segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O meu star-system

O outro dia falava sobre os meus critérios de gravação/aluguer de filmes na Box/vídeoclube. Tenho dois: primeiro, filmes de realizadores que aprecio, de realizadores "históricos" e de realizadores cujo trabalho conheço mal; segundo, filmes com actores que me enchem, quase sempre, ou sempre mesmo, as medidas.

Nesta última categoria incluo os seguintes nomes: Denzel Washington, Robert De Niro, Al Pacino, Gene Hackman, Gena Rowlands, John Cassavetes, Lee Marvin, Robert Mitchum, Sidney Poitier, Paul Newman, George C. Scott, Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Gostava de ver (mais) nomes não-americanos nesta lista - e mais mulheres - mas há pouco espaço para eles na nossa televisão e nos nossos vídeoclubes. Uma pena, porque acho que há público para outros cinemas, para outras caras...

domingo, 28 de novembro de 2010

A selvajaria intelectual continua e continua


Salvo um ou outro comentador do futebol, como Luís Freitas Lobo ou o treinador Carlos Carvalhal, a maioria dos opinion makers do futebol é, no mínimo, execrável. Mesmo não fazendo mais nada na vida - e provavelmente só conseguindo mesmo descodificar o óbvio num jogo de futebol -, certos comentadores exibem, sem que ninguém faça caso, uma clamorosa ignorância em relação não só ao passado longínquo como, o que é mais indesculpável, aos factos recentes do futebol nacional. Ouço na TVI algo como isto: "neste jogo o Benfica não está a acertar com os cantos".

Mas, ó senhor comentador, você, que não deve fazer mais nada na vida que ver jogos de futebol - coisa complexa, como todos sabemos... -, não viu o jogo do Benfica contra o Hapoel de Tel Aviv? Não viu quantos cantos o Benfica desperdiçou? Não viu a permeabilidade da equipa a marcar e a sofrer cantos? Cantos e livres, meu caro comentador, são o calcanhar de Aquiles do Benfica deste ano. David Luiz e Roberto - sobre o qual pende, hoje, a mais humilhante condescendência jornalística - que o digam.

Enfim, ocupam-se horas diárias a discutir algo que só merecia, quanto muito, uns minutitos de conversa, para depois termos de levar com a opinião ou mau jornalismo destes ditos especialistas da bola que raiam a ignorância fascizante ou um histerismo sabujo de bradar os céus (vide tudo o que o senhor Nuno Luz faz).
Pronto, já me queixei. Agora vou ver o Rui Santos comentar a jornada antes do "Tempo Extra", espaço onde Rui Santos - a gralha aqui é a televisão que temos - comenta durante mais de uma hora, precisamente, a jornada que acabou há minutos... Uma televisão com Alzheimer.

sábado, 27 de novembro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXXIII): na TSF de viva voz

DOIS MIL TREZENTOS E TRINTA

(clique na imagem)

Para quem percebe destas coisas do jornalismo, não é preciso eu dizer que uma estação como a TSF tem de citar Jorge Wemans no JN, porque este ignorou as suas chamadas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O declínio da aura

Abbas Kiarostami, "Copie conforme" (2010)

Este declínio [da aura] prende-se com duas circunstâncias, ambas correlativas à importância crescente das massas na vida actual. com efeito, encontramos actualmente nas massas duas tendências igualmente fortes: por um lado exigem que as coisas se lhes tornem espacial e humanamente "mais próximas", por outro tendem a colher as reproduções, depreciando aquilo que é único.

Walter Benjamin, "A Obra de Arte na Era da sua Reprodução Técnica" (1936), Parte III

(Sim, sou suficientemente pouco "original" para citar este texto. A razão é boa: o excelente último filme de Kiarostami, que está nas salas a partir de hoje.)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXXII): equívocos

DOIS MIL DUZENTOS E VINTE SEIS

Dois equívocos que tenho encontrado: 1. "não assino esta petição porque também falta teatro, música, literatura na RTP2"; 2. Uma fatia de pessoas parece considerar esta petição como coisa "pouco importante" (o cineasta António-Pedro Vasconcelos é uma delas).

