domingo, 31 de outubro de 2010

O primitivo plano fixo por vezes deixa de ser Do cinema para passar a ser Da fotografia

James Benning, "Ruhr" (2009)

In the primitive era when camera was fixed to the ground it was natural for filmmakers to concentrate on moving material phenomena; life on the screen was life only if it manifested itself through external, or "objective", motion.

Siegfried Kracauer, in Theory of Film: The Redemption of Physical Reality (1960), Princeton, p. 34

Nova trilha (XXIII): Uma e Calexico

Uma Thurman em "Kill Bill: Vol. 2" (2004) de Quentin Tarantino


sábado, 30 de outubro de 2010

Um cinema na vertical: onde O. põe candeeiros oitocentistas, A. põe...*

"Lola Montès" (1955) de Max Ophüls

"California Split" (1974) de Robert Altman

*- Do barroco lustroso (Ophuls) para o barroco boçal (Altman). (Já agora: nestas duas cenas, temos um travelling que, recuando, procura pôr em primeiro plano um "objecto de fascínio", por assim dizer, "extradiegético". E assim comemoro o post número 461 deste blogue. Obrigado.)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Estado da arte (II)


Mas lá estás tu, Luís, a entrar na berraria surda do "os políticos são todos uns aldrabões" ou "a culpa é dos jornalistas". É verdade, na parte I deste Estado da arte, sobre a falta de arte do Estado, limitei-me a apontar dedos, a ser treinador de bancada, ou seja, a ser como a maioria é: falar, falar, falar, mas não dizer muito. Pois bem, para não me virem com esse argumentário, cá vão propostas muito CONCRETAS que gostaria de fazer a um eventual candidato à Presidência que não nenhum dos associados a partidos políticos; por exemplo, a um Fernando Nobre que estivesse - creio que não está, lamentavelmente... - empenhado numa ALTERNATIVA.

Primeiro, sugiro que se repense a figura do Presidente da Assembleia. Penso que é fundamental encetar reformas profundas na AR, para repor a exigência e a seriedade entre os deputados; para que deputados que roubem gravadores a jornalistas sejam devidamente sancionados, para que a mediocridade de certas intervenções seja evitada, para que deputados-arguidos não sejam recebidos com abraços e beijinhos na Casa da Democracia, que nos representa. Duas medidas, logo à partida, impõem-se: primeiro, o estabelecimento de um rigoroso e intransigente regime de exclusividade, como têm por exemplo os magistrados; segundo, uma reorganização dos trabalhos parlamentares, por forma a que seja mais evidente aos olhos do cidadão a divisão de tarefas dentro de cada grupo parlamentar (poderia haver uma sectorialização das mesmas, como se em cada bancada houvesse uma espécie de governo-sombra).

Para isso, naturalmente, o Presidente da AR não pode ser o senhor Jaime Gama, figura perfeitamente inútil no actual contexto político, que apenas se encosta a umas quantas medidas inevitáveis, como equipar a Assembleia de computadores e outro tipo de equipamento informático - para além de ser uma figura inaceitavelmente envolta em suspeitas de práticas criminosas com menores... "Mas ele é inocente até prova em contrário". Pois é, mas não interessa: a mera suspeita torna, neste momento, inviável a continuação de quem quer que seja num lugar público.
O Presidente da Assembleia devia, a meu ver, ser eleito directamente pelo povo - ou nomeado por AQUELE Presidente da República que descrevi atrás - e pelos seus representantes parlamentares. A sua independência é fundamental quando a instituição está devassada pela mediocridade. Sanear a AR. Esse será o objectivo deste Presidente, de facto, empenhado na credibilidade do principal órgão de soberania.

Depois, o Presidente da República, alguém que já disse que deveria ser totalmente independente - nada a ver com o suprapartidarismo demagogo do senhor Cavaco -, deveria nomear um Governo de Salvação Nacional, constituído por pessoas de insuspeita qualidade, que tenham dado provas cabais do seu valor e com méritos claros na área para a qual seriam mandatadas.

