quinta-feira, 29 de julho de 2010

The Hangman (1959) de Michael Curtiz


Muito subvalorizado western de Michael Curtiz que, com ironia, desenrola um intrincado novelo feito de mentiras ou, como sagazmente apontam os seus avanços e recuos narrativos, "não-verdades". Há, por isso, uma componente ensaística nesta obra com título de filme (de terror) violento onde não há uma única morte e os poucos tiros que são disparados saem todos por cima, propositadamente ou não.

Em "The Hangman", estamos por isso sujeitos a um exercício sobre as aparências, protagonizado por um homem que não acredita nelas - e desconfia de toda a gente - e outro que acredita - e, por isso, confia em toda a gente.

No meio, claro, está a bela Tina Louise, uma jovem cujo carácter vai ser posta à prova em face destes dois homens e mais um: um criminoso à solta que, vamos vendo, não é propriamente o típico vilão de um western. Na realidade, a certa altura, este parece menos vilão que o xerife (o primeiro homem, interpretado magnificamente por Robert Taylor).

E Tina Louise, que se parece "prostituir" no início, acaba por se revelar íntegra por... ter mentido! A mentira pode conduzir à verdade com a mesma facilidade com que a desconfiança é isso mesmo: uma palavra ("confiança") desfeita pelo seu prefixo ("des"), qual sanguessuga que não larga a sua vítima; qual casal ligado por umas algemas cuja chave é, enfim, o amor. Obra-prima deliciosa.

O filme do ano (VII)


O alinhamento da competição do próximo Festival de Veneza já foi divulgado e não há, ao contrário dos boatos, Malick, não há Eastwood e não há, meus caros leitores, John Carpenter. Por isso, como diz CR9, vamos ter de guardar "o fogo" para outra altura.

De qualquer maneira, encontramos alguns nomes sonantes em competição, onde destaco (por ordem de preferência) os últimos de Abdel Kechiche, Kelly Reichardt, Sofia Coppola e Vincent Gallo (ai ai ai, ele está de volta...).

Ficarei atento também ao trajecto dos últimos filmes do vietnamita Anh Hung Tran e do chileno Pablo Larraín. (Sim, não incluo "Black Swan" de Aranofsky, porque acho que "The Wrestler" foi a excepção numa carreira, até ver, medíocre.) Os portugueses João Nicolau e Manoel de Oliveira estarão em secções paralelas do festival.

Momento Feio


Sei que esta introdução foi feita a pedido do "realizador" Fernando Fragata. E basta isto para percebermos o nível (ético e intelectual) deste senhor, que seguramente irá até ao fim do mundo para se tornar no "Steven Spielberg português". Este dispositivo de pôr António Feio a introduzir o trailer da sua última produção é uma exploração quase pornográfica das emoções: qualquer coisa entre um daqueles momentos evangelizantes de um canal de TV religioso e aquelas "histórias de vida" lacrimejantes que intervalam os episódios das novelas brasileiras.

É triste a forma como Fragata faz uso da situação - conhecida de todos - de António Feio para vender mais bilhetes e gerar lucros para o seu próximo blockbuster de vão de escada. Veja-se, em plano frontal, o rosto de um actor cuja fragilidade emocional e física é usada como primeiro "efeito especial" espectacular de um trailer!

Cá está um filme que não tenciono ver e, devo dizer, tenho pena que haja tanta gente que se deixa iludir por estes truques abjectos, dignos da mais bárbara forma de marketing.

Actualização: Acabo de ler a notícia chocante da morte do actor António Feio. Quero sublinhar que escrevi este post antes do sucedido e que lamento muito a morte de um homem talentoso e bom da nossa cultura.

Safdie vs. Cassavetes (XIII): chocolates

Irmãos Sadfie estão para


como Cassavetes está para

Glengarry Glen Ross (1992) de James Foley

Tem contornos de crime o que se passou aqui: só aos 24 anos me chega aos olhos um dos filmes melhor escritos e interpretados dos anos 90. Não há palavras e suspeito da existência de uma conspiração internacional, que deverá envolver o actual Primeiro-Ministro, empenhada na ocultação desta obra-prima na minha vida... até hoje.

É o mais genial pedaço de escrita de Mamet e, curiosamente, quem realizou este seu argumento baseado numa peça de teatro da sua autoria foi Foley. É difícil descrever o fulgor criativo e infindáveis subtilezas deste "filme de palco" com alguns dos maiores actores do cinema norte-americano.

Também me faltam adjectivos, neste momento, para qualificar a interpretação de Lemmon como de Pacino. E fico-me por aqui, porque tenho de levar este caso a tribunal.

