sábado, 17 de julho de 2010

A dança mais cool na história do cinema (lamento Godard e Tarantino, lamento...)


a. Extracto de "Picnic" (1955) de Joshua Logan



b. Extracto de "Bande à part" (1964) de Jean-Luc Godard



c. Extracto de "Pulp Fiction" (1994) de Quentin Tarantino


Qual a sua escolha?

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A débâcle do ano?

"The Last Airbender" de M. Night Shyamalan

Tenho ido cada vez menos vezes ao site RottenTomatoes para ver como é que a crítica norte-americana reage às estreias da semana nos States. Mas ultimamente tenho feito questão de tornar quase semanais as visitas à página com as críticas ao último filme de M. Night Shyamalan, "The Last Airbender".

O balanço é, até agora, o pior de sempre na carreira do realizador, batendo os fracassos monumentais de crítica que foram "The Village", depois "Lady in the Water" e, bem lá no fundo, "The Happening". Não sou um entusiasta deste último filme, mas gosto cada vez mais dele - por causa da sequência da pistola e porque entretanto vi "The Wind" de Sjostrom. Quanto aos outros dois, considero filmes maiores do cinema norte-americano dos últimos anos, sobretudo, "Lady in the Water", que é, para mim, a fábula que Spielberg nunca poderia ter feito ou que teria feito se tivesse tomates para isso. (E já li também um excerto de um crítico que diz que "The Last Airbender" é Shyamalan a tentar ser Lucas! Por favor, não me façam rir: há mais cinema num frame de "Signs" que na obra toda do Lucas.)

Bem, de qualquer forma, "The Last Airbender" parece ser a gota de água junto da crítica norte-americana; a partir de agora, Shyamalan deverá estar condenado à proscrição, como aconteceu com De Palma e Carpenter. Reconhecidos fora de portas, escorraçados dentro. Shymalan arrisca-se a levar tudo isto a uma nova dimensão, ao não renunciar em experimentar novos ângulos de câmara, dinâmicas narrativas e ao desafiar as convenções do cinema mainstream ao ponto de pôr em sério risco os seus níveis de popularidade.

É que "The Last Airbender" tem sido, de facto, massacrado: entre os críticos melhor cotados, o filme teve o incrível saldo de 7% de críticas positivas, ou melhor, 27 análises negativas e apenas 2 positivas. Isto é mau sinal? Nem por isso, pelas razões que já deixei implícitas atrás: veja-se como obras-primas suas foram tratados pelos mesmos senhores. O conteúdo destas análises também merecem alguma desconfiança, pela forma como histrionicamente espelham a incapacidade do seu redactor em lidar com a "estranheza" de um cinema para o grande público feito por um não-tarefeiro que desafia as normas. Ao ponto de Richard Corliss da TIME Magazine, por exemplo, recomendar quase que o segundo filme desta saga (baseada nuns desenhos animados da Nickelodeon) seja entregue a um realizador "eficiente", que, ouso ler nas entrelinhas, não invente: "Please, Hollywood, if there's to be another Airbender movie, hand the job to some efficient hack, and not to a once mesmerizing artist who's lost his way". Esta tem sido a atitude típica da mais conformista fatia da crítica norte-americana, que não consegue digerir o que não segue as receitas do cinema fast food, standardizado ou feito em cadeia.

Outro exemplo que me faz arrepios na espinha é este: "This is bad filmmaking and bad storytelling. It also sounds what should be the death knell to M. Night Shyamalan's career". James Berardinelli é o autor destas palavras e, apesar de não ter visto ainda o filme em questão, pergunto-me de onde veio o deleite desta gente em prenunciar "fins de carreiras" ou colar a etiqueta de "tipo que não sabe o que está a fazer" a alguém como Shyamalan. Acho que Berardinelli devia estar a dormir quando os minutos inicias de "The Happening" e os finais de "Lady in the Water", isto a título de exemplo, lhe passaram pelos olhos.