Por exemplo, a primeira-ministra poderia ser alguém como Helena Roseta - é verdade que teve ligação partidária, mas é pessoa capaz de se alhear do pântano aparelhístico em que o país está afundado... -; a ministra da Justiça poderia ser a magistrada Maria José Morgado; o ministro das Finanças e da Economia - as duas pastas numa... ninguém viu diferença quando isso aconteceu com Teixeira dos Santos... - poderia ser Bagão Félix - sim, teve ligação partidária, mas penso que é um homem independente...-; o ministro para a Ciência e Tecnologia poderia ser Nuno Crato; o ministro da Educação poderia ser o Professor Arsélio de Almeida Martins; o ministro da cultura poderia ser o Professor Fernando Cabral Martins; o ministro dos negócios estrangeiros poderia ser, caso não fosse Presidente, Fernando Nobre... etc...

Isto a título meramente indicativo dos critérios a seguir. Por princípio, nenhum deles poderia estar filiado num partido político, ninguém poderia estar indiciado como arguido num qualquer processo - ou ter estado indiciado num qualquer processo crime - e, coisa que não sei quanto aos nomes supraindicados, não deveria estar ligado a qualquer organização política secreta.

(Claro que a comunicação social tem um papel a desempenhar aqui: deixar de convidar testas de ferro dos partidos e começar a convidar pessoas INDEPENDENTES para "fazer" opinião, opinião crítica, honesta e evoluída.)

Esse Governo e Assembleia de missão nacional dariam margem aos partidos para se refundarem, para se expurgarem... Seria, a meu ver, uma boa solução para o actual estado das coisas. Caso não dê, sugiro uma outra, mais radical, sobre a qual me pronunciarei na parte III.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estado da arte (I)


A culpa de toda esta situação? Bem, primeiro é dos jornalistas que insistem em tornar a política numa arena de medíocres que não pensam pela sua cabeça e que ascendem a opinion makers à custa dos seus raciocínios circulares, encomendados pelo seu aparelho partidário - a palavra aparelho é tão clara quanto é a palavra sistema no mundo do futebol. Os jornalistas - a começar os da televisão pública - insistem em estupidificar a classe política, quando convidam as pessoas do costume para descodificar a cor da gravata do Sócrates, o esgar X de Cavaco Silva ou o tango sinuoso de Passos Coelho. O folclore político é um produto do grau de infantilização perigosa do debate mediático. Mas o problema, como a história do ovo e da galinha, também está fundamentalmente de quem dirige este país.

Para quem assiste regularmente às actividades da Assembleia, a situação é óbvia: o nível dos nossos deputados é inaceitável num país que se quer evoluído e sério. As intervenções acéfalas de meia dúzia de personagens, que apenas vêm fazer eco acrítico do tal "aparelho", são um insulto ao estatuto do deputado, alguém que representa os cidadãos, supostamente, com independência e espírito crítico. Ao invés, temos uma Assembleia da República com 230 almas, das quais conhecemos 7 ou 8, os únicos que produzem algum pensamento, fazem passar algumas leis e ainda têm tempo para ir debatê-las na TV. Onde estão os restantes? O que fazem? Não sabemos bem - se calhar nem eles.

Faço esta introdução para dizer isto: as recentes negociações em torno do Orçamento de Estado são mais uma machadada na credibilidade dessa instituição apodrecida que é a Assembleia da República (AR). Afinal, parece que, de repente, a Democracia só funciona com maiorias absolutas. Falácia inaceitável, tendo em conta que o Estado de Direito se baseia no pluralismo, na abertura e na diversidade; a Assembleia da República tem composição diversa e complexa porque a Sociedade é diversa e complexa. Óbvio? Não, para os principais partidos da nossa praça, só há democracia quando se evita "empoderar" (palavra horrível) mais a Assembleia. Cá estão, de novo, os políticos a assumirem, sem saberem se calhar - por vício de linguagem, talvez -, a sua tremenda incompetência e, tantas vezes, má-fé.

