sábado, 13 de novembro de 2010

Texturas da pele e a sua geografia em close-up

Alain Resnais, "Hiroshima mon amour" (1959)

Any huge close-up reveals new and unsuspected formations of the matter; skin textures are reminiscent of aerial photographs, eyes turn into lakes or vulcanic craters.

Siegfried Kracauer, in Theory of Film: The Redemption of Physical Reality (1960), Princeton, p. 48

Etc.

pusssplimpluuumb brrruumplumplimm plummmmm vazuummm*

"Chappaqua" (1966) de Conrad Rooks

"The Trip" (1967) de Roger Corman

*- E assim sucessivamente...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os limites patéticos e convencionados do womanly feeling [Kurokawa's (un)fortunate man]

Kôji Wakamatsu, Kyatapirâ/Caterpillar (2010)

At last Aurelia is in serious perplexity as to what she ought to do. She still loves her Breckinridge, she writes, with truly womanly feeling--she still loves what is left of him but her parents are bitterly opposed to the match, because he has no property and is disabled from working, and she has not sufficient means to support both comfortably. "Now, what should she do?" she asked with painful and anxious solicitude.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Rio Bravo (1959) de Howard Hawks (II)

Como prometido, passo de seguida a palavra a quem sabe. Ao grande hawksiano do cinema contemporâneo: John Carpenter. Os excertos que apresento de seguida foram retirados do comentário áudio que este fez ao filme, para uma das suas mais recente edições DVD da Warner Brothers.

Dois apontamentos prévios são necessários: primeiro, o comentário áudio da edição supracitada é partilhado entre Carpenter e um teórico de Hawks, Richard Schickel, com especial enfoque para as palavras deste último, o que lamentavelmente retira espaço ao realizador de "The Thing"; segundo, a tradução que faço aqui é muito livre, face à dificuldade natural de estar a escrever e a ouvir ao mesmo tempo - atente-se mais às ideias que à forma, mas se procura precisão, então recomendo que adquire a dita edição.

Hawks coloca sempre as personagens à frente. O seu cinema é sobre personagens, gestos, troca de cigarros, troca de adereços.

Os seus filmes de aventuras são sobre homens profissionais em perigo. Eles definem-se pela forma como trabalham.

Aqui está John Wayne no seu traje típico de xerife. John T. Chance é o seu nome. Chance era o nome de uma namorada que Hawks teve nos anos 50.

Tudo é geograficamente simples e directo. O filme não sai da cidade, hotéis, prisão... só no fim, na cena do tiroteio, o filme se alarga geograficamente.

Como em To Have and Have Not, o romance acontece num hotel. Aqui também acontece num hotel. Algumas cenas e diálogos são iguais. Hawks faz isso muito; recicla as suas próprias ideias. Como ele dizia, "I like to steal from myself".

Chance and Stumpy. O amor entre homens é outro grande tema dos seus filmes.

Neste filme, o ritmo é lento. Hawks não tem qualquer pressa em contar as suas histórias.

Esta sequência é uma das minhas favoritas. Os dois homens fazem a patrulha na cidade, um paralelo ao outro. É uma sequência filmada com enorme simplicidade, mas resulta quase num ballet entre dois homens.

Os cenários não são muito trabalhados, autênticos, como num filme de Sergio Leone. Hawks filma as suas personagens em sets algo standardizados de Hollywood.

Como em To Have and Have Not, a ligação entre a personagem masculina e feminina acontece com base numa desconfiança da primeira em relação à segunda, que se revela infundada.

Angie Dickinson, uma das grandes actrizes de Hawks, junto com Lauren Bacall. Penso que ela tinha 19 anos nesta altura. John Wayne tinha 50 anos. É estranho pensar que aceitamos o romance, tendo em conta a diferença de idades.

Hawks era um engenheiro, ele abordava os filmes como um engenheiro. Um trabalho de câmara simples e straightforward. Tudo é pensado, não há excessos. Ele não sente qualquer necessidade de acelerar o seu ritmo nesta altura.