Tom Long diz o seguinte: "Stiff, fuzzy-looking, cloddish and disastrous in nearly every way, The Last Airbender looks as if it could have been made by the spoiled son of a studio mogul willing to waste gobs of money". Sinceramente, esta argumentação então é mesmo um asco: Shyamalan, o delapidador de dinheiro, o megalómano mimado com a mania que é... sei lá, um Steven Spielberg? Mas alguém duvida que o dinheiro não tem absolutamente entrado na equação de Shyamalan desde o o seu filme mais convencional, o tão elogiado por ESTA crítica "The Sixth Sense"? É por estas que Shyamalan, muito prescientemente, concebeu esta sequência de génio.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Programação de cinema na RTP2 (IX): uma carta de Laughton

De novo, Laughton em "Witness for the Prosecution" (1957) de Billy Wilder

Perguntei ao nosso excelso jurista Charles Laughton como é que a lei portuguesa define a figura da petição pública. A resposta veio em carta lacrada escrita à mão pelo insigne advogado - Laughton é MESMO um fulano do século passado. Tento traduzir aqui a sua resposta:

Caro Luís,

Folgo em saber que tenciona avançar com esta nobre causa. Ainda hoje me pasmo com o facto de haver no mundo uma estação de serviço público que não passa um filme em que eu entro, ou a obra-prima que realizei*, num período superior a 365 dias. Inaceitável!

Bem, quanto ao seu pedido, transcrevo de seguida o disposto no artigo Artigo 2.º, número 1, da Lei n.º 43/90: "Entende-se por petição, em geral, a apresentação de um pedido ou de uma proposta, a um órgão de soberania ou a qualquer autoridade pública, no sentido de que tome, adopte ou proponha determinadas medidas". No seu caso, as medidas reivindicadas são claras: mais conteúdos de cinema na grelha programática do segundo canal. Poderá ou não especificar que tipo ou de que forma esses conteúdos deverão ser tratados, à luz daquilo que a lei define como serviço público.

Quanto ao destinatário da petição, sugiro que pondere os seguintes: Ministro dos Assuntos Parlamentares Jorge Lacão, figura que tutela a televisão pública nacional; a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e/ou Ministério da Cultura.

Quanto aos requisitos para a subscrição, lê-se no Artigo 6.ª, número 3: "Os peticionários devem indicar o nome completo e o número do bilhete de identidade ou, não sendo portador deste, qualquer outro documento de identificação válido". Lembre-se também que, quanto à forma, o Artigo 9.º estipula, nomeadamente no número 3, que "O direito de petição pode ser exercido por via postal ou através de telégrafo, telefax, correio electrónico e outros meios de telecomunicação". Não se esqueça: é mister que o objecto da petição seja o mais claro e concreto possível sob pena de indeferimento (Artigo 9.º , número 5 e Artigo 12.º da mesma lei).

Mais alguma questão, tem a minha morada - olhe, estive a pensar e se calhar queria que me pagasse os honorários com uma dessas maquinetas modernas que mandam cartas pela corrente.

Seu,

Sir Charles Laughton


*- O autor refere-se a "The Night of the Hunter" (1955), film noir com Robert Mitchum que, apesar de maldito no seu tempo, é hoje considerado uma dos filmes mais plasticamente assombrosos na história do cinema - muito graças à realização de Laughton, a única na sua carreira, e da fotografia "miraculosa" do grande Stanley Cortez. Recentemente, os Cahiers du Cinéma premiaram-no com a medalha de prata numa lista dedicada aos 100 filmes mais belos do mundo.

Programação de cinema na RTP2 (VIII): reunir tropas, já!

"Contra os canhões, marchar, marchar!" ou qualquer coisa parecida em "Barry Lyndon" (1975) de Stanley Kubrick

Alguns têm-me acusado, e se calhar com alguma razão, de criticar em demasia o trabalho que a RTP2 tem feito em matéria de cinema. Digo "se calhar com alguma razão", porque a RTP2 não deixou completamente de passar cinema e mesmo algum cinema que foge à oferta das outras estações. A sessão dupla de cinema romeno há pouco tempo é disso exemplo.

A questão é que passar aqui e ali um bom double bill é fazer muito muito pouco, primeiro lugar, tendo em conta o contributo que a RTP2 deu no passado para a formação de uma sensibilidade cinéfila ou puramente áudio-visual e, em segundo lugar, tendo por referência aquilo que poderia ser e, sem motivo aparente, não é. Já citei, ou melhor, o Sir Laughton já citou, os artigos que, no fundo, definem aqueles que são os deveres de uma estação concessionária do serviço público. É comparar o que está na lei com aquilo que o canal de Wemans nos oferece (sobretudo, e perdoem-me a perseguição, às "5 para a meia-noite").