Bem, quanto ao ponto 1, repito que as petições, como métodos democráticos que são, não podem ser EXCLUDENTES - a nossa não é excepção.

Quanto ao ponto 2, pergunto: num tempo em que estamos todos a apertar o cinto, não é importante denunciar aquilo que pode ser uma gestão irresponsável, danosa mesmo, de uma empresa 100% pública?

Como já disse, e repito, não podemos andar a brincar às televisões privadas no coração do serviço público. Não podemos.

Assine.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Vive Dreyer vive!

"The Village" (2004) de M. Night Shyamalan

"Stellet licht"/"Luz Silenciosa" (2007) de Carlos Reygadas

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXXI): que RTP2?

DOIS MIL CENTO E CINQUENTA E DOIS

Jorge Wemans, director de programas da RTP2 destaca que a estação pública "é a única a emitir todas as semanas um filme às 22.30horas (mais nenhum canal emite cinema em prime-time)". "Emite em média 17 filmes portugueses por ano, além de dar atenção às cinematografias europeias - em média mais de 40 por ano", aponta, sustentando que a emissão cinematográfica na Dois se faz "dentro da contigência dos filmes disponíveis e das condições orçamentais".

Eu não sei como qualificar estas palavras do senhor Wemans. Só me ocorre dizer aquilo que acho que deve ser dito: absolutamente lamentáveis. Para além de fazer o auto-elogio absurdo de passar, em média, 17 filmes portugueses por ano - TANTOS! Não é? -, refere ainda que "dá atenção às cinematografias europeias", porque - lá vêm os números outra vez, qual empresário televiseiro - mostra, em média, 40 destes filmes por ano. Primeiro, este sistema de quotização, espécie de celebração acéfala da tecnocracia televisiva, é sintoma claríssimo da forma indigna como o cinema é tratado - é só mais um "conteúdo televisivo", não é verdade?

A retórica dos números funciona sempre bem, mas atendamos ao seguinte: senhor Wemans, 17 filmes portugueses por ano? Que filmes? senhor Wemans, 40 filmes europeus por ano? Que filmes? E, depois de me responder, pergunto-lhe logo a seguir: "E, senhor Wemans, de que forma os mostrou?". (Até foram buscar o Mário Augusto à "concorrência"... que, por sinal, lhe deve estar a sair muito barato... tendo em conta as "condições orçamentais"...)

Contrato de Concessão de Serviço Público - CCSP

Cláusula 10.ª
Segundo serviço de programas generalista de âmbito nacional

(...)

13. Tendo em conta o disposto nos números 1, 2 e 5 e nas alíneas b), d), c), g), h) e i) do n.º 2 da Cláusula 7.ª, o segundo serviço de programas generalista de âmbito nacional deve incluir, no mínimo:

(...)

c) Espaços regulares de divulgação de obras cinematográficas de longa-metragem do moderno cinema português, o que inclui produções dos vinte anos anteriores à transmissão;
d) Espaços regulares dedicados à cinefilia, com uma forte componente pedagógica, que contextualizem as obras difundidas na história do cinema;
e) Espaços regulares dedicados ao cinema europeu e a cinematografias menos representadas no circuito comercial de exibição;
f) Espaços regulares dedicados a curtas-metragens e ao cinema de animação
;


Ah, foi em "prime-time", num sábado à noite... Vejam só: "nenhuma estação passa em prime-time cinema". Pois claro, mas isso não evita que a RTP2, à luz do seu passado riquíssimo e à luz das exigências da LEI, seja hoje um canal descaracterizado, que é público, mas tem estratégia de um privado... de cabo. Não podemos andar a brincar às televisões privadas no coração do serviço público. Não podemos.