Depois dizem-nos que é natural haver negociações entre o partido do Governo e o maior partido da oposição. Negociações à porta fechada, como aquela diplomacia secreta que tomava forma em vésperas de guerra ou atentados de Estado. É normal? Não, nem sequer me parece constitucional, visto que, segundo o princípio democrático da transparências das instituições, as leis devem ser debatidas em sede parlamentar pelos nossos representantes. Ora, para PS e PSD a lei que é o Orçamento de Estado deve ser conjurada entre estes dois partidos, que nem coligados estão, e à porta fechada.

Assistiu ao debate da especialidade do último Orçamento, aquele em que PSD anuiu ao pedido para dançar o tango do PS? Não? Então conto-lhe aqui que o PSD não esteve lá, ou melhor, esteve lá um senhor Deputado a fazer figura de corpo presente. Mas não foi proferida uma única sugestão da parte deste. Claro! Já havia sido tudo combinado nas tais negociações à porta fechada sabe-se lá feitas por quem e com que interesses em jogo. Outra coisa: quem é o senhor Passos Coelho? Alguém votou nele para nos representar? Não, pois não? Então por que tem ele tanta palavra a dizer no que diz respeito à viabilização do Orçamento? Miguel Macedo, líder parlamentar do PSD, parece o homem invisível durante todo este processo e ele é, à luz da Constituição, um representante dos portugueses na AR. O senhor Passos Coelho é um empresário e líder do PSD. Representa os interesses de um partido, não os interesses do povo português - pois estes não lhe foram confiados pelo voto.

Mas toda a gente acha normal tudo isto. Estas negociações feitas à margem da lei e, pior, da moral. Ninguém, a começar pelos jornalistas, está interessado em começar a sanear o debate público, a emprestar- sem juros - alguma credibilidade, seriedade, elevação à discussão política. O senhor Cavaco promete-nos, agora, uma magistratura activa. De novo, este senhor, tecnocrata autocrático com mentalidade provinciana, mete o pé na poça: então se promete uma magistratura activa, quer dizer que tem sido o responsável por uma Presidência passiva? Se calhar, mas quem sou eu para pôr em causa o Doutor Aníbal Cavaco Silva - o único político português cujo primeiro nome é Doutor. Deve ser da postura rígida, do espírito estreito, do miserabilismo neo-salazarento e do endeusamento tecnocrata que a opinião publicada lhe tem devotado.

A vida, o teatro, a vida

"Fanny och Alexander" (1982) de Ingmar Bergman

"Mistérios de Lisboa" (2010) de Raoul Ruiz

Se fosse como em francês, "o mar" estaria em português no feminino: a mar

"L'atalante" (1934) de Jean Vigo

"U samogo sinego morya"/"À Beira do Mar Azul" (1936) de Boris Barnet

(Deleuze, quando falava da ideia de imagem líquida no cinema francês, escreveu o seguinte sobre a obra-prima de Vigo: "é por fim uma função de vidência que se desenvolve na água, por oposição à visão terrestre: é na água que a amada desaparecida se revela, como se a percepção gozasse de um alcance e de uma interação, de uma verdade que não tinha em terra". A mesma vidência existe nas águas soviéticas do filme de Barnet, mas essa é uma relação mil vezes mais platónica ou, se preferirem, mil vezes menos carnal que no filme de Vigo. Os marinheiros só se apercebem da grandeza do amor pela rapariga quando a perdem no/para o mar...)

