quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Beyond a Reasonable Doubt (1956) de Fritz Lang


Não há fundamentalismos aqui. "Beyond a Reasonable Doubt" é um filme de Lang, com Dana Andrews, mas isto, só por si, não faz dele um bom filme. Numa palavra, a intriga é envolvente, mas a espaços grosseiramente incongruente, quase negligente. Num filme sobre a pena capital e os interstícios do sistema judicial norte-americano - no fundo, as suas brechas escandalosas que permitem a condenação à morte com base em meros indícios de circunstância e não matéria de facto... - impunha-se algum rigor à arquitectura narrativa.

Há uma incongruência nos factos, desde logo, no modo como decorre a investigação da morte de uma bailarina de cabaret, porquanto parece risivelmente superficial, ao ponto de só perto do fim ficarmos a saber o nome "verdadeiro" da vítima, quem é o seu "manager" e a história de um namorado "abusador"... então mas a polícia não fez investigação? Foi tudo mesmo um exercício de retórica por parte do district attorney, só isso e nada mais? A intriga, que tem uma ideia base, de facto, muito interessante, peca pela forma básica como retrata os próprios meios de investigação do sistema judicial americano. O espectador não sabe quase nada da rapariga e ficará sem saber até ao momento em que, já condenado um "suposto" inocente, alguém começa a fazer perguntas tão básicas como: quem era e com quem é que esta andava?

Depois, como se explica o final desconchavado, justicialista, em que ficamos a saber que aquilo que parecia forjado era, de facto, uma astuta manobra de diversão do assassino? O twist poderia ser inteligente, mas se a versão final dos factos (verdadeira?) fosse credível. Como é que ninguém - muito menos a polícia, não é verdade? ou o tão elogiado district attorney? - procurou encontrar a ligação entre o condenado e a vítima? Estamos na presença de um julgamento medieval, que, a certa altura, parece "gozar" com a inteligência do espectador pelo simplismo bárbaro dos seus procedimentos. Não é crível que a justiça americana alguma vez se tenha processado deste modo.

Outra ordem de incongruências. Desde logo, os fracos motivos dos dois homens envolvidos no plano rocambolesco, e sem dúvida empolgante, que estrutura a narrativa do filme. Sobre estes, questionamos a própria licitude do plano, e não vemos nele qualquer tipo de acto heróico contra a pena capital; apenas uma muitíssimo pouco ética, até terrorista!, tentativa de desmontar o sistema por dentro... Teria sido muito mais interessante se o "master mind" estivesse ciente do verdadeiro grau de culpabilidade do seu "parceiro" - como já deve ter reparado o leitor atento, estou a tentar não estragar a surpresa, mais que tudo, "as boas surpresas" do plot. Outra incongruência prende-se com a fraca caracterização da personagem de Joan Fontaine. Sempre deslumbrante, com um ar de princesa imperturbada - ela que, de súbito, enfrenta a morte do pai e vê o ex-noivo envolvido num homicídio brutal! Em momento algum, Fontaine evidencia a mínima prostração; é uma personagem esvaziada, quase desumana... plástica. Um adereço.

Lang não é totalmente bem sucedido neste filme, tal como não o fora em "While the City Sleeps", filme realizado também em 1956 e também com Dana Andrews no papel principal. Este díptico judicial, com toques de noir, peca pela fraca ligação entre factos, como pela artificialidade dos interesses que movem cada personagem. Ambos, contudo, atacam duas questões fundadoras da democracia americana: os limites da liberdade de imprensa e da justiça dos tribunais. Tendo em conta todas as inexactidões, e o registo excessivamente apressado, calcanhar de Aquiles de alguns dos mais ousados filmes da RKO (exemplo de "Angel Face"), estes filmes, mais precisamente "Beyond a Reasonable Doubt", testam ao absurdo a suspension of disbelief do espectador moderno, mas, com a disposição certa, são dois cativantes films noirs políticos de Lang - é mais por aí, do que pela via judicial "de substância", que importa reter estas experiências.

