segunda-feira, 15 de julho de 2013

Supermercado da ideologia ou a ideologia do supermercado?

"Mr. Freedom" (1969) de William Klein

"Tout va bien" (1972) de Jean-Luc Godard

(O supermercado CINEdrio oferece com a leitura deste post mais 999 outros artigos escritos ao longo de 5 anos, desde aquele dia de Março de 2008 em que Bergman e Eastwood deram as mãos entre si e com a morte. Quis despachar a morte logo no primeiro fôlego deste espaço. Desde aí esta multiplicou-se 1000 vezes, marco atingido agora com mais esta revisitação do cinema pelo cinema. Obrigado!)

domingo, 14 de julho de 2013

Um rosto tão doce (depressão)

"Angel Face" (1952) de Otto Preminger

"Side Effects" (2013) de Steven Soderbergh

(Começa a impor-se que se escreva neste como em qualquer outro mural dedicado ao cinema que Rooney Mara é a coisa mais excitante a sair de Hollywood em muito tempo. Quanto ao senhor Soderbergh, tem aqui um dos seus filmes mais inteligentes, seguramente o mais e melhor "armadilhado" da sua carreira, misturando a técnica do filme de golpe de "Ocean's Eleven" com o filme político de denúncia ao jeito de um "Erin Brockovich" ou de paranóia "multinacional" numa versão muito mais cativante de "Contagion". De facto, o efeito secundário do cinema de Soderbergh é, antes de mais, o próprio cinema de Soderbergh.)

sábado, 13 de julho de 2013

sexta-feira, 12 de julho de 2013

CINEdrio Meets A Culatra Meets Luís Miguel Oliveira



O exercício de criticar a crítica, que estimulei bloggers e cinéfilos a porem em marcha, por exemplo, aqui e aqui, não deve ser confundido com o exercício de "desancar no crítico", nem mesmo me referia a uma crítica ao crítico, pelo menos de uma maneira fulanizada. Claro que não é proibido e também me parece evidente que uma crítica ao crítico pode ser um bom passo intermédio para se chegar a esse confronto entre "maneiras de ver" o mesmo objecto. Precisamente para chegarmos ao ponto que interessa, gostava que o redactor do artigo «A Culatra Meets Luís Miguel Oliveira», o Sr. Antero, fizesse uso do seu "conhecimento na área específica cinematográfica" para desmontar as posições que o citado crítico de cinema tem assumido contra o cânone dominante de Hollywood, isto é, dos super-blockbusters, baseados em bandas desenhadas ou/e na estética best seller, da publicidade, dos videoclipes e dos videojogos.

Dir-me-á que se limitou a "ler" o perfil e estilo do crítico em questão, mas, para além disso e interpreto eu, procura pô-lo em xeque, como que dizendo, ante o mundo, que "o rei vai nu". Mas quando Luís Miguel Oliveira (LMO) diz que um "The Dark Knight Rises" é um filme ideológico (no pior sentido do termo), quando diz que um "Slumdog Millionaire" cheira a merda (no seu sentido olfactivo sem termo), está a chegar a ou a partir de uma posição muito mais substancial e, não tenho medo da palavra, útil que a posição de que não chega a partir ou a chegar a crítica tipicamente descritiva, apolitizada e "mole" que replica, de modo mais ou menos sofisticado, o modelo dos press releases com uns pózinhos de análise narrativa, cultural ou de indústria/comercial. Aliás, a pergunta que deve ser feita - e que talvez este redactor deve fazer a si mesmo antes de mais - é: "o que deve ser a crítica de cinema? O que e para que serve?" Eu acredito na crítica de cinema, talvez hoje mais do que nunca!, como uma forma de resistência, uma tentativa de parar estes tempos de aceleração mediática, de consumismo acéfalo de imagens que se confundem com marcas, marcas que se confundem com imagens; enfim, tempos em que os espectadores se confundem cada vez mais com consumidores.