Chegamos a uma das maiores cenas de Rio Bravo. Dean Martin fere o criminoso perseguido, este esconde-se no bar. Wayne pergunta a Dean Martin se ele é "good enough", se tem confiança para fazer o que tem de fazer.

Aqui não sabemos o que acontecerá. É uma cena cinematicamente genial. Dean entra pela frente e Wayne por trás. Dean Martin faz as perguntas... Tudo muito funcional.

Lá está o homem que eles procuram. Hawks mostra-nos a nós, mas Dean Martin e John Wayne não sabem que ele está ali.

Toda a sequência é sobre reclamar a dignidade. Reclamar-se a si próprio... este é o apontamento moral que Hawks faz.

Temos a música de Dimitri Tiomkin, com um toque de jazz. Agora repete-se a sequência de To Have and Have Not, em que Bacall beija Bogart.
Começamos aqui com uma das sequências mais conhecidas. Replicando um gesto em Red River, Ricky Nelson atira a riffle a John Wayne.

Aqui temos uma das melhores cenas entre Dean Martin e Wayne. A sequência anda à volta de dois temas hawksianos: profissionalismo e competência.


Aqui temos a cena da redenção de Dude. É tudo feito sem palavras. É um momento magnífico.

Aqui começa uma sequência, que Hawks usa noutros filmes. Em Only Angels Have Wings, por exemplo. Quando uma personagem é admitida no grupo, num filme de Hawks, normalmente as personagens cantam e tocam. Em El Dorado Hawks volta a filmar uma sequência com as personagens a cantar. Mas o filho de Hawks disse "pai, um xerife não canta". E, por isso, Hawks tirou essa sequência.

Hawks odiava High Noon, porque nenhum xerife profissional anda para aí a pedinchar ajuda. Rio Bravo é como que uma reacção a isto.

Hawks costumava chamar os seus actores ao set e discutia com eles, "à volta de uma mesa", as falas desse dia. Parece-me um modo muito humano de trabalho.

Rio Bravo está a terminar. É Hawks e Tiomkin no seu melhor. É muito simples: são apenas homens a descer a rua. Mas a música é fabulosa, dá-lhe heroísmo. Não sei se não será influenciada por Yojimbo, não sei ao certo. Agora vamos para uma gloriosa sequência de acção: excitante, divertida... Agora o grupo reúne-se.

Hawks coreografa tudo. Sabe onde cada actor deve estar, mostra-nos a localização, mapeando o espaço para o espectador. É como olhar de cima para um mapa.

Hawks realizava com graciosidade e simplicidade. Como Clint Eastwood, a sua câmara está sempre na posição certa, sem chamar a atenção sobre si mesma.
Isto é um replay de To Have and Have Not. Wayne não quer que vejam Feathers vestida daquela maneira. Eles cimentam o seu amor aqui.

Rio Bravo é um filme cheio de humor, divertido, old fashion, vai beber aos anos 30 e 40, mas também tem as cores dos anos 60. Tem acção... tem tudo. Para mim, este é um dos grandes westerns de sempre. A performance de Wayne não estará ao nível de um The Searchers, mas é seguramente mais real.

É curioso: este filme reflecte o que há de melhor em Hollywood. Um filme divertido de ver, popular no seu tempo e ainda hoje. É lento e elegante, como um pedaço de música clássica.

Aproveito esta oportunidade para publicar na íntegra a análise que fiz a "Hatari!" (1962) para a revista Red Carpet há dois anos. Nela elenco muitas das características do universo Hawks já bem presentes em "Rio Bravo".

domingo, 7 de novembro de 2010

Não me esquecerei ou obrigado Manuel Cintra Ferreira


Nunca o conheci pessoalmente, mas sempre o admirei, pelo seu profissionalismo e dedicação à Sétima Arte. É o mais antigo e respeitado crítico de cinema nacional, mas isto é dizer pouco. Pelo menos, para mim.

