domingo, 5 de setembro de 2010

Aquele olhar

"Bonjour Tristesse" (1958) de Otto Preminger

"La prima notte di quiete"/"Outono Escaldante" (1972) de Valerio Zurlini

(É oficial: eu sou uma besta. Disse que Preminger era o realizador das mulheres bonitas e depois levei com uma chapadona do Zurlini, um dos maiores realizadores que conheço do século passado - e, quase de certeza, o melhor italiano pós-neo-realismo. Ele é, obviamente, "o" realizador das mulheres bonitas. É comparar Sonia Petrovna a Eleonora Rossi Drago ou a Claudia Cardinale e passar noites em claro a tentar apurar, com algum grau de "cientificidade", qual a mais perfeita! E, já agora, façam o mesmo com os filmes que protagonizam. Ninguém, ninguém, sem ser o Zurlini, poderia filmar esta cena e conseguir aprimorá-la, depois, aqui.)

sábado, 4 de setembro de 2010

Irène (2009) de Alain Cavalier


Irène, sempre exigiste tudo de mim e eu só exigia a tua presença. Que filme belo e triste, este que se projecta (de dentro do cineasta para dentro de nós) nas salas portuguesas. Entre o poema elegíaco ao amor por uma mulher - que chora de mansinho a sua inelutável ausência física - e o muito pessoal processo, ritualizante e terapêutico, de exorcismo de uma memória trágica através da câmara, extensão do braço de Cavalier? Não, extensão do seu coração perfurado pela imagem de Irène - aquela que o realizador, que o homem..., preservou VIVA na sua cabeça. O fetiche da câmara ou a câmara fetichista?

Momento quase lôbrego: Cavalier fala para o espelho, câmara em punho, referindo-se a Irène, mas ela obviamente não pode estar lá. A quem se dirige Cavalier, para além de si mesmo? A pergunta podia ser feita também a Robert Frank quando realizou o magnífico - e corajoso - "Home Improvements": filmar o buraco interior - como a melancia e o ovo -, exteriorizá-lo, dessacralizá-lo mostrando-o, despido, ao mundo é o que nos leva a apelidar esses filmes de autobiográficos, mas também de heterobiográficos - porque essa nudez, essa... verdade?, pode tocar, beliscar mesmo, o íntimo de qualquer espectador.

A câmara, estava a dizer, parece exorcizar - parir - uma memória dura, despertando o espectador para as suas mais insondáveis propriedades ancestrais, mágicas, autenticamente mediúnicas. Cavalier, como Frank, recusa a plástica distractiva, a decoração narrativa balofa do cinema tradicional (narrativo? não, não há nada mais narrativo do que isto...), e vira o objecto-filme para si mesmo, nomeadamente através daquele espelho que nos devolve a sua imagem mas, mais do que tudo, nos faz interrogar sobre um cinema levando ao limite a possibilidade de uma desintermediação. O Cinema esfuma-se e, ao mesmo tempo, engrandece-se.

(Alguém edite isto cá, já!)

O aftermath casapiano


Dois condenados do caso Casa Pia dão conferências de imprensa no Hotel Altis. E não digo mais nada.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Mourinha, the special one

Eu não tenho nada em particular contra o senhor Jorge Mourinha, mas tenho de deixar aqui uma pequena observação enquanto leitor desde muito pequeno do jornal Público e da sua crítica cinematográfica - que globalmente sempre tive como a melhor do país.

Que o senhor goste de "Stardust", o último "Predator", "Salt" e dê praticamente três ou quatro estrelas a tudo o que é filme de acção mais ou menos espectacular com actor ou actriz da sua predilecção tudo bem, mas nas páginas deste jornal aparece como algo TOTALMENTE deslocado.

Relembro que Mourinha veio substituir a Kathleen Gomes, um crítico capaz de pôr em sentido, em matéria de exigência, qualquer um dos seus pares. O Público sempre se pautou por exigência e uma crítica que consegue ir além da mais epidérmica reacção. Mourinha é um crítico informado, "profissional" e não escreve tão mal como muitos dizem, mas não está na publicação certa. Isto é tão evidente quantas as vezes que olhamos para a tabela das estrelas e as vemos tremendamente inflacionadas na sua coluna.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O filme do ano (IX)

Está confirmado que não será Carpenter a assinar a banda sonora de "The Ward". Nas palavras do próprio, retiradas da sua mais recente entrevista, "I decided when I came back what I will and won’t do. I won’t do the music anymore, I can’t do it. I am burned out on that. On my last film, before the one that is coming out now, ‘Ghosts of Mars,’ there is a behind-the-scenes deal. There are shots of me on the set that I looked at and those shots are after the music mix, after I had gone through it and I was a zombie."