Ao arrepio da ditadura mediática da actualidade, não me parece reprovável que as referências de LMO, ou boa parte delas, venham dos "tempos antigos", como escreve o Sr. Antero com um inexplicável despeito. Então não será parte da função da crítica invocar e evocar a memória do cinema, debruçar-se sobre o presente com a consciência firme do que está para trás? Não é dever da crítica pôr a história do cinema (o seu passado) ao serviço do seu desenvolvimento presente? Não é dever da crítica apontar esses caminhos, abrir esses horizontes, ao leitor? Dir-me-á o Sr. Antero: "Mas uma coisa é evocar o passado, outra coisa é viver-se no passado, como se só lá estivessem as grandes obras, os grandes autores". Penso que aqui batemos de novo contra o perfil do crítico e a capacidade do leitor para o compreender - talvez a crítica do crítico deva produzir uma justa e avisada auto-crítica no leitor, ou tenha, em potência, a capacidade para estimular nele essa coisa chamada inteligência, isto é, a capacidade de "compreender antes de afirmar"... No caso de LMO, da sua formação clássica, da sua veia diria museológica [no sentido imagi(n)ário de Malraux], é natural que ele próprio atribua a si mesmo um papel que tempera o conservadorismo (afinal, no museu, imaginário ou não, "conservam-se" obras), a prudência e o bom senso com uma exultante e contagiante capacidade de descobrir e dar a descobrir novos e diferentes universos (aliás, basta ler o texto que escreveu sobre o último Brisseau para se perceber como é por estes lados que tem morada o derradeiro reduto da crítica de cinema onde ainda é possível a paixão cinéfila, assim mesmo: "à antiga").

 O que LMO tem vindo a dizer - ia escrever, e talvez bem, "a denunciar" - é aquilo que uma fatia importante de quem vê, segue e lê sobre o cinema tem sentido não tanto com "raiva" mas com igual saturação ou mesmo desencanto. Essa fatia da população não tem é um fórum com a dimensão do Ípsilon, por isso, em certa medida, LMO é o embaixador de uma minoria, uma minoria que me parece ser francamente esclarecida - mesmo que não fosse, sabemos como em democracia as minorias devem ser sempre protegidas. Por exemplo, LMO fala do "fastio", da "maçada", do "cansaço" que lhe provocam alguns dos blockbusters "infantilóides" que monopolizam a oferta fílmica nas nossas salas. O Sr. Antero recorta os adjectivos ou as adjectivações, tira-os ou tira-as do contexto e parece que a prosa de LMO se resume a isso. Isso não é verdade, mas mesmo que fosse, na essência, não trairá aquilo que muitos ou alguns de nós, cinéfilos, sentimos face à generalidade do mainstream americano. (Pessoalmente, gostava que alguém escrevesse preto no branco, porque seria até sinal da sua independência, que os blockbusters americanos da actualidade são puro lixo fílmico - garanto que, aplicando o princípio da dominante, não estaria a comprometer o meu rigor em 80% ou 90% dos casos. Os críticos que não querem enfrentar esta realidade, que "douram a pílula" para não perderem as benesses das principais distribuidoras/anunciantes, são, na minha opinião, actores de uma farsa ideologicamente perversa.)

O Sr. Antero chega a reduzir a seguinte reflexão em torno de "Man of Steal" a uma mera manifestação de um "preconceito" ou mesmo de "ódio": "um frenesi permanente, uma sucessão de estímulos visuais e sonoros que são um fim em si e em caso algum um instrumento para a construção de qualquer coisa que valha a pena confundir com ideias de mise en scène ou de dramaturgia". Na minha opinião, o que LMO faz aqui é não a manifestação de um preconceito ou a sublimação do seu (suposto) ódio anti-comercial ou anti-Hollywood, mas - acho que o tiro, Sr. Antero, lhe saiu pela culatra... - a afirmação de uma visão sobre o cinema, coisa que falta a muitos outros críticos da nossa praça, que se limitam a reproduzir "hypes" ou a reformatar informações de press releases.

