domingo, 7 de novembro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXX): triple X ou post sobre a aprendizagem do amor

MIL OITOCENTOS E SETENTA E QUATRO

Já se escreveu muito no nosso blogue e página no Facebook sobre a evolução desta iniciativa, os seus ganhos diários em matéria de apoio popular - que agradecemos - e também as pequenas reflexões, nossas e dos nossos subscritores, que temos promovido.

Desde já, queria agradecer ao Knoxville pela nomeação do blogue da petição para os Blog Awards. Agradecemos a nomeação e, acima de tudo, as palavras que nos dirige, que só nos dão força para continuar. Mas, face a elas, tenho um statement a fazer: só considerarei esta iniciativa um sucesso se esta trouxer alguma consequência visível na programação de cinema na RTP2. Uma consequência que se quer, naturalmente, para melhor - para pior também é difícil, não é verdade?

É que a RTP2 tem-se especializado numa espécie de exposição enfadada do cinema, quase como se fosse uma injecção que a "gentalha" cinéfila tem de levar ao sábado... num sítio que eu cá sei. É indigna a forma como a Sétima Arte é tratada no segundo canal e espanta-me que tanta comunicação social tenha feito pouco ou nada para denunciar este claro atropelo ao conceito de serviço público, aos valores da promoção e divulgação culturais. Como nos disse João Milagre em entrevista, parafraseando Nietzsche, "é preciso aprender a amar". Acho que um canal como a RTP2 pode (voltar a) ter como função ensinar as pessoas a "aprender a amar", coisa que tem sido totalmente descurada pelo actual director de programas.

O seu discurso atabalhoado e pesporrente, numa conferência que se realizou (curiosamente) na minha faculdade, FCSH-UNL, e na presença de Inês de Medeiros (ver vídeos abaixo), é denunciador de um fechamento de ideias, de uma espécie de auto-desculpabilização/vitimização que paralisa. Um vazio caótico que tem imperado no segundo canal há cerca de 5 anos, sem contestação de relevo por parte da comunicação social e, diga-se, da própria sociedade civil.

Inês de Medeiros, como também é evidente num dos vídeos, parece remar no sentido dessa aprendizagem, pela televisão, de modos de ver o mundo diferentes daqueles que a programação "para as massas" oferece. A RTP2 tem remado no sentido de uma aproximação pouco imaginativa ao modelo das demais televisões generalistas, numa tentativa de ser Panda durante o dia, FOX no prime time e SIC Radical mais à noite - e no meio lá enfiam os programas religiosos e da sociedade civil. Isto faz algum sentido, face ao que é hoje a televisão?

Não precisamos de um canal público, com dever de promover A DIFERENÇA, a duplicar programações de estações privadas com fins lucrativos. Isto é, quanto a mim, ultrajante. Por isso, volto a dirigir-me a quem me lê: se não assinou, assine, pois esta é uma questão que toca a todos, um princípio de uma batalha pelo saneamento (no sentido que Jon Stewart já deu ao termo nos EUA ou no sentido que o nosso dicionário lhe dá, porquanto sanear é "tornar apto para a cultura") da nossa televisão, no fundo, do nosso país. E, com certeza, sem diabolizações...

Já agora: estes vídeos NÃO foram realizados pelo Kiarostami. Claramente NÃO.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

The Sin of Harold Diddlebock (1947) de Preston Sturges


Cá está um case study algo esquecido na história do cinema: "The Sin of Harold Diddlebock" ou "Mad Wednesday". Dois títulos pelo qual é conhecido o último filme com Harold Lloyd, realizado e escrito por Preston Sturges. Como dizem os créditos de abertura: "An Original Screenplay Written and Directed by Preston Sturges". O rol de ironias começa aqui e apercebemo-nos disso logo a seguir: "Mad Wednesday" abre com... "The Fresman", longa-metragem realizada em 1925 com o célebre slapstick comedian do mudo, Harold Lloyd.

No seu tempo, Lloyd foi tão ou mais popular que Keaton, enchia salas com os seus filmes repletos de stunts tão arriscados - aqui não há CGI, meus pequeninos... - quanto arrojados, mas frequentemente mais delirantes que arriscados e arrojados. Ver a obra de Lloyd é um regalo para os olhos: o efeito especial aqui é o corpo de Lloyd, os mal-entendidos e o caos que aquele gera. "Girl Shy", "Safety Last" e, claro, "The Freshman" são algumas das suas maiores obras-primas. Sturges pega na última para começar um filme, mas não um qualquer. É o último filme de Lloyd e, estou certo, este sabia-o. Apesar de ainda ser novo em 1947 - tinha 52 anos - o actor saberia que não voltaria ao cinema, face à forma como o sonoro proscreveu as suas maiores estrelas - Keaton e Stroheim, só para dizer dois nomes.