A entrevista conta com outros momentos muito interessantes, que revelam um Carpenter mais amadurecido - a "velhice" é assunto recorrente - e (ainda mais) desiludido com Hollywood. Cito em baixo as que são, para mim, as passagens mais significativas (ilustradas pelas melhores fotos da rodagem de "The Ward", recentemente publicadas aqui).

What was the reason behind that hiatus?

Burned out! That’s it. I thought “I can’t take this anymore. I don’t want to do this anymore.” I kinda had a bug when my last movie tanked pretty big time. I thought to myself “Why am I doing this. I am killing myself with this.”

(...)

You have been so hands-on with all of your films. Is there a part of the film-making process that you prefer?

Being on set. I live for that.

(...)

Another project that you are attached to is ‘Fangland.’ Can you talk a little bit about that?

It is a novel that has been turned into a script and we are still trying to get a good screenplay out of it.

How did you first cross paths with that project?

Somebody at the office said “Would you like to do this?” I read it and I thought it had a very interesting idea. So, now we will just have to see if we can get it there.

Originally the script had been described as a modernized version of ‘Dracula.’ Right now, vampires are all the rage and you have tangled with the undead before. Maybe this is a little premature but, what is your vision for the film?

Well, it is not about a vampire. We’re changing that. Vampire movies always work. They are always fun but they are a little over-saturated right now.

Another one is ‘L.A. Gothic’ …

Which has undergone a title change. I actually have a copy of the script which I am supposed to read this weekend and we will see where we go from there.

Horror is a lot different than it used to be. What are your thoughts on the current state of that genre?

Horror is always the same. It just changes with the culture and changes with the technology. The stories are always the same. There are just two basic stories in horror, two simple ones — evil is outside and evil is in here [pointing to his heart]. That is basically it. There are a lot of good horror movies being made right now, there have been a lot of good movies that have been made, and a lot more probably will be made.

3D and remakes are two subjects that I am sure you get asked about all the time. As a director/creator, do you think that these are signs that the Hollywood machine is running low on original ideas and do you think fans will eventually look to alternative mediums for their entertainment?

Hollywood already ran out of original ideas years ago, except for a very few films that come along that try something new. A lot of the stuff that they program is not new anymore. 3D is another way that the technology has evolved. Look at when the original ‘Toy Story’ came out. That was a huge step in storytelling. 3D has evolved in that same way. Personally, I don’t really know. I know one guy in Hollywood, Jeffery Katzenberg, says that soon every movie will be made in 3D. I don’t believe it. I went through the first 3D craze, I was there! I wore those glasses and I remember it! It died!

What are your thoughts on remakes, as a director who has directed a remake and had a few of his films remade?

It is the tradition of Hollywood. It has been done a lot. They remade ‘The Maltese Falcon’ four or five times. They remade ‘A Star Is Born’ … and they will be doing that again. Nowadays, for genre movies, it is so difficult to advertise for films, there is so much clutter, so many advertisements and so many people wanting your dollar that producers and studios try to cut through all of that with something that you will recognize. A title that maybe you heard of when you were young or your siblings watched it or you have heard of it but haven’t seen it, they cut through with it a new version. So, it can penetrate this almost impenetrable wall of attracting people and getting them into a theater. All of this stuff is about commerce. All about commerce. It is all about money. You see these sequels being made and people line up to see them. If no one went to see them, they wouldn’t be making them!

Are there any young directors out there that really make you stand up and take notice of their work?

Lots and lots. I like David Fincher’s work a lot. I think he is very talented. He is REALLY good!

(...)

What is the best piece of advice that someone has given you along the way in your career?

It was probably from my dad. He said “Opportunity will come, just be ready for it.”

What about the flip-side of that question? What advice would you give to someone just starting out in this new age of film making?

You have a lot of advantages that I didn’t have. You can actually go to film school without actually going, by buying movies on DVD and watching the special features and interviews with directors where you can see what they did behind-the-scenes. You can really see how it works. You have equipment and technology now that allows you to make a film, cut it yourself with computers and show it. All that is stopping you, at this point, is you. The two of you can go out and make a movie starting today if you want to.

(...)

Any other projects that your fans should be aware of?

I have a couple different things in development. I have a movie called ‘The Prince,’ which I am really happy about. It is not really a horror film, it is more of an action film. Hopefully, I will get that going. I am ambivalent about work. I will do it if it comes along. I don’t like to get up too early in the morning! [laughs] But I am getting close to the age where I can just say [with his arms outstretched and middle fingers in the air] “Fuck this! Goodbye!” and kick back! [laughs] Every time that the NBA starts its season, I get less and less interested. I am more interested in basketball! I am a basketball addict!