Uma visão, neste particular, não muito distante da que tem um veterano crítico da New Yorker (norte-americano, imagine-se!) chamado David Denby. No capítulo «Conglomerate Aesthetics: Notes on the Desintegration of Film Language» do seu livro de 2012 Do the Movies Have a Future?, escreve: "The language big movies are made in - the elements of shooting, editing, storytelling, and characterization - is desintegrating very rapidly and in ways that prevent the audiences from feeling much of anything about what it sees". Mais à frente, aproximando-se de muita coisa diagnosticada (levianamente, diz o Sr. Antero) pelo crítico LMO, assevera: "The studios and filmmakers may have gone a little too far in emptying out meaning. What we have now is not just a raft of routine bad pictures but the first massively successful nihilistic cinema". Sobre o "frenesi permanente" não se fica por meias palavras: "Big movies are now full of needle-nosed flying pteranodons and cars on fire floating through the air (at a recent year-end critics meeting, one reviewer suggested an award to the "best shot of a couple holding hands as they run away from an exploding building")".

Face a isto, a minha sugestão - se me é permitido dá-la ao Sr. Antero - é que se passe agora da crítica ao crítico para uma crítica à crítica, uma a uma, em conjunto, como quiser, mas que fundamentalmente se abra o debate sobre os por quês da necessidade que o Sr. Antero e seus iguais sentem em defender a "estética dos conglomerados", ou o filme X ou o filme Y que entedia ou molesta este ou aquele crítico. Também me ficam algumas dúvidas sobre o que deve ser a crítica de cinema segundo o Sr. Antero. Eu posso avançar desde já com a minha posição: a crítica deve articular um pensamento, colocar-se numa posição não de subserviência aos gostos instituídos (pela indústria, pelos media) mas, desassombrada e prudentemente, de resistência a tudo o que é vendido como um produto acabado e indiscutível.

Da mesma maneira, acho, tal como o crítico Roger Leenhardt sugeria, que à crítica compete a função de dar ao espectador as ferramentas de que este precisa para aprender a ler o cinema directamente "no texto", ao invés de o "apanhar no ar" como "a tradução de uma língua estrangeira". Desmontar o subtexto ideologicamente minado de "The Dark Knight Rises" ou a estética demagógica da pobreza (aquela que, resumindo e concluindo, cheira de facto a merda) de "Slumdog Millionaire" passa, a meu ver, como um contributo importante, ou mesmo decisivo (até porque "a crítica" é uma ideia feminina...), para a formação não só de melhores espectadores como, acima de tudo, de uma sociedade civil mais esclarecida e criticamente activa.

No dia 1 de Agosto, vá para fora cá dentro


Anote isto: no dia 1 de Agosto, a distribuidora Lanterna de Pedra Filmes prepara-se para lançar nas salas portuguesas aquela que será, eventualmente (afinal, não vi todos os filmes que estrearam até agora), a primeira obra-prima de 2013: "The Innkeepers". Foram precisos dois anos de espera, mas cá está um acontecimento duplamente assinalável: estreia em Portugal o melhor filme de Ti West até agora e, pela primeira vez e muito simplesmente, um filme de um dos realizadores mais prodigiosos da actualidade. A minha análise ao filme data de Março de 2012, mas o meu entusiasmo em relação a este título está intacto, na realidade, revigora-se agora que sei que também o leitor poderá aderir a esta estada (na suspensão) do horror.