Mas, voltando a este filme de Sturges, o realizador de "Sullivan's Travels" e "The Palm Beach Story" resolveu recuperar Lloyd e a memória do seu cinema; abriu o seu filme com as últimas imagens de "The Freshman", sendo que a nestas introduziu um conjunto de subtis reedições, por forma a conduzir um clássico mudo do burlesco para o presente, mais de 20 anos depois... Para o efeito, Sturges repegou na sequência antológica do jogo de futebol americano em que o "águas" Harold Lloyd, um caloiro ridicularizado por todo o campus universitário, se revela um feroz avançado que ultrapassa os seus adversários com uma técnica assaz sui generis.




Excerto de "The Freshman" (1925) de Fred C. Newmeyer & Sam Taylor


O mesmo excerto de "The Freshman" remontado por Sturges em "The Sin of Harold Diddlebock" (1947). ATENÇÂO: o presente excerto está sonorizado (música e som de fundo do público), contudo, não consegui incluir a banda de som na transcrição para a Internet. Apesar disso, este mal pode ter vindo por bem, já que esta sequência é muda "de raiz". A parte falada (perto do fim) está legendada. O excerto foi extraído do DVD da BACH FILMS.

É absolutamente obrigatório ver os dois vídeos em simultâneo


Comparando a sequência de 1925 com a de 1947, constatam-se algumas diferenças curiosas: Sturges, agora com a possibilidade do som, descarta intertítulos, usando pequenos artíficios (como um insert) para conferir clareza à narrativa. Altera um ou outro gag (nomeadamente o que diz respeito a um som que a personagem de Lloyd confunde com o apito do árbitro) e, muito importante, inclui uma personagem nova, um homem forte da publicidade que entregará a Lloyd, no final do jogo, o seu cartão, prometendo-lhe trabalho.

Já estamos aqui fora do universo do filme de 1925, do cinema mudo, do tempo em que Lloyd era uma Estrela planetária. Passamos, a partir daqui, como em "Sullivan's Travells", para a realidade dura num registo desencantado: Lloyd vai ter com o dito publicitário, para lhe reclamar o emprego prometido, mas bate com a cabeça na porta ou quase... O homem diz-lhe, cinicamente, que tem reservado para si um trabalho que lhe dará a gratificação de poder progredir na empresa. Lloyd, ou melhor, Diddlebock - é esse o nome do nosso protagonista - fica numa profissão precária e pouco estimulante de secretário durante vários anos.

O seu envelhecimento, sem glamour ou delírio, longe dos tempos de "The Freshman", culmina com o despedimento. A partir daqui, este homem bondoso começa a beber, não muito, na realidade, basta-lhe um copo para soltar a fera que estava adormecida dentro de si. Uma "quarta-feira louca", à custa de um copito de um cocktail de bar, transforma Diddlebock no freshman de outros tempos. Enérgico, tempestuoso, caótico, histriónico, desastrado, mas sempre com coração quente, Diddlebock envolve-se numa série de trapalhadas à volta de um circo que adquiriu quando estava ébrio.

"Safety Last!" (1923) de Fred C. Newmeyer & Sam Taylor


"The Sin of Harold Diddlebock" (1947) de Preston Sturges


O Lloyd acrobata, na corda bamba, regressa em pleno na cena vertiginosa do edifício, citação clara a "Safety Last!", filme que, como este, ironizava muito com o mundo cínico dos negócios e do marketing. O seu jeito com animais ferozes - um leão domesticado - é proporcionalmente inverso ao seu jeito com as mulheres, sobretudo, uma das mulheres que ama - as outras eram suas irmãs, "eu amo a mesma mulher, mas em vários corpos", aponta a certa altura Diddlebock. Aqui sentimos o "Girl Shy" de 1924 a descer sobre si: uma misoginia benigna que também podemos encontrar na screwball comedy de Hawks "Bringing Up Baby", onde as feras são um tigre - aqui é o tal leão - e a personagem feminina - por intimidarem a masculina... "Mad Wednesday" é, portanto, um dos mais inspirados filmes-filmes, um olhar terno - sem mágoa, mas muita ironia - sobre um grande homem que fez rir às gargalhadas - e continua a fazer rir! - gerações e gerações de espectadores.

domingo, 31 de outubro de 2010

O primitivo plano fixo por vezes deixa de ser Do cinema para passar a ser Da fotografia

James Benning, "Ruhr" (2009)

In the primitive era when camera was fixed to the ground it was natural for filmmakers to concentrate on moving material phenomena; life on the screen was life only if it manifested itself through external, or "objective", motion.

