A RTP2 aguentou duas semanas seguidas com cinema, todos os dias da semana, acrescendo à sua tradicional sessão dupla dois ciclos dedicados ao cinema europeu, um à nova geração de cineastas italianos (como Sorrentino, Luchetti e Di Gregorio) e outro ao cinema espanhol (com muito Almodóvar, talvez numa perspectiva algo redutora sobre os últimos anos, mais produtivos, do cinema espanhol). Defendi que esta opção de programação não teve nada a ver com a nossa iniciativa de reivindicar mais e melhor cinema na RTP2; defendi isso, mas comecei a duvidar quando vi a programação desta semana: uma semana dedicada ao western, nomeadamente, com o excelente "Johnny Guitar" a abrir e dois Peckinpahs.
Foi uma boa surpresa para este início de ano, mas o meu entusiasmo rapidamente diminuiu quando consultei não só a sessão dupla do próximo sábado - das mais esquizofrénicas dos últimos tempos, com a proposta incompreensível "All the President's Men" de Pakula seguido de "Election" de Johnnie To - mas acima de tudo quando verifiquei que, na semana que vem, a RTP2 volta a descartar o cinema de segunda a sexta. Toda esta "indecisão programática", que dificilmente fideliza quem quer que seja, fez-me lembrar da importância da palavra REGULAR no título da nossa petição.
Reformulamos a exigência: que se "horizontalize" um conteúdo/fim fundamental que é o cinema e a formação cinéfila!
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Programação de cinema na RTP2 (XXXVI): a palavra "regular"
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
O filme do ano (XIII): o trailer ou parte dele
domingo, 2 de janeiro de 2011
Janelas para se pensar o cinema na televisão pública
Lá impuseram as "quotas do serviço público" ao homem dos junkets e das festas loucas de Hollywood. Não tenho nada em particular contra o "jornalismo" - vêem-se as aspas? Mas vêem-se mesmo? Não será melhor pôr a bold? Ó mãe, vê lá, está mesmo bem? Ok, continuando... - praticado por Mário Augusto, homem simpático que já tive o prazer de conhecer, mas a RTP não conseguia fazer melhor? Teve de roubar da concorrência alguém para fazer, contra-natura, a promoção do malquisto cinema nacional, misturado com a pipocada-mor do boxoffice?
A título de exemplo, veja-se os créditos de abertura de "Janela Indiscreta", com frases célebres da Sétima Arte como "O meu nome é Bond, James Bond" e... "Até que a voz me doa" ("Amália"). Isto revela não só a ausência de uma programação (pensada) de cultura na televisão pública como, muito especificamente, a condução editorial do resto do programa: euforia incontida quando é para falar da última comédia de Nora Ephron interrompida a espaços com os malditos dos filmes portugueses... enfiados a martelo. É tudo tão artificial quanto pôr um Mário Jorge Torres a entrevistar Hugh Grant num junket sobre a sua última produção "Ouviste falar dos Morgan?".
Não está a RTP equipada para conceber, de raiz, uma coisa que não tem, que não há, de facto, na televisão nacional: uma programação cultural com espaços, vá, com UM espaço que produza reflexão/informação relevante sobre a actualidade cinematográfica, que promova a descoberta dos clássicos e não se limite a "vender blockbusters" como quem vende um creme para as rugas? Caramba, não consegue a RTP arranjar, até mais barato, uma pessoa minimamente telegénica para falar ou/e pôr gente a falar empenhada e seriamente sobre Cinema?
Bring Me the Head of Alfredo Garcia (1974) de Sam Peckinpah

Com avanços e recuos, lá se aclara o único plano possível para Oates: cortar a cabeça de Al, mas Al está morto, portanto cortar a cabeça de um morto. Entramos aqui na mitologia mexicana ou esta entra dentro de nós, mais concretamente: a culpa inerente à profanação sepulcral dos subsolos pelos vivos, o tipo de pecado que não se expia propriamente na paróquia ao virar da esquina, mas sim, provavelmente, antecipando a justiça divina e ceifando a vida do mandatário de tal bestialidade. Mas quem é este mandatário? Onde vive? Com quem vive? Por que e para que é que quer a cabeça deste tipo?, perguntas que a personagem de Oates faz a si mesma - solilóquio efervescente com os fantasmas...- enquanto guia o seu carro clássico, tipo banheira, amolgado por todos os lados e coberto de pó e morte.