After Earth (2013) de M. Night Shyamalan


Há duas maneiras de ver "After Earth". Posso dizer que é um blockbuster multimilionário que serve de veículo ao pai e filho Smith (Will e Jaden, respectivamente). Posso também dizer que é uma louca tentativa de reduzir um blockbuster pipoqueiro a uma história caseira sobre a relação entre um pai e um filho, por sinal, interpretados pelo pai e pelo filho Smith. Não me parece, de modo algum, que esta visão alternativa do que é "After Earth" traia minimamente o risco associado a este projecto, risco esse que me parece evidente. É aqui que queria chegar quando falei das maneiras de "sair" deste filme, o "aftermath" do depois deste regresso à Terra... Na realidade, também podemos dizer que este é um filme "desmiolado" de aventuras e mais ou menos espampanantes efeitos especiais, mas o que resta no fim é o projecto de contar uma fábula moderna (ou primitiva?) sobre as dores do crescimento e o domínio do medo.

Ao contrário de boa parte dos blockbusters contemporâneos, mesmo alguns bem fabricados por um Spielberg, um Cameron ou (muito mais limitado) um JJ Abrams, aqui a dimensão íntima das personagens não é o "valor acrescentado" ao espectáculo sónico e visual, mas antes, bem pelo contrário, a matéria essencial que é trabalhada incessantemente, do primeiro ao último minuto, quase até ao paroxismo. Isto como se "After Earth" fosse um filme de ficção científica onde a acção é gerada por uma engenharia sentimental muito antes de ser induzida por uma bateria de efeitos CGI. O continente é aqui, nitidamente, o aparato tecnológico; o conteúdo são, por sua vez, as relações humanas. Ao aparato tecnológico é dado o papel que, por natureza (e usar a palavra natureza não é acidental), lhe é destinado: o de medium, tanto de ligação/aproximação como de corte/distanciação. 


Este é um dos pontos mais notáveis - e arriscados, de novo sublinho - deste filme: um problema de comunicação entre pai e filho, não excessivamente melodramatizado, que alimenta todo um monumental empreendimento hollywoodesco, de grande ou muito grande escala (afinal, o filme custou 130 milhões de dólares). Essa "falta" de comunicação é reparada por um processo dialéctico entre campo e contra-campo que, de novo para surpresa do espectador moderno, se potencia única e exclusivamente na mais antiga plataforma do cinema: a mise en scène, isto é, a posição relativa da personagem no seu meio e na relação com essa outra personagem, ubíqua, omnisciente e inevitável, chamada câmara de filmar.

Entre a câmara e a personagem normalmente vemos hologramas, gráficos, uma parede translúcida de informação que torna possível uma ligação transfísica entre um pai paralisado nas duas pernas e um filho que corre veloz, superando o seu medo de nunca vir a ser um Ranger, isto é, de nunca vir a merecer o amor e o orgulho do seu pai. Essa membrana de informação permite ao pai assistir (a)o filho, colocando o primeiro na pele do primeiro espectador de "After Earth" e o segundo na pele de primeiro realizador de "After Earth". O pai vê, assiste, orienta e orienta-se (a certa altura, deixa mesmo de poder contactar com o filho, ficando assim entregue à sua condição passiva, já não só física como virtual). O filho regista a sua aventura, qual travelogue frenético, rodado na primeira pessoa, sobre esse planeta estranho chamado... Terra. 

A viagem mapeada (pelo pai) é efectivada pelo corpo-câmara (do filho), num jogo simbiótico entre campo e contra-campo. A comunicação entre os dois é uma comunicação com um ausente e todo o filme será uma construção de algo "na ausência de". Citar Oudart e a figura psicanalítica da "sutura" não seria despropositado se pensarmos que todo este filme sobre a comunicação entre pai e filho, que não existia "antes" e, atenção, não fica claro que exista "depois"..., é todo ele fabricado por uma distância: aquela que todos os media, começando nas telecomunicação e acabando no cinema, produzem nas relações sócio-afectivas entre humanos. Ao espectador cabe "reparar" a falha e, numa montagem alternada absolutamente clássica/griffithiana, saber entrelaçar os fios desta história, tão simultaneamente básica (imediata) como complexa (mediata). 