Siegfried Kracauer, in Theory of Film: The Redemption of Physical Reality (1960), Princeton, p. 34

Nova trilha (XXIII): Uma e Calexico

Uma Thurman em "Kill Bill: Vol. 2" (2004) de Quentin Tarantino


sábado, 30 de outubro de 2010

Um cinema na vertical: onde O. põe candeeiros oitocentistas, A. põe...*

"Lola Montès" (1955) de Max Ophüls

"California Split" (1974) de Robert Altman

*- Do barroco lustroso (Ophuls) para o barroco boçal (Altman). (Já agora: nestas duas cenas, temos um travelling que, recuando, procura pôr em primeiro plano um "objecto de fascínio", por assim dizer, "extradiegético". E assim comemoro o post número 461 deste blogue. Obrigado.)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Estado da arte (II)


Mas lá estás tu, Luís, a entrar na berraria surda do "os políticos são todos uns aldrabões" ou "a culpa é dos jornalistas". É verdade, na parte I deste Estado da arte, sobre a falta de arte do Estado, limitei-me a apontar dedos, a ser treinador de bancada, ou seja, a ser como a maioria é: falar, falar, falar, mas não dizer muito. Pois bem, para não me virem com esse argumentário, cá vão propostas muito CONCRETAS que gostaria de fazer a um eventual candidato à Presidência que não nenhum dos associados a partidos políticos; por exemplo, a um Fernando Nobre que estivesse - creio que não está, lamentavelmente... - empenhado numa ALTERNATIVA.

Primeiro, sugiro que se repense a figura do Presidente da Assembleia. Penso que é fundamental encetar reformas profundas na AR, para repor a exigência e a seriedade entre os deputados; para que deputados que roubem gravadores a jornalistas sejam devidamente sancionados, para que a mediocridade de certas intervenções seja evitada, para que deputados-arguidos não sejam recebidos com abraços e beijinhos na Casa da Democracia, que nos representa. Duas medidas, logo à partida, impõem-se: primeiro, o estabelecimento de um rigoroso e intransigente regime de exclusividade, como têm por exemplo os magistrados; segundo, uma reorganização dos trabalhos parlamentares, por forma a que seja mais evidente aos olhos do cidadão a divisão de tarefas dentro de cada grupo parlamentar (poderia haver uma sectorialização das mesmas, como se em cada bancada houvesse uma espécie de governo-sombra).

Para isso, naturalmente, o Presidente da AR não pode ser o senhor Jaime Gama, figura perfeitamente inútil no actual contexto político, que apenas se encosta a umas quantas medidas inevitáveis, como equipar a Assembleia de computadores e outro tipo de equipamento informático - para além de ser uma figura inaceitavelmente envolta em suspeitas de práticas criminosas com menores... "Mas ele é inocente até prova em contrário". Pois é, mas não interessa: a mera suspeita torna, neste momento, inviável a continuação de quem quer que seja num lugar público.
O Presidente da Assembleia devia, a meu ver, ser eleito directamente pelo povo - ou nomeado por AQUELE Presidente da República que descrevi atrás - e pelos seus representantes parlamentares. A sua independência é fundamental quando a instituição está devassada pela mediocridade. Sanear a AR. Esse será o objectivo deste Presidente, de facto, empenhado na credibilidade do principal órgão de soberania.

Depois, o Presidente da República, alguém que já disse que deveria ser totalmente independente - nada a ver com o suprapartidarismo demagogo do senhor Cavaco -, deveria nomear um Governo de Salvação Nacional, constituído por pessoas de insuspeita qualidade, que tenham dado provas cabais do seu valor e com méritos claros na área para a qual seriam mandatadas.

