sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ela e ele são UM eu (mui cinematográfico)

"Onde jaz o teu sorriso?" (2001) de Pedro Costa

"José e Pilar" (2010) de Miguel Gonçalves Mendes

(Muito bonita a forma como abriu o DocLisboa deste ano: um documentário sobre o Nóbel? Não, uma história de afectos, divertida, profunda e comovente, que ficará para a posteridade como um importante documento fílmico sobre um casal não só singular mas, acima de tudo, NO singular.)

MeRdiocridade

Ando a ler "A Invenção da Modernidade", antologia de vários textos crítico de Baudelaire sobre a arte do seu tempo. Requisitei-o e as suas páginas trazem sublinhados da autoria de um leitor meu predecessor. Alguma coisa fez com que o leitor assinalasse a lápis o que assinalou e não apagasse quando devolveu o livro à Biblioteca.

É essa "alguma coisa" que me proponho descodificar aqui (com poucas palavras, que estas já estão mais do que gastas!).

Diz Baudelaire, no texto "O Artista Moderno" (pp. 149):

Que em todos os tempos a mediocridade predominou, é indubitável; mas que ela reina mais do que nunca, que ela se está tornando absolutamente triunfante e volumosa, eis o que é tão verdadeiro quanto aflitivo. (sublinhado a lápis)


Para a situação actual do nosso país, pegando numa palavra do senhor Baudelaire, invoco uma outra palavra que deriva desta e da autoria de uma Professora minha do Secundário: voilá, a meRdiocridade em todo o seu esplendor!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ainda acontecem milagres*


Em "The Well" (*-título em português deste filme), obra-prima esquecida de Leo C. Popkin e Russell Rouse datada de 1951, uma rapariga negra cai num poço. Uma comunidade inteira suspende um bárbaro fratricídio racial para se concentrar na melhor forma de resgatar a menina das profundezas - o poço é tão estreito que nenhum adulto o conseguirá atravessar. Uma máquina perfuradora é erigida e, todos, todos sem excepção, reúnem esforços para salvar a menina. Todos, brancos e negros, juntos pela mesma causa.


Em "Ace in the Hole" (também de 1951), Wilder retrata, com enorme e, para a época, chocante mordacidade, a história de um homem retido nas profundezas de uma montanha que tem a infelicidade de ser encontrado por um jornalista com sede de drama, ou melhor, com fome de sucesso rápido. O jornalista (excelente Kirk Douglas) sabe que quanto mais tempo o homem ficar preso mais cobiçado será o seu "exclusivo". Fria e torpemente, começa a manobrar uma grande campanha mediática e política à custa do prolongamento do cativeiro. O final é muito menos feliz que o de "The Well".


O mundo abraça cada um dos mineiros chilenos, numa tentativa de ver nesta história dramática com final feliz uma espécie de "luz ao fundo do túnel"; a esperança de que, também nós, sairemos do fosso em que nos meteram - não importa quem, por ora... Cada mineiro, um breaking news, cada mineiro, lágrimas e champanhe. Quando chegarem os 33 à superfície, ressoará a interrogação nascida do vazio noticioso: quem falta salvar?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Yuki & Nina (2009) de Nobuhiro Suwa e Hippolyte Girardot


Apesar do actor Hippolyte Girardot aparecer como co-realizador, não tenho dúvidas que "Yuki & Nina" é um filme De Nobuhiro Suwa -- até porque é, estética e tematicamente, um filme, para todos os efeitos, muito mais "Oriental". Isto é, temos uma narrativa sobre os afectos entre as paredes de uma casa familiar típica dos nossos tempos: um casal e uma criança. Ele é francês, ela é natural do Japão. A filha, Yuki, divide-se entre os dois, sobretudo, quando a separação se afigura inevitável.

A forma como Suwa constrói a tensão doméstica é magistral - já o era em "M/Other" -, porquanto a sua câmara é apropriada pelo espaço onde filma. Suwa explora as divisões (rupturas arquitectónicas equivalem a rupturas afectivas? Ozu não diria que não) como princípio da relação entre as personagens, mas acima de tudo consegue ver nas pequenas rotinas todo o potencial dramático necessário para imergir o espectador na história, ou melhor, "familiarizá-lo" - verbo certeiro - com a casa, com a família, com os seus conflitos interiores, os seus silêncios e "explosões/implosões" à mesa. Tudo, por norma, num único plano, que leva ao limite a co-habitação com os actores no tempo e no espaço.

Já em "2 Duo" e "M/Other" a mesa é o local por excelência de todos os exorcismos emocionais. Em "Yuki & Nina" a irritação do casal é mais explícita quando os vemos a almoçar à mesa com a sua filha Yuki, que assiste ao desmoronar do casamento dos pais. Ia escrever que Yuki assiste "passiva" à discussão dos pais à mesa, mas não estaria a ser exacto, porque é precisamente na ausência de palavras, em cada gesto onde esta parece descobrir uma evasão forçada do ambiente que a rodeia, que a interpretação de Yuki ganha (ainda) mais força. Ela age sobre o espectador com enorme violência quando é testemunha, muda, das zangas dos pais ou, por exemplo, quando serve de tubo de escape emocional para os adultos, que ela e Nina (a sua melhor amiga francesa) têm dificuldade de entender.