A narrativa de "Bring Me The Head of Alfredo Garcia" vive deste jogo de "espanta espíritos" entre o aqui e o além, entre o amor e o ódio, a vingança e a redenção; é uma monumental tragédia RELIGIOSA sobre um tipo que está farto de viver, que está sujo, ensanguentado, sem mulher, e só com uma cabeça pútrida infestada de moscas a seu lado, no "lugar do morto". A solução para ele fica clara: vai muito para lá do dinheiro, vai muito para lá do terreno. Estamos num filme de Peckinpah? Estamos na última fronteira possível do seu cinema tipicamente "fronteiriço" com muchos cojones.
sábado, 1 de janeiro de 2011
2011 abre com um CINEdrio de cara (des)lavada
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
(...) as palavras são tiros e os tiros são palavras*
Jean-François Lyotard, A condição pós-moderna (1979), gradiva, p. 30
*- Daqui. (Ou como a palavra/o saber é mercadoria que se transacciona dentro do fluxo narrativo de um filme essencialmente pós-moderno.)
Prémios CINEdrio 2010
Melhor filme: "Go Get Some Rosemary" - é um cinema sem trela, à deriva pelas ruas (da infância), à deriva por referências passadas, de um cinema bastardo, o do New American Cinema, mas, mais do que isso, é um convite perfeito para se entrar num universo feito, adulto, de dois jovens cineastas: Ben & Josh Safdie. Obviamente, o melhor filme do ano.
Melhor realização: Raoul Ruiz ("Mistérios de Lisboa") em ex aequo com Kelly Reichardt ("Old Joy") - de um lado, a sumptuosidade viscontiana/ophulsiana de um realizador em perfeito estado de graça e, do outro, a fragilidade dura e doce de uma grande cineasta nascente.
Melhor plano: Elia Suleiman em "O Tempo que Resta". Uma das pequenas narrativas, tatiescas, em apenas um plano: o do hospital, em que um doente anda de um lado para o outro entre corredores - pertence ou não pertence àquele lugar? Toda a problemática do conflito israelo-palestiniano na arquitectura de um gag visual de puro génio.
Melhor actor: Adriano Luz ("Mistérios de Lisboa") - quantos papéis interpreta Adriano Luz em "Mistérios de Lisboa", ou melhor, a quantos papéis Adriano dá Luz em "Mistérios..."?
Melhor actriz: Michelle Williams ("Wendy & Lucy") em ex aequo com Juliette Binoche ("Copie conforme") - uma jovem actriz praticamente sozinha, com o seu cão..., faz um filme, ao passo que uma actriz intocável, monumental, rebenta/desorienta/desfaz em pedaços o equilíbrio de outro.
A revelação: Reichardt e irmãos Safdie - por motivos já expostos.
A desilusão: David Fincher ("The Social Network") - conseguiu fazer um biopic-antes-do-tempo de um figura cujo principal interesse é o seu progressivo auto-anulamento quanto mais se envolve na sua torre de Babel cibernética, que tem convertido em ideologia uma era que se diz da transparência, das solidões interactivas, do "desindivíduo" (este, se calhar, inventei-o eu agora...). Interessante objecto? Muito interessante, mas Fincher perde-se em detalhes secundários (como a batalha judicial) e não tem coragem de lidar directamente com o bicho do momento: o Facebook e o seu criador mabusiano (no sentido de totalitário, omnipresente, "invisível") chamado Mark Zuckerberg*. Enfim, aquele que podia ter sido um brutalíssimo "Zodiac II" é, afinal, um biopic insípido by the book.
*- Acho graça a todos aqueles que elogiaram "The Social Network" pelo facto do Facebook "não estar lá", associando este filme a uma atemporalidade careta, completamente desfasada do real interesse que moveu quem fez e quem foi ver o filme, que é basicamente um "como andam estes tempos?" ou um "o que fazer com um futuro à imagem de Zuckerberg?". Enfim, come disto quem quer.