Do you have any last words for you fans before we let you go?

Simply, thanks for the memories.


(Obrigado ao Tiago Costa pela dica.)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XV): resultados da sondagem

"Requiem for a Dream" (2000) de Darren Aronofsky (sim, sim, Sísifo e tal... ai ai, tão simbólicozinho que ele é...)

Eu sei, eu sei, senhor Paulo Portas, as sondagens "valem o que valem" e quase sempre estão erradas. Pode ser que sim, senhor Paulo Portas. Mas, neste momento, posso-lhe dizer, com algum grau de certeza, que dos 35 votantes da nossa sondagem sobre o cinema no segundo canal a maioria considera insuficiente (15 votos, ou seja, 42%) a actual programação de cinema da RTP2. 12 (34%) acham a mesma muito insuficiente. Assim sendo, 76% dos votantes considera negativa a oferta de cinema naquele canal.

Por outro lado, 5 leitores (14%) consideraram suficiente os 2 filmes por semana, ao passo que 2 (5%) consideram mesmo boa esta mesma programação. Apelei a todos eles que se pronunciassem neste espaço sobre as suas razões, mas nenhum deles expôs os seus argumentos - e eu, tenho de confessar, permaneço muito curioso...

Apenas um votante disse que o assunto lhe era indiferente. Não deve ser português.

Até finais deste mês tenciono escrever o texto da petição e pô-la à vossa consideração. Penso que urge uma programação de cinema pensada, formativa e entusiasmante na televisão pública e não penso mas tenho a certeza que cabe a nós, espectadores assíduos de cinema, reivindicá-la.

Gambit (1966) de Ronald Neame


A comparação nunca será propriamente feliz, mas de momento não se arranja melhor: se King Kong só aparece no filme de Jackson passado mais de uma hora, Shirley McLaine não profere uma única palavra durante os trinta minutos iniciais de "Gambit", heist movie assinado pelo (director de fotografia de nomes de peso do cinema britânico, como David Lean e Powell & Pressburger, tornado) realizador Ronald Neame.

Já tinha avisado que a comparação podia soar forçada, mas, perguntará quem ainda tem fé nestas linhas, onde é que esta poderá resistir à mais completa derisão? Talvez - eu disse talvez... - a grande semelhança entre Kong e McLaine nesses filmes seja o facto de ambos os protagonizarem mas só tardiamente lhes ser dado... o dito protagonismo (na sua acepção tradicional). Ou, mais ainda, porque Ronald Neame vai mais longe na ousadia que Peter Jackson: a ausência de McLaine é apenas e só "vocal", ao passo que Kong apenas habita naqueles "longos" 70 minutos nas conversas dos personagens ou na cabeça dos espectadores que viram o original e outros remakes da história do grande gorila apaixonado.

Pois é, "Gambit" tem, a abrir, uma McLaine esfíngica na aparência, sepulcral pelo que não diz - que é nada, nem um gemido... -; depois, entra em cena uma McLaine a 200 à hora, de língua sempre pronta a disparar as mais certeiras tiradas. A primeira existe na cabeça de Caine, o ladrão inglês da high society e a segunda existe... EXISTE. A primeira nasce de um what if? seco e directo - com intriga demasiado simples para ser verdade - e a segunda é um what it is que vem destruir o plano do James Bond/Thomas Crown wannabe Michael Caine, inglês arrogante que toma a sua vítima - um árabe muito rico - por imbecil.

"Gambit" é a inversão de filmes como "Ocean's Eleven" (o de Soderbergh): primeiro assistimos ao golpe perfeito na cabeça de Caine e depois à sua destrambelhada concretização - porque McLaine, que é usada como isco, fala mais do que deve ou Caine pensa de mais nos seus planos impossíveis.

Enfim, Neame fez um cocktail interessante entre o heist movie e a screwball comedy, tirando partido de uma dinâmica muito especial entre dois grandes actores, apesar de, como o Kong - lá estou eu de novo com esta estúpida comparação... -, o filme ser dela por inteiro, quando fala e mesmo quando não fala.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

La danse - Le ballet de l'Opéra de Paris (2009) de Frederick Wiseman


Ver o filme de Wiseman - aliás, ver os FILMES de Wiseman - lembra-me sempre a forma como o documentarismo tradicional está dominado pela lógica do making of - ou será antes o contrário? Qualquer actividade que seja retratada, política, artística, social..., é ilustrada pelos pensamentos e impressões do momento de quem a pratica. Ou melhor, por norma, os documentários da televisão, e aqueles que sendo de cinema não merecem a grandeza do grande ecrã, enchem de ruído verborreico inútil as suas imagens, onde, também por sistema, os close-ups dos rostos muito subjectivamente se impõem à totalidade, aberta e plural, do plano geral "invisível".

