quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Viva a Cinemateca!
No texto "Clarificação e rápida resolução da actual situação da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema", que eu subscrevi, pode-se ler a certa altura:
Reivindicamos, enquanto utentes da instituição, enquanto contribuintes e cidadãos do Estado português, que as partes (direcção e tutela) se reúnam e que desse encontro resulte um documento, cujas linhas principais sejam tornadas públicas, onde conste um rigoroso compromisso com soluções de longo prazo. É mister que este conjunto de medidas assegure a resolução das várias insuficiências – materiais, financeiras, estruturais e/ou políticas – que têm, cumulativamente, perturbado e comprometido o funcionamento da casa-mãe do cinema.
A reivindicação é simples e directa. Nada justifica o jogo do telefone estragado que há demasiado tempo se tem desenrolado entre a direcção da Cinemateca e a tutela - e destas duas com a opinião pública. É tempo da sociedade civil chamar as partes à sua responsabilidade e provocar uma resolução imediata e sustentada de todos os problemas que minam a credibilidade do nosso Museu do Cinema.
Adenda (do dia 23 de Agosto): transcrevo abaixo o comentário deixado pelo Samuel Andrade, do blogue Keyzer Soze's Place, no supracitado artigo do À pala de Walsh. Um comentário que me parece muito significativo.
Confesso-me bastante perturbado com as notícias recentes sobre uma eventual impossibilidade, por motivos financeiros, de reabertura da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. No entanto, e como fã inveterado de todos os quadrantes da actividade da Cinemateca, também não posso deixar de manifestar desagrado pela natureza da reacção, ou ausência da mesma, a essa perspectiva.
Com todo o respeito pelo cariz público da instituição e dos seus representantes, sinto-me na obrigação de frisar que temos — e não é só de agora… — apenas assistido, por parte dos responsáveis da Cinemateca, ao mero anúncio da “catástrofe iminente” e posterior cruzar de braços, numa atitude de quem espera que sejam “os outros” a resolver os problemas presentes.
Há muito que deveriam ter sido encontradas fontes alternativas de financiamento. Há muito que se exige um comportamento substancialmente mais proactivo por parte de quem gere a instituição. Há muito que a Cinemateca deveria ter aberto as suas portas à comunidade que a rodeia, numa efectiva demonstração de adaptação e capacidade de atracção pública, social e financeira à prova de qualquer “tumulto” ou negligência de ordem política.
E a rápida resolução da actual situação da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema tem de passar, portanto, pela obrigatória e radical remodelação do seu modelo humano, estratégico(?) e organizativo presentemente em vigor.
Adenda (do dia 24 de Agosto): acabo de assinar uma petição pública dirigida à Assembleia da República que pretende "promover o debate urgente deste assunto, visando as iniciativas legislativas e políticas necessárias para garantir o funcionamento e evitar o encerramento da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, protegendo, desta feita, grande parte da memória de todos nós, que é um enorme pedaço de Portugal, em risco de se perder para sempre".
A iniciativa é louvável, mas a sua formulação incompleta, já que, como se percebeu, a Cinemateca irá reabrir, mas a sua reabertura poderá não querer dizer que os problemas que a têm afligido tenham sido resolvidos ou que o seu encerramento não esteja simplesmente a ser adiado. Esta petição poderia ser mais útil se procurasse abrir a discussão acerca de um novo modelo de gestão assente em compromissos claros mutuamente acordados entre tutela e direcção, que dêem garantias aos utentes de que a Cinemateca não vai continuar a ser vítima deste processo de rápida e aparentemente inevitável degenerescência.
Adenda (do dia 29 de Agosto): apelo a todos que marquem presença na "Concentração contra o encerramento da Cinemateca Portuguesa". A iniciativa é boa, dará visibilidade pública (e esperemos que também mediática) à presente situação da instituição. Penso que seria de bom tom que, durante esta concentração, a direcção fizesse como no passado protesto e tomasse a palavra para, primeiro, actualizar os níveis de alarme provocados há uma semana e, segundo, sensibilizar os presentes para todas as insuficiências que precisam de ser superadas para que a Cinemateca não só assegure a estabilidade no funcionamento como a qualidade programática e aptidão museológica de todos os seus serviços.