Por exemplo, a primeira-ministra poderia ser alguém como Helena Roseta - é verdade que teve ligação partidária, mas é pessoa capaz de se alhear do pântano aparelhístico em que o país está afundado... -; a ministra da Justiça poderia ser a magistrada Maria José Morgado; o ministro das Finanças e da Economia - as duas pastas numa... ninguém viu diferença quando isso aconteceu com Teixeira dos Santos... - poderia ser Bagão Félix - sim, teve ligação partidária, mas penso que é um homem independente...-; o ministro para a Ciência e Tecnologia poderia ser Nuno Crato; o ministro da Educação poderia ser o Professor Arsélio de Almeida Martins; o ministro da cultura poderia ser o Professor Fernando Cabral Martins; o ministro dos negócios estrangeiros poderia ser, caso não fosse Presidente, Fernando Nobre... etc...

Isto a título meramente indicativo dos critérios a seguir. Por princípio, nenhum deles poderia estar filiado num partido político, ninguém poderia estar indiciado como arguido num qualquer processo - ou ter estado indiciado num qualquer processo crime - e, coisa que não sei quanto aos nomes supraindicados, não deveria estar ligado a qualquer organização política secreta.

(Claro que a comunicação social tem um papel a desempenhar aqui: deixar de convidar testas de ferro dos partidos e começar a convidar pessoas INDEPENDENTES para "fazer" opinião, opinião crítica, honesta e evoluída.)

Esse Governo e Assembleia de missão nacional dariam margem aos partidos para se refundarem, para se expurgarem... Seria, a meu ver, uma boa solução para o actual estado das coisas. Caso não dê, sugiro uma outra, mais radical, sobre a qual me pronunciarei na parte III.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estado da arte (I)


A culpa de toda esta situação? Bem, primeiro é dos jornalistas que insistem em tornar a política numa arena de medíocres que não pensam pela sua cabeça e que ascendem a opinion makers à custa dos seus raciocínios circulares, encomendados pelo seu aparelho partidário - a palavra aparelho é tão clara quanto é a palavra sistema no mundo do futebol. Os jornalistas - a começar os da televisão pública - insistem em estupidificar a classe política, quando convidam as pessoas do costume para descodificar a cor da gravata do Sócrates, o esgar X de Cavaco Silva ou o tango sinuoso de Passos Coelho. O folclore político é um produto do grau de infantilização perigosa do debate mediático. Mas o problema, como a história do ovo e da galinha, também está fundamentalmente de quem dirige este país.

Para quem assiste regularmente às actividades da Assembleia, a situação é óbvia: o nível dos nossos deputados é inaceitável num país que se quer evoluído e sério. As intervenções acéfalas de meia dúzia de personagens, que apenas vêm fazer eco acrítico do tal "aparelho", são um insulto ao estatuto do deputado, alguém que representa os cidadãos, supostamente, com independência e espírito crítico. Ao invés, temos uma Assembleia da República com 230 almas, das quais conhecemos 7 ou 8, os únicos que produzem algum pensamento, fazem passar algumas leis e ainda têm tempo para ir debatê-las na TV. Onde estão os restantes? O que fazem? Não sabemos bem - se calhar nem eles.

Faço esta introdução para dizer isto: as recentes negociações em torno do Orçamento de Estado são mais uma machadada na credibilidade dessa instituição apodrecida que é a Assembleia da República (AR). Afinal, parece que, de repente, a Democracia só funciona com maiorias absolutas. Falácia inaceitável, tendo em conta que o Estado de Direito se baseia no pluralismo, na abertura e na diversidade; a Assembleia da República tem composição diversa e complexa porque a Sociedade é diversa e complexa. Óbvio? Não, para os principais partidos da nossa praça, só há democracia quando se evita "empoderar" (palavra horrível) mais a Assembleia. Cá estão, de novo, os políticos a assumirem, sem saberem se calhar - por vício de linguagem, talvez -, a sua tremenda incompetência e, tantas vezes, má-fé.

Depois dizem-nos que é natural haver negociações entre o partido do Governo e o maior partido da oposição. Negociações à porta fechada, como aquela diplomacia secreta que tomava forma em vésperas de guerra ou atentados de Estado. É normal? Não, nem sequer me parece constitucional, visto que, segundo o princípio democrático da transparências das instituições, as leis devem ser debatidas em sede parlamentar pelos nossos representantes. Ora, para PS e PSD a lei que é o Orçamento de Estado deve ser conjurada entre estes dois partidos, que nem coligados estão, e à porta fechada.