Cavaco is back and so is the good old cavaquês (V)

Cavaco, no último debate presidencial, diz que se compromete a exercer uma "magistratura de influência activa" caso seja eleito. Há cinco anos, o mesmo Cavaco prometeu uma "cooperação estratégica" com o Governo. Entretanto, desde que a crise estalou, Cavaco mudou a agulha: mandou dar uma volta à cooperação e dá vida, agora, a uma magistratura que se quer influente. No dito debate, com o candidato do PCP, Cavaco acrescentou um adjectivo: "activa".

A quantidade de latim que foi gasto a tentar descodificar, nos últimos 5 anos, o que raio era isso de "cooperação estratégica" dava para encher este blogue e afundá-lo no ciberlixo que nos intoxica os dias. Alguns politólogos e analistas já se começaram a entreter com a "magistratura de influência" como uma criança com o seu novo brinquedo. "Activa", Cavaco ponderou, reflectiu aturadamente durante dias, semanas, meses, e disse. Durante esse tempo claudicou entre "activa" e "passiva", ter-se-á decidido há dias. Nada será como dantes.

Imaginem se tivesse dito: irei exercer uma "magistratura de influência passiva". Seria o primeiro a influenciar passivamente algo ou alguém, mas Cavaco não se quis aventurar, como bom social-democrata da ala mais conservadora que se apanha. Ficou-se por uma influência activa. "Passivamente activa" - é a que se segue...

Programação de cinema na RTP2 (XXXIV): como dizem os jogadores de futebol...

DOIS MIL QUINHENTOS E CINCO


Pois é, quando iniciámos esta petição tive uma conversa com o meu compagnon de route Miguel Domingues e lembro-me bem de nos termos rido perante a possibilidade de virmos a ter sequer 1000 assinaturas. Dissemos que um número como 2000 ou 2500 seria algo de incontornável para a direcção da RTP2, mas, falo por mim, nunca acreditei que chegássemos lá - e tão rapidamente, em menos de 4 meses!

Muito tem acontecido dentro e à volta da petição. Mais assinaturas significativas - como a de Jorge Campos -, mas acima de tudo temos merecido alguma atenção mediática, nomeadamente, na coluna diária de Jorge Mourinha, a quem agradecemos.

A notícia da morte de Carlos Pinto Coelho marca, para mim, o momento mais doloroso desta iniciativa, porque, estou certo, se havia exemplo vivo da (resistência à) política castradora do segundo canal este era Carlos Pinto Coelho, alguém que, noutro contexto, ou melhor, no contexto certo, teria continuado a sua carreira enquanto brilhante comunicador e divulgador da língua e cultura portuguesas que era e sempre foi, abnegadamente. Por ele, queremos mais do que nunca tornar consequentes todos estes maravilhosos apoios.

Estamos todos, 2505 pessoas, no mesmo barco, a remar no mesmo sentido, ao sabor da mesma maré (desafiando os mesmos tubarões...). E, como já tive oportunidade de dizer, ainda vem aí um importante II Acto. Continue a seguir-nos, a assinar e a dar a assinar. Até lá, como dizem os jogadores de futebol, "estamos todos de parabéns".


E, tantas assinaturas depois, continuamos a dizer: senhores e senhoras da RTP2, "You're definitely in denial".

Someone's Watching Me! (1978) de John Carpenter


Foi a pensar em Hitchcock que Carpenter fez o telefilme "Someone's Watching Me!". Fez, nos anos 70, aquilo que Brian De Palma experimentou fazer no subvalorizado pastiche quase algorítmico "Body Double": tranformar o filme em espaço de convocações hitchcockianas ("Blackmail" + "North by Northwest" + "Rear Window" + "Vertigo" +...), postas "em abismo" em cada sequência, décor, adereço, sugestão de câmara...