Adenda (do dia 1 de Setembro): a concentração da passada sexta-feira deu para comprovar várias coisas que tenho aqui escrito e descrito. Primeiro, a Cinemateca, tal como anunciou a directora Maria João Seixas e o subdirector José Manuel Costa, irá reabrir já amanhã- o programa, aliás, pode ser consultado aqui. Segundo, a solução encontrada com a tutela é meramente provisória ou, pior adjectivação é impossível, "excepcional". Isto é, o dinheiro que foi desbloqueado para assegurar a manutenção dos serviços da Cinemateca e ANIM cobrirá, de modo excepcional (!), o período que vai de Setembro a Dezembro deste ano. Findo este remendo mal amanhado, a Cinemateca regressa à estaca zero e, nessa altura, os protestos serão, certamente, menos intensos - todos nós conhecemos a história do Pedro e do Lobo... Terceiro, confirma-se que a verdadeira luta não se deve ficar apenas pela abertura ou não desta que é não só a nossa única Cinemateca como é, inquestionavelmente, uma Cinemateca única no panorama internacional.
O funcionamento de uma instituição como esta não pode ser susceptível de discussão, o que é susceptível de discussão - e indignação! - é a forma como a nossa Cinemateca está a ser tratada, rasando neste momento a mais inconcebível indignidade. Posto isto, a sociedade civil tem como missão assegurar um debate sério e objectivo sobre a sustentabilidade desta instituição. Para tal, as duas partes (direcção e tutela) terão de se sentar à mesma mesa e, com total clareza e transparência, REPENSAR o modelo de financiamento e a própria orgânica de poder da Cinemateca/ANIM. É urgente que tal aconteça, visto que o poder político - de novo, muito à la Griffith - fixou Dezembro como o novo deadline, uma "linha de morte" que poderá, desta feita, ser traçada pela última vez.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Cinemateca Portuguesa: a derradeira queda da casa-mãe do cinema?
A Cinemateca Portuguesa, adianta o jornal Público de hoje, poderá não reabrir portas em Setembro. A sua directora fala de uma situação aflitiva e insustentável. Diz que avisou atempadamente o secretário de Estado da situação e que, apesar de todo o seu empenho, este não conseguiu "buscar dinheiro" das Finanças. Face ao derradeiro golpe na dignidade da instituição, que poderá deixar de poder assegurar o pagamento da electricidade e, com isso, não só encerrar portas como comprometer todo o espólio cinematográfico nacional armazenado no ANIM, a directora declara: "Acredito que tudo se pode ainda resolver, mas este momento é de grande aflição.”
A política da Cinemateca tem-se baseado nesta crença numa solução salvífica de última hora à la Griffith, fazendo figas para que no mês seguinte o miraculoso Deus ex machina venha não impedir mas, já só e apenas, adiar a catástrofe. Escrevi sobre tudo isto em três posts que podem ser consultados aqui, sendo que o primeiro, que prenuncia o terrível fim da Cinemateca, data de 2011. Passaram quase 3 anos e continuadamente assistimos nos media a uma Cinemateca no fio da navalha, sempre à beira de uma catástrofe que se sente mas sobre a qual se "acredita" que não poderá vir. Os problemas acumulam-se, nenhum é resolvido, tudo desliza para o abismo... mas "acredita-se", ainda assim, que tal não venha a acontecer. A sensação que fica é a de que se agora a electricidade for desligada parcialmente na Cinemateca para salvar o ANIM, essa medida será encarada como a salvação possível e desse remendo rapidamente passaremos para a sua permanência futura sem solução à vista, sustentada apenas por essa crença vaga de que tudo ficará bem no fim: quiçá uma Cinemateca sem filmes e pessoas, mas (ainda assim!) limpa e com casas de banho funcionais.
A política directiva da Cinemateca está reduzida a um modo de sobrevivência, a um pronto socorro sem horizontes ou, enfim, a um exercício de fé inconsequente. Dois executivos passaram - e neste último vamos no segundo secretário de Estado da Cultura -, manifestações públicas foram organizadas, artigos de opinião já foram redigidos, um mês dedicado à situação da Cinemateca ("Foco no Arquivo" = "Fogo no Arquivo", como leu e bem Margarida Gil) já foi posto em marcha e graças a ele poucas são as altas personalidades da comunidade de profissionais do cinema que não estão mais do que conscientes de todos os problemas que, ontem como hoje, põem em risco o futuro da Cinemateca. Tudo isto já foi feito, mas politicamente o resultado é quase nulo. A direcção tentou, timidamente dirão algumas vozes, mas tentou denunciar a sua própria impotência.