Beyond a Reasonable Doubt (2009) de Peter Hyams
Mas, pois é, estamos em Hollywood e não podem ser deixadas perguntas sem resposta mal as luzes do cinema se voltem a acender. Então, Hyams arranja uma história algo mirabolante, mas, ainda assim, mais convincente que o original, nomeadamente, quanto às razões que levam o protagonista a enveredar por uma tentativa de fazer implodir o sistema de justiça, expondo ao país um district attorney ultra-maquiavélico interpretado por Michael Douglas - uma interpretação que soa a "part-time job", ou naquilo que em bom português se define como "dar uma perninha", face às poucas aparições da super-estrela neste filme que, com um elenco de actores de quarta categoria e um cuidado visual próprio de um telefilme, parece ter custado cinco tostões.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Os rostos de 2010
Kelly Reichardt Estreou "Wendy & Lucy" (depois de ter sido exibido no IndieLisboa), aquele que pode ser descrito como o seu "Umberto D.", e teve um desonroso lugar no mercado direct-to-dvd português deste ano, com a edição do magnífico "Old Joy". Disse desonroso? Se calhar nem tanto... se atendermos ao facto de outra grande descoberta do ano, Brillante Mendoza, ter visto o seu melhor filme, "Kinatay", vencedor do prémio de melhor realização em Cannes, ser lançado unicamente em DVD no nosso país - ao passo que "Lola" teve estreia comercial, vá lá! De qualquer modo, voltando àquela que é, para mim, a figura do ano, tenho a dizer que Reichardt é um dos grandes valores do actual cinema independente norte-americano, não só pela qualidade dos filmes estreados, mas também por aquilo que esta promete oferecer no futuro próximo, nomeadamente, o seu último filme, um western, muito elogiado em Veneza, chamado "Meek's Cutoff".

Manuel Cintra Ferreira
Sempre por amor ao cinema, Manuel Cintra Ferreira não deixou de dedicar os últimos meses, semanas e dias a levar mais longe a descoberta renovada que é, ou pode ser, o cinema, o grande e o pequeno cinema, indistintamente. Para o falecido crítico do Expresso, programador de excelência da Cinemateca, não havia bons e maus filmes, ou melhor, não havia filmes dispensáveis - o cinema não se dispensa, nunca. E, assim, com uma capacidade enorme de se deslumbrar com o mais improvável dos objectos - e de se espantar renovadamente, cá está, com os grandes clássicos que sabia acarinhar como poucos - Manuel Cintra Ferreira trilhou o seu caminho como um dos mais empenhados e democráticos críticos nacionais. A coluna deixada vazia no Expresso pesa sobre todos aqueles que o seguiram, semana a semana, em respeitosa concórdia ou em muito saudável discórdia. Cinco estrelas para ele.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Balanço caseiro do ano de cinema
Safdie
No top do ano este nome estará lá, bem destacado. No balanço caseiro, tenho de destacar o meu primeiro "Safdie film": a média-metragem "The Pleasure of Being Robbed". Fabuloso "filme de rua" sem rumo certo, que se faz de saídas dentro de saídas, como que levado pela vertigem dos nossos tempos - mas a ideia de tempo aqui é alvo de brincadeira "irresponsável", como se também o tempo fosse uma, ou fosse "a principal", produção nostálgica dos irmãos Safdie.
Budd Boetticher
Quatro filmes que passaram no canal Hollywood e que tive oportunidade de ver este ano, sempre com fome de ver mais logo a seguir... "Buchanan Rides Alone" e "Ride Lonesome" parecem-me ser verdadeiros emblemas do melhor western dos anos 50: uso deslumbrante do scope, cores techcnicolor de nos fazerem rebentar o coração de nostalgia e encanto e temas de amargura e, precisamente, de avassalador desencanto. É o belo crepúsculo num género nobre, em si mesmo, tremendamente, ou, diria, fordianamente, crepuscular.
Musicais de Lubitsch
"The Love Parade" e "Monte Carlo", da caixa da Eclipse dedicada aos musicais do génio alemão. Estes são provavelmente os filmes mais arrojados que vi este ano. A música é diegética, prolongamento divertido e erótico dos diálogos que celebrizaram Lubitsch - e Hawks e Wilder e Sturges - na grande arte da screwball comedy. A dinâmica homem-mulher aparece pontuada com afiado sentido de humor, numa época em que os códigos de censura em Hollywood ainda não se haviam implantado. Liberdade e ousadia - coisas inestimáveis dentro do estilo clássico.