Várias vezes, somos bombardeados por isto: documentários centrados no dispositivo, na palavra, no protagonista (e numa narrativa formatada dentro do modelo dos três actos à Hollywood), relegando para segundo ou terceiro plano a actividade que o motivou. Veja-se como na maior parte dos making ofs há mais cabeças falantes a regurgitar os elogios da praxe ao realizador e à equipa do que imagens destes a trabalhar."Ele é uma pessoa especial; trabalhar com ele é uma honra; não hesitei em aceitar o seu desafio; são todos fantásticos", frases feitas tão recorrentes como são em futebolês as tiradas "o futebol é assim mesmo; há-que levantar a cabeça e trabalhar para o próximo jogo; não há favoritos para o próximo jogo". Imaginamos que nas mãos da pessoa errada "La danse" seria isso mesmo: um making of sobre uns quantos espectáculos organizados pela companhia de bailado da Opéra de Paris.

Mas, felizmente, Wiseman estava no lugar certo à hora certa para, pura e simplesmente, desaparecer no ar com a sua câmara; tornar-se invisível até às paredes de cada divisão (mesmo as subterrâneas) da Opéra, que se revela, como muito expressivamente diz Luís Miguel Oliveira na sua excelente crítica, uma colmeia de actividade efervescente. Os processos de aprendizagem são postos a nu, levando a que o espectador sinta na pele as exigências físicas e mentais a que são submetidos E se submetem os bailarinos - bem a propósito num filme sobre raparigas e rapazes que treinam, diariamente, para serem "monges e boxeurs" ao mesmo tempo...

Habilmente, Wiseman torna "La danse" numa espécie de "High School 3", já que estamos, de novo, numa "instituição" escolar, mas, desta feita, virada para uma expressão artística específica; logo, um processo cativante - em cativeiro... - com todas as qualidades microcósmicas do típico habitat wisemaniano. Se antes tínhamos as reuniões com os professores de liceu e as aulas propriamente ditas, agora invadimos sorrateiramente o espaço de cada um dos funcionários da Opéra, desde o porteiro até à directora artística, passando natural e principalmente pelos alunos e professores - e aquilo que os separa e une; isto é, o ensino, que é, enfim, uma passagem de testemunho de ex-bailarinos consagrados para bailarinos que o irão ser - o que importa manter, perante as pressões financeiras "exógenas", transcolmeia, transParis, transFrança, transatlânticas..., é A qualidade do PRODUTO.

Ficamos à espera do filme sobre boxe, que faz todo o sentido depois deste "La danse", mas a certeza de que Wiseman continua em grande forma está à mostra.

(E, ó senhor Wiseman, aproveitando esta oportunidade, não deixe de liberar os direitos dos seus filmes para que estes fiquem finalmente acessíveis em DVD/Blu-ray!)

Nova trilha (XVIII): Tierney e Gallo

Gene Tierney (à esquerda, ao centro e dentro da cabeça e coração de Dana Andrews à direita) em "Laura" (1944) de Otto Preminger

(Otto Preminger é o realizador das mulheres bonitas; aliás, Otto Preminger TORNAVA as suas actrizes ainda mais bonitas. O segredo não era - como devem estar a pensar - "baba de caracol" ou inovadores massajadores faciais, o segredo estava... não sei bem onde, mas os resultados saltam à vista se compararmos Tierney em "Laura" - provavelmente a mulher mais bela do mundo - com a Tierney em "Leave Her to Heaven", realizado um ano depois por Stahl.)

domingo, 22 de agosto de 2010

sábado, 21 de agosto de 2010

The Last Airbender (2010) de M. Night Shyamalan (II)

Casting. Não correu bem em "The Happening": o próprio Mark Whalberg, no extinto talk show de Conan O'Brien, referiu que nunca se imaginou "professor de ciências". Eu não o via nem o vi, nem sei o que passou pela cabeça de Shyamalan para o ver... Um realizador que arrisca tanto como Shyamalan não deve cometer estes erros de palmatória, que só vêm contaminar toda a experiência cinemática que o filme tem para oferecer - e só pontualmente "The Happening" nos conquista. Antes, Shyamalan tinha acertado em cheio nas suas apostas, destacando-se Mel Gibson em "Signs" e a descoberta da luminosa Bryce Dallas Howard ou as duas oportunidades que deu a Phoenix para atingir a maturidade interpretativa que hoje lhe reconhecemos.