A ideia de que a criança precisa de sair da redoma é, num primeiro nível, o típico obstáculo shyamaliano que o protagonista, perseguido por um evento traumático, tem de superar para despertar em si o dom que lhe está ou deve estar reservado. Mel Gibson em "Signs" precisa de superar o trauma da morte da mulher para poder reactivar a sua fé em Deus (o seu dom), tal como Paul Giamatti  em "Lady in the Water" precisa de "tirar do peito" a dor imensa que sente pela morte da sua família para (re)activar a crença no mundo e na vida (o seu dom é essa crença, essa capacidade de "acreditar"). O que se passa em "After Earth" é quase uma reconfiguração abstracta desta ideia de dom, porque o nosso herói precisa de ultrapassar o trauma da morte da irmã, reconquistando a confiança, o amor e o orgulho do seu pai, para, enfim, ver em si despertada a capacidade de... desaparecer (ghosting). 

Este desejo, melhor dizendo, esta "ambição" de desaparecer que move o filho significa, num primeiro nível, tornar-se invisível aos olhos dos monstros alienígenas, Ursa, que o seu pai combate galhardamente. Num segundo nível - há níveis aqui, de facto, quase como um videojogo estilístico e... moral - , ele eventualmente deseja tornar-se invísivel (um "fantasma") para se reencontrar com a irmã (e parte do desejo se cumprirá numa sequência pejada de duplos sentidos semânticos) e, também ou acima de tudo, para se aproximar do pai. Como o filho "deixa escapar" a certa altura, o pai é um "cobarde" porque nunca "esteve lá". O pai foi, é e poderá continuar a ser - o happy ending não é definitivo nisto - também ele um ghost, não só invisível às criaturas mas, acima de tudo, intangível (= um ecrã) para a sua família. Ver e tocar: o pai assiste à vida, o filho implica-se, embrenha-se, envolve-se, toca e deixa-se tocar por ela. O verdadeiro aventureiro - o verdadeiro "herói", apetece dizer - é o filho, não por ter conseguido "desaparecer" no fim e matar o monstro, mas por ter estado onde o pai nunca esteve: junto de quem ama.

O Ricardo Vieira Lisboa é bastante perspicaz a isolar um momento no filme, que me parece resumir quase tudo o que escrevi até agora. Num dos flashbacks - como "Signs" ou "The Last Airbender", "After Earth" é, para além de um montagem alternada "no presente", um encadeado de remissões ao passado - o pai festeja os anos da filha através de uma ligação online, à distância, enquanto viaja para mais um local de combate. No ecrã do seu Ipad pós-terráqueo, gadget curiosamente de forma e textura orgânicas - como é, aliás, todo o décor futurista do interior das naves -, a personagem de Will Smith assiste, qual espectador passivo, ao típico ritual em torno do bolo de anos. Quando mulher e filha o convencem a soprar as velas, o incrédulo e atrapalhado pai sopra para o ecrã. E, milagre!, as velas apagam-se. Milagre? Nem tanto: do fora de campo, nas costas da câmara, sai o filho como que apanhando em falso o pai ausente, que, talvez por segundos, acreditara ter milagrosamente "activado" a sua participação no quadro familiar. Aqui temos, num curto episódio, uma exploração altamente imaginativa do fora de campo e do campo/contra-campo, dois velhos recursos fílmicos usados como símbolos da ausência insanável de um homem entre aqueles que ama e entre aqueles que o amam.


"After Earth" não se fica por aqui nos seus jogos mais ou menos subtis (por vezes, básicos, por vezes, desinspirados, por vezes, ágeis, por vezes, tocantes) com o vector espaço-tempo, um vector altamente mediatizado ou, pelo menos, sempre mais mediato que imediato (salvo talvez no abraço final). O "after" do título é todo um outro programa que torna esta fábula íntima sobre a paternidade e o crescimento, sobre o medo que os envolve, num dos poucos filmes futuristas genuinamente primitivos da história do cinema - algo próximo só encontro em "Planet of the Apes" e, genialmente, em "Ghosts of Mars". O "futuro" que aqui se põe em cena é um "futuro" que nos leva mais para trás do que para a frente: quanto mais a viagem se aprofunda, mais aquela terra nos parece com... a nossa Terra (afinal, os macacos e os tigres não são metamorfoseados em criaturas tenebrosas, como acontece em "Lady in the Water"; são apenas macacos e tigres!). 