O que resta hoje é a crença de que essa impotência poderá estar ou vir a estar na origem do fim da instituição tal como a conhecemos ou do seu fim ponto final. Face a isto, ou se repensa de uma vez por todas - se for caso disso, para lá da presente direcção - a política de sustentabilidade, os canais de comunicação com a tutela e a própria orgânica interna de uma instituição com a complexidade da Cinemateca ou o filme continuará rápida e previsivelmente a aproximar-se da mensagem final que ninguém quer ler: "The End".
Adenda (hoje, dia 21 de Agosto): era preciso alarmar toda a gente para numa rápida troca de mails termos esta reacção? A direcção da Cinemateca não fala com a secretaria de Estado? O que está a falhar aqui? Acho que não está a ser feito tudo em defesa desta grande instituição.
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
O 'específico' do cinema é a escala/a sala
Ingmar Bergman, "Persona" (1966)
Un acteur de théâtre, c'est une petite tête dans une grande salle; un acteur de cinéma, une grande tête dans une petite salle.
André Malraux, Esquisse d'une psychologie du cinéma (1939), Paris, Nouveau Monde Éditions, 2003, pp. 53-56
Jean-Luc Godard, "Les carabiniers" (1963)
In concert with Godard on this topic, Chris Marker is alleged to have said, "It's not a movie unless the people on the screen are larger than those who watch it."
Dudley Andrew, What Cinema is, Chicester, Wiley-Blackwell, 2010, p. 74
Quando pensamos no cinema… o cinema não tem original, o original é o negativo, mas o negativo não é o que o espectador vê, o que vemos é uma cópia – até lhes chamamos cópia. Portanto, o cinema é, de todas as artes, e o Benjamin já assinala esse paradoxo no texto dele, a única que não tem original. Mas há uma coisa que é original no cinema: a sala.
Eduardo Geada, entrevista À pala de Walsh, 2013, leitura aqui
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Recorte de falas (XXX): Nights and Weekends
Nesta passagem de "Nights and Weekends" (2008), pequeno filme independente sobre as agruras do amor à distância, somos levados a reconsiderar o velho cliché da "beleza interior". James, interpretado pelo realizador do filme, Joe Swanberg, tem uma conversa solta, "sem guião", com a namorada, Mattie, interpretada pela belíssima Greta Gerwig, que co-dirige o filme. A intimidade desta cena é extensível a todo o filme: fragmento que põe a nu a relação entre duas existências (duas personagens) e entre dois corpos (duas personagens encarnadas, sem filtros, por dois actores). Ao contrário da maioria de um certo cinema indie norte-americano, Swanberg e Gerwig sabem gerir a palavra sempre em benefício de uma comunicação rosto-contra-rosto, próxima de um Cassavetes. Apesar disso, aqui está um dos poucos momentos verbalmente "lapidares", onde o que se expõe é não a demagógica exaltação das mais-valias psicológicas de cada um, mas a capacidade do protagonista para criar a sua própria "beleza interior". É ela que permite a James esquecer-se de si (do seu corpo) e resistir ao estranhamento da sociedade, ao estranhamento do mundo.
James: I think I always had a mental image of myself that's not associated with the way I actually look.
Mattie: Oh, I know what you mean.
James: Like I forget myself. I forget my actual face and I think that in my head I project some kind of confident, handsome face. And then occasionally I see myself and go "oh my god, this is what you look like? That's pathetic!". But then I don't need to worry about it, because I have a mental handsome projection that gives me confidence in the world.
James: I think I always had a mental image of myself that's not associated with the way I actually look.
Mattie: Oh, I know what you mean.
James: Like I forget myself. I forget my actual face and I think that in my head I project some kind of confident, handsome face. And then occasionally I see myself and go "oh my god, this is what you look like? That's pathetic!". But then I don't need to worry about it, because I have a mental handsome projection that gives me confidence in the world.