Eastwood
Dois filmes, fora dos mais recentes do "último dos clássicos", reciclaram o meu fascínio por Eastwood depois das desilusões que foram "Changeling", "Gran Torino" e "Invictus" - e antes da que mais que se adivinha que será "The Hereafter". Esses filmes foram "Escape From Alcatraz" (mostrado no canal Hollywood), realizado pelo primeiro mestre de Eastwood, o grande Don Siegel (realizador que vem do classicismo mais "seco" de Hollywood e que, nos anos 60 e 70, desagua na perfeição no rough style dos movie brats); e a obra-prima "Bronco Billy" (exibido no canal FOXNext), comédia realizada por Eastwood em 1980 e que tem tudo lá dentro: nostalgia por um passado que não volta mais e uma doce evocação, comovente mesmo, da infância-de-Hollywood-que-é-a-de-Billy. Todo o western reduzido ao acto performativo de um grupo de circo falido. Nada mais crepuscular. Também... (Eastwood é confesso fã de Boetticher...)
Lloyd por Lloyd e Lloyd por Sturges
"The Sin of Harold Diddlebock", editado recentemente pela BACH Films, em complemento do obrigatório "The Freshman", clássico slapstick do génio cómico Harold Lloyd, constituíram o double bill mais perfeito que fiz aqui por casa. O primeiro pega no final deste último e "alonga-o" em todo um "novo filme", celebração wacky q.b. de toda uma carreira que, com o sonoro, se eclipsou... até aos dias de hoje.
A pirâmide humana de Rouch
Obrigado )intermedio( por me teres dado a descobrir cineasta tão moderno. Para quem ainda se deslumbra, hoje, com as fronteiras ténues que separam documentário e filme de ficção, ora experimentem espreitar qualquer um dos documentários que Jean Rouch realizou nos anos 50 e 60, por toda a África francófona e anglófona, sobre a experiência (muitas vezes traumática) da desconolização, sobre o racismo do homem branco versus o racismo do homem negro, sobre as relações entre tradição e modernidade, entre "campo" e cidade, entre mulher e homem, jovem e velho... Está tudo aqui, devidamente "dirigido" por um realizador que se "imerge para fazer emergir" a realidade. "La pyramide humaine" (1961) é tudo isto e mais: uma espécie de "Tabu" da Nouvelle Vague francesa, filmado na Costa do Marfim, com estudantes brancos (franceses) e negros (costa-marfinenses), sobre, precisamente, a interacção entre brancos e negros num país (de)formado por eles (por ela). Este filme tem o lirismo trágico do filme de Murnau, a doce "itinerância" de um Rohmer ou Godard e o calor - melhor, A ENERGIA - do continente africano. Belo e intenso. Vérité ou não.
"Trilogia da Guerra" de Rossellini
Dificilmente alguém me convencerá que houve edição em DVD mais relevante este ano. Falo da "Trilogia da Guerra" de Rossellini, editada pela Criterion Collection com o rigor e "amor à arte" que lhe reconhecemos por inteiro. Redescobrir o grande cinema saído da experiência inominável da guerra é rever "Roma, Cidade Aberta", "Paisà" e "Alemanha, Ano Zero" (na sua versão original, isto é, em alemão) em excelentes cópias. Para quem conhece as outras cópias que havia no mercado - "Paisà" já nem se encontrava... - perceberá facilmente a dimensão desta renovação, que, para mim, foi uma revolução para os olhos!
The Red Badge of Courage
"The Red Badge of Courage" (mostrado numa das sessões duplas da RTP2) é, de longe, o melhor filme sobre a guerra civil norte-americana que vi. Mas vou mais longe: o mais honesto, brutal e belo retrato psicológico sobre o homem (ou o rapaz que se torna homem) no campo de batalha. Facilmente rivaliza com outros grandes retratos do indíviduo em face do horror inumano da guerra, como o velhinho "The Big Parade" e os recentes "Letters From Iwo Jima", "A Barreira Invisível" ou "Full Metal Jacket". Se dúvidas houvesse - no meu caso, nunca houve - está aqui provado o génio inesgotável de Huston.