Peço a todos para votarem na sondagem aqui à direita. Será um indicador precioso saber a opinião dos frequentadores deste blogue ou/e da blogosfera em geral. Peço também que continuem a debater o estado da RTP2 à luz de todos os posts que escrevi aqui e dos muitos outros que os meus compagnons de route têm escrito nos seus espaços.

Se quiserem pertencer ao grupo redactor, basta enviarem as vossas informações pessoais para peticaortp2@hotmail.com. Estamos a trabalhar na criação de uma espécie de mailing list, com os dados mais relevantes de cada um dos elementos para ter uma visão panorâmica de quem está verdeiramente connosco neste começo de "batalha". Daí pedirmos para além do nome, idade e mail de contacto, o local de onde nos escrevem - acreditamos que só seremos consequentes se cobrirmos, dentro dos possíveis, o espaço nacional.

Até agora, enviaram-nos os seus dados:

Carlos Ferreira
Carlos Natálio
Cláudia Silvestre
João Palhares
Miguel Domingues
Ricardo Lisboa

Vamos a isto ou quê?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Programação de cinema na RTP2 (VII): Laughton dixit

Eu já escolhi o nosso advogado: Sir Charles Laughton, na imagem, em "Witness for the Prosecution" (1957) de Billy Wilder.

Em nossa defesa, do alto do seu génio "interpretativo" e dos seus muitos quilos, Sir Laughton invoca:

Constituição da República Portuguesa (CRP), Artigo 38.º (Liberdade de imprensa e meios de comunicação social):

5. O Estado assegura a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e de televisão.

CRP, Artigo 73.º (Educação, cultura e ciência):

3. O Estado promove a democratização da cultura, incentivando e assegurando o acesso de todos os cidadãos à fruição e criação cultural, em colaboração com os órgãos de comunicação social, as associções e fundações de fins culturais, as colectividades de cultura e recreio, as associações de defesa do património cultural, as organizações de moradores e outros agentes culturais.

CRP, Artigo 78.º (Fruição e criação cultural):

2. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais: (...)

b) Apoiar as iniciativas que estimulem a criação individual e colectiva, nas suas múltiplas formas e expressões, e uma maior circulação das obras e dos bens culturais de qualidade;

Lei da Televisão (LT), Artigo 51.º (Obrigações específicas da concessionária do serviço público de televisão):

1 - A concessionária do serviço público de televisão deve, de acordo com os princípios enunciados no artigo anterior, apresentar uma programação que promova a formação cultural e cívida dos telespectadores, garantindo o acesso de todos à informação, à educação e ao entretenimento de qualidade.

2 - À concessionária incumbe, designadamente:

a) Fornecer uma programação variada e abrangente, que promova a diversidade cultural e tenha em conta os interesses das minorias;
b) Promover o acesso do público às manifestações culturais portuguesas e garantir a sua cobertura informativa adequada; (...)
h) Apoiar a produção nacional de obras cinematográficas e áudio-visuais, no respeito pelos compromissos internacionais que vinculam o Estado Português, e a co-produção com outros países, em especial europeus e da comunidade de língua portuguesa;

LT, Artigo 52.º (Concessão de serviço público de televisão):

3 - A concessão do serviço público inclui necessariamente:
a) Um serviço de programas generalista distribuído em simultâneo em todo o território nacional, incluindo as Regiões Autónomas, com o objectivo de satisfazer as necessidades formativas, informativas, culturais e recreativas do grande público;

LT, Artigo 54.º (Sergundo serviço de programas generalista de âmbito nacional):

1 - O segundo serviço de programas generalista de âmbito nacional compreende uma programação de forte componente cultural e formativa, devendo valorizar a educação, a ciência, a investigação, as artes, a inovação, a acção social, a divulgação de causas humanitárias, o desporto amador e o desporto escolar, as confissões religiosas, a produção independente de obras criativas, o cinema português, o ambiente, a defesa do consumidor e o experimentalismo áudio-visual;
2 - O segundo serviço de programas generalista de âmbito nacional deve assegurar uma programação de grande qualidade, coerente e distinta dos demais serviços de programas televisivos de serviço público, nele participando entidades públicas ou privadas com acção relevante em áreas referidas no número anterior.

Laughton dixit.