O "fora de campo" é, naturalmente, rei aqui - já o era, entenda-se, no ultra-conceptual, mais ainda que "Birds", "Halloween". Uma mulher é assediada por um peeping tom invisível. Saber que está a ser vigiada por um vizinho de um dos prédios da frente não a ajuda na captura do "assediador", porque estamos em L.A., numa paisagem formada por grandes blocos de betão e vidro. Janelas defronte a janelas, janelas que convidam ao voyeurismo mais primário que corre nas veias de qualquer (?) homem solitário.

Incrível como Carpenter, num projecto para televisão, vai mais longe que De Palma em "Body Double". Leigh Michaels, a personagem feminina, é uma realizadora de televisão - profissão nada inocente, como veremos - que é perseguida pelo olhar indiscreto de um homem anónimo, que lhe envia presentes e cartas com o carimbo de uma agência de viagens-fantasma. A tensão vai-se avolumando à medida que Leigh vai colando os fragmentos, isto é, tomando nota da insistência compulsiva do remetente anónimo e das chamadas estranhas que tem recebido. Em suma, estamos aqui na presença de uma espécie de "Janela Indiscreta" invertida, visto que a perspectiva que o filme adopta é a de "quem é visto" e não a do voyeur.

Outro elemento fundamental na intriga é a personalidade de Leigh: não é a típica barbie histérica dos slashers da praxe; Leigh (excelente Lauren Hutton) é uma mulher independente, "de iniciativa", com um sentido de humor muito próprio, que esta tem como pouco atraente para os homens - talvez se tenha habituado a seduzir e não a ser seduzida. É uma "mulher à Carpenter", portanto; ou seja, é uma mulher que tem pouco a ver com o cinema americano, ainda menos, com o cinema americano de terror. Por isso, perante a inoperância das autoridades, tomamos como natural a iniciativa que Leigh toma de ir de faca em punho acertar contas com o assediador - e também tomamos como natural que o seu namorada e amiga não procurem demovê-la de tão incauta inciativa.

O que alimenta este filme de Carpenter é então o jogo de forças entre vítima (mulher activa e temerária) e agressor (passivo na agressão, um cobarde como todos os peeping toms...); ou melhor, é "a forma como este jogo é jogado". É quase um "gato-rato" entre quem vê e quem é visto, situação incómoda, tão ameaçadora quanto aviltante, para uma mulher, para uma realizadora... A violação é dupla, portanto, apesar de, mesmo sendo dupla, nunca se consumar fisicamente, nem consta que se "queira" consumada dessa forma pelo agressor.

Quem realiza este filme é o agressor (o homem invisível, que grava a acção da vítima, toma nota de cada uma das suas movimentações e a "dirige" virtualmente até ao seu encontro... tal como um realizador?) até que a vítima reclame a posição que é sua por direito próprio. A certa altura Leigh diz: "por estes dias até me esqueço que sou realizadora". A partir daí o caldo está entornado para o assediador; Leigh quer a sua vida íntima, mas acima de tudo a sua vida profissional DE VOLTA. Leigh está farta e, por isso, está mais do que disposta a assumir daí em diante a condução deste filme. Soberanamente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

On vacation: manual de sobrevivência para situações improváveis

"Open Water" (2003) de Chris Kentis

"Frozen" (2010) de Adam Green


(Confesso que acho piada a este subgénero quase artesanal, anti-CGI, do cinema de terror apostado em reconstituições cinematográficas do tipo de fait-divers que preenchem as páginas mais recônditas dos diários ou que, de quando em vez, ocupam, continuadamente, como uma soap opera da vida real, o espaço dos telejornais. São estórias sobre pessoas comuns apanhadas, por circunstâncias estúpidas, numa situação-extrema que vem activar as suas primárias aptidões de sobrevivência, ao mesmo tempo que, perante uma ameaça externa da Natureza (tubarões no primeiro, lobos no segundo...), constitui um teste à capacidade de co-habitação humana debaixo de um clima de puro medo.)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Cavaco, o apolítico? (IV)