Os putos de Shy

Haley Joel Osment em "The Sixth Sense"

Rory Culkin em "Signs"

Noah Ringer em "The Last Airbender"

Tudou correu bem até... mas, diga-se, em "The Happening" Shyamalan até foi feliz ao revelar-nos a "assombrada" Zooey Deschanel. Aqui, neste "The Last Airbender", o problema não está nos protagonistas jovens. Shyamalan é, como bem sabemos de filmes como "Signs" e "The Sixth Sense", um grande "director de actores", sobretudo, os mais pequenos (sim, Haley Joel Osment e Rory Culkin, respectivamente, são magníficos nesses filmes).

De facto, para os actores, não são fáceis, ponto 1, as codificadas falas shyamalianas que podem fazê-los cair no ridículo e, ponto 2, dizê-las quase de frente para a câmara (veja-se o ponto I desta análise). Noah Ringer (o Avatar) e Nicola Peltz (Katara) estão muito bem nos seus papéis. O mesmo não se pode dizer dos mais velhos: a opção pelo comediante do Daily Show Aasif Mandvi para o papel de "segundo" vilão é desastrada, sendo quase embaraçosos os seus esgares forçados de malvadez; também o "slumdog" Dev Patel está desajustado no seu papel de "anti-herói" edipiano com coração de manteiga. Pergunto-me se não seria muito mais interessante ver o Shyamalan neste elenco com tantos indianos; seria, ainda mais interessante, vê-lo passar de "Messias" a vilão, ficando com o papel do pouco convincente Mandvi...

De facto, pela segunda vez consecutiva, Shyamalan não deixa a sua assinatura (qual Hitchcock) num filme seu - relembro que esta sua persona ganhava contornos extra-fílmicos muito curiosos, e muito irónicos, em "Lady in the Water", levando mais longe os cameos quase meramente "autorais" de, nomedamente, "The Village" e "Signs". Pergunto-me se este não será um sinal de menor envolvimento ou convicção do realizador nos projectos que tem encabeçado.

Hinduísmo (uma outra religião). Shyamalan, um indiano tornado cineasta na América, divide-se entre as religiões católica e hindu. Se o catolicismo parece habitar especialmente os dramas humanos dos seus filmes (o sacrifício, a contrição/culpa, a redenção/perdão), a iconografia e mitologia hindus parecem contaminar toda a envolvência fantástica, o que se comprova pelas suas narrativas sobre mundos conflituantes, Deuses vários (o politeísmo hindu) que fazem das criaturas da Terra veículos das suas manifestações terrenas (avatares). O universo dos animais, por norma bem delimitado, é sagrado para as personagens humanas dos seus filmes. Macacos nascidos das árvores ou cães-lobo raivosos que emergem da relva são os Deuses maus de "Lady in the Water", ao passo que em "The Last Airbender" temos um lémure-voador como companhia favorita do Avatar, criança que se move agilmente na floresta como um macaco que saltita entre galhos, e dois peixes como Deuses do mundo dos espíritos - almas puras, frágeis mas belas, que exortam os homens a serem humildes.

Uma das originalidades de Shyamalan - que se mantém aqui, nem mais nem menos "fresca" - é esta mescla exótica entre a viagem espiritual típica da narrativa cristã (pecado/culpa - sacrifício - redenção) e a iconografia/cosmologia hindu, que se presta à devoção dos elementos da Terra, à descoberta do Eu através da medi(t)ação Espiritual (viagem interior, que também se faz em "The Last Airbender") ou à sua renovação mediante processos de reincarnação (os tais avatares...).

A re-ligião. Para os ateus ou agnósticos, a obra de Shyamalan guarda uma descoberta universal: a re-ligião do Humano ou, se quiserem, a relação com o transcendente através do amor.

Amor e sacrifício em...

"The Last Airbender"

"The Village"

"Signs"

Será muito subjectivo dizê-lo, mas penso ser importante sublinhar o amor que Shyamalan deposita em cada personagem, a forma como o torna "motor" das suas acções, espécie de derradeiro "feitiço" contra o qual não se postarão obstáculos. Como num Dreyer, Shyamalan, por puro amor às suas personagens, não se inibe de devolver a vida a Rory Culkin em "Signs" e a Joaquin Phoenix em "The Village" - é o amor de pai para filho que "ressuscita" o primeiro e é o amor de homem para mulher que "ressuscita" o segundo. Aqui, em "The Last Airbender", temos, contudo, um desenlace mais duro - ou "o" desenlace ainda está para vir nas Partes II e III? - traduzido no sacrifício da rapariga de cabelos brancos - mas, como ela diz, o seu espírito irá "viver" além-túmulo, no mundo dos espíritos...