Assistiu ao debate da especialidade do último Orçamento, aquele em que PSD anuiu ao pedido para dançar o tango do PS? Não? Então conto-lhe aqui que o PSD não esteve lá, ou melhor, esteve lá um senhor Deputado a fazer figura de corpo presente. Mas não foi proferida uma única sugestão da parte deste. Claro! Já havia sido tudo combinado nas tais negociações à porta fechada sabe-se lá feitas por quem e com que interesses em jogo. Outra coisa: quem é o senhor Passos Coelho? Alguém votou nele para nos representar? Não, pois não? Então por que tem ele tanta palavra a dizer no que diz respeito à viabilização do Orçamento? Miguel Macedo, líder parlamentar do PSD, parece o homem invisível durante todo este processo e ele é, à luz da Constituição, um representante dos portugueses na AR. O senhor Passos Coelho é um empresário e líder do PSD. Representa os interesses de um partido, não os interesses do povo português - pois estes não lhe foram confiados pelo voto.

Mas toda a gente acha normal tudo isto. Estas negociações feitas à margem da lei e, pior, da moral. Ninguém, a começar pelos jornalistas, está interessado em começar a sanear o debate público, a emprestar- sem juros - alguma credibilidade, seriedade, elevação à discussão política. O senhor Cavaco promete-nos, agora, uma magistratura activa. De novo, este senhor, tecnocrata autocrático com mentalidade provinciana, mete o pé na poça: então se promete uma magistratura activa, quer dizer que tem sido o responsável por uma Presidência passiva? Se calhar, mas quem sou eu para pôr em causa o Doutor Aníbal Cavaco Silva - o único político português cujo primeiro nome é Doutor. Deve ser da postura rígida, do espírito estreito, do miserabilismo neo-salazarento e do endeusamento tecnocrata que a opinião publicada lhe tem devotado.

A vida, o teatro, a vida

"Fanny och Alexander" (1982) de Ingmar Bergman

"Mistérios de Lisboa" (2010) de Raoul Ruiz

Se fosse como em francês, "o mar" estaria em português no feminino: a mar

"L'atalante" (1934) de Jean Vigo

"U samogo sinego morya"/"À Beira do Mar Azul" (1936) de Boris Barnet

(Deleuze, quando falava da ideia de imagem líquida no cinema francês, escreveu o seguinte sobre a obra-prima de Vigo: "é por fim uma função de vidência que se desenvolve na água, por oposição à visão terrestre: é na água que a amada desaparecida se revela, como se a percepção gozasse de um alcance e de uma interação, de uma verdade que não tinha em terra". A mesma vidência existe nas águas soviéticas do filme de Barnet, mas essa é uma relação mil vezes mais platónica ou, se preferirem, mil vezes menos carnal que no filme de Vigo. Os marinheiros só se apercebem da grandeza do amor pela rapariga quando a perdem no/para o mar...)

Mistérios de Lisboa (2010) de Raoul Ruiz


É um acontecimento, aquele que se anuncia no Metro de Lisboa, com cartazes quase feitos à escala dos protagonistas do filme, aquele que se anuncia nos vários cartazes espalhados pela cidade - já agora, horríveis, como a maior parte dos cartazes do cinema português... Digo: é um acontecimento, mas de que tipo? Bem, desde logo, não é um acontecimento por ser uma mega-produção histórica, dividada entre Portugal e França, nem tão-pouco é um acontecimento pelo facto de combinar alguns dos actores mediaticamente mais quentes nos dois países (Ricardo Pereira e Clotilde Hesme, por exemplo). Também não é um acontecimento só por levar à tela um romance folhetinesco de Camilo Castelo Branco, com todo o rendilhado romântico próprio do tempo em que se situa, o Portugal das Invasões Francesas, o Portugal da revolução liberal e toda a convulsão que se seguiu... Não, também não é isso que faz deste filme com quatro horas e meia de duração - xiça! mas, não, também não é por isso... - um acontecimento do cinema português, ou melhor, um acontecimento do Cinema. Ponto final.