Veja-se, a título de exemplo, a magnífica - uma das melhores deste ano - sequência da leitura da carta por parte da mãe e a forma como esta desaba emocionalmente à frente da filha e esta, pela sua linguagem corporal, comunica a sensação de deslocamento que lhe invadirá o espírito ou as deambulações pela floresta mágica, que transportam Yuki de uma realidade (França) para outra (o sereno e fantasmático Japão, filmado à imagem de um Mizoguchi contemporâneo) ou, enfim, da Realidade para o conto fantasista em jeito de fábula antiga do Oriente - os silêncios, as pequenas conversas, dominam esta história plena de gravitação emocional e imbuída de um lirismo tão gradual, tão fino, que acaba por passar quase imperceptível. Delicadeza, arte e magia. Tudo o que o cinema deve ser. Obra-prima.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Etiqueta boboniana do cinema

10. E, pronto, depois eu fui ao Blogger, editar mensagem e escrevi no ponto 10 da minha Etiqueta boboniana: "Em momento algum, deverá assumir em público que aprendeu o que aprendeu graças a esta etiqueta boboniana. Nem Paula Bobone assume as suas fontes, apenas refere que por pertencer a uma classe superior a boa educação corre-lhe naturalmente no sangue". Depois fui a imagem e fiz o upload de duas fotos da mesma Paula Bobone em "Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço" (1970), primeiro filme de João César Monteiro. Escrevi uma legendagem espirituosa com hiperlink e lembrei-me logo de outra regra: "Se quer escrever livros sobre boas maneiras, por favor, certifique-se que NUNCA trabalhou para um senhor chamado João César Monteiro". E depois cliquei em Publicar Mensagem e pronto. Foi giro enquanto durou.

Paula Bobone em "Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço": "Não sei nada. Não sei nada."

Etiqueta boboniana do cinema

9. "Foi uma traição a mim mesmo: durante anos elogiei Lars von Trier, pelo arrojo das suas experiências Dogma, pela profundidade e mordacidade que incutia em cada história, nunca tinha visto nada como "Ondas de Paixão" ou "Idiotas". Dei 4s e 5s a grande parte da sua obra até... ficar fora de moda. Foi a Palma para "Dancer in the Dark" que me fez ceder à pressão de grupo. Não podia continuar a gostar dele, não podia continuar a aceitar a sua "moral", mesmo se a tivesse aceite e posto nos píncaros em tempos idos. Comecei, furiosamente, com as bolas pretas e as estrelinhas solitárias, tipo esmola para pobre. Vomitei o discurso chapa 2 do "a arrogânica, o cinismo, o aquilo e aqueloutro" de Trier em "Dogville", escusando-me a ver nele uma das mais complexas e audazes parábolas sobre a América "Polícia do Mundo" de W. Bush e amigos [por falar em cinismo...]. Subi na vida, comprei uma casa nova, casei-me e fui promovido a editor-chefe. Arrependo-me? Claro que não." (Excerto de "Diário de um Crítico de Cinema" de autor desconhecido, pp. 120)

Programação de cinema na RTP2 (XXVIII): a "ditadura das audiências" é mesmo uma ditadura

"Vá, agora só quero ouvir as vozes dos senhores contribuintes: "GREED IS GOOD"! Não ouvi, não ouvi. "GREED IS GOOD"! O quê?!"GREED IS GOOD"! Ah, assim é que é. Uma salva de palmas para os senhores contribuintes, o melhor público do mundo! "

Sob pena de parecer arrogante, escrevo-o aqui: não há nada que me irrite mais que a tacanhez mental e de espírito. Quando os senhores da televisão, à falta de argumento melhor, se refugiam nos valores dos sacrossantos estudos de audiência normalmente é para defenderem o seguinte: nós só damos às pessoas aquilo que elas querem.

Primeiro, quem diz isso não faz a mínima ideia de como as audiências são medidas, um processo rudimentar com um grau de precisão bastante baixo - nem os audímetros mais modernos, portáteis e que registam qualquer duplicação, merecem tal estatuto de infalibilidade que os tecnocratas da televisão lhes dão. Não ponho em causa a competência de uma empresa como a Marktest ao dizer isto, ponho em causa sim o excessivo, quase dogmático, endeusamento desse indicador - deve ser um em vários... - a que muito boa gente, à falta de nutrição para pensar pela própria cabeça, se presta.

Segundo, pergunto o seguinte: quem vê isto, percebe que a longevidade de um programa pode ir muito para lá daquilo que os shares diários registam; que uma VHS de Hitchcock ou Bergman ou Tarkovsky... pode ser vista e revista várias vezes pelo mesmo espectador, pode ser dada a ver por este espectador a amigos ou familiares, pode, na realidade, passar de geração em geração. Mas, claro, no dia em que o filme gravado passou na televisão o senhor da televisão deitou as mãos à cabeça e jurou nunca mais passar "filmes esquisitos", pois estes têm um share muito diminuto.