Manuel Cintra Ferreira deu, muito recentemente e por mail, um contributo fundamental para a minha tese de mestrado. Foi exemplar a forma solicita e aberta com que o fez. Era um respeitado grande profissional da crítica e da programação cinematográficas? Sim, mas também era, estou certo disso, um grande homem. Gostava de o ter conhecido pessoalmente...

Não sou ninguém, mas quero dedicar-lhe, do fundo do coração, estas palavras.

Rio Bravo (1959) de Howard Hawks (I)


Sempre adorei "Rio Bravo", mas revê-lo hoje, passados alguns anos sobre o primeiro visionamento, é uma experiência superior. De facto, não só estamos num dos pontos mais altos da carreira de Hawks como temos um filme a provar uma coisa que parece escapar a muita gente: Hawks é um cineasta moderno. Fez, naturalmente, alguns dos melhores filmes clássicos, nomeadamente, fundando o género da screwball, mas é em 1959, quando o modelo clássico (griffithiano) de Hollywood retraía-se face às novas vagas europeias e a um novo cinema independente que, dentro de casa, a contra-atacava, dizíamos, é em 1959 que Hawks faz a sua obra-prima. Não quero comparar o feito alcançado com um "A bout de souffle"? Quero. Não quero comparar o feito alcançado com um "Shadows"? Também quero.

"Rio Bravo" sintetiza duas ideias, a meu ver, inovadoras para a época: primeiro, uma desarrumação da ideia de plot em três actos provinda da Hollywood clássica e, segundo, complementarmente, um filme construído todo a partir das suas personagens - para quê um Monument Valley, muitos índios e cowboys, se se tem para filmar a beleza inefável de Angie Dickinson? Não há um plot visível em mais de 2 horas de filme: que diferença substancial há entre o primeiro minuto e o último? Digamos que aquilo que Ford contaria em 10 minutos de filme, Hawks conta em 2 horas, seguindo a ideia de um cinema em continuum, quase em tempo real, sem compromissos com qualquer género pré-estabelecido ou receita popular.

Há um cerco e há personagens sitiadas que têm de viver com ele até à chegada do US Marshal que leve o encarcerado tão cobiçado (aqui há um deadline claramente hollywoodesco, mas não é usado para efeitos de suspense ou last-minute rescues hiperdramáticos, leia-se, hipermorais, no final). O que se passa entre o início (in media res) e o fim é personagens em co-habitação. Elas não deixam de dormir (assunto 1), não deixam de comer e beber (assunto 2), não deixam de sofrer com o passado e amar no presente (assunto 1+2).

Tudo isto já estava em potência, por exemplo, no Hawks de "Only Angels Have Wings", mas nunca atingiu este grau de pureza e ousadia - ei, quem diz que "A bout de souffle" é o primeiro filme da Nouvelle Vague ou que "Shadows" é o primeiro filme do novo cinema independente norte-americano? Se diz você, permita-me que discorde (vide "La pointe-courte" ou "Little Fugitive", para o efeito). Hawks faz da decadência de um sistema em que estava inserido, e onde era orgulhosamente apenas mais um "tarefeiro", o pico da sua força: um cinema Do tempo e Do espaço, no fundo, Das personagens.

Como diz Luc Moullet, este é um cinema "da estagnação", característica que o próprio atribui à ideia de cinema moderno, na medida em que Hawks está muito menos preocupado com o plot do que com a exposição das personagens. É isso: "Rio Bravo" é mais de 2 horas de exposição. Claro que os vapores do cinema clássico estão aqui, mas é mesmo só isso: vapor. O corpo é sólido e inerte. Hawks não hesita nem mexe um dedo no modelo estilístico que o rege desde os primeiros minutos. É uma espécie de estado zen do cinema pós-clássico norte-americano, que é radical na sua absoluta falta de radicalismo.