A ideia primitiva de mapa funde-se, a certa altura, com um "remake" do traço da pintura rupestre (o mesmo traço que abre "Lady in the Water", por sinal...), como se, de repente, estes dois espécimes humanos "do futuro" mais não estivessem que a recomeçar a História numa Terra renascida das cinzas da incúria e dos abusos humanos cometidos no passado. Este overlapping transhistórico entre o passado e o futuro (o pai chega a afirmar que ter medo é "ter receio do futuro") será a primeira reconciliação, a primeira ligação significativa antes do abraço final "não mediado", convergência táctil "patética", entre pai e filho. "After Earth" não fala de super-heróis (aliás, o heroísmo é aqui terrivelmente terreno), não se verga ao CGI e aos enredos de apenas "supostas" densidades psicológicas de um Nolan. O que importa em "After Earth" é o traçar um arco sentimental, que, pondo em diálogo passado e presente, permita ao espectador - este filme é dele, como já ficou claro! - construir a narrativa dessa ponte desfeita que liga um pai ausente a um filho "emotivo". História universal, quer dizer, intemporal e, porque ainda estamos "after earth", definitivamente interritorial.  

(Convido o Ricardo Vieira Lisboa a publicar - aqui ou no seu blogue - o seu mosaico de imagens, engenharia "sentimental" que põe, lado a lado, "Bigger Than Life" de Nicholas Ray e este "After Earth". Iluminar-nos-ia bons e ousados caminhos, se o fizesse.)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Newsletter #23: Fassbinder


O enfant terrible-mor do novo cinema alemão será o herói de Julho da Newsletter do CINEdrio. Circulando permanentemente entre uma visão nostálgica do cinema (devedora, acima de tudo, de um Douglas Sirk) e uma atitude de insurreição contra a instituição cinematográfica (o cinema, essa "puta sagrada"), Rainer Werner Fassbinder é provavelmente o cineasta estetica e politicamente mais complexo (e, por vezes, complicado) da história do cinema moderno. A ele dedicaremos linhas que tentam expor a contradição que enforma a sua arte, sem negarmos, portanto, que nela residirá boa parte da energia convulsa que alimentou a alma deste ser hiperactivo, que produziu, realizou e, a espaços, chegou a protagonizar ao todo mais de quatro dezenas de filmes, telefilmes e mini-séries, tal como escreveu e encenou outras tantas peças de teatro. E morreu jovem, com apenas 37 anos.

Para além de Fassbinder, o subscritor da Newsletter receberá boas novas do mercado home cinema, tais como uma muito aplaudida edição de filmes da fase Bergman de Rossellini, duas das obra-primas maiores de Sirk em Blu-ray (qualquer uma delas não teria sido indiferente a um Fassbinder...), uma caixa com (quase) todo o Mike Leigh a preço de promoção, os mais recentes pré-lançamentos de obras de Satyajit Ray (parece uma loucura nestes dois últimos meses!), a descoberta do cinema experimental de Curtis Harrington, Cottafavi a preço de saldo, uma edição de luxo de "Heaven's Gate" de Cimino, etc.

Quanto a livros, posso levantar o véu dos nomes que seguramente farão parte deste número da Newsletter: Jacques Rancière, J. Hoberman, Hollis Frampton, Noel Carroll, Alain Badiou, Hugo Munsterberg, etc.