O que faz de "Mistérios de Lisboa" um acontecimento do Cinema é o facto de ser uma obra realizada em pleno estado de graça. Ruiz tornou esta monumental narrativa histórica num espaço para expandir, sem freios, um dos mais arriscados exercícios formais que tenho memória de ver. Atenção viscontiana aos cenários, execução deleitosa, sensual mesmo, de cada plano-sequência monstruosamente complexo (para operador, para actores, para todos!) mas sempre levitante e aparentemente simples e espontâneo. Ophuls espreita em vários momentos, sobretudo, nos jogos lânguidos com os objectos requintadamente escolhidos, como um candelabro, em torno do qual gira uma sequência de vários minutos, um diálogo entre a Duquesa e o jovem Pedro - é Ophuls até aos cabelos, mas é o Ophuls ao serviço não do espectáculo per se, mas do espectáculo da Narrativa. O teatrinho de cartão (bergmaniano?) também é marca clássica no grande cinema operático de um Visconti e de um Ophuls, como se toda a vida do protagonista, trágica, intensa e, por vezes, impossível seguisse uma qualquer marcação cénica, que lhe indica para onde os seus passos devem seguir... sempre no encontro com os passos das outras personagens.

O rendilhado narrativo é gerido com uma criatividade proporcional à beleza das imagens; Ruiz está sempre um passo à nossa frente, apanha-nos quase sempre de surpresa com as suas soluções visuais e diegéticas fascinantes. Exemplo da magnífica - de novo, Ophulsiana - sequência - se virem, não há cenas aqui, só sequências... - da descida da magnificente escadaria da Ópera. Dois indivíduos, até então anónimos, descem as escadas e vão comentando as vidas de quem passa - as nossas personagens. A narração, aqui, é viva, sempre filmada em continuum e posta ao serviço do bailado geral entre forma e conteúdo. Bailado? Tudo é bailado aqui - Ophuls de novo... mas também Visconti espreita e, já agora, Preminger não é esquecido...

Veja-se a sequência em que o Conde vê pela primeira vez a Condessa. Complexíssima sequência, que inclui inúmeros encontros - trocas de olhares, diálogos, momentos de silêncio - que levam ao limite a capacidade dos seus actores e que vão consumindo cada centímetro do espaço fílmico. Há um momento em que Ruiz resume, pelo menos, TRÊS cenas num único plano. A cena funesta do nascimento do Padre Dinis é, estou em crer, a mais impressionante lição de mise en scène do cinema recente. E como se comportam os actores? Comportam-se como génios. Ruiz eleva o cinema nacional a um estado de excelência inaudito.

Adriano Luz, que sempre foi um actor magnífico, tem o papel da sua vida - é o actor do ano, não temos dúvidas quanto a isso -; Ricardo Pereira transcende-se como nunca julgámos possível - apesar de o termos defendido em "Milagre Segundo Salomé", filme anão ao pé deste - e Maria João Bastos revela-se actriz para levar em grande conta no futuro do nosso cinema. O mesmo podia dizer para os demais protagonistas (Afonso Pimentel, por exemplo, está óptimo), mas se enumerasse cada um dos seus méritos, tal como se quisesse enumerar cada uma das virtudes deste Monumento fílmico, teria de escrever bem mais que este reles post, indigno dos reais feitos alcançados*.

*Passo a palavra a quem sabe. Por exemplo, ao senhor Bordwell: Mysteries of Lisbon has a rich, high-thread-count look, but it’s not your usual prestige costume drama. The long takes cling to characters as they flirt their way across a ballroom, and the camera slips through walls in the manner of old-fashioned cinema. There are the usual Ruiz flourishes of hallucinatory deep focus (achieved through split-focus diopters), characters floating rather than walking, and the occasional peculiar angle. But the film remains calm and lustrous, culminating in a slow tread into pure light.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Marty (1955) de Delbert Mann


Cheio de moralzinha de Hollywood, com personagens desgraçadinhas, reduzidas a estereótipos que não se percebe se pertencem à sociedade norte-americana ou se pertencem à dita moral OFICIAL, com probleminhas que só acentuam o auto e hetero-miserablismo reinante e uma concepção primária, infantil mesmo, de felicidade... Cheio de tudo isto está "Marty", filme vencedor de quatro Óscares em 1955, ano em que os códigos de decência levavam alguns arrombos importantes por dentro (exemplo de Otto Preminger), algo que tinha de ser rapidamente debelado pela Grande Indústria.