Na parte II deste comentário passo a palavra a quem sabe.

Programação de cinema na RTP2 (XXX): triple X ou post sobre a aprendizagem do amor

MIL OITOCENTOS E SETENTA E QUATRO

Já se escreveu muito no nosso blogue e página no Facebook sobre a evolução desta iniciativa, os seus ganhos diários em matéria de apoio popular - que agradecemos - e também as pequenas reflexões, nossas e dos nossos subscritores, que temos promovido.

Desde já, queria agradecer ao Knoxville pela nomeação do blogue da petição para os Blog Awards. Agradecemos a nomeação e, acima de tudo, as palavras que nos dirige, que só nos dão força para continuar. Mas, face a elas, tenho um statement a fazer: só considerarei esta iniciativa um sucesso se esta trouxer alguma consequência visível na programação de cinema na RTP2. Uma consequência que se quer, naturalmente, para melhor - para pior também é difícil, não é verdade?

É que a RTP2 tem-se especializado numa espécie de exposição enfadada do cinema, quase como se fosse uma injecção que a "gentalha" cinéfila tem de levar ao sábado... num sítio que eu cá sei. É indigna a forma como a Sétima Arte é tratada no segundo canal e espanta-me que tanta comunicação social tenha feito pouco ou nada para denunciar este claro atropelo ao conceito de serviço público, aos valores da promoção e divulgação culturais. Como nos disse João Milagre em entrevista, parafraseando Nietzsche, "é preciso aprender a amar". Acho que um canal como a RTP2 pode (voltar a) ter como função ensinar as pessoas a "aprender a amar", coisa que tem sido totalmente descurada pelo actual director de programas.

O seu discurso atabalhoado e pesporrente, numa conferência que se realizou (curiosamente) na minha faculdade, FCSH-UNL, e na presença de Inês de Medeiros (ver vídeos abaixo), é denunciador de um fechamento de ideias, de uma espécie de auto-desculpabilização/vitimização que paralisa. Um vazio caótico que tem imperado no segundo canal há cerca de 5 anos, sem contestação de relevo por parte da comunicação social e, diga-se, da própria sociedade civil.

Inês de Medeiros, como também é evidente num dos vídeos, parece remar no sentido dessa aprendizagem, pela televisão, de modos de ver o mundo diferentes daqueles que a programação "para as massas" oferece. A RTP2 tem remado no sentido de uma aproximação pouco imaginativa ao modelo das demais televisões generalistas, numa tentativa de ser Panda durante o dia, FOX no prime time e SIC Radical mais à noite - e no meio lá enfiam os programas religiosos e da sociedade civil. Isto faz algum sentido, face ao que é hoje a televisão?

Não precisamos de um canal público, com dever de promover A DIFERENÇA, a duplicar programações de estações privadas com fins lucrativos. Isto é, quanto a mim, ultrajante. Por isso, volto a dirigir-me a quem me lê: se não assinou, assine, pois esta é uma questão que toca a todos, um princípio de uma batalha pelo saneamento (no sentido que Jon Stewart já deu ao termo nos EUA ou no sentido que o nosso dicionário lhe dá, porquanto sanear é "tornar apto para a cultura") da nossa televisão, no fundo, do nosso país. E, com certeza, sem diabolizações...

Já agora: estes vídeos NÃO foram realizados pelo Kiarostami. Claramente NÃO.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

The Sin of Harold Diddlebock (1947) de Preston Sturges


Cá está um case study algo esquecido na história do cinema: "The Sin of Harold Diddlebock" ou "Mad Wednesday". Dois títulos pelo qual é conhecido o último filme com Harold Lloyd, realizado e escrito por Preston Sturges. Como dizem os créditos de abertura: "An Original Screenplay Written and Directed by Preston Sturges". O rol de ironias começa aqui e apercebemo-nos disso logo a seguir: "Mad Wednesday" abre com... "The Fresman", longa-metragem realizada em 1925 com o célebre slapstick comedian do mudo, Harold Lloyd.