Mistérios de Lisboa (2010) de Raoul Ruiz


É um acontecimento, aquele que se anuncia no Metro de Lisboa, com cartazes quase feitos à escala dos protagonistas do filme, aquele que se anuncia nos vários cartazes espalhados pela cidade - já agora, horríveis, como a maior parte dos cartazes do cinema português... Digo: é um acontecimento, mas de que tipo? Bem, desde logo, não é um acontecimento por ser uma mega-produção histórica, dividada entre Portugal e França, nem tão-pouco é um acontecimento pelo facto de combinar alguns dos actores mediaticamente mais quentes nos dois países (Ricardo Pereira e Clotilde Hesme, por exemplo). Também não é um acontecimento só por levar à tela um romance folhetinesco de Camilo Castelo Branco, com todo o rendilhado romântico próprio do tempo em que se situa, o Portugal das Invasões Francesas, o Portugal da revolução liberal e toda a convulsão que se seguiu... Não, também não é isso que faz deste filme com quatro horas e meia de duração - xiça! mas, não, também não é por isso... - um acontecimento do cinema português, ou melhor, um acontecimento do Cinema. Ponto final.

O que faz de "Mistérios de Lisboa" um acontecimento do Cinema é o facto de ser uma obra realizada em pleno estado de graça. Ruiz tornou esta monumental narrativa histórica num espaço para expandir, sem freios, um dos mais arriscados exercícios formais que tenho memória de ver. Atenção viscontiana aos cenários, execução deleitosa, sensual mesmo, de cada plano-sequência monstruosamente complexo (para operador, para actores, para todos!) mas sempre levitante e aparentemente simples e espontâneo. Ophuls espreita em vários momentos, sobretudo, nos jogos lânguidos com os objectos requintadamente escolhidos, como um candelabro, em torno do qual gira uma sequência de vários minutos, um diálogo entre a Duquesa e o jovem Pedro - é Ophuls até aos cabelos, mas é o Ophuls ao serviço não do espectáculo per se, mas do espectáculo da Narrativa. O teatrinho de cartão (bergmaniano?) também é marca clássica no grande cinema operático de um Visconti e de um Ophuls, como se toda a vida do protagonista, trágica, intensa e, por vezes, impossível seguisse uma qualquer marcação cénica, que lhe indica para onde os seus passos devem seguir... sempre no encontro com os passos das outras personagens.

O rendilhado narrativo é gerido com uma criatividade proporcional à beleza das imagens; Ruiz está sempre um passo à nossa frente, apanha-nos quase sempre de surpresa com as suas soluções visuais e diegéticas fascinantes. Exemplo da magnífica - de novo, Ophulsiana - sequência - se virem, não há cenas aqui, só sequências... - da descida da magnificente escadaria da Ópera. Dois indivíduos, até então anónimos, descem as escadas e vão comentando as vidas de quem passa - as nossas personagens. A narração, aqui, é viva, sempre filmada em continuum e posta ao serviço do bailado geral entre forma e conteúdo. Bailado? Tudo é bailado aqui - Ophuls de novo... mas também Visconti espreita e, já agora, Preminger não é esquecido...

Veja-se a sequência em que o Conde vê pela primeira vez a Condessa. Complexíssima sequência, que inclui inúmeros encontros - trocas de olhares, diálogos, momentos de silêncio - que levam ao limite a capacidade dos seus actores e que vão consumindo cada centímetro do espaço fílmico. Há um momento em que Ruiz resume, pelo menos, TRÊS cenas num único plano. A cena funesta do nascimento do Padre Dinis é, estou em crer, a mais impressionante lição de mise en scène do cinema recente. E como se comportam os actores? Comportam-se como génios. Ruiz eleva o cinema nacional a um estado de excelência inaudito.

Adriano Luz, que sempre foi um actor magnífico, tem o papel da sua vida - é o actor do ano, não temos dúvidas quanto a isso -; Ricardo Pereira transcende-se como nunca julgámos possível - apesar de o termos defendido em "Milagre Segundo Salomé", filme anão ao pé deste - e Maria João Bastos revela-se actriz para levar em grande conta no futuro do nosso cinema. O mesmo podia dizer para os demais protagonistas (Afonso Pimentel, por exemplo, está óptimo), mas se enumerasse cada um dos seus méritos, tal como se quisesse enumerar cada uma das virtudes deste Monumento fílmico, teria de escrever bem mais que este reles post, indigno dos reais feitos alcançados*.