Memories of Murder
O thriller que interessa. Filme de 2003 do realizador sul-coreano Bong Joon-ho, que estreou este anos nas nossas salas o excelente "Mother", mas que em "Memories of Murder" realiza uma verdadeira magnum opus dentro desse género tão predominantemente americanizado do filme obcecado em seguir o rasto de um serial killer de rosto anónimo. Não é o plot que me leva a colocar "Memories of Murder" aqui, mas o nível de inspiração de cada plano; no fundo, toda uma arquitectura visual, que é um assombro. Urge uma edição deste filme em Portugal.
10 Rillington Place
Richard Fleischer em Londres, tenebroso e gélido. Foi o filme de terror mais brutal que vi este ano, onde tanto John Hurt como, acima de tudo, Richard Attenborough têm interpretações que nos cravam a pele pela sua lancinante crueza. Fleischer é magistral a criar o ambiente sinistro adequado a uma Londres cinzenta, "sem estação", assombrada por uma série de homicídios cometidos na morada que dá título ao filme. Numa palavra,"10 Rillington Place" (mostrado no canal TCM) é um dos mais aterradores pedaços de "não-ficção" pós-clássica passada numa Londres sob a ameaça de um psicopata pervertido (superior a "Peeping Tom" e a "The Collector", e, talvez, maior que "Frenzy"...).
O noir do ano
Foi "Pépé le Moko" , provavelmente, o primeiro noir da história do cinema, entre o gangster movie norte-americano e aquilo que se veio a institucionalizar como um estilo autónomo dentro do estilo maior de Hollywood: o film noir. "Pépé le Moko" é obrigatório para seguidores do film noir americano, na medida em que abre portas para todo um universo que carece, hoje, de uma maior divulgação: os primórdios do noir, em pleno coração do realismo poético francês, de que um Marcel Carné e Julien Duvivier ( o realizador de "Pépé...") foram nomes cimeiros, mas que acabaram por ser engolidos por nomes como Vigo e Renoir. "Pépé le Moko" tem tudo aquilo que adoro nos clássicos do género, de Dassin, de Huston, de Lang, de Hawks, de Dmytryk, de Tourneur, etc.: estilizado labirinto mental, com EXPRESSÃO no cenário e no próprio plot, entre a sedução e o crime, a culpa e a redenção, onde as mulheres e homens são víboras e santos ao mesmo tempo. O final de "Pépé le Moko" ainda arrepia visto hoje - eu disse visto? Ainda arrepia recordado neste instante, enquanto escrevo!
Para o próximo ano espero aprofundar a obra de alguns destes cineastas e de outros que tenho em vista, como Hong Sangsoo, Josef Von Sternberg, Mikio Naruse, Frank Borzage, Chantal Akerman e Joseph Losey. Até lá, bom ano!
domingo, 26 de dezembro de 2010
Programação de cinema na RTP2 (XXXV): "o problema" pode bem começar aí...
DOIS MIL QUINHENTOS E VINTE
As críticas de Pedro Borges, da MIDAS Filmes, ao estado da RTP2 são devidamente contextualizados pelo panorama actual dos modos de ver cinema em Portugal. Este artigo de Vasco Câmara só vem dar conta de uma urgência: o gosto de ir ao cinema está-se a dissipar. Não por falta de interesse - visto que ele é manifesto pela afluência das pessoas aos festivais, até aos mais "alternativos" - mas pela ausência de uma "cultura de sala", que tem impedido as pessoas de integrarem as idas ao cinema nas suas rotinas de fim de semana.
Pedro Borges chega mesmo a criticar a multiplicação dos festivais de cinema e, na minha opinião, com bastante pertinência: "O público dos festivais só vai a festivais, não vai ver os filmes no resto do ano. Houve uma altura em que as pessoas diziam que não esqueciam o ano em que viram no King o 'Chungking Express' [Wong Kar-wai] ou 'A Bela Impertinente' [Rivette]. Os filmes marcavam a vida das pessoas. Isso hoje não acontece. O cinema tem que existir 365 dias por ano e não existe. O Estado tem de descobrir, nas cidades fora de Lisboa, parceiros que queiram mostrar cinema 365 dias por ano".