No seu tempo, Lloyd foi tão ou mais popular que Keaton, enchia salas com os seus filmes repletos de stunts tão arriscados - aqui não há CGI, meus pequeninos... - quanto arrojados, mas frequentemente mais delirantes que arriscados e arrojados. Ver a obra de Lloyd é um regalo para os olhos: o efeito especial aqui é o corpo de Lloyd, os mal-entendidos e o caos que aquele gera. "Girl Shy", "Safety Last" e, claro, "The Freshman" são algumas das suas maiores obras-primas. Sturges pega na última para começar um filme, mas não um qualquer. É o último filme de Lloyd e, estou certo, este sabia-o. Apesar de ainda ser novo em 1947 - tinha 52 anos - o actor saberia que não voltaria ao cinema, face à forma como o sonoro proscreveu as suas maiores estrelas - Keaton e Stroheim, só para dizer dois nomes.

Mas, voltando a este filme de Sturges, o realizador de "Sullivan's Travels" e "The Palm Beach Story" resolveu recuperar Lloyd e a memória do seu cinema; abriu o seu filme com as últimas imagens de "The Freshman", sendo que a nestas introduziu um conjunto de subtis reedições, por forma a conduzir um clássico mudo do burlesco para o presente, mais de 20 anos depois... Para o efeito, Sturges repegou na sequência antológica do jogo de futebol americano em que o "águas" Harold Lloyd, um caloiro ridicularizado por todo o campus universitário, se revela um feroz avançado que ultrapassa os seus adversários com uma técnica assaz sui generis.




Excerto de "The Freshman" (1925) de Fred C. Newmeyer & Sam Taylor


O mesmo excerto de "The Freshman" remontado por Sturges em "The Sin of Harold Diddlebock" (1947). ATENÇÂO: o presente excerto está sonorizado (música e som de fundo do público), contudo, não consegui incluir a banda de som na transcrição para a Internet. Apesar disso, este mal pode ter vindo por bem, já que esta sequência é muda "de raiz". A parte falada (perto do fim) está legendada. O excerto foi extraído do DVD da BACH FILMS.

É absolutamente obrigatório ver os dois vídeos em simultâneo


Comparando a sequência de 1925 com a de 1947, constatam-se algumas diferenças curiosas: Sturges, agora com a possibilidade do som, descarta intertítulos, usando pequenos artíficios (como um insert) para conferir clareza à narrativa. Altera um ou outro gag (nomeadamente o que diz respeito a um som que a personagem de Lloyd confunde com o apito do árbitro) e, muito importante, inclui uma personagem nova, um homem forte da publicidade que entregará a Lloyd, no final do jogo, o seu cartão, prometendo-lhe trabalho.

Já estamos aqui fora do universo do filme de 1925, do cinema mudo, do tempo em que Lloyd era uma Estrela planetária. Passamos, a partir daqui, como em "Sullivan's Travells", para a realidade dura num registo desencantado: Lloyd vai ter com o dito publicitário, para lhe reclamar o emprego prometido, mas bate com a cabeça na porta ou quase... O homem diz-lhe, cinicamente, que tem reservado para si um trabalho que lhe dará a gratificação de poder progredir na empresa. Lloyd, ou melhor, Diddlebock - é esse o nome do nosso protagonista - fica numa profissão precária e pouco estimulante de secretário durante vários anos.

O seu envelhecimento, sem glamour ou delírio, longe dos tempos de "The Freshman", culmina com o despedimento. A partir daqui, este homem bondoso começa a beber, não muito, na realidade, basta-lhe um copo para soltar a fera que estava adormecida dentro de si. Uma "quarta-feira louca", à custa de um copito de um cocktail de bar, transforma Diddlebock no freshman de outros tempos. Enérgico, tempestuoso, caótico, histriónico, desastrado, mas sempre com coração quente, Diddlebock envolve-se numa série de trapalhadas à volta de um circo que adquiriu quando estava ébrio.