Claro que não tenho de explicar, nem a um miúdo de 10 anos ou nem a um adulto com a idade mental de um miúdo de 10 anos, porque é que tudo isto é ainda mais ridículo numa televisão estatal contratualmente obrigada à divulgação e promoção da cultura.

PECs para dar e vender, em todos os tamanhos, pró menino e prá menina

Esta coisa do PEC1, PEC2, PEC3 parece a história de um merchandising mal amanhado de Hollywood. Peço ao Governo que se consulte junto dos cinéfilos da nossa praça, para que se clarifique na sua cabeça aquela regra dourada que todos nós conhecemos: as sequelas são, quase sempre, piores que o original. E, já agora, que esse cinéfilo - posso ser eu! ofereço-me, como mártir-cinéfilo, em nome da pátria, em nome da RESpública! - alerte os nossos governantes para todos os riscos inerentes a um mais do que previsível PEC 3D.

"Olhós ócles três dê para ler! É só um aério sem IVA!"

domingo, 10 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

Etiqueta boboniana do cinema

8. Vira-se a avó para a neta: então, minha filha, estás a ver uma fita? Sim, avó... Como se chama? Chama-se "Notebook"... Ah... Olhá Gena Rowlands, como ela está velha... Sim avó... Ela era casada com um homem muito garboso, costumava recortar fotografias dele quando tinha a tua idade. Cassavetes era o seu nome. Ah, esse é o tipo que realiza este filme. Ai é? Pensava que ele tinha morrido... Não, avó... A neta pega na caixa do DVD de "Notebook" à procura do nome do realizador e conclui: exacto, N-i-c-k C-a-s-s-a-v-e-t-e-s está bem vivo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXVII): "Petit à petit" lá vamos fazendo o nosso caminho

MIL QUINHENTOS E TREZE


A República faz 100 anos? Sim, ok, mas a nossa petição faz um mês. E, ó senhora República, tente bater isto: num mês, juntámos mais de 1500 assinaturas, entre as quais, e mais recentemente, de Rogério Samora, Daniel Sampaio, Catarina Portas, Tiago Guedes e Ivo Canelas. Bem, vou deixar a senhora República fora desta luta; dirijo-me sim aos Senhores que lhe vão ao bolso e ainda são capazes de criticar o seu belo peito: haja decência para, pelo menos, nos darem uma resposta.

Não nos cansamos de repetir as nossas argumentações, nos mais variados formatos, mais recentemente, em vídeo, e esperamos chegar, brevemente, ao diálogo com o Poder político e/ou os tais Senhores da RTP2. Precisamos, contudo, de obter maior REPRESENTATIVIDADE, o que quer dizer que precisamos da sua assinatura e, caso já tenha assinado, da sua ajuda para divulgar esta causa. Força!



"Petit à petit", lá vamos conquistando a Sociedade Civil nesta luta por uma programação de cinema digna na RTP2.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Nova trilha (XXI): Masina e Yo La Tengo

Giulietta Masina em "Le notti di Cabiria" (1957) de Federico Fellini

Programação de cinema na RTP2 (XXVI)

MIL E QUATROCENTOS

Entre as 1186 e as 1400 assinaturas, muita coisa aconteceu. Mais grandes figuras da nossa sociedade assinaram a petição, entre elas, o Professor José Mattoso, Carlos Pinto Coelho, Jacinto Lucas Pires e Catarina Portas, e a nossa causa foi noticiada no jornal Público do passado domingo.

Temos, contudo, uma meta que nos põe em sentido: 2000 assinaturas até dia 11 de Outubro. É ambiciosa e difícil de cumprir face ao nosso anonimato e à pouca vontade que os órgãos de comunicação social estão a manifestar em tornar Publicada a Opinião Pública - para quem não sabe a diferença entre estes dois conceitos, voilá!

Sentido, ordem, reunir tropas, apontar canhões e FOGO: mais assinaturas, meus caros indecisos, amigos de indecisos, amigos de amigos de indecisos! Por quê? Porque... bem, se o nosso texto constante da petição não o satisfaz, é visitar o nosso blogue e ir à (novíssima) coluna do "argumentário".


Comandar as tropas em direcção ao nosso objectivo!, ordena o nosso Field Commander Cohen.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A arquitectura de um gag ou o gag arquitectónico

"Playtime" (1967) de Jacques Tati

"O Tempo que Resta" (2009) de Elia Suleiman

(Peço desculpa pela má qualidade dos stills, mas não encontrei melhor - e procurei muito. De qualquer modo, cá estão dois genialíssimos cineastas a rimar com os seus gags visuais, explorando a configuração dos espaços e edifícios. Já agora, um - senão o - dos melhores planos do ano: a sequência, num único plano, do hospital em "O Tempo que Resta" - que gostava de ter encontrado na net, mas ainda não encontrei...)

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