*Passo a palavra a quem sabe. Por exemplo, ao senhor Bordwell: Mysteries of Lisbon has a rich, high-thread-count look, but it’s not your usual prestige costume drama. The long takes cling to characters as they flirt their way across a ballroom, and the camera slips through walls in the manner of old-fashioned cinema. There are the usual Ruiz flourishes of hallucinatory deep focus (achieved through split-focus diopters), characters floating rather than walking, and the occasional peculiar angle. But the film remains calm and lustrous, culminating in a slow tread into pure light.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Marty (1955) de Delbert Mann


Cheio de moralzinha de Hollywood, com personagens desgraçadinhas, reduzidas a estereótipos que não se percebe se pertencem à sociedade norte-americana ou se pertencem à dita moral OFICIAL, com probleminhas que só acentuam o auto e hetero-miserablismo reinante e uma concepção primária, infantil mesmo, de felicidade... Cheio de tudo isto está "Marty", filme vencedor de quatro Óscares em 1955, ano em que os códigos de decência levavam alguns arrombos importantes por dentro (exemplo de Otto Preminger), algo que tinha de ser rapidamente debelado pela Grande Indústria.

A "chapada" final de Marty ao seu amigo solteiro pode ser visto por muitos como um acto redentor, mas é, quanto a mim, hoje, no século XXI, um gesto cínico do "Marty"-filme de perpetuação da feição mais tradicional da sociedade americana, dividida entre casados e solteiros, entre casados felizes/infelizes e viúvas solitárias, entre isto e aqueleoutro. As divisões morais são motivo para cada cena de "Marty", onde cada fala é aproveitada para pregar ao espectador a história da carochinha: quem quer casar com o homem gordo e feio que, aos 30 e tal anos, lida com a sufocante pressão social de ser um solteirão?

Ele é um "dog", isto é, a espécie de pessoas com quem ninguém quer dançar nos bailes ou com quem ninguém quer ir ao cinema ou jantar. A forma como a existência do protagonista se resume sempre entre o ser solteiro e o estar à beira de não o ser é, para além de um exercício degradante de comiseração - pena mesmo... -, de um oportunismo moral completo. Mas o amor aqui é uma questão de status, tudo na sociedade americana é. Para deixar de ser um dog, uma pessoa de segunda, Marty tem de arranjar mulher. E ele fará de tudo para arranjar, provando a si e ao espectador que, mesmo sendo um homem gordo e feio, conseguiu o que a sociedade ditou que ele queria.

Valeu-lhe a sua generosidadezinha auto-comiserativa e valeram-lhe também os astros. Recordo que a rapariga com quem Marty passa a noite a conversar - a sua futura mulher... - parecia deslumbrada, no início, por um sujeito indecoroso, mas bem parecido, "not a dog", que lhe deu com os pés mal conseguiu, tratando-a abaixo de cão. Mas ela só quer um homem e Marty só quer uma mulher. Não interessa muito, no fundo, se isto é um filme sobre dogs que se casam com dogs para deixarem de ser dogs e not dogs que se casam com not dogs para levarem uma vida de cão - o casal de bonitos deste filme sofre tanto, coitado... Coitados eles e coitados, também, homessa!, os feios. Coitados todos, coitada a humanidade entretida na sua própria domesticação moral e intelectual - caninazinha ou não.