Cavaco, escaldado com as críticas de Sócrates - e, nós sabemos, aquele é "vingativo", tal como o caracteriza a diplomacia americana, cortesia Wikileaks -, não remeteu o povo ao seu site ou aos seus discursos dos anos 80. Disse directamente que desde o início do seu mandato se tem preocupado com as questões da pobreza; que, no primeiro discurso do 25 de Abril, alertou "os políticos" (palavras dele) para a situação dos mais desfavorecidos. Cavaco é o político que está no poder há mais tempo em Portugal; está envolvido na gestão do Estado desde, pelo menos, os anos 80, ou seja, há perto de 30 anos que Cavaco se dedica, quase em exclusivo, à política.

Acho muito interessante que se auto-exclua, como um trauma, da classe dos tais "políticos" a quem se dirige quando fala de pobreza. Cavaco refugia-se num suprapartidarismo completamente fabricado e num "apolitismo" ainda mais grave, na medida em que ele é, DE FACTO, o mais profissional e tecnocrata dos políticos nacionais do pós-25 de Abril; ele é o cientista que deu vida ao Frankenstein da Terceira Via chamado José Sócrates. Mas nem dessa obra ele se responsabiliza...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nobre com (boas) ideias para o país (III)

Ao contrário de Cavaco, que diz que ninguém o ouviu no passado mandato - não admira que não se ouça quem não diz nada! -, e até ao contrário dos restantes candidatos provenientes do actual - e muito enfermo - sistema político, Fernando Nobre tem falado de medidas que são, a meu ver, corajosas.

Uma delas passa por uma redução no número de deputados (100 é o número apontado), uma maior responsabilização, logo, acréscimo de qualidade do trabalho parlamentar e, não menos importante, uma aproximação maior entre representantes e representados (através da Internet, mas, acrescentaria eu, de iniciativas, como debates, visitas organizadas, etc., dos deputados, ministros, secretários de estado e, localmente, autarcas). Acho que é tempo de se institucionalizar uma verdadeira "política de proximidade", visto que esta, nos tempos que correm, parece só servir para o arrebanhamento de eleitores.

Ou seja, o que Fernando Nobre diz está muito próximo daquilo que eu defendo como uma das soluções mais viáveis para a reestruturação pacífica do Estado português. (A minha inclinação de voto para o nulo começa a mudar.)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

The Thing From Another World (1951) de Christian Nyby


O "The Thing" de Nyby, produzido por Hawks, é diferente do "The Thing" de Carpenter nalguns aspectos curiosos. Neste sci-fi de terror o "alien", espécie de vegetal sobredesenvolvido que vem perturbar os trabalhos de um grupo de exploradores norte-americanos, é usado como permanente "antecipação" do perigo. Isto é, o medo é gerado, sobretudo, na ausência da sua imagem. No fabuloso remake de Carpenter, o "alien" é frontalmente encarado pela câmara e só se torna verdadeiramente perigoso quando se instala no organismo dos protagonistas, virando-os uns contra os outros - situação clássica em Carpenter, como nalguns Hawks (exemplo de "Red River"). A imagem do inimigo vai-se confundindo progressivamente com a imagem do homem, mesmo do melhor dos homens.

Este jogo perverso está invertido no original: o "bicho" vai-se distinguindo cada vez mais da "forma" e, acima de tudo, do "conteúdo" humanos. Claro que a curiosidade e tensão que desperta vão lançar alguma discórdia entre os membros da comunidade humana, mas aqui o "bicho" é só um assunto, isto é, não se substitui materialmente aos protagonistas; não faz com que o próprio espectador se perca na acção, sem referências de "bem e mal". A perversidade de Carpenter é, obviamente, mais moderna, mas não nos iludamos: o clássico de Nyby-Hawks mantém uma frescura notável, tendo suscitado em mim outra ordem de evocações. Pensei mais em Shyamalan, e no seu "Signs", quando vi o "bicho", pela primeira vez, de corpo inteiro, já havia passado mais de meia hora de filme.