Têm surgido pequenos equívocos relativamente a esta petidção por uma (melhor) programação de cinema na RTP2. A primeira prende-se com o pedido que faço aqui na coluna direita. Peço os dados de identificação e contacto a quem se quiser juntar ao grupo que irá redigir, arranjar apoios e divulgar a petição, que será elaborada e posta a circular na Internet, em princípio (dependendo da adesão), até ao próximo mês de Setembro.

A segunda questão prende-se com o contra-argumento que mais tem sido invocado pelos nossos seguidores: o facto de estes verem pouca televisão ou pouco cinema na televisão. Penso que há aqui um vício de raciocínio. Na minha opinão, actualmente, nós, isto é, todos os interessados por cinema, vemos poucos filmes na TV, devido precisamente à fraca qualidade das grelhas dos principais canais neste domínio. Reflictam e lembrem-se: se estiverem connosco nesta causa, enviem essa indicação para o mail peticaortp2@hotmail.com.

Entretanto, recomendo vivamente os riquíssimos posts que o Ricardo Lisboa tem escrito no Breath Away (I e II), o post que o Carlos Natálio deixou no seu ordet e o tomo II da reflexão de Miguel Domingues sobre o assunto. O debate também está muito interessante e activo no CZARADOX.

Rebelião/Rébellion/Rebellion

"Zéro de conduite" (1933) de Jean Vigo

"If..." (1968) de Lindsay Anderson

sábado, 10 de julho de 2010

Programação de cinema na RTP2 (VI)


Actualmente, a RTP2 exibe dois filmes ao sábado. Fora a sobrevivente "Onda Curta", não há mais nenhum espaço dedicado à Sétima Arte. Não estaríamos a queixar-nos se este tivesse a qualidade, ou próximo da qualidade, de rubricas semelhantes do passado, mas de base diária. O problema é que, objectivamente, o cinema da RTP2 é ou uma despensa da RTP1 ou uma playlist desarticulada de bom cinema. Hoje, por exemplo, passam "Zabriskie Point" (1970) de Antonioni e "Woodstock" (1970) de Michael Wadleigh. Dois filmes interessantes - o de Antonioni é magnífico - mas que surgem juntos sem qualquer tipo de contextualização. A razão para este casamento só pode ser o facto de serem filmes contemporâneos um do outro e de serem, de algum modo, emblemáticos da cultura hippie.

Tudo bem. Não digo que não se faça um ciclo dedicado à cultura hippie, mas de onde caiu isto? Porquê fazê-lo hoje, agora? Não faria sentido uma introdução a ligar os filmes à época histórica retratada, um testemunho ou mesmo uma análise (de cariz sociológico, histórico ou mesmo cinematográfico)? Para mim, isto seria ter-se o mínimo de cuidado numa estação que se diz de serviço público. Mas não, não há nada. Por outro lado, para quê passar "Woodstock" outra vez? É que este documentário com mais de três horas passou há pouco tempo a propósito da celebração dos quarenta anos do mítico festival de música - aqui, percebia-se a pertinência da exibição, mas nem por isso houve um esforço da RTP2 de a relacionar com a actualidade.

A cada sábado que passa, fica evidente a falta de uma política sólida de programação em matéria de cinema no segundo canal. Por este exemplo, demonstra-se que umas vezes os filmes como que respondem a assuntos da "actualidade"; outras vezes, aparecem totalmente desligados desta. O problema é que não há ninguém nem nada que os articule ou desarticule com a agenda mediática.

Entretanto, juntaram-se ao grupo peticionário dois valiosos membros: o João Paulo Costa do CinePt e o Ricardo do Breath Away. O Miguel Domingues do In a Lonely Place está também a reunir tropas no seu blogue. É dar uma espreitadela aqui. Convido-vos também para o excelente debate que se desenrola aqui.

Se se quiserem juntar ao grupo, basta enviarem um mail com nome, idade, mail e mais o que quiserem para peticaortp2@hotmail.com. O nosso objectivo é criarmos uma espécie de mailing list para lançar a petição num futuro próximo.

Ficamos à espera de alargar este grupo. Já sabem, se concordarem com esta causa, não hesitem, juntem-se a nós - o único compromisso será promover e assinar a petição.