Olho à minha volta e sinto, mesmo entre o público mais cinefilamente filiado ou pretensamente cinéfilo, um desinteresse crescente pelo que as salas oferecem, muitas vezes, tantas vezes, aliás, em virtude de idas ao DocLisboa ou IndieLisboa. Mas é um "ir ao cinema" como quem se atira de cabeça para o vazio; não há, a meu ver, uma verdadeira excitação em "seguir" o evoluir de um universo ou de um conjunto de obras - ou mesmo de uma indústria! Espera-se, sim, que tudo isto lhes surja em pacotes retrospectivos pela mão dos festivais da moda ou, pontualmente, pela mão de esta ou daquela editora de DVDs - mas, para uma oferta interessada, só temos a excelente MIDAS. A (fome de) descoberta é mínima e a capacidade crítica ressente-se.
Depois, ainda mais acertadamente, Pedro Borges acrescenta: ..."E outra coisa: durante anos havia um canal de televisão de serviço público que mostrava estes filmes. Quando se mostra regularmente esse cinema, está-se a criar público. O facto de a RTP 2 ter deixado de passar cinema é um descalabro para a distribuição. Era possível esse cinema existir com visibilidade porque as televisões estabeleciam parcerias com os distribuidores independentes. Nos outros países apareceram canais especializados em cinema. Em Portugal os canais privados são piores do que a TV pública".
Fiz um sublinhado a bold no que julgo ser fundamental entender, de uma vez por todas: se há alguma coisa que distingue uma (boa) programação cultural das demais é que esta tem a capacidade de CRIAR público. Em Novembro, numa entrevista concedida ao jornal Público, pela mão de Jorge Mourinha (nosso subscritor), Thierry Garrel, programador de cinema documental do canal ARTE durante 16 anos, presidente do júri no último DocLisboa, sublinha algo parecido: "Se aprendi alguma coisa na televisão, é que, quando se aposta no público, oferecendo-lhe obras novas, supostamente complexas, mas que falam essa tal língua universal, o público está lá sempre. Sempre. Não está lá instantaneamente; a televisão comercial quer sempre medir instantaneamente a presença dos espectadores em frente ao écrã, e isso não é possível. Mas precisamente através de uma programação podemos construir um público".
E depois acrescenta: "Apesar dos novos meios de comunicação e tecnologias nascidas da revolução digital - um mundo que é uma selva e que ainda não tem economia - acho que a televisão programada ainda vai viver muitos anos. Há 30 anos anunciava-se o fim da televisão com a video-cassette, há 25 anos era o cabo que a ia matar, de cinco em cinco anos aparece uma novidade tecnológico-civilizacional que me parece francamente empolada..."
Há uma filiação que é feita, que se reproduz com o passe a palavra, que se passa com os VHS - de irmãos mais velhos para mais novos, de pais para filhos... - e que, em última análise, nos fica na memória, por envolver objectos que vieram iluminar um pedaço da nossa vida. O "problema RTP2" pode bem ser o princípio de um problema maior, que os festivais maquilham mal: a falta de uma cultura de sala, crítica, activa e "programante" (no sentido de levar as pessoas a saberem programar os seus visionamentos), em Portugal.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Destroços da guerra, terreno para brincadeiras
"Germania anno zero" (1948) de Roberto Rossellini
"Hope and Glory" (1987) de John Boorman quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Beyond a Reasonable Doubt (1956) de Fritz Lang

Cavaco is back and so is the good old cavaquês (V)
A quantidade de latim que foi gasto a tentar descodificar, nos últimos 5 anos, o que raio era isso de "cooperação estratégica" dava para encher este blogue e afundá-lo no ciberlixo que nos intoxica os dias. Alguns politólogos e analistas já se começaram a entreter com a "magistratura de influência" como uma criança com o seu novo brinquedo. "Activa", Cavaco ponderou, reflectiu aturadamente durante dias, semanas, meses, e disse. Durante esse tempo claudicou entre "activa" e "passiva", ter-se-á decidido há dias. Nada será como dantes.
Imaginem se tivesse dito: irei exercer uma "magistratura de influência passiva". Seria o primeiro a influenciar passivamente algo ou alguém, mas Cavaco não se quis aventurar, como bom social-democrata da ala mais conservadora que se apanha. Ficou-se por uma influência activa. "Passivamente activa" - é a que se segue...