CCSP

Cláusula 6.ª
Objectivos do serviço público

Para além da sua vinculação aos fins da actividade de televisão a que se refere o artigo 9.º da Lei da Televisão, a Concessionária tem como objectivos específicos:

(...)

b) Promover, com a sua programação, o acesso ao conhecimento e a aquisição de saberes, assim como o fortalecimento do sentido crítico do público;
c) Combater a uniformização da oferta televisiva, através de programação efectivamente diversificada, alternativa, criativa e não determinada por objectivos comerciais;


Questões orçamentais, senhor Wemans? Não posso acreditar que invoque tal razão neste caso: é caro passar uns Tarkovskys e fazer uns "Filme da Minha Vida" versão século XXI? Não é gratuito, mas não consta que sejam gratuitos os talk shows nocturnos que produz, o único formato de talk show que conheço que tem uma equipa diferente por cada dia da semana - nem nos EUA isto acontece!

E, já agora, onde encaixa "5 para a Meia-Noite" e as séries todas que passa, duplicadas com vários outros canais do cabo, nas obrigações do canal? Passam 17 filmes portugueses, em média, por ano? E quantas séries americanas, das que também passam em Foxs e outros canais especializados, passa por ano? Não sei, mas 17 filmes portugueses, 40 europeus ou, que seja, os 98 que a Sessão Dupla passa por ano (segundo o JN) ao pé de mais de 300 "5 para a Meia-Noite" e muitos mais episódios de séries americanas estafadamente divulgadas e conhecidas do grande público por ano é, quanto a mim, mais do que suficiente para expor - se é preciso expor... - o absurdo desta argumentação, de novo, auto-vimitizante e pequenina.

sábado, 13 de novembro de 2010

Nova trilha (XXV): Streep e Ferré

Meryl Streep (e Clint Eastwood) em "The Bridges of Madison County" (1995) de Clint Eastwood


A versão de Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti - com um ending diferente - é magnífica e pode ser ouvida aqui.

Ruhr (2009) de James Benning


Nós estamos de tal modo "envenenados" com narrativas - dos jornais, dos filmes, da publicidade...- que me pergunto se um filme como "Ruhr" é o último degrau do cinema ficcional antes mesmo que o primeiro degrau do documentário. Olho para o plano da pequena rua na cidade alemã. Sou obrigado a olhar, a olhar mesmo, face à duração do plano. Cada pequeno objecto - um carro, uma pessoa, uma folha de uma árvore - que se mexe é um verdadeiro acontecimento, leva-nos a ver nele uma espécie de patético dramático do real, que ainda não tinha sido levado a ver noutros filmes.

A estase do plano fixo - fotográfico - é arrepiado por movimentos pontuais do objecto filmado. Quando tal acontece, parece que descobrimos pela primeira vez o cinema. Uma espécie de retorno primitivo à experiência da Sétima Arte: quando o cinema ainda era classificado como "fotografia em movimento". Num plano, Benning faz-nos viajar no tempo muito além do quadro apresentado. No fora de campo está, enfim, o Cinema quando a Fotografia entra em cena ou a Fotografia quando o contrário acontece. Isto parece-me, de facto, extraoardinário.

Por outro lado, Benning é um verdadeiro artista avant-garde. Os seus filmes questionam os limites do medium como poucos. A sua insistência num modelo formal rígido, que pouco ou nada mudou desde os anos 70, é uma postura eminentemente política, uma espécie de militância contra os "ritmos" das imagens do mainstream. E, de facto, Benning é um cineasta político tanto quanto é um cineasta "que filma paisagens perdidas" como "realidades de outra dimensão" ou "ângulos mortos da mente" (na acepção de Kracauer). Actualmente, voltando à nossa existência sobrecarregada de narrativas, pergunto quantos de nós perdemos alguns minutos a contemplar a rua a partir da nossa janela? Eu pergunto quem se atreveria, hoje, a procurar uma narrativa NÃO mediada; a parar, observar e encontrar no que vemos e tocamos uma forma de comunicação? A mediocracia é interrogada por Benning, quando este nos põe a pensar e nos leva, a mim levou, a concluir: eu só ACEITARIA ver a minha rua, a partir da janela do meu quarto, se alguém ma filmasse por mim daquele sítio; se alguém ma mediasse. "Olá, o meu nome é Luís Mendonça e sou mediadependente. Olááá Luís."