O muito necessário elogio ao pior cinema
Joe Dante, "Matinee" (1993)
In paying my respects to James Agee, I noted that in any film, however unpromising, some moment of interest, even beauty, is likely to appear.
Stanley Cavell, The World Viewed (1971), Cambridge, Harvard University Press, 1979, p. 104
«O pior cinema continua, apesar de tudo, a ser cinema, isto é , qualquer coisa de comovente e de indefinível»
J.F. Laglenne apud Edgar Morin, O Cinema ou o Homem Imaginário (1956), Lisboa, Relógio D'Água, 1997, p. 26
Stanley Cavell, The World Viewed (1971), Cambridge, Harvard University Press, 1979, p. 104
«O pior cinema continua, apesar de tudo, a ser cinema, isto é , qualquer coisa de comovente e de indefinível»
J.F. Laglenne apud Edgar Morin, O Cinema ou o Homem Imaginário (1956), Lisboa, Relógio D'Água, 1997, p. 26
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Ligação directa à pala de Walsh (XII)
Foi o mês da grande celebração: o À pala de Walsh fez um ano, ao fim de mais de três centenas de artigos. Cobrimos praticamente todos os nossos objectivos e, em certa medida, a adesão superou as nossas melhores expectativas. Estamos muito gratos a todos os leitores, os presentes e, aproveito já, os futuros. Incentivo os leitores do CINEdrio a aderirem à página Facebook do À pala de Walsh. O trabalho que se desenvolveu ao longo do ano também passou pela rede social mais popular do momento, com divulgações diárias não só dos artigos produzidos mas também de sessões especiais por todo o país, em cine-clubes, faculdades, pequenas salas espalhadas por todo o país.
Para celebrarmos o primeiro ano, produzimos um post especial com cine-ensaios inspirados neste ano de trabalhos. Dos resultados, faço o destaque especial aqui de um vídeo que já anda aí a circular pela Internet e que é uma prodigiosa reflexão audio/visual sobre o gesto e o olhar em Raoul Walsh. "Whiskey com Leite" de Ricardo Vieira Lisboa é o grande filme de 2013 que estreou directamente no YouTube. Vejam, comentem e partilhem.
No passado mês de Julho, fiz a minha crónica Civic TV andar à volta do filme de terror, que tem passado no canal Syfy, "The Changeling". A título individual, apenas produzi mais o já aqui divulgado texto de balanço geral da minha experiência na Polónia, que poderá ler ou reler através deste link. Nos habituais posts colectivos, fizemos da pausa e da espera - aquela que domina este mês de descanso no À pala de Walsh - ingredientes para uma inspirada Sopa de Planos e, seguindo a votação dos leitores no Facebook, pusemos em fala o magnífico melodrama cómico ou comédia melodramática ou comédia/melodrama "Una donna ha ucciso" de Vittorio Cottafavi.
Neste mês de Agosto, fazemos a tal pausa, mas, atenção!, não ficaremos totalmente fora de campo. Alguns posts irão sair ao longo do mês e, em Setembro, como é evidente, estaremos de regresso e com entusiasmo redobrado. O editor, neste período, será o cine-ensaísta Ricardo Vieira Lisboa.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Lista cinéfila, um 'exercício benéfico' de Serge Daney
Deleitando-me com as notas soltas que Serge Daney deixou ao mundo antes de partir precocemente em 1992, dei de caras com uma pequena lista (deixada muito incompleta) que exercita uma classificação sui generis de filmes, quase em modo íntimo, autobiográfico ou confessional. A arte de fazer listas, como sabemos, é uma mania do bom cinéfilo, por isso, dada a originalidade desta, quis partilhar com os leitores, como "refresco de Verão", as seguintes três páginas de "L'exercice a été profitable, Monsieur", obra que poderão encomendar aqui ou (mais barato, para nós, portugueses) aqui, sendo que o stock deste livro editado em 1993 é, hoje, compreensivelmente limitado.