América e as suas palavras de ordem: sell, sell, sell/buy, buy, buy

"Salesman" (1968) de Al & David Maysles

"Glengarry Glen Ross" (1992) de James Foley

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Safdie vs. Cassavetes (XII): consolas

Irmãos Safdie estão para


como Cassavetes está para


(Por favor, avisem-me quando chegar à Essência.)

Programação de cinema na RTP2 (XII): uma medalha vermelha pela (falta de) coragem


Obrigado RTP2 por teres passado "The Red Badge of Courage". Sei reconhecer o mérito desta escolha e valorizar, de novo em termos puramente cinematográficos, o double bill recente dedicado ao grande John Huston. É um dos meus realizadores favoritos (como está patente no cabeçalho deste blogue) e os dois filmes mostrados não são, longe disso, as escolhas mais óbvias dentro da filmografia do realizador. Agora, não vejam no que digo qualquer acto de contrição.

As críticas que tenho dirigido à RTP2 não se prendem com a qualidade dos filmes que esta mostra em sessão dupla aos sábados, mas, repito, com a forma como esta (não) os enquadra e liga entre si. Muito bem, para mim, que conheço razoavelmente bem a obra de Huston, não me é estranho o (aparente) eclectismo de este ter na sua filmografia um filme de guerra tão brilhante como "The Red Badge of Courage" (1951) e depois, nos anos 70, fazer um arrojado filme político, de título "The MacKintosh Man".

O problema é que, para o espectador-médio, Huston é só um nome no genérico, que lhe dirá pouco antes e não dirá muito mais depois desta sessão. Por outro lado, pergunto-me se não seria pertinente enquadrar histórica e esteticamente o período que separa um filme de 51 cujo tema é, stricto sensu, a guerra civil norte-americana de um thriller político - muito em consonância com o espírito do chamado cinema liberal norte-americano dos anos 70 - realizado vinte anos mais tarde, não nos Estados Unidos mas na Grã-Bretanha e Malta - ai, o "exotismo" dos pós-clássicos!

Eu, que vejo tanto cinema na televisão como comprado e sacado - e compro muito -, agradeço estes excelentes momentos de cinema, atomizados e saídos a conta-gotas, que a RTP2 lá nos vai proporcionando. Contudo, agora que "5 para a Meia-Noite" merece dose dupla quase todos os dias da semana, eu pergunto: não acham que podia haver uma melhor programação de cinema no canal 2? Melhor: não teremos nós, o seu público, o seu meio de subsistência, direito a mais do que esta prática de enxotar filmes para o sábado, como quem atira lixo para debaixo do tapete? Vou ser franco: eu sinto que ando a comer migalhas num prato que poderia estar farto de boa comida e manter, sem dificuldade, uma boa apresentação.

Obrigado RTP2 pelos Hustons, mas eu quero mais Hustons e quero que nos ajudem - a mim, que já conheço algumas obras-primas do realizador, e ao espectador que não conhece nenhumas - a apreciá-los em toda a profundidade.


Peço a todos para votarem na sondagem colocada na coluna à direita. Também gostava de ouvir/ler as vossas opiniões sobre este assunto, sobretudo daqueles que não concordam comigo e acham que a programação de cinema da RTP2 é muito boa, boa ou suficiente.

Se concordarem, podem-se envolver previamente na iniciativa enviando as vossas informações pessoais para peticaortp2@hotmail.com.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O filme do ano (VI)


A menos de dois meses da estreia do último filme de Carpenter nos EUA - espero notícias de Veneza, para muito breve -, é tornado público o link para aquele que será o site oficial de "The Ward". Ainda em construção (na visita que acabo de fazer constato que acabam de alterar alguns ícones), podemos encontrar nele um punhado de vídeos de rodagem, uma sinopse completa, mas sobretudo um espaço para onde convergem as mais frescas notícias sobre este filme.

Em matéria de imagens, pouco tem saído cá para fora, salvo a algo duvidosa montagem que acima publico - nestas coisas, a especulação nunca fez mal a ninguém, por mais imprecisa que seja... A ansiedade está em cima por estes lados.

Safdie vs. Cassavetes (XI): tabaco

Irmãos Safdie estão para

como Cassavetes está para

Os trailers mais geniais (= filmes mais geniais?)


a. Trailer de "Le mépris" (1963) de Jean-Luc Godard


b. (O já
aqui citado) trailer de "Femme Fatale" (2002) de Brian De Palma


c. Trailer de "Dogville" (2003) de Lars von Trier

Qual a sua escolha?

(Outros momentos aqui - vote!)

Numa batalha vão-se os anos de juventude*

"The Big Parade" (1925) de King Vidor

"The Red Badge of Courage" (1951) de John Huston

*- stricto e lato sensu.

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