Apenas o vemos de relance, numa porta que se abre (as portas que se abrem... muito carpenterianas...), isto é, a primeira imagem do "bicho" é um flash de horror, como que mediado pela fronteira da porta, como o extraterrestre no filme de Shyamalan é-nos dado a ver, pela primeira vez, de corpo inteiro, num breaking news televisivo. Partilhamos, na qualidade de espectadores da televisão e da porta que se abre, duas janelas "virtuais" abertas pelo cinema - sobremediação... quem a controla? -, digo, somos levados a partilhar a exclamação muda de horror que abala o espírito das personagens. E o espírito é colectivo, e poderá ser medium, numa obra de terror desta natureza.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cavaco intervalou para se descavacar (II)

Finalmente Cavaco dispensa descodificação. Responde directa e objectivamente às acusações dos seus adversários a Belém, com uma particularidade: fá-lo com incisão e claramente. Dá nome aos bois (aos boys?): de facto, Alegre tem revelado uma estratégia "desesperada" (a palavra é de Cavaco) baseada numa atitude reactiva, quase primária, a cada intervenção ou não-intervenção de Cavaco Silva.

Se Cavaco critica os Açores por reivindicarem um "regime de excepção" no caso dos cortes salariais, vem Alegre defender (corporativamente, olhó "senhor da independência de espírito"!) o seu camarada de partido, Carlos César. (E terá ficado embaraçado quando viu que estava sozinho nesta contenda...) Já antes Alegre tinha adoptado a mesma estratégia. Cavaco devia chamar os partidos, para gerar consensos?

Pois, quando Cavaco os convoca, aparece Alegre, projectando as cordas vocais, em tom declamatório, a criticar que foi tarde demais, que ele tinha sido mais rápido. Alegre desafiou Cavaco a quebrar "o tabu" da recandidatura - acabem com isto, sempre que há Cavaco, lá vem a oposição de esquerda com a história do tabu...

Pois bem, o tabu foi quebrado, mas até lá Alegre não perdeu uma chance para acusar o Presidente da República de já estar em campanha eleitoral, e de se servir do seu lugar para granjear mais apoios. Cavaco tem razão quando fala em desespero da parte de Alegre. Neste ponto, vá lá, o senhor Silva falou português e deixou o cavaquês em casa(, a cuidar dos netinhos.)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

No cavaquistão falai cavaquês (I)

José Pacheco Pereira está para Manuela Ferreira Leite como eu espero vir a estar para Cavaco Silva no que falta até ao grande dia, em que este deverá ver renovado o mandato enquanto Presidente da República.

O que proponho - na sequência do que faço há muito entre amigos - é descodificar as suas sábias palavras aparentemente auto-evidentes ou la palicianas, mas, na verdade, seus ignorantes!, cheias de sentidos duplos e milhares de intenções contraditórias e complementares - é isso que certos politólogos, bichos estranhos..., e yes men do PSD e arredores nos querem fazer crer.... aahhhh, eis a seiva que nos alimenta os dias: a libido decorticandi do subtexto cavaquista.

Pego num título de uma notícia para lhe descortinar, nesta semiótica arriscada do cavaquês, a substância ou, como se diz na terra da minha mãe, a sustância.

Cavaco espera que promessas feitas às vítimas do mau tempo sejam cumpridas.

Descavacando... sugiro fazer o contrario sensu: Cavaco espera que promessas feitas às vítimas do mau tempo não sejam cumpridas.