(Por favor, clique nas imagens para ler melhor)
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
O CINEdrio na Polónia: the aftermath
segunda-feira, 29 de julho de 2013
L'inconnu du lac (2013) de Alain Guiraudie
"L'inconnu du lac" é, mais até que o já analisado "Floating Skyscrapers", uma história sobre a homossexualidade como sinónimo não de amor, mas de puro ímpeto sexual. A acção situa-nos numa praia de nudistas perto de uma floresta, onde, entre a vegetação densa, homens de todas as idades se encontram para praticar sexo "sem compromisso". Como acontece com o filme polaco, o que há de mais interessante aqui não é a relação homossexual entre o jovem protagonista e o misterioso homem de bigode, mas antes a relação de amizade (ou será mais que isso?) que se estabelece entre esse jovem e um senhor, de corpo inchado, que todos os dias vai à praia não para ter sexo, mas simplesmente para passar o tempo - e "reflectir", como avança. Ele é (um) estranho, como diz a certa altura o homem misterioso. E é-o porque, precisamente, não age de acordo com os rituais daquela sociedade: para além de não sair da praia, raras vezes tira a t-shirt e nunca vai à água. Se outros verão nele uma "ameaça", o rapaz encontrará nele uma espécie de confidente, um confidente também casual mas que lhe dá afabilidade e uma espécie de "palavra fraterna" em vez de sexo ou oportunidades de voyeurismo ob-sceno.
Ao invés de investir mais nesta relação "fronteiriça", entre o mar e a floresta, Guiraudie prefere insistir em cenas de sexo que alternam entre um lirísmo piroso, com corpos filmados em contra-luz, como que recortados num céu de fim de tarde, e uma bruteza pornográfica "in your face", como o grande plano do pénis a ejacular. Das cenas passadas na floresta, a meu ver, apenas numa, de facto, o realizador francês consegue algo mais que apenas a mera ilustração soft porn deste romance gay "de catálogo".
O casal do filme conversa nu, cercado pela vegetação densa, numa cena de intimidade e não de sexo exibicionista… quer dizer, isso julgávamos nós até ao momento em que no diálogo em clássico campo/contra-campo irrompe, em off, uma terceira personagem. Um dos elementos do casal interrompe a conversa "íntima", "privada", para pedir ao voyeur que pare de espreitar. Aí Guiraudie quebra o momento, faz implodir o seu intimismo, qualquer possibilidade de privacidade, e mostra-nos o homem que se masturba "em cima" daquela cena. Em certo sentido, quando o casal afasta o terceiro elemento, ele está a dirigir-se a um fora de campo que permanentemente os vê e os expõe. Esse fora de campo pertence, por inteiro, ao espectador, esse voyeur pervertido que come com o olhar as "imagens dos outros".
Fora a demagogia do sexo, o auto-comprazimento pela provocação "queer" - por que será que a formação da identidade homossexual parece requerer constantemente o recurso a um básico efeito choque? -, este filme oferece-nos uma reflexão interessante sobre quão relativas podem ser as regras em comunidade, ao ponto do espectador se sentir "posto em causa" por essa súbita condenação "moral" daquilo que, no início, era a principal fonte da libido: o poder ejaculador do olhar. Não haja dúvidas de que "L'inconnu du lac" só supera a mediocridade quando se vira para nós, espectadores, e nos implica não pelo sexo mas precisamente pela sua ausência, pela confusão entre o que pertence ao domínio da privacidade e aquilo que pode ser "objectificado" pelo olhar alheio, em público. Pergunta: seria possível realizar esta história sem as cenas de sexo explícito?
Plynace wiezowce (2013) de Tomasz Wasilewski
História de um triângulo amoroso que tem no centro a definição ou indefinição da inclinação sexual do seu protagonista. Entre ele e a sua namorada tal como entre ele e um rapaz por que se apaixonou está a mãe, com quem tem uma relação tão estreita que durante alguns minutos o espectador pensará naquele homem e naquela mulher como um casal que vive na mesma casa. Sem dúvida que este elemento é o mais interessante de todo o filme, mas rapidamente ele é colocado em segundo (ou até terceiro) plano por causa desse já bastante cansativo retrato do homossexual reprimido que quer sair do armário, mas...
Com uma intriga esquemática, que parece saída de uma telenovela (por sinal, este realizador trabalha, a tempo inteiro, para a televisão polaca), "Floating Skyscrapers" é um "queer movie" onde o sexo e as relações pessoais parecem pertencer a uma retórica pré-formatada (cada vez mais gasta, por estes dias de euforia gay tornada "género fílmico") que, por si só, não justifica a realização deste filme.