Super-agentes dos sonhos tecno(i)lógicos: Paprika/Atsuko e Cobb/Di Caprio

"Paprika" (2006) de Satoshi Kon

"Inception" (2010) de Christopher Nolan

[Eis dois excelentes filmes sobre o estreitamento (muito contemporâneo) entre o mundo dos sonhos e aquilo que designamos por mundo real, mas que, em qualquer um destes dois filmes, é APENAS um mundo percepcionado em estado de vigília. Na obra do recém falecido Satoshi Kon, temos uma bizarra, visualmente excêntrica, viagem a um tempo onde ecrãs, de cinema e de computador, projectam sonhos alheios, autênticas procissões circenses de caos, destruição e absurdo. Os sonhos "tecnologizaram-se", facto que é filosoficamente tratado nesta animação adulta sobre o enfraquecimento, quase profanador, da realidade pelas alteridades oníricas/digitais. Cá está, para mim, um excelente, e insólito, double bill.]

domingo, 17 de outubro de 2010

He Who Gets Slapped (1924) de Victor Sjostrom


Seastrom e Chaney. Juntos no primeiro filme de sempre produzido pela mítica (e, entretanto, insolvente) Metro Goldwyn Mayer. E o primeiro filme é, como quase todos os grandes mudos dos anos 10 e 20, um soco no estômago. Obra desconfortável sobre "a tragédia do palhaço", o palhaço é Chaney antes mesmo de se tornar palhaço, isto é, tornou-se palhaço para suportar a humilhação pública a que foi sujeito no dia da defesa da sua tese. Nesse dia, Chaney ficou sem tese e sem mulher, os dois foram "roubados" pelo seu tutor, o velhaco Barão Regnard.

Levou na cara quando o acusou de plágio e a Academia riu-se, expondo-o à vergonha e ao ridículo insuportável. Sem orgulho próprio, com a sua virilidade fortemente abalada, Chaney torna-se palhaço de circo; naquele que "leva chapadas", como diz o título do filme. Toda a gente se ri de uma boa chapada, dada num palhaço ou não...

Sabendo disso, Chaney arquitecta uma vingança sado-masoquista, que culmina numa espécie de destruição e auto-destruição pelo riso, em espaço apropriado: um circo, palco de uma "tragédia cómica". Um Seastrom, ou Sjostrom, usando o seu nome sueco, que está aqui longe da grandeza poética/metafórica de "The Wind", mas que, ainda assim, espanta pelo negrume quase metafísico dos instantes finais.

Avalanche Express (1979) de Mark Robson


Há filmes em que tudo parece correr mal. "Avalance Express" é um case-study neste âmbito. Um dos seus actores principais, Robert Shaw, estava tão doente que a sua voz mal se ouvia; logo, foi preciso dobrar grande parte das suas falas. Shaw acabou por falecer durante o período de rodagem do filme tal como, imagine-se, o seu realizador, o conhecido Mark Robson. Monte Hellman terá entrado em cena para compensar o repentino desaparecimento do principal homem por trás deste filme de acção sobre o mundo da espionagem da guerra-fria, "Avalanche Express".

O resultado foi, e continua a ser, muito desvalorizado. De facto, os buracos narrativos são muitos, as incongruências podem raiar o absurdo, mas "Avalanche Express" é, quanto a mim, um divertido filme falhado, acidentado na produção e acidentado na história que conta: concentrada num comboio que atravessa a Europa com um isco a bordo: um general soviético que desertou a favor dos Americanos. Lee Marvin é o agente norte-americano que arquitecta a missão com o seu quê de suicidária: ah os soviéticos querem silenciar o seu general desertor? Pois bem, come and get him! Pômo-lo, aparentemente vulnerável, num comboio e chamamos a si todos os espiões russos espalhados pela Europa. A partir daqui, os soviéticos fazem de tudo para deter a locomotiva, desde sabotagens da linha até, daí o título, provocarem uma terrível avalanche que ameaça varrer o comboio do mapa.

