Giulietta Masina em "Le notti di Cabiria" (1957) de Federico Felliniquinta-feira, 30 de setembro de 2010
Nova trilha (XXI): Masina e Yo La Tengo
Giulietta Masina em "Le notti di Cabiria" (1957) de Federico FelliniProgramação de cinema na RTP2 (XXVI)
MIL E QUATROCENTOS
Entre as 1186 e as 1400 assinaturas, muita coisa aconteceu. Mais grandes figuras da nossa sociedade assinaram a petição, entre elas, o Professor José Mattoso, Carlos Pinto Coelho, Jacinto Lucas Pires e Catarina Portas, e a nossa causa foi noticiada no jornal Público do passado domingo.
Temos, contudo, uma meta que nos põe em sentido: 2000 assinaturas até dia 11 de Outubro. É ambiciosa e difícil de cumprir face ao nosso anonimato e à pouca vontade que os órgãos de comunicação social estão a manifestar em tornar Publicada a Opinião Pública - para quem não sabe a diferença entre estes dois conceitos, voilá!
Sentido, ordem, reunir tropas, apontar canhões e FOGO: mais assinaturas, meus caros indecisos, amigos de indecisos, amigos de amigos de indecisos! Por quê? Porque... bem, se o nosso texto constante da petição não o satisfaz, é visitar o nosso blogue e ir à (novíssima) coluna do "argumentário".
Comandar as tropas em direcção ao nosso objectivo!, ordena o nosso Field Commander Cohen.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
A arquitectura de um gag ou o gag arquitectónico
"O Tempo que Resta" (2009) de Elia Suleiman
Frantic (1988) de Roman Polanski

Há filmes que nascem directamente da forma como são filmados. Polanski, seguindo as pisadas de Hitchcock, torna esta afirmação imbatível em "Frantic". Na realidade, parte da sua extensa obra contém alguns dos exercícios mais magistrais sobre as potencialidades do fora de campo e da profundidade de campo - e do plano-sequência claro. "Frantic" é um filme que nasce, todo ele, de um fora de campo; é como que parido a partir de um ângulo morto da personagem de Harrison Ford, que no duche não ouve as últimas palavras da mulher antes de esta sair do seu campo de visão e... desaparecer. Puff, "Lady Vanishes".
O desnorte do protagonista só tem impacto no espectador porque a câmara estava na banheira com ele, a filmar a partir unicamente da sua perspectiva AUDIOVISUAL. A mulher sai do seu e do nosso campo de visão e audição - e desaparece do filme, esfuma-se. A incredulidade é total e, com isto, Polanski pare um enigma que vamos acompanhar com o mesmo grau de obsessão com que o marido procura a sua "white lady" (esta foi uma private joke para quem já viu o filme...).
A magistralidade de "Frantic" nasce disto: todo o filme deriva de um "fora de campo" ultra-realista; de uma posição de câmara minuciosa e cinicamente determinada pelo realizador Polanski. A partir da cena do duche, a câmara já não descola de Harrison Ford; a realização torna-se num gesto natural - parte implicada na história, apetece dizer - ao segui-lo obcecadamente.
O desnorte do protagonista só tem impacto no espectador porque a câmara estava na banheira com ele, a filmar a partir unicamente da sua perspectiva AUDIOVISUAL. A mulher sai do seu e do nosso campo de visão e audição - e desaparece do filme, esfuma-se. A incredulidade é total e, com isto, Polanski pare um enigma que vamos acompanhar com o mesmo grau de obsessão com que o marido procura a sua "white lady" (esta foi uma private joke para quem já viu o filme...).
A magistralidade de "Frantic" nasce disto: todo o filme deriva de um "fora de campo" ultra-realista; de uma posição de câmara minuciosa e cinicamente determinada pelo realizador Polanski. A partir da cena do duche, a câmara já não descola de Harrison Ford; a realização torna-se num gesto natural - parte implicada na história, apetece dizer - ao segui-lo obcecadamente.
Movimento inverso é feito no mais recente "The Ghost Writer", cujos méritos nos parecem muitos, mas que valem pouco ao pé do melhor Polanski (este de "Frantic", ou o de "Faca na Água" ou o de "Rosemary's Baby"...). Aqui digamos que não é um fora de campo que constrói um filme, mas o seu contrário: tudo converge para o último plano de um acidente que envolve o protagonista e que a câmara não mostra. Até lá, é um thriller sem particular chama formal, enrolado em si mesmo, como que na expectativa desse seu último plano. Se "Frantic" desenrola-se naturalmente, "The Ghost Writer" anda aos ziguezagues, desinspiradamente por vezes, para chegar, no fundo, onde "Frantic" começa. Como um telhado que sustenta uma casa e não o contrário.
domingo, 26 de setembro de 2010
Etiqueta boboniana do cinema
7. Mas estavas a dizer que tinhas visto dois grandes filmes. Um era então o "Jaime" do Reis e o outro era qual mesmo? O outro que vi e gostei muito foi o "Hobson's Choice" com o Charles Laughton e realizado pelo David Lean. Esse tipo é um alucinado, pá! Não pesco nada dos filmes desse gajo! Como assim? Epa, aquela cena dos coelhos no INLAND EMPIRE dá-me cabo da cabeça, tu pescas isso? Não, pá, é LEAN não é LYNCH.