Os efeitos da mediação tecnológica são, assim, QUESTIONADOS por estas experiências avant-gardes. Curioso também que o avant-garde esteja hoje virado para a conservação do tempo, a diminuição ao mínimo desse ruído mediático e mediatizado, quando, nos primórdios do cinema, junto dos cineastas experimentais do surrealismo por exemplo ou depois junto dos cineastas beat (tão importantes para a estética do vídeoclipe dos anos 80), o que era motivo de desafio era precisamente romper com a barreira do tempo; o tempo era prisão. O tempo é, hoje, libertação - e um luxo. O espaço, por sua vez, parece surgir, finalmente como sujeito/assunto, na sequência dessa libertação.

E, com tudo isto, quero também dizer que estou a pensar escrever um filme baseado no plano de Ruhr que destaco acima. Se tiver dinheiro, um tio rico ou um produtor à mão, entre em contacto comigo. Tenha a bondade de auxiliar...

Texturas da pele e a sua geografia em close-up

Alain Resnais, "Hiroshima mon amour" (1959)

Any huge close-up reveals new and unsuspected formations of the matter; skin textures are reminiscent of aerial photographs, eyes turn into lakes or vulcanic craters.

Siegfried Kracauer, in Theory of Film: The Redemption of Physical Reality (1960), Princeton, p. 48

Etc.

pusssplimpluuumb brrruumplumplimm plummmmm vazuummm*

"Chappaqua" (1966) de Conrad Rooks

"The Trip" (1967) de Roger Corman

*- E assim sucessivamente...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os limites patéticos e convencionados do womanly feeling [Kurokawa's (un)fortunate man]

Kôji Wakamatsu, Kyatapirâ/Caterpillar (2010)

At last Aurelia is in serious perplexity as to what she ought to do. She still loves her Breckinridge, she writes, with truly womanly feeling--she still loves what is left of him but her parents are bitterly opposed to the match, because he has no property and is disabled from working, and she has not sufficient means to support both comfortably. "Now, what should she do?" she asked with painful and anxious solicitude.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Rio Bravo (1959) de Howard Hawks (II)

Como prometido, passo de seguida a palavra a quem sabe. Ao grande hawksiano do cinema contemporâneo: John Carpenter. Os excertos que apresento de seguida foram retirados do comentário áudio que este fez ao filme, para uma das suas mais recente edições DVD da Warner Brothers.

Dois apontamentos prévios são necessários: primeiro, o comentário áudio da edição supracitada é partilhado entre Carpenter e um teórico de Hawks, Richard Schickel, com especial enfoque para as palavras deste último, o que lamentavelmente retira espaço ao realizador de "The Thing"; segundo, a tradução que faço aqui é muito livre, face à dificuldade natural de estar a escrever e a ouvir ao mesmo tempo - atente-se mais às ideias que à forma, mas se procura precisão, então recomendo que adquire a dita edição.

Hawks coloca sempre as personagens à frente. O seu cinema é sobre personagens, gestos, troca de cigarros, troca de adereços.

Os seus filmes de aventuras são sobre homens profissionais em perigo. Eles definem-se pela forma como trabalham.

Aqui está John Wayne no seu traje típico de xerife. John T. Chance é o seu nome. Chance era o nome de uma namorada que Hawks teve nos anos 50.

Tudo é geograficamente simples e directo. O filme não sai da cidade, hotéis, prisão... só no fim, na cena do tiroteio, o filme se alarga geograficamente.

Como em To Have and Have Not, o romance acontece num hotel. Aqui também acontece num hotel. Algumas cenas e diálogos são iguais. Hawks faz isso muito; recicla as suas próprias ideias. Como ele dizia, "I like to steal from myself".

Chance and Stumpy. O amor entre homens é outro grande tema dos seus filmes.

Neste filme, o ritmo é lento. Hawks não tem qualquer pressa em contar as suas histórias.

Esta sequência é uma das minhas favoritas. Os dois homens fazem a patrulha na cidade, um paralelo ao outro. É uma sequência filmada com enorme simplicidade, mas resulta quase num ballet entre dois homens.

Os cenários não são muito trabalhados, autênticos, como num filme de Sergio Leone. Hawks filma as suas personagens em sets algo standardizados de Hollywood.

Como em To Have and Have Not, a ligação entre a personagem masculina e feminina acontece com base numa desconfiança da primeira em relação à segunda, que se revela infundada.