Uma América (ainda) a sonhar com as suas fantasias de criança: a infância de Joey podia ser a de Bronco

"Little Fugitive" (1953) de Morris Engel, Ruth Orkin & Ray Ashley

"Bronco Billy" (1980) de Clint Eastwood

(Já agora, a magnum opus de Eastwood é esta -- só talvez "As Pontes de Madison County" lhe faça frente em termos de alma e coração, a matéria-prima de que é feito o melhor Eastwood.)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Édipo: "Mommy, mommy, baby wants to fuck!" (uma homenagem)

"White Heat" (1949) de Raoul Walsh

"Blue Velvet" (1986) de David Lynch

Programação de cinema na RTP2 (V)

"Taxi Driver" (1976) de Martin Scorsese

Gravo filmes desde "A Casa Encantada". Devia ter 13 anos quando gravei a obra-prima de Hitchcock (e Dali?) e, depois de o ver três ou quatro vezes, comecei a gravar incessantemente até hoje. O fim do "5 Noites, 5 Filmes" marcou o princípio da minha insatisfação face à forma como a RTP2 estava a ser gerida - e, assim, uma história de amor transformou-se numa história de ódio e vingança... contra aqueles que tiraram do ar aquele que era para mim o espaço mais significativo da televisão portuguesa. Mas não sou partidário do neo-nazismo forçado de um Bickle ou do justicialismo bronsoniano ou dirty harriano (apesar de todos eles serem cool como o caraças). Por isso, a minha via terá de ser a mais democrática que encontro: uma petição pública.

Até agoro, conto com Miguel Domingues do blogue In a Lonely Place e Carlos Natálio do blogue ordet como parceiros peticionários. Se se quiserem juntar, ponham um comentário num destes posts ou enviem mail. Entretanto, peço a todos que respondam à pergunta que coloco já aqui na coluna à direita: "Como classifica a actual programação de cinema na RTP2?".

Programação de cinema na RTP2 (IV): um tête-à-tête com Wemans

"Welcome to prime-time, bitch!", asserção do excelentíssimo "programador" Freddy Krueger

"A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors" (1987) de Chuck Russell

Diz-me o senhor Wemans: "Mas, ó caro Luís, você que tem a mania que é bom, devia perceber que as razões para a redução do número de filmes na grelha da RTP2 se deve ao facto da maioria do público cinéfilo hoje em dia - sobretudo, jovem - consumir filmes pela Internet, à la carte". Ao que eu respondo: "Certo, isso é uma realidade, mas o caríssimo senhor Wemans também sabe que os meninos e meninas só vão descobrir coisas como Kitano, Tati, Godard, os checos, os tailandeses, os romenos, os filipinos e, levando ao limite o exotismo, os portugueses se alguém lhes der a ver esse cinema. Senão, como explica o sucesso consolidado que é a Cinemateca e o clamor instalado para que se abram filiais da mesma em vários pontos do país? Há fome de cinema, o cinema está acessível na Internet e em DVD, mas falta mostrar o caminho. Esse caminho chama-se, a meu ver, "serviço público". E é dever da RTP2 desbravá-lo e guiar-nos na viagem".

Face a esta resposta, o senhor Wemans riposta rapidamente com um "Epa, mas tu pensas que se retomássemos uma programação intensiva de cinema as pessoas iam ver? Elas têm imensas alternativas hoje em dia, com os canais temáticos de cinema do Cabo. Nós não conseguiremos fazer frente a tal concorrência". "Concorrência?", isto sou eu, "Mas já passou os olhos por esses canais? São listagens caóticos e aleatórias de filmes acabadinhos de sair das salas, muitos deles, de qualidade duvidosa e que interessam pouco a este "público alvo", termo que seguramente aprecia e que aplico aqui para cair nas suas boas graças...Claro que, aqui e ali, passam filmes raros ou interessantes, mas aparecem descontextualizados, sem o enquadramento que, por exemplo, a Inês de Medeiros e os seus convidados faziam em "Filme da Minha Vida" ou das extraoardinárias apresentações de Bénard da Costa".

"Luís", diz Wemans - mas ele sabe quem eu sou, eu, um mero mortal? -, "O que diz faz algum sentido, mas é totalmente irrealista, sobretudo, nesta conjuntura internacional de crise. Tudo isso sai caríssimo". "Sai?", returco eu, "Mas não está a sair muito mais caro um talk show em directo todas as noites? Ou um magazine cultural que padece do paradoxo do Ornitorrinco (é um programa de entrevistas? É um magazine cultural? É temático? É generalista?)? Ouvi dizer que bom dinheiro tem sido investido nestes "conteúdos", outra palavra que decerto apreciará, o que é muito pouco visível no resultado final, inclusivamente em termos de "share" - ui, outra. Também não se pode dizer que seja uma política financeiramente equilibrada investir em documentários/filmes que depois não promove, ou promove mal, ou/e não divulga no seu canal".