"Safety Last!" (1923) de Fred C. Newmeyer & Sam Taylor


"The Sin of Harold Diddlebock" (1947) de Preston Sturges


O Lloyd acrobata, na corda bamba, regressa em pleno na cena vertiginosa do edifício, citação clara a "Safety Last!", filme que, como este, ironizava muito com o mundo cínico dos negócios e do marketing. O seu jeito com animais ferozes - um leão domesticado - é proporcionalmente inverso ao seu jeito com as mulheres, sobretudo, uma das mulheres que ama - as outras eram suas irmãs, "eu amo a mesma mulher, mas em vários corpos", aponta a certa altura Diddlebock. Aqui sentimos o "Girl Shy" de 1924 a descer sobre si: uma misoginia benigna que também podemos encontrar na screwball comedy de Hawks "Bringing Up Baby", onde as feras são um tigre - aqui é o tal leão - e a personagem feminina - por intimidarem a masculina... "Mad Wednesday" é, portanto, um dos mais inspirados filmes-filmes, um olhar terno - sem mágoa, mas muita ironia - sobre um grande homem que fez rir às gargalhadas - e continua a fazer rir! - gerações e gerações de espectadores.

domingo, 31 de outubro de 2010

O primitivo plano fixo por vezes deixa de ser Do cinema para passar a ser Da fotografia

James Benning, "Ruhr" (2009)

In the primitive era when camera was fixed to the ground it was natural for filmmakers to concentrate on moving material phenomena; life on the screen was life only if it manifested itself through external, or "objective", motion.

Siegfried Kracauer, in Theory of Film: The Redemption of Physical Reality (1960), Princeton, p. 34

Nova trilha (XXIII): Uma e Calexico

Uma Thurman em "Kill Bill: Vol. 2" (2004) de Quentin Tarantino


sábado, 30 de outubro de 2010

Um cinema na vertical: onde O. põe candeeiros oitocentistas, A. põe...*

"Lola Montès" (1955) de Max Ophüls

"California Split" (1974) de Robert Altman

*- Do barroco lustroso (Ophuls) para o barroco boçal (Altman). (Já agora: nestas duas cenas, temos um travelling que, recuando, procura pôr em primeiro plano um "objecto de fascínio", por assim dizer, "extradiegético". E assim comemoro o post número 461 deste blogue. Obrigado.)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Estado da arte (II)


Mas lá estás tu, Luís, a entrar na berraria surda do "os políticos são todos uns aldrabões" ou "a culpa é dos jornalistas". É verdade, na parte I deste Estado da arte, sobre a falta de arte do Estado, limitei-me a apontar dedos, a ser treinador de bancada, ou seja, a ser como a maioria é: falar, falar, falar, mas não dizer muito. Pois bem, para não me virem com esse argumentário, cá vão propostas muito CONCRETAS que gostaria de fazer a um eventual candidato à Presidência que não nenhum dos associados a partidos políticos; por exemplo, a um Fernando Nobre que estivesse - creio que não está, lamentavelmente... - empenhado numa ALTERNATIVA.

Primeiro, sugiro que se repense a figura do Presidente da Assembleia. Penso que é fundamental encetar reformas profundas na AR, para repor a exigência e a seriedade entre os deputados; para que deputados que roubem gravadores a jornalistas sejam devidamente sancionados, para que a mediocridade de certas intervenções seja evitada, para que deputados-arguidos não sejam recebidos com abraços e beijinhos na Casa da Democracia, que nos representa. Duas medidas, logo à partida, impõem-se: primeiro, o estabelecimento de um rigoroso e intransigente regime de exclusividade, como têm por exemplo os magistrados; segundo, uma reorganização dos trabalhos parlamentares, por forma a que seja mais evidente aos olhos do cidadão a divisão de tarefas dentro de cada grupo parlamentar (poderia haver uma sectorialização das mesmas, como se em cada bancada houvesse uma espécie de governo-sombra).