O milagre da multiplicação digital à "Ages of Empire"

Jogo "Ages of Empire"

"The Last Airbender"

"Troy"

"Flags of Our Fathers"

As referências re-ligiosas abundam em "The Last Airbender", o que, de novo, faz muito sentido na Obra de Shyamalan, ainda que estas surjam em formas muito menos interessantes, tão automáticas quanto alguns dos efeitos CGI de grande escala. Com efeito, parece que já vimos aquela frota de navios em "Troy" ou mesmo em "Flags of Our Fathers"; entretanto, o truque por tantas vezes usado e revelado - o milagre da multiplicação digital à la "Ages of Empire" - surge-nos muito gasto.

Um lugar na indústria. O cinema de Shyamalan é, está visto, fértil em dilemas, incongruências, contradições, e navega permanentemente entre o sublime e o ridículo, com um despudorado à-vontade. Para além das referidas questões ontológicas, esta "tensão" nasce também desse sonho misto, que se afigura cada vez mais impossível: ser um realizador de massas e, ao mesmo tempo, um experimentador pós-moderno das formas de filmar e contar histórias. O impasse está à vista: Shyamalan encontra-se numa situação muito complicada, já que "The Last Airbender" parecia ser a sua última oportunidade para voltar a atacar a indústria. O resultado tem sido catastrófico, tanto a nível de público mas acima de tudo a nível de crítica, e, desta vez, nem a Europa o está a safar.

Depois do incompreendido "Lady in the Water", Shyamalan parece ter-se confrontado com duas opções: ou continuar no registo de fábula fantástica de terror ("The Village"/"Lady in the Water") ou prosseguir na via thrillesca ("The Sixth Sense"/"Signs"). Decidiu-se, numa primeira instância, pela segunda opção, o que deu origem ao fracassado "The Happening". Depois, como quem volta atrás, Shyamalan envereda pela segunda opção, atirando-se de cabeça para este projecto de grande orçamento - e muito dinheiro significa pressão e menos liberdade -, um franchise baseado nuns desenhos animados da Nickelodeon que Shyamalan tem o DEVER de rentabilizar.

Neste momento, o "compromisso" com as sequelas desta história é mais uma prisão do que uma forma de o libertar para a conquista do tal sonho complicado: (continuar a) ser Tourneur, ser Epstein, ser Sjostrom, ser Dreyer e, ao mesmo tempo, ser também Hitchcock, Spielberg e Lucas... O meu desejo é que Shyamalan se reencontre consigo mesmo - meditando ou não... -; ponha de parte esse "complexo" tão americano com as etiquetas, e se aventure num filme que volte a fazer dessa invocação/evocação cinéfila a seiva que lhe alimente o imaginário.

AVISO: não entrar no covil do Bicho sem convite

"The Host" (2006) de Bong Joon-ho

"Rogue" (2007) de Greg Mclean

(Mclean, realizador de "Wolf Creek", o melhor slasher desde "Scream", fez um dos mais sólidos filmes com criaturas da Natureza desde "Jaws". Isso não interessa ao público português? Sim? Então por que NÃO vi "Rogue" em sala ou, vá lá, em DVD nacional? Esta pergunta é para a ECOFILMES, detentora dos direitos de distribuição do filme em Portugal.)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

The Last Airbender (2010) de M. Night Shyamalan (I)


De novo, Shyamalan NÃO divide a crítica, isto é, consegue (como se calhar nunca antes) pôr praticamente toda a gente a fazer trocadilhos com o título deste seu último filme: que este "Airbender" seja mesmo "O Último" da carreira do realizador. Não sou imune ao facto de mesmo aqueles que apreciaram "Lady in the Water" - filme que, peço desculpa, ninguém ama mais do que eu ou talvez não... - terem-se juntado às vozes dominantes, na realidade, tão dominantes que se tornam perigosamente dominadoras, mas vamos por partes.

Tema. Para quem viu em "The Last Airbender" um Shyamalan "irreconhecível" ou "descaracterizado" eu diria que vi precisamente o contrário, isto é, um Shyamalan por vezes totalmente translúcido quanto ao natural caos que é o seu universo, perdido entre as suas raízes indianas (hindus?) e o seu gosto - obcecante, como todos os gostos deste realizador - pelo entretenimento da descomunal Hollywood. Tematicamente falando - vamos por partes... -, não há que enganar: "The Last Airbender" é um filme de Shyamalan; poderá ser um filme desinpirado de Shyamalan, frágil e confuso, mas é um filme seu. Ou dito de outra forma: não há aqui marcas evidentes de um cineasta que se "vendeu" à indústria ou, como alguma crítica norte-americana andou a apregoar aos sete ventos, de um megalómano que quer ser um George Lucas ou só vê cifrões à frente.

