quinta-feira, 5 de agosto de 2010

The 13th Warrior (1999) de John McTiernan


"The 13th Warrior" é um filme falhado, aliás, como praticamente todos os filmes de McTiernan dos últimos 10 anos. Mas nele há pormenores que me fazem recordar o seu característico pragmatismo no que toca a contar histórias mais ou menos heróicas de acção, passadas hoje ou no tempo dos Vikings (que vão voltar a estar na moda em breve - McTiernan parece estar sempre atrás das modas... -) ou no tempo do cinema (vide o magnífico "Last Action Hero", provavelmente a sua obra-prima).

Gostava de ver preservada a ambiguidade quanto à "natureza" do inimigo, na antecipação do que acabaria por fazer Shyamalan em "The Village", guardando até ao fim a resolução de um dos mistérios. Contudo, é interessante a forma como voltamos a experimentar a atmosfera de "Predator", mas, desta feita, em 922 a.C., ou como nos deparamos com alguns truques audiovisuais que conhecemos de outras obras do realizador: exemplo da forma como McTiernan traduz a língua dos vikings para inglês, desembarançando-se (descaradamente, apetece dizer) do problema de comunicação que aflige o protagonista Antonio Banderas (o árabe) - e o próprio espectador...

Num close-up brutal sobre os lábios do orador a câmara como que lança o feitiço e torna compreensível o incompreensível. McTiernan faz o mesmo, e muito mais elegantemente, em "The Hunt for Red October", em que os oficiais do submarino começam por falar russo, mas quando a câmara se aproxima dos lábios de um deles o russo transforma-se (miraculosamente!) em inglês. Ágil, pragmático - sobre isto, recomendo esta leitura - e, enfim, bela imagem metafórica sobre "o grande poder do cinema": tornar verosímil o absolutamente inverosímil.

(Tudo isto fez-me lembrar uma citação num livro de Edgar Morin, que reflectia lapidarmente o espanto de muita gente no dealbar do cinema: como podemos nós acreditar que num cenário como uma mina seja audível uma orquestra inteira a tocar dramaticamente, se ela não está nem pode estar lá fisicamente?)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Luz, sombra e sombra

"Nosferatu, eine Symphonie des Grauens" (1922) de Friedrich W. Murnau

"Ne change rien" (2009) de Pedro Costa

Programação de cinema na RTP2 (XIV): o respeitinho é muito lindo

Neste país de treinadores de bancada, dos bitaites, do "politicamente correcto", do "a minha vida não é isto", dos boys e do bota abaixo (...)

Ainda a propósito disto, fora as coisinhas - muito poucas - menos actuais, ouçamos bem todos juntos de mãos dadas:



O resto aqui.

(Não, não é para rir.)

5 para a Meia-Noite: solilóquios de perfeitos anormais


É fixe ser-se estúpido, fazer-se piadas próprias de um miúdo de cinco anos e a seguir rir desengonçadamente. Parecer idiota é uma moda que está para ficar, o que é visível em muito do humorismo que se pratica todas as noites na RTP2.

Fernando Alvim, homem adulto com mentalidade de adolescente "American Pie", é o rei deste género de comediante narcísico imbecil e imbecilizante - do género de "comer gelados com a testa". Os programas do "5 para a Meia-Noite" que vi revelam um "talk show" com pouca "talk", isto é, muito mais centrado nas reflexões/piadas inanes e onanistas do apresentador do que no convidado. Várias vezes o único que se ri e se está, de facto, a divertir é aquele.

Pena que a estação pública, supostamente dedicada à promoção e divulgação da cultura, lhe dedique tempo de antena. Uma vez por dia? Qual quê! Duas vezes: primeiro em directo e depois em repetido. Muito rasca.

It is not random in itself

Ben & Josh Safdie, "Go Get Some Rosemary"* (2010)

Shadows rejects an overall framing of character or event, explaining Cassavetes' lack of popularity with critics who formulate interpretation and categories. (...) Shadows shows that identity and events are 'found' rather than predetermined and laid out in a neat pattern that we can interpret. (...) Shadows presents a portrayal of life as random, it is not random in itself.

Jack Sargeant, Naked Lens (1997), A Soft Skull ScreenPrint Book, p. 64

[Permitam-me que vos relembre da sequência em que Lenny vai passar uma noite a casa da namorada e esta aparece a falar de uma amiga à qual esta pediu desculpas, passando uma música. Desta amiga ficámos sem saber mais nada, como quem apanha uma conversa na rua a meio. Depois, ficamos a saber que o vizinho grita muito - e isso preocupa Lenny. Aquele surge numa sequência que fica como uma das várias pontas deixadas (propositadamente) soltas de "Go Get Some Rosemary".]