sábado, 25 de setembro de 2010
Programação de cinema na RTP2 (XXV): fighting for my lost cause
Pois é, o número de subscritores cresce a olhos vistos - relembro que a petição começou há menos de 3 semanas. Os nosso subscritores Eduardo Cintra Torres e Jorge Mourinha já escreveram sobre esta iniciativa nas suas colunas do jornal Público, o que agradecemos profundamente.
No entanto, e apesar dos muitos esforços, ainda não fomos notícia fora das redes sociais, blogues e alguns sites da especialidade. Precisamos de mais divulgação para chegarmos a todos os que querem ver o dever de serviço público cumprido pelo segundo canal.
A deputada, actriz e realizadora - e, não esquecer, apresentadora de "Filme da Minha Vida", em tempos idos da RTP2 - Inês de Medeiros é uma das mais recentes assinantes da nossa causa e procuraremos com ela ou através dela fazer chegar as nossas reivindicações às autoridades competentes, leia-se, ao senhor Ministro dos Assuntos Parlamentares Jorge Lacão e à direcção de programas da RTP2. A nossa causa tem uma grande vantagem: temos a cobertura TOTAL e COMPLETA do texto da lei - ora passem os olhos por aqui.
Uma causa perdida esta? Há quem nos diga que sim, que não vamos lá com petições - então vamos lá como? À chapada? - e que somos novos e ingénuos. Sim, somos uma causa perdida, seguramente, em sentido lato, mas não tão seguramente em sentido estrito.
Etiqueta boboniana do cinema
6. Há um Shrek, gordo, verde e fala-barato, que faz as delícias dos netinhos do Cavaco Silva e há um Shreck, cadavérico, a preto e branco e mudo, capaz de lhes sugar o sangue até à última gota.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Uma farsa genuína: "I'm Still Here" com Joaquin Phoenix (II)
Tanto tempo depois os órgãos de comunicação social dão a notícia: Casey Affleck revela que "I'm Still Here" é um "mockumentary", ou seja, que o "novo Joaquin Phoenix" é, afinal, um embuste. Tanto tempo para ver o óbvio, depois do trailer já andar a circular há algum tempo e dar a entender, de forma relativamente evidente, que, por exemplo, a entrevista alucinada de Phoenix no programa de David Letterman seria um pedaço de "ficção" ou "não-ficção", enfim, ainda não acertei - acho que ninguém acertou... - com a catalogação de "I'm Still Here".
Entretanto, o "verdadeiro" (será?) Phoenix já foi ao David Letterman limpar a imagem. Podem ver, em síntese, como correu abaixo. Agora é esperar que venha um Casey Affleck qualquer desmascarar esta entrevista talvez ainda mais surreal que a de Phoenix - too strange to be true? Sei lá...
Entretanto, o "verdadeiro" (será?) Phoenix já foi ao David Letterman limpar a imagem. Podem ver, em síntese, como correu abaixo. Agora é esperar que venha um Casey Affleck qualquer desmascarar esta entrevista talvez ainda mais surreal que a de Phoenix - too strange to be true? Sei lá...
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Yoidore tenshi/Drunken Angel (1948) de Akira Kurosawa

Não é, longe disso, o melhor filme de Kurosawa. Mas também detesto começar o que quer que seja com "não é, longe disso, o melhor filme de quem quer que seja". "Drunken Angel" tem a marca de génio de Kurosawa - e essa marca é deixada pela forma como a câmara pontua, em liberdade, a respiração da história. Exemplo disso é a melhor cena de todo o filme. Numa sequência, o médico - o primeiro anjo bêbado - conversa com a sua assistente, jovem mulher cujo marido é um criminoso perigoso que saiu recentemente da prisão.
A certa altura, a câmara, como que desinteressada da narrativa principal, desvia-se da rapariga, do médico e de Mifune - aquele que se revelará o segundo anjo bêbado - e aproxima-se da origem da melodia que se ouve ao fundo. Move-se no espaço, suavemente, na sua direcção. Quando a encontra, vemos um jovem anónimo a tocar guitarra - e pensávamos nós, na cena anterior, que esta música era extradiegética... De súbito, surge um homem misterioso que lhe pede a guitarra. O jovem anui ao pedido e o homem misterioso começa a tocar sonoramente uma melodia que nos devolve, com um corte, ao interior da casa do médico. A mulher apercebe-se da música e diz ao médico: "o meu marido costumava tocar esta música". Uma melodia junta todas as principais personagens do filme. Assim, como que num estalar de dedos... É ou não é coisa de mestre?
Kurosawa viria a aperfeiçoar este dispositivo na sequência memorável do duelo em "Stray Dog": o polícia e o ladrão, finalmente, frenta a frente, estáticos, na expectativa que o outro tome a iniciativa e, ao fundo, ouve-se um piano. A câmara distancia-se desta cena tensa para filmar o quadro serenamente doméstico de uma rapariga que toca piano. Ela pára, levanta-se e vai à janela ver o que se passa. O que ela vê da sua janela é o duelo, ou melhor, o filme... Como nós no cinema.