Água

"The Last Airbender"

"Lady in the Water"

"Signs"

"The Last Airbender" tem várias coisas em comum com, desde logo, os seus dois filmes anteriores. A sua história fantástica em torno dos quatro elementos naturais parece ecoar algumas pontas já consideravalmente desenvolvidas em, desde logo, "Lady in the Water", fábula "marinha" sobre um mundo azul que protege o mundo dos homens. Uma personagem, Story, é o Messias desta narrativa - o seu Avatar -, na medida em que provoca uma interferência entre mundos para reconquistar a paz perdida.

Messias

"The Last Airbender"

"Lady in the Water" (Bryce Dallas e Shyamalan)

A reli-giosidade neste universo - simbolizada pela cena da cura e pela omnipresença dos media - é óbvia. Em "The Last Airbender" também temos uma ordem perturbada que precisa de ser harmonizada pela chegada de um Messias. Esse Messias - "o escolhido" - é Story em "Lady in the Water", e também é o próprio Shyamalan nessa história, já que será ele que - qual Barack Obama - irá insuflar de esperança um mundo minado pela apatia e a descrença. (É a realidade social e política da América que puxa as personagens para a fantasia, que ulteriormente a transforma - até porque poderá ter tudo passado de um sonho...)

Vento

"The Last Airbender"

"The Happening"

"The Last Airbender" fala-nos dos quatro elementos convertidos em quatro mundos; diríamos que Story caberia no da água - onde caberiam os extra-terrestes hidrofóbicos de "Signs"? - e diríamos mais: "The Happening" poderia ter sido despertado por um feitiço vindo de um bender do ar. Epstein falou (muito exoticamente) dessa magia superior que é o controlo sobre o tempo, ao passo que Shyamalan torna-se num "tempestaire" (in)visível no conjunto destes filmes ou faz, na sua cadeira de realizador, aquilo que L. Jackson faz, na sua cadeira de rodas, em "Unbreakable"...

Forma. Também aqui parece-me descabido dizer-se que "The Last Airbender" é uma completa aberração na obra do realizador. Aqui, mais uma vez, adjectivos como "descaracterizado" ou "irreconhecível" devem ser, quanto muito, preteridos a adjectivos como "desinspirado".

Campo/contra-campo frontal com uma ou mais personagens

"The Last Airbender"

"The Happening"

"Lady in the Water"

...


Meio rosto

"The Last Airbender"

"Lady in the Water"

Isto porque só Shyamalan filma os campos-contra-campo de forma quase frontal, num eixo horizontal de quase 180 graus. A certa altura, vemos Avatar a meditar e, em segundo plano, vemos "a rapariga da água". Shyamalan filma metade do rosto do protagonista como fez com as bestas verdejantes, nascidas da terra, (e a besta do crítico...) de "Lady in the Water". O interessante jogo de focagem/desfocagem em primeiro plano/segundo plano também não é o pão nosso de cada dia no mainstream. Por outro lado, praticamente só Shyamalan alonga daquele modo os planos - muito longos tendo em conta a média de duração dos planos que se pratica por estes dias em Hollywood. Os slow motions mais ou menos líricos também nos são familiares, se pensarmos em "The Village" ou "Lady in the Water". (Já aqueles zooms bruscos, computorizados, são uma ferramenta high tech algo estranha ao universo estético de Shyamalan.)

3D. Ainda dentro da forma, tenho que abrir um parêntesis para falar das três dimensões em "The Last Airbender". Sou da opinião que o maior foto-realismo das três dimensões seria melhor explorado - de um ponto de vista plástico - se os planos se prolongassem mais no tempo e no espaço, quebrando a estaticidade clássica - necessária... - da câmara. Uma das maiores críticas que faço ao "Avatar" nem é a utilização do 3D, já que este até tem uma importância substantiva na história, mas sim o facto de Cameron ter pensado visualmente o seu filme muito mais na construção de um universo do que na forma de o captar em planos.

O fragmentarismo tradicional é ultra-atordoante com o 3D, coisa que Robert Zemeckis já terá percebido há algum tempo, mas Cameron não aprimorou minimamente com o seu colossal filme - o que não espanta, visto que Cameron é, por norma, um realizador que pensa a história e o seu visual lato sensu, mas raramente é subtil a decompô-lo, ou não, em vários planos. O segredo de Cameron até poderá residir aqui: uma concepção brutamontes do découpage que vem endurecer - devastar, enegrecer, politizar - um universo de estufa fria, polidinho até à última folha da última árvore. Shyamalan detém-se menos na concepção dos universos que na sua "desmontagem" em planos. É, por isso, mais um operador - um realizador de câmara - que Cameron - que é um designer, um arquitecto de mão pesada.