Voilá.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

...e saíram. Saíram de lá apenas como fantasmas dos seus gestos

"Un condamné à mort s'est échappé" (1956) de Robert Bresson

"Escape From Alcatraz" (1979) de Don Siegel

(Estou ciente que tenho, pelo menos, uma falha grave a colmatar, mas neste momento sinto coragem para me aventurar na seguinte afirmação: aqui estão os dois melhores espécimes do prison genre movie.)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Wikileaks

A polémica Wikileaks é de uma hipocrisia atroz. Sugiro uma mudança de perspectiva para a desmontarmos: se um qualquer senhor jornalista recebesse até a mais irrelevante informação que o senhor Assange recebeu, não a publicava? Vamos lá, digam sinceramente: resistiam noticiar que corre entre diplomatas americanos a ideia de que Zapatero é isto ou aqueloutro ou que a China se inclina para uma ideia de reunificação da Coreia?

Eu pergunto isto, depois de ouvir um jornalista chamado Miguel Sousa Tavares classificar as práticas do senhor Assange de "terroristas". Eu diria, em jeito de lamento, que é um acto "normal" do jornalismo que hoje se pratica; um jornalismo de secretaria - o Tintin já era, agora o que o jornalista faz é ficar na redacção o dia todo à espera que a notícia lhe venha por mail ou telefone... é um secretário -, que se deixa instrumentalizar pela exclusividade e explosividade dos furos noticiosos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O meu star-system

O outro dia falava sobre os meus critérios de gravação/aluguer de filmes na Box/vídeoclube. Tenho dois: primeiro, filmes de realizadores que aprecio, de realizadores "históricos" e de realizadores cujo trabalho conheço mal; segundo, filmes com actores que me enchem, quase sempre, ou sempre mesmo, as medidas.

Nesta última categoria incluo os seguintes nomes: Denzel Washington, Robert De Niro, Al Pacino, Gene Hackman, Gena Rowlands, John Cassavetes, Lee Marvin, Robert Mitchum, Sidney Poitier, Paul Newman, George C. Scott, Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Gostava de ver (mais) nomes não-americanos nesta lista - e mais mulheres - mas há pouco espaço para eles na nossa televisão e nos nossos vídeoclubes. Uma pena, porque acho que há público para outros cinemas, para outras caras...

domingo, 28 de novembro de 2010

A selvajaria intelectual continua e continua


Salvo um ou outro comentador do futebol, como Luís Freitas Lobo ou o treinador Carlos Carvalhal, a maioria dos opinion makers do futebol é, no mínimo, execrável. Mesmo não fazendo mais nada na vida - e provavelmente só conseguindo mesmo descodificar o óbvio num jogo de futebol -, certos comentadores exibem, sem que ninguém faça caso, uma clamorosa ignorância em relação não só ao passado longínquo como, o que é mais indesculpável, aos factos recentes do futebol nacional. Ouço na TVI algo como isto: "neste jogo o Benfica não está a acertar com os cantos".

Mas, ó senhor comentador, você, que não deve fazer mais nada na vida que ver jogos de futebol - coisa complexa, como todos sabemos... -, não viu o jogo do Benfica contra o Hapoel de Tel Aviv? Não viu quantos cantos o Benfica desperdiçou? Não viu a permeabilidade da equipa a marcar e a sofrer cantos? Cantos e livres, meu caro comentador, são o calcanhar de Aquiles do Benfica deste ano. David Luiz e Roberto - sobre o qual pende, hoje, a mais humilhante condescendência jornalística - que o digam.

Enfim, ocupam-se horas diárias a discutir algo que só merecia, quanto muito, uns minutitos de conversa, para depois termos de levar com a opinião ou mau jornalismo destes ditos especialistas da bola que raiam a ignorância fascizante ou um histerismo sabujo de bradar os céus (vide tudo o que o senhor Nuno Luz faz).
Pronto, já me queixei. Agora vou ver o Rui Santos comentar a jornada antes do "Tempo Extra", espaço onde Rui Santos - a gralha aqui é a televisão que temos - comenta durante mais de uma hora, precisamente, a jornada que acabou há minutos... Uma televisão com Alzheimer.

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