Para isso, naturalmente, o Presidente da AR não pode ser o senhor Jaime Gama, figura perfeitamente inútil no actual contexto político, que apenas se encosta a umas quantas medidas inevitáveis, como equipar a Assembleia de computadores e outro tipo de equipamento informático - para além de ser uma figura inaceitavelmente envolta em suspeitas de práticas criminosas com menores... "Mas ele é inocente até prova em contrário". Pois é, mas não interessa: a mera suspeita torna, neste momento, inviável a continuação de quem quer que seja num lugar público.
O Presidente da Assembleia devia, a meu ver, ser eleito directamente pelo povo - ou nomeado por AQUELE Presidente da República que descrevi atrás - e pelos seus representantes parlamentares. A sua independência é fundamental quando a instituição está devassada pela mediocridade. Sanear a AR. Esse será o objectivo deste Presidente, de facto, empenhado na credibilidade do principal órgão de soberania.

Depois, o Presidente da República, alguém que já disse que deveria ser totalmente independente - nada a ver com o suprapartidarismo demagogo do senhor Cavaco -, deveria nomear um Governo de Salvação Nacional, constituído por pessoas de insuspeita qualidade, que tenham dado provas cabais do seu valor e com méritos claros na área para a qual seriam mandatadas.

Por exemplo, a primeira-ministra poderia ser alguém como Helena Roseta - é verdade que teve ligação partidária, mas é pessoa capaz de se alhear do pântano aparelhístico em que o país está afundado... -; a ministra da Justiça poderia ser a magistrada Maria José Morgado; o ministro das Finanças e da Economia - as duas pastas numa... ninguém viu diferença quando isso aconteceu com Teixeira dos Santos... - poderia ser Bagão Félix - sim, teve ligação partidária, mas penso que é um homem independente...-; o ministro para a Ciência e Tecnologia poderia ser Nuno Crato; o ministro da Educação poderia ser o Professor Arsélio de Almeida Martins; o ministro da cultura poderia ser o Professor Fernando Cabral Martins; o ministro dos negócios estrangeiros poderia ser, caso não fosse Presidente, Fernando Nobre... etc...

Isto a título meramente indicativo dos critérios a seguir. Por princípio, nenhum deles poderia estar filiado num partido político, ninguém poderia estar indiciado como arguido num qualquer processo - ou ter estado indiciado num qualquer processo crime - e, coisa que não sei quanto aos nomes supraindicados, não deveria estar ligado a qualquer organização política secreta.

(Claro que a comunicação social tem um papel a desempenhar aqui: deixar de convidar testas de ferro dos partidos e começar a convidar pessoas INDEPENDENTES para "fazer" opinião, opinião crítica, honesta e evoluída.)

Esse Governo e Assembleia de missão nacional dariam margem aos partidos para se refundarem, para se expurgarem... Seria, a meu ver, uma boa solução para o actual estado das coisas. Caso não dê, sugiro uma outra, mais radical, sobre a qual me pronunciarei na parte III.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estado da arte (I)


A culpa de toda esta situação? Bem, primeiro é dos jornalistas que insistem em tornar a política numa arena de medíocres que não pensam pela sua cabeça e que ascendem a opinion makers à custa dos seus raciocínios circulares, encomendados pelo seu aparelho partidário - a palavra aparelho é tão clara quanto é a palavra sistema no mundo do futebol. Os jornalistas - a começar os da televisão pública - insistem em estupidificar a classe política, quando convidam as pessoas do costume para descodificar a cor da gravata do Sócrates, o esgar X de Cavaco Silva ou o tango sinuoso de Passos Coelho. O folclore político é um produto do grau de infantilização perigosa do debate mediático. Mas o problema, como a história do ovo e da galinha, também está fundamentalmente de quem dirige este país.