"The Last Airbender" aparece totalmente desapegado da realidade, surgindo como uma espécie de profecia anunciada, previsível neste contexto criativamente rico/pobre (apolítico) pós-Bush. A única coisa que o prende a nós - relembro que todos os outros filmes, sobretudo "The Village" e "Lady in the Water", eram, também, parábolas políticas - é precisamente o fotorealismo do 3D assimilado pelo bailado da câmara no espaço, em continuum, com poucas interrupções - ao contrário de Cameron e ao contrário de Burton. Digo isto então para defender o seguinte: o 3D faz sentido aqui.

Montagem. Também aqui as variações são poucas, e talvez - por isso ou não - algo desinspiradas. Basta que comparemos "Signs" e a história do padre (Mel Gibson) à forma como nos é revelado o passado do jovem Avatar: analepses que surgem ao espectador sob a forma de flashes mentais. As personagens "sonham acordadas", assombradas por um evento passado (traumático ou não). Achei, contudo, interessante a opção de cortar o som nalgumas memórias e apenas incluir imagens soltas - algumas tocantes - ao som da banda sonora de James Newton Howard.

Diegese. Quanto à forma como a história se desenrola, também encontro paralelismo claros com "Lady in the Water". Ainda que muito mais submergido no seu próprio universo fantástico, "The Last Airbender" também é feito de pequenos mistérios que se vão colocando em linha progressiva - um atrás do outro - ao espectador. A técnica de storytelling é cumulativa, na medida em que o mundo ou os modos de lidar com ele vão sendo explicados pelas personagens até ao último minuto da história e não numa introdução alargada - ou exposição. Contudo, a confusão aqui é, por vezes, quase total. Shyamalan não consegue lidar com uma história que não é sua de raiz; lança-nos personagens como descodificações complexas do seu mundo numa cadência desenfreada, muito difícil de seguir. A alternativa é, por vezes, simplesmente, desligar e concentrarmo-nos no ritmo das imagens.

Personagens. Todas, quase sem excepção, ficam por trabalhar. Shyamalan parece perdido entre o desafio da "adaptação" e a necessidade - que é sua, por inteiro - de adensar as suas personagens, sobretudo, aprofundar as suas RELAÇÕES ou LIGAÇÕES. Aqui reside aquele que é, a meu ver, o principal problema dos últimos filmes deste realizador: a sua opção por histórias de viagem, mais horizontais que verticais. O filme estica-se em mapas sem fim - América, França, etc. ("The Happening") e aqueles quatro mundos ("The Last Airbender") - e as personagens, demasiadas aqui, perdem-se no espaço.

O fechado

"Signs"

"The Village"

"Lady in the Water"


O aberto

"The Last Airbender"


A concentração espacial do drama é fundamental no cinema de Shyamalan para lhe dar dimensão humana; no fundo, para o "credibilizar". Aqui ela está totalmente ausente, ao passo que em "The Village" (a vila é uma clareira na floresta impenetrável) e em "Lady in the Water" (o condomínio é uma clareira... idem) temos duas obras hitchcokianamente de cerco; aqui temos uma espécie de travelogue épico à la "Star Wars" - mas, repito, Shyamalan tem mais cinema no seu pior plano que Lucas nos planos todos que fez na vida... - ou à la "Senhor dos Anéis".

Diegese (o fim). "Lady in the Water" termina com a grande águia Eathlon que leva a ninfa salvífica, enquanto chovem lágrimas da despedida (e)terna a um Amor puro. Foi o último final definitivo, fechado, de Shyamalan. Em "The Happening" e neste "The Last Airbender" temos um epílogo. Curioso que se fale muito da possibilidade - apenas ditada pela sua performance no boxoffice internacional - de Shyamalan vir a fazer as duas sequelas desta história, quando ninguém falou em continuar "The Happening" - que, no campo da linguagem dos filmes de terror, GRITA por uma continuação.

Não sei, mas nesta minha "mania" - quem a diagnosticou que se acuse! - por Shyamalan, até estou virado para achar piada a estas obras "inacabadas" deste génio sem pátria definida e cada vez mais sem destino certo. É algo propositado ou ditado pelas circunstâncias do mercado? Epa, sei lá, mas alguém levanta essa questão quando olha para a truncadíssima e atribuladíssima carreira de Orson Welles?

(continua em breve)

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...