"Luís", de novo Wemans - mas que confianças são estas? Ele conhece-me de algum lado para me tratar pelo primeiro nome? -, "Tudo bem. Nós temo-nos desleixado um pouco, mas olha fica descansado que eu irei reflectir sobre esta conversa. Terei em conta as queixas que me transmitiste".

"Obrigado", respondo.

Afinal o Wemans até é um gajo porreiro.


ATENÇÃO: esta conversa é pura invenção minha. Não aconteceu mas podia ter acontecido - só teria, se calhar, outro desenlace. Juntem-se a nós para incluirmos alguns destes argumentos numa petição pública por uma RTP2 com uma programação de Cinema.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Conferência Década dos Zeros em linha: (o3 ∧ o4 )/o4










0000000000000000O rest00000000o
aqui.

(flashback?)










Programação de cinema na RTP2 (III)

Exemplos de (outros) cineastas que descobri graças à falecida RTP2 (sem ordem absolutamente nenhuma):

L. Mankiewicz

Eisenstein

Ford

Truffaut

Tarkovsky

Tati

Agora, se preferem ver, ao invés, a fronha do Nilton ou do Alvim, isso já é problema vosso...

Até ver, parceiros peticionários: Miguel Domingues do blogue In a Lonely Place e Carlos Natálio do blogue ordet. Juntai-vos e multiplicai-nos! (Como? É deixar comentário ou enviar mail.)

Programação de cinema na RTP2 (II)

"Videodrome" (1983) de David Cronenberg

Pior que não haver claramente uma programação de cinema no canal público estatal, supostamente, dedicado à cultura, é o facto de o pouco cinema que existe ser enxotado para as noites de sábado em dose dupla tantas vezes desconexa (porquê passar "Transe" e "Entre os Dedos" juntos? Porque são... portugueses?! Porquê repetir continuamente os mesmos filmes que ou já passaram no próprio canal ou passaram há pouco tempo na vizinha RTP1, que, já agora, consegue ter mais cinema que a RTP2 -- e, meus amigos, que cinema!).

A pobreza desta (não-)programação torna ainda mais embaraçoso este buraco programático: face às escolhas feitas, percebe-se que não há interesse, motivação e/ou conhecimentos dentro da RTP2 (já não há, digo!) para se introduzir nesta área alguma lógica formativa ou, não há que ter medo das palavras, uma certa política educativa empenhada no alargamento dos horizontes culturais dos portugueses. Que saudades das lições de cinema que Bénard da Costa dava antes de um Hitchcock. Foram as suas palavras transmitidas pela RTP2 que me fizeram ver e rever várias vezes "A Casa Encantada", o primeiro filme que gravei na minha vida. Bem-ditos VHS que ainda me permitem voltar atrás no tempo para relembrar como a televisão já celebrou o grande Cinema.

Entretanto, o Miguel Domingues do blogue In a Lonely Place já se juntou a nós na iniciativa de se lançar uma petição pública a reivindicar uma programação de cinema de qualidade na RTP2. Pedimos a quem concorde com ela que se junte a nós - para tal, é só preciso deixar uma mensagem nestes posts ou enviar-me um mail. Vamos a isso?

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Programação de cinema na RTP2 (I)

"Ohayô"/"Good Morning" (1959) de Yasujiro Ozu

Não há. Não há e todos temos saudades dos tempos de "5 Noites, 5 Filmes" e "Filme da Minha Vida". Não havia uma cinemateca em cada esquina, mas havia cinema de grande qualidade programado por quem conhece. Foi um período de formação para mim que terminou desde que entrou para aquela estação o senhor Jorge Wemans ou sensivelmente desde que decidiram acabar com o "Acontece". Se ninguém fizer nada e deixar que os serões de um canal com o passado da RTP2 (cada vez mais passado, diga-se) seja ocupado por um bando de ineptos a brincar aos talk shows então serei eu o primeiro a iniciar uma petição. Who's with me?

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