Para quem assiste regularmente às actividades da Assembleia, a situação é óbvia: o nível dos nossos deputados é inaceitável num país que se quer evoluído e sério. As intervenções acéfalas de meia dúzia de personagens, que apenas vêm fazer eco acrítico do tal "aparelho", são um insulto ao estatuto do deputado, alguém que representa os cidadãos, supostamente, com independência e espírito crítico. Ao invés, temos uma Assembleia da República com 230 almas, das quais conhecemos 7 ou 8, os únicos que produzem algum pensamento, fazem passar algumas leis e ainda têm tempo para ir debatê-las na TV. Onde estão os restantes? O que fazem? Não sabemos bem - se calhar nem eles.

Faço esta introdução para dizer isto: as recentes negociações em torno do Orçamento de Estado são mais uma machadada na credibilidade dessa instituição apodrecida que é a Assembleia da República (AR). Afinal, parece que, de repente, a Democracia só funciona com maiorias absolutas. Falácia inaceitável, tendo em conta que o Estado de Direito se baseia no pluralismo, na abertura e na diversidade; a Assembleia da República tem composição diversa e complexa porque a Sociedade é diversa e complexa. Óbvio? Não, para os principais partidos da nossa praça, só há democracia quando se evita "empoderar" (palavra horrível) mais a Assembleia. Cá estão, de novo, os políticos a assumirem, sem saberem se calhar - por vício de linguagem, talvez -, a sua tremenda incompetência e, tantas vezes, má-fé.

Depois dizem-nos que é natural haver negociações entre o partido do Governo e o maior partido da oposição. Negociações à porta fechada, como aquela diplomacia secreta que tomava forma em vésperas de guerra ou atentados de Estado. É normal? Não, nem sequer me parece constitucional, visto que, segundo o princípio democrático da transparências das instituições, as leis devem ser debatidas em sede parlamentar pelos nossos representantes. Ora, para PS e PSD a lei que é o Orçamento de Estado deve ser conjurada entre estes dois partidos, que nem coligados estão, e à porta fechada.

Assistiu ao debate da especialidade do último Orçamento, aquele em que PSD anuiu ao pedido para dançar o tango do PS? Não? Então conto-lhe aqui que o PSD não esteve lá, ou melhor, esteve lá um senhor Deputado a fazer figura de corpo presente. Mas não foi proferida uma única sugestão da parte deste. Claro! Já havia sido tudo combinado nas tais negociações à porta fechada sabe-se lá feitas por quem e com que interesses em jogo. Outra coisa: quem é o senhor Passos Coelho? Alguém votou nele para nos representar? Não, pois não? Então por que tem ele tanta palavra a dizer no que diz respeito à viabilização do Orçamento? Miguel Macedo, líder parlamentar do PSD, parece o homem invisível durante todo este processo e ele é, à luz da Constituição, um representante dos portugueses na AR. O senhor Passos Coelho é um empresário e líder do PSD. Representa os interesses de um partido, não os interesses do povo português - pois estes não lhe foram confiados pelo voto.

Mas toda a gente acha normal tudo isto. Estas negociações feitas à margem da lei e, pior, da moral. Ninguém, a começar pelos jornalistas, está interessado em começar a sanear o debate público, a emprestar- sem juros - alguma credibilidade, seriedade, elevação à discussão política. O senhor Cavaco promete-nos, agora, uma magistratura activa. De novo, este senhor, tecnocrata autocrático com mentalidade provinciana, mete o pé na poça: então se promete uma magistratura activa, quer dizer que tem sido o responsável por uma Presidência passiva? Se calhar, mas quem sou eu para pôr em causa o Doutor Aníbal Cavaco Silva - o único político português cujo primeiro nome é Doutor. Deve ser da postura rígida, do espírito estreito, do miserabilismo neo-salazarento e do endeusamento tecnocrata que a opinião publicada lhe tem devotado.

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