Etiqueta boboniana do cinema
5. Sim, sim, "Jaime" é um ganda filme. Adoro o miúdo... Mas que miúdo? O miúdo, pá, aquele do "Diz ao teu pai que te mande um beijo, foi o que ela disse..." Epá, eu estou a falar do "Jaime" do António Reis. Ah, pois claro, do António Reis...
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Etiqueta boboniana do cinema
4. Impressionem o vosso papá sabichão. Digam que adoram Paul Thomas Anderson ("Magnolia") em vez de Paul W.S. Anderson ("Resident Evil").
Pépé le Moko (1937) de Julien Duvivier

Cá está um filme fundamental da história do cinema que só agora chega aos meus olhos: "Pépé le Moko" de Julian Duvivier, com o mítico Jean Gabin. Aos poucos e poucos vou descobrindo aquilo que os académicos e críticos apelidaram de "realismo poético", isto é, todo o cinema francês que marca sensivelmente o período que vai dos anos 30 até aos primeiros anos do pós-II Guerra Mundial. Vou descobrindo à mesma velocidade com que vou desmistificando uma ideia feita tornada axioma pela geração dos críticos dos Cahiers du Cinéma, à cabeça François Truffaut e o seu "Uma certa tendência do cinema francês": com honrosas excepções, tudo o que era francês era mau. E assim, com o inventividade desenfreado e iconoclasta da Nouvelle Vague, se remeteu mais de vinte anos do cinema francês para a penumbra. Talvez seja por isso que, mesmo hoje, seja tão difícil ver um filme de um Autant-Lara, Jacques Feyder, Marcel Carné, René Clément e Julien Duvivier ao pé de qualquer cineasta da Nouvelle Vage ou das tais honrosas excepções, como Jean Vigo e Jean Renoir.
É nesta equação que entra um título como "Pépé le Moko", espécie de elo histórico transatlântico entre o gangster movie norte-americano - estilo "Public Enemy" ou outro Cagney - com o film noir americano. Na realidade, os franceses chamaram film noir aos filmes de detectives e anti-heróis e femme fatales que chegavam do outro lado do Atlântico, assinados por auteurs como Huston, Siodmak, Lang ou Hawks, mas o film noir funda-se verdadeiramente dentro de portas, com obras como este "Pépé le Moko", história de um gangster com apetite por jóias - elas e, depois, uma beldade que as usa... - que, fugido da polícia, se refugia na cidadela labiríntica de Casbah, na Algéria. A polícia monta várias ratoeiras para tirá-lo da sua toca e o filme reporta, com boas doses de realismo - o tal que se diz poético -, esta perseguição gato-rato, sendo que o protagonismo é dado ao rato. Moko é o típico anti-herói, de punho rijo mas suave coração, um romântico perdido no seu labirinto, o de Casbah e outro, sentimental, dentro de Casbah, dentro do próprio Pépé - falo de duas mulheres, uma cigana e a tal beldade dos diamantes. Onde há mulheres, há sarilhos, já dizia o escritor...
Pépé quer sair - e sairá? - porque, afinal, está preso e se sente só na sua "fortaleza inexpugnável", tal como está preso a uma mulher que não ama - mas que o ama violentamente - e porque ele ama duas mulheres que não pode ter: a beldade dos diamantes e... Paris, cada uma das suas ruas, o espaço e o seu perfume, as suas pessoas e até, diz ele com a voz embargada, "le métro". Como num noir, temos a ideia de clausura - há a prisão física e a prisão sentimental - e sonhos obliterados pelo projecto dissimulado, não tanto da polícia, mas de uma mulher, anjo diabólico, mais tarde institucionalizado pelo noir, que acabará por se antecipar àquele gato para apanhar o rato... se o seu louco coração ferido o ditar. O final adivinha-se trágico, pungente mesmo: à distância, um barco parte com tudo lá dentro - amor por uma mulher, pelos diamantes, por Paris. E o nosso (anti-)herói em terra.
Etiqueta boboniana do cinema
3. Regra de ouro em qualquer evento social: não falar de DeCoteau (trash) mas de Cocteau (alta cultura).
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Programação de cinema na RTP2 (XXIV): mais de mil cidadãos já assinaram a nossa petição
Ultrapassámos a meta dos 1000 assinantes. Manuel Villaverde Cabral, Raquel Freire, Paulo Trancoso e Anabela Teixeira são alguns dos nomes que subscreveram mais recentemente a nossa petição. A ele juntaram-se centenas nas últimas vinte e quatro horas. E ainda não fomos noticiados nos jornais - apesar dos nossos esforços... Fica a certeza que esta petição, uma das mais activas do site peticaopublica.com, está a mobilizar a sociedade civil.
Como festejar? Pondo a assinar quem ainda não assinou. Força!
Agora que chegámos ao "número mágico" dos 1000 assinantes, parece que, senhores da RTP2, "You're in denial".
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
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"Playtime" (1967) de Jacques Tati