Ao nosso inquérito, respondeu-nos Eduardo Cintra Torres, crítico e estudioso do fenómeno televisivo que publicou recentemente o livro A Multidão e a Televisão.



Ligação directa à pala de Walsh (XI)


O "pluralismo estético" esteve na ordem do dia. Na sua feição mais vulgar, talvez, com o filme falado "Masters of the Universe" - dos momentos mais divertidos de toda este, prestes a ser celebrado, primeiro ano de vida do site. Igualmente plural, no sentido "esquisito do termo", tentei eu próprio ser na minha análise à raridade "Qui êtes-vous, Polly Maggoo?" de William Klein.

Voltámo-nos a embrigar com "pluralismo estético" nas Actualidades do mês de Junho, mais uma crónica noticiosa feita com recurso ao cin... perdão, à realidade. Também foi em Junho que publicámos a primeira parte da entrevista mediaticamente incondicionada, realizada por mim e pela Sabrina Marques, a Eduardo Geada. Foi uma longa conversa feita em profundidade ao Geada cineasta, ao Geada professor e, sobretudo, ao Geada crítico e teórico. (A parte II está quase aí a sair.)

A minha crónica Civic TV foi dedicada à análise do filme de terror "The Changeling", que passou recentemente - e continua a passar, parece-me - no canal Syfy. Aproveitei a oportunidade - a que o tema do terror me deu - para começar por abordar a notícia da aparente suspensão do "5 Noites, 5 Filmes" na programação da RTP2. Em poucos meses, passou à história a rubrica que, cito, "já fazia parte da história do canal". De facto, sem memória, não há história, tal como "sem cinema, não há RTP2". Espero que os actuais programadores percebam rapidamente isto.

Colaborei ainda para a habitual Sopa de Planos. Desta feita, sob o tema "split screen", a minha escolha recaiu sobre um dos meus universos cinematográficos de eleição - e que tão bem faz raccord com uma das estreias mais quentes desta semana.

Fora os meus contributos, quero destacar a chegada de um novo colaborador: Francisco Noronha, do blogue Bósforo. O seu primeiro texto, redigido à pala de Walsh, recupera uma das obras-primas menos lembradas de Fassbinder: "Martha". Um bem-haja à sua vinda!

Quero ainda deixar uma palavra de grande apreço ao trabalho que o José Bértolo desenvolveu ao longo do ano no seu espaço Simulacros. A sua última crónica fecha, com chave de ouro, um esforço crítico e arqueológico de questionamento do lado mais íntimo e secreto das imagens. Esperemos que seja apenas um "até já".

Com o mês de Julho a andar sobre rodas, recomendo que vão acompanhando aqui a cobertura de João Araújo ao Curtas Vila do Conde '13.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Terrorismo burlesco (= terrorismo não-simbólico)

"Le testament du Docteur Cordelier" (1959) de Jean Renoir

"Tokyo!: Merde" (2008) de Leos Carax

(E se calhar o Mr. Merde é isso: um Mr. Hyde/Opale já sem Dr. Jekyll/Cordelier, isto é, o primeiro Dr. Jekyll/Cordelier pós-moderno.)

sábado, 6 de julho de 2013

After Earth depois da próxima quinta-feira


O muito antecipado, aqui, novo filme de Shyamalan estreia na próxima semana ("de mãos dadas" com o último De Palma!). Será nessa altura que tenatarei deixar aqui umas linhas sobre a justiça ou injustiça que envolve a sua recepção crítica e popular ou, no limite, popularmente crítica nos Estados Unidos. Até artigos a sugerir uma mudança de rumo, virada para a produção independente "de autor", foram escrevinhados, disfarçando mal o embaraço que este filme constituiu e constitui para a grande fábrica Hollywood. Espero para ver.

domingo, 30 de junho de 2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Já está disponível a versão pública da Newsletter #22!

(Para consultar a versão pública da Newsletter #22, clique na imagem.)