Angie Dickinson, uma das grandes actrizes de Hawks, junto com Lauren Bacall. Penso que ela tinha 19 anos nesta altura. John Wayne tinha 50 anos. É estranho pensar que aceitamos o romance, tendo em conta a diferença de idades.

Hawks era um engenheiro, ele abordava os filmes como um engenheiro. Um trabalho de câmara simples e straightforward. Tudo é pensado, não há excessos. Ele não sente qualquer necessidade de acelerar o seu ritmo nesta altura.

Chegamos a uma das maiores cenas de Rio Bravo. Dean Martin fere o criminoso perseguido, este esconde-se no bar. Wayne pergunta a Dean Martin se ele é "good enough", se tem confiança para fazer o que tem de fazer.

Aqui não sabemos o que acontecerá. É uma cena cinematicamente genial. Dean entra pela frente e Wayne por trás. Dean Martin faz as perguntas... Tudo muito funcional.

Lá está o homem que eles procuram. Hawks mostra-nos a nós, mas Dean Martin e John Wayne não sabem que ele está ali.

Toda a sequência é sobre reclamar a dignidade. Reclamar-se a si próprio... este é o apontamento moral que Hawks faz.

Temos a música de Dimitri Tiomkin, com um toque de jazz. Agora repete-se a sequência de To Have and Have Not, em que Bacall beija Bogart.
Começamos aqui com uma das sequências mais conhecidas. Replicando um gesto em Red River, Ricky Nelson atira a riffle a John Wayne.

Aqui temos uma das melhores cenas entre Dean Martin e Wayne. A sequência anda à volta de dois temas hawksianos: profissionalismo e competência.


Aqui temos a cena da redenção de Dude. É tudo feito sem palavras. É um momento magnífico.

Aqui começa uma sequência, que Hawks usa noutros filmes. Em Only Angels Have Wings, por exemplo. Quando uma personagem é admitida no grupo, num filme de Hawks, normalmente as personagens cantam e tocam. Em El Dorado Hawks volta a filmar uma sequência com as personagens a cantar. Mas o filho de Hawks disse "pai, um xerife não canta". E, por isso, Hawks tirou essa sequência.

Hawks odiava High Noon, porque nenhum xerife profissional anda para aí a pedinchar ajuda. Rio Bravo é como que uma reacção a isto.

Hawks costumava chamar os seus actores ao set e discutia com eles, "à volta de uma mesa", as falas desse dia. Parece-me um modo muito humano de trabalho.

Rio Bravo está a terminar. É Hawks e Tiomkin no seu melhor. É muito simples: são apenas homens a descer a rua. Mas a música é fabulosa, dá-lhe heroísmo. Não sei se não será influenciada por Yojimbo, não sei ao certo. Agora vamos para uma gloriosa sequência de acção: excitante, divertida... Agora o grupo reúne-se.

Hawks coreografa tudo. Sabe onde cada actor deve estar, mostra-nos a localização, mapeando o espaço para o espectador. É como olhar de cima para um mapa.

Hawks realizava com graciosidade e simplicidade. Como Clint Eastwood, a sua câmara está sempre na posição certa, sem chamar a atenção sobre si mesma.
Isto é um replay de To Have and Have Not. Wayne não quer que vejam Feathers vestida daquela maneira. Eles cimentam o seu amor aqui.

Rio Bravo é um filme cheio de humor, divertido, old fashion, vai beber aos anos 30 e 40, mas também tem as cores dos anos 60. Tem acção... tem tudo. Para mim, este é um dos grandes westerns de sempre. A performance de Wayne não estará ao nível de um The Searchers, mas é seguramente mais real.

É curioso: este filme reflecte o que há de melhor em Hollywood. Um filme divertido de ver, popular no seu tempo e ainda hoje. É lento e elegante, como um pedaço de música clássica.

Aproveito esta oportunidade para publicar na íntegra a análise que fiz a "Hatari!" (1962) para a revista Red Carpet há dois anos. Nela elenco muitas das características do universo Hawks já bem presentes em "Rio Bravo".

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