Claro que o assunto se resolvia, rapidamente, com armamento pesado, mas os soviéticos - e os americanos - foram feitos para este jogo gato-rato. Enfim, inverosímil, mas divertido q.b., mas, sem dúvida, com potencial para muito mais... Imaginamos como seria este filme refeito por um Tarantino ou mesmo por um Carpenter. Com mais violência, magotes de soviéticos mortos-vivos ou não, estratagemas (ainda mais) loucos para parar o comboio do duro de roer, do "sacana sem lei", Lee Marvin... A parte em que os americanos resolvem virar "terroristas" para acabar com o inimigo poderia, hoje, ser elevada a parábola política sulfurosa, cara a qualquer um dos nossos maiores génios (pós-modernos) da Sétima Arte. Como um simpático "filme falhado" nos pode pôr a divagar!

sábado, 16 de outubro de 2010

Dizer ainda que não se deve começar frases com Dizer ainda que

De onde veio esta moda terrível dos jornalistas de começarem as frases com o verbo no infinitivo?

Por exemplo, "Recordar ainda que..." ou "Dizer também que..." tem sido uma recorrência em todos os canais, nos melhores e nos piores jornais. Eis um vírus linguístico absurdo próprio de um "Eu, Jane, tu, Tarzan"..."Eu fazer erros, tu falar bem".

Programação de cinema na RTP2 (XXIX): uma mão cheia de nada

MIL SETECENTOS E CINQUENTA E TRÊS

Estamos a chegar, com mais força, aos media. A Agência LUSA já nos noticiou, o que provocou a tradicional avalanche de notícias nos órgãos de comunicação social que são, no fundo, transcrições quase ipsis verbis da dita fonte.

Mais significativa foi a publicação que a Rua de Baixo fez de uma entrevista* que dei a um dos seus jornalistas, a quem agradeço a oportunidade de expor, de forma mais directa, sem filtros, os nossos argumentos.

Não sou, naturalmente, a pessoa mais indicada para destacar alguma parte da entrevista, mas há um conjunto de palavras que disse, naquele dia, com um sentimento de urgência que, hoje, não mudou. Muito pelo contrário.

Porque eu também tenho noção de que não basta ter pessoas conhecidas, muitas pessoas conhecidas. Neste momento nós precisamos é de muita gente a assinar, precisamos do público, precisamos de, no fundo, ter a sociedade civil mobilizada para isto e achamos... que é a esse público que o programador deve responder.


*- Onde se lê "José" deve-se ler "João" Mário Grilo. A gralha é-nos alheia.

Quero dizer outra coisa aqui, para que fique também registado.

Numa Democracia, uma petição não é um texto excludente, ou pelo menos, não DEVE ser um texto excludente. Isto é, por não ampliarmos esta causa a todos os domínios das artes - e sabe-se lá mais o quê... - não quer dizer que estejamos CONTRA o que quer que seja.

Na realidade, olhando para o SENTIDO do nosso texto, perceber-se-á facilmente que não estamos contentes com o grosso da programação cultural da RTP2 e RTP1 e que queremos que esta petição seja EXEMPLAR na luta por um serviço público de qualidade. Dentro da lógica da petição como um texto excludente, contra algo em vez de a favor de algo, ninguém assinaria petição alguma, pois nenhuma petição consegue abarcar TODO o universo de reivindicações que cada cidadão português tem legitimidade de fazer.

Digo isto a todos aqueles que, contactados por nós, com responsabilidade social na área da cultura, se recusam a assinar alegando, algumas vezes, que concordam com a nossa batalha, mas que por esta ou aquela nuance, por não pedirmos a cabeça deste ou daquele ou por não pedirmos reformas de fundo na ideia de serviço público, não assinam e se recusam a divulgar esta iniciativa.

São pessoas que acreditam, com certeza, que Portugal é um país que se constrói por lobbying interno, de costas voltas para a Sociedade e os seus mais desinteressados representantes. Posição triste e, peço desculpa, pequenina.



Uma mão cheia de nada...

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