Nova trilha (VII): Ponyo e The Velvet Underground

Ponyo (à esquerda) em "Gake no ue no Ponyo" (2008) de Hayao Miyazaki



(Dedico esta à Ana Maria.)

Nova trilha (VI): Gainsbourg e Pixies

Charlotte Gainsbourg em "Antichrist" (2009) de Lars von Trier

Programação de cinema na RTP2 (XIII)


Neste país de treinadores de bancada, dos bitaites, do "politicamente correcto", do "a minha vida não é isto", dos boys e do bota abaixo, é interessante ver como nenhum dos ilustres votantes das opções "suficiente" ou "boa" da sondagem colocada à direita (ainda activa e à espera de mais votos) expressou os seus argumentos em qualquer um dos posts que já dediquei ao assunto "cinema na RTP2". (E, já me interrogo, se calhar se expressassem não sairia coisa muito melhor do que isto...)

Já sem esperança, lanço de novo o desafio: aos que não concordam com o que tenho dito até aqui, pergunto-vos por que consideram "suficiente" ou "boa" a programação de cinema da RTP2. E deixo outro desafio: olhando para a sessão dupla desta semana, "Tess" de Polanski (que passou há pouco tempo no mesmo canal) e "Deus Sabe Quanto Amei" de Vincente Minnelli, queria saber junto de tão sapientes votantes e leitores qual a lógica (fora a da batata) deste double bill.

Nova trilha (V): Shue e The Magnetic Fields

Elisabeth Shue em "Leaving Las Vegas" (1995) de Mike Figgis

domingo, 1 de agosto de 2010

Nova trilha (II): Page e Jensen

Ellen Page (e Patrick Wilson) em "Hard Candy" (2005) de David Slade

Nova trilha (I): Darnell e Elvis

Linda Darnell em "Fallen Angel" (1945) de Otto Preminger


A Natureza espreita (7 + 1)

"Marketa Lazarová" (1967) de Frantisek Vlácil

"Stalker" (1979) de Andrei Tarkovsky

(E, antes de tudo, "Marketa Lazarová" foi claramente influenciado por "Andrei Rublev".)

Syndromes and a Century (2006) de Apichatpong Weerasethakul

Os "eclipses" de "Syndromes":

Primeira Parte



Segunda Parte


O cinema de Apichatpong parece caminhar, a passos largos, para a derradeira fusão entre a instalação audiovisual e o cinema - aliás, é o próprio que diz que ambos os media pertencem ao mesmo reino.

Apesar de não possuir o poder encantatório de um "Tropical Malady", "Syndromes and a Century" leva mais longe o nível de abstracção sensorial característico do realizador tailandês, sobretudo, ao traçar uma linha divisória ultra-conceptual a meio do filme: uma primeira parte explora, esparsamente, alguns esboços de plot que se perdem no tempo com a mesma facilidade com que a câmara vai sendo atraída pelos sons da floresta que ressoam na interioridade futurista dos corredores branco asséptico de uma clínica de saúde; e uma segunda parte, que se inicia na repetição da primeira, mas que se detém na subtracção das marcas VISÍVEIS do humano e da Natureza, deixando à câmara, só no espaço fechado - sem luz natural -, a tarefa de transformar o vazio numa narrativa própria, mediante a sua "levitação" em tal set insondável, digno de um filme de ficção científica. (Bem que "Syndromes and a Century" poderia ser descrito, para quem já viu algum filme de Apichatpong, como o seu "2001".)

Aliás, este filme de Apichatpong, espectral e cosmológico, antecipa exercícios seus subsequentes, como "A Letter to Uncle Boonmee", a curta embrionária da sua recente Palma de Ouro*: aí, o humano é quase abafado pela floresta, os espíritos que a povoam em surdina e, enfim, a própria câmara, que se move pelo impenetrável dos bosques com uma graciosidade impossível. Há qualquer coisa de profundamente inefável, ou inclassificável, que torna este cineasta e cada um dos seus planos num dos enigmas mais interessantes do cinema actual. "Syndromes and a Century" é a nova verificação disso mesmo.


* Sobre "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", recomendo vivamente o visionamento da conferência que Apichatpong deu em Cannes sobre este seu último filme e demais obras.

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