baby". Mas, acima de tudo, a imagem da queda redentora de Kowalski parece-nos pouco subtil. O paralelismo crístico devolve ao filme a questão do religioso com um sentido, a nosso ver, algo perigoso. Nesse momento Eastwood procede a uma sacralização ou uma purificação litúrgica de Kowalski, quando o seu sacrifício é feito por Thao e não por Deus. Tal como a sua confissão (forjada) ao padre é feita para cumprir a vontade da sua mulher e não a vontade de Deus.

Da mesma forma, ele não perdoa toda a humanidade pelos seus pecados como Cristo na cruz, o que é mais do que visível na cena em que ficamos a saber o que Kowalski deixou no testamento para os seus familiares de sangue versus de coração. É que, para nós, "Gran Torino" não é a história de uma conversão, mas de uma descoberta íntima, interior... Nada tem de divina ou mitológica. O que urgia aqui era a desmontagem do mito e não a sua consagração.

A confusão agudiza-se ainda mais num dos últimos planos do filme. Provavelmente, o mais violento de toda a filmografia de Eastwood: o corpo de Kowalski, isto é, o de Eastwood, deitado no caixão. O realizador filma a sua própria morte da forma mais despida possível: de caixão aberto. O divino dá finalmente lugar à matéria. Mas este plano assombroso chega tarde demais para nos demover do sentimento de desilusão em ver o segundo filme consecutivo de Eastwood sem a solidez e a inspiração dos seus melhores trabalhos. Enquanto não o revemos, ficamos a remoer a muito dolorosa sensação de uma despedida que não está à altura do melhor Clint Eastwood.

Ler mais aqui: IMDB.

A revista Red Carpet diz The End

Para quem se interrogava sobre o lançamento da edição de Março, está aqui a resposta. Após aturada reflexão, a redacção da Red Carpet decidiu pôr fim ao formato revista e passar a dedicar-se exclusivamente ao site, que sairá naturalmente revigorado com esta mudança.

Trata-se, portanto, do fim de uma colaboração que se estendeu, muito especialmente, pelos 10 artigos que escrevemos para a rubrica "Cinema Clássico". Ainda assim, e como prometido, procuraremos que o artigo "Sullivan's Travels: O Fim do Cinema" seja publicado no site nos próximos dias. (Adenda: ei-lo.)

Em nome do CINEdrio e da equipa da Red Carpet, deixamos um muito obrigado a todos os leitores que seguiram o percurso desta revista feita de carolice e amor à Sétima Arte.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Angel Face (1952) de Otto Preminger (III)

Na sequência de I e II , elaborei um ensaio com cerca de 20 páginas sobre a importância do filme "Angel Face" na obra de Otto Preminger. O trabalho foi realizado no âmbito da cadeira de Realização Cinematográfica do mestrado de Cinema e Televisão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Torno-o, a partir deste momento, disponível em PDF neste link.

domingo, 8 de março de 2009

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