A "chapada" final de Marty ao seu amigo solteiro pode ser visto por muitos como um acto redentor, mas é, quanto a mim, hoje, no século XXI, um gesto cínico do "Marty"-filme de perpetuação da feição mais tradicional da sociedade americana, dividida entre casados e solteiros, entre casados felizes/infelizes e viúvas solitárias, entre isto e aqueleoutro. As divisões morais são motivo para cada cena de "Marty", onde cada fala é aproveitada para pregar ao espectador a história da carochinha: quem quer casar com o homem gordo e feio que, aos 30 e tal anos, lida com a sufocante pressão social de ser um solteirão?

Ele é um "dog", isto é, a espécie de pessoas com quem ninguém quer dançar nos bailes ou com quem ninguém quer ir ao cinema ou jantar. A forma como a existência do protagonista se resume sempre entre o ser solteiro e o estar à beira de não o ser é, para além de um exercício degradante de comiseração - pena mesmo... -, de um oportunismo moral completo. Mas o amor aqui é uma questão de status, tudo na sociedade americana é. Para deixar de ser um dog, uma pessoa de segunda, Marty tem de arranjar mulher. E ele fará de tudo para arranjar, provando a si e ao espectador que, mesmo sendo um homem gordo e feio, conseguiu o que a sociedade ditou que ele queria.

Valeu-lhe a sua generosidadezinha auto-comiserativa e valeram-lhe também os astros. Recordo que a rapariga com quem Marty passa a noite a conversar - a sua futura mulher... - parecia deslumbrada, no início, por um sujeito indecoroso, mas bem parecido, "not a dog", que lhe deu com os pés mal conseguiu, tratando-a abaixo de cão. Mas ela só quer um homem e Marty só quer uma mulher. Não interessa muito, no fundo, se isto é um filme sobre dogs que se casam com dogs para deixarem de ser dogs e not dogs que se casam com not dogs para levarem uma vida de cão - o casal de bonitos deste filme sofre tanto, coitado... Coitados eles e coitados, também, homessa!, os feios. Coitados todos, coitada a humanidade entretida na sua própria domesticação moral e intelectual - caninazinha ou não.

Super-agentes dos sonhos tecno(i)lógicos: Paprika/Atsuko e Cobb/Di Caprio

"Paprika" (2006) de Satoshi Kon

"Inception" (2010) de Christopher Nolan

[Eis dois excelentes filmes sobre o estreitamento (muito contemporâneo) entre o mundo dos sonhos e aquilo que designamos por mundo real, mas que, em qualquer um destes dois filmes, é APENAS um mundo percepcionado em estado de vigília. Na obra do recém falecido Satoshi Kon, temos uma bizarra, visualmente excêntrica, viagem a um tempo onde ecrãs, de cinema e de computador, projectam sonhos alheios, autênticas procissões circenses de caos, destruição e absurdo. Os sonhos "tecnologizaram-se", facto que é filosoficamente tratado nesta animação adulta sobre o enfraquecimento, quase profanador, da realidade pelas alteridades oníricas/digitais. Cá está, para mim, um excelente, e insólito, double bill.]

domingo, 17 de outubro de 2010

He Who Gets Slapped (1924) de Victor Sjostrom


Seastrom e Chaney. Juntos no primeiro filme de sempre produzido pela mítica (e, entretanto, insolvente) Metro Goldwyn Mayer. E o primeiro filme é, como quase todos os grandes mudos dos anos 10 e 20, um soco no estômago. Obra desconfortável sobre "a tragédia do palhaço", o palhaço é Chaney antes mesmo de se tornar palhaço, isto é, tornou-se palhaço para suportar a humilhação pública a que foi sujeito no dia da defesa da sua tese. Nesse dia, Chaney ficou sem tese e sem mulher, os dois foram "roubados" pelo seu tutor, o velhaco Barão Regnard.

Levou na cara quando o acusou de plágio e a Academia riu-se, expondo-o à vergonha e ao ridículo insuportável. Sem orgulho próprio, com a sua virilidade fortemente abalada, Chaney torna-se palhaço de circo; naquele que "leva chapadas", como diz o título do filme. Toda a gente se ri de uma boa chapada, dada num palhaço ou não...

Sabendo disso, Chaney arquitecta uma vingança sado-masoquista, que culmina numa espécie de destruição e auto-destruição pelo riso, em espaço apropriado: um circo, palco de uma "tragédia cómica". Um Seastrom, ou Sjostrom, usando o seu nome sueco, que está aqui longe da grandeza poética/metafórica de "The Wind", mas que, ainda assim, espanta pelo negrume quase metafísico dos instantes finais.

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