Uma edição especialmente rica, que sofreu ainda assim contratempos que nos foram alheios (atrasos nos CTT que prejudicaram a sua realização atempadamente), o número 22 da Newsletter do CINEdrio, dedicado ao cineasta norte-americano Don Siegel, foi possível graças, entre outros apoios, às editoras Lusomundo e Columbia University Press. Da colaboração resultaram os destaques feitos ao magnífico "O Gebo e a Sombra" e a "The Cinema of Béla Tarr: The Circle Closes" de András Bálint Kovács. Excepcionalmente, abrimos nesta amostra acesso ao arquivo onde estão, na íntegra, as 21 Newsletters anteriores.

Quero agradecer ainda ao Francisco Valente, não só por ter respondido ao nosso inquérito, mas por ter respondido como respondeu, isto é, indo muito além da mera citação de títulos "a adquirir", envolvendo, enfim, o leitor na descoberta das obras recomendadas. E eu, enquanto leitor, fiquei muito curioso com algumas das suas sugestões.



sexta-feira, 14 de junho de 2013

Recorte de falas (XXIX): The Lineup

Em "The Lineup" (1958), Julian explica ao noviço no mundo da mafia e do tráfico de droga quem é o homem mais conhecido por "The Dancer", assassino a soldo que anda de porta em porta a "recolher" droga escondida na bagagem de gente anónima, a proverbialmente denominada "innocent people". Não há nenhum soft side - nota de humanidade ou, dizendo de outro modo, "possibilidade de redenção" - por trás da ira incandescente de Eli Wallach, o actor que dá corpo mas sobretudo que dá olhos - e como faíscam ferozmente aqui! - a este brutal cobrador de vidas. O sue hábito é matar, a sua energia diabólica vem do ódio que sente por quem se lhe atravessa à frente, seja este inocente ou culpado, bom ou mau, amigo ou inimigo. "The Big H". Num comentário áudio delicioso, o escritor James Ellroy diz que esse teria sido, para si, o melhor título alternativo possível a dar a este "hell of a movie" de Don Siegel.

Julian: Dancer is an addict, an addict with a real big habit.
Sandy McLain: 'H' like in heroin, uh?
Julian: 'H' like in hate.

domingo, 9 de junho de 2013

sábado, 8 de junho de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (X)


O dossier Walsh é, obviamente, o prato forte do mês passado à pala do dito. De qualquer modo, a actividade "normal" do site não parou. Prova disso, mesmo que associado ao nosso dossier, é o filme falado do mês: a obra-prima "Gentleman Jim" de... sim, Raoul Walsh. Apesar de ser uma conversa descontraída e espontânea, trata-se, quanto a mim, de um dos pedaços mais valiosos - e, por isso, integrantes - desta colecção de reflexões walshianas.

Dos meus textos pessoais, destaco a análise, ainda fresca, a "M" de Joseph Losey, que me deu muito mais trabalho que o texto que redigi - e que os leitores do CINEdrio bem conhecem - a propósito do maravilhoso "Before Midnight". O filme de Linklater marca um ponto alto do ano cinematográfico, mais um boy meets girl (depois de Brisseau e Hong Sang-soo) que eleva a qualidade média - muito baixa - de 2013. Ainda mais fresca é a minha crónica Civic TV, sobre Brisseau e um "ousado" ciclo de cinema do Correio da Manhã TV.

Colaborei ainda nos proverbiais artigos colectivos do contra-campo: sopa de planos sobre "a visão de Deus" e as actualidades do mês de Maio.

Queria destacar ainda a estreia de um novo colaborador (e revisor de serviço): Pedro Jordão, do belíssimo blogue The Heart is a Lonely Hunter. A sua primeira "ligação acidental" está já online e é assombrosa.

O mês de Junho terá edição partilhada entre mim e o João Lameira. Agora regressados à nossa actividade "normal", não deixaremos de prometer diversidade nos filmes escolhidos e qualidade nos olhares que neles se activam.

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