Noche (2013) de Leonardo Brzezicki
Na senda de Lisandro Alonso e Carlos Reygadas, Leonardo Brzezicki encontra na Natureza espaço de meditação (e experimentação) sobre as estruturas da linguagem fílmica. Todavia, se Lisandro trabalha a linearidade, o percurso no espaço (o todo), a solidão do homem (o ponto), se Reygadas gosta das elipses especulativas, da distorção de imagens arrancadas do coração da Natureza, Leonardo vai-se aproximar deste último - não tanto do seu compatriota, portanto - para produzir um ensaio sobre o som no cinema, como uma espécie de potência adormecida que vive na sombra da e que assombra a floresta.
Decalcando a papel vegetal os travellings levitantes de Tarkovski, explorando a dimensão mítica da paisagem natural próxima de Reygadas e Apichatpong, mas também convocando os demónios (as catástrofes!) da Natureza e da natureza humana, como faz um Lars von Trier em "Antichrist" ou "Melancholia", "Noche" procura dar um passo em frente através da montagem e do design de som. Da montagem, consegue-o notavelmente em sobreimpressões impressionantes que tornam indistinguível, à primeira vista, o ponto de união/separação entre imagens. Do som, o grande protagonista neste filme, não produz resultados mais interessantes que um Apichatpong.
Ao mesmo tempo, encontro aqui alguns dos problemas que detecto, por exemplo, em "Post Tenebras Lux": o lado elíptico "com água no bico", o transcendentalismo/universalismo enigmático e auto-referencial, a indiferença pelas personagens e o gosto (ideológico) pela exaltação naturalista dos corpos, da violência e do sexo (= o mundo originário...). Eis uma primeira obra que é mais um sintoma gasto do cinema contemporâneo do que uma (pretendida) actualização desta metafísica do e pelo primitivo.
Centro Histórico (2012) de Aki Kaurismaki, Pedro Costa, Victor Erice e Manoel de Oliveira
Os filmes colectivos são sempre projectos arriscados e na maior parte das vezes o todo é inferior à soma das partes. Em parte, esse é o caso deste "Centro Histórico", uma produção Guimarães 2012 que junta "à mesma mesa" Aki Kaurismaki, Pedro Costa, Victor Erice e Manoel de Oliveira. Nenhuma das curtas que realizam consegue mais do que constituir uma pequena e doce vírgula nas suas carreiras. O filme de Erice, o único inequivocamente documental, é aquele que, em mim, sobressai pela sua força emocional. Depois de umas não particularmente bem encenadas "cabeças falantes", o filme toca o sublime numa sequência inteira onde a música de um acordeão banha, com uma inesperada pungência, uma fotografia muito antiga dos trabalhadores da Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela. A galeria de rostos devastados por uma vida de miséria e sacrifício é percorrida pela câmara de Erice e o acordeão de um homem ligado, pelos laços de sangue, à história centenária dessa fábrica que chegou a ser uma das maiores do ramo têxtil em todo o mundo. Sobre essa "imagem da foto", anima-se um verdadeiramente pungente sentimento de morte, tristeza, desolação...
O filme de Pedro Costa ("Sweet Exorcist") volta a ter no centro a personagem de Ventura, adensando os vários fantasmas que o habitam, sobretudo, a Revolução de Abril e a mulher querida que nunca mais vê ao seu lado, vinda de Cabo Verde. Tudo indica que esta curta serviu de esboço para a próxima longa-metragem de Pedro Costa. Ainda assim, o termo "esboço" é traiçoeiro dado o rigor de cada plano, a estranha conceptualização (talvez demasiado "artificiosa" para um filme de Pedro Costa) do diálogo alucinado entre Ventura e a estátua viva de um militar de Abril. Longe da obra-prima "O nosso Homem", este é um exorcismo que talvez ganhe um novo sentido com a anunciada nova longa de Pedro Costa. Outro sentido, contudo, pode-se já desvendar na relação deste filme com o de Manoel de Oliveira. Se antes tínhamos o militar revolucionário, agora temos a estátua de D. Afonso Henriques, animada com uma mui fina ironia pela câmara de Oliveira.
O primeiro conquistador, aponta Oliveira, é agora conquistado/capturado todos os dias pelos magotes de turistas que compulsivamente o fotografam. O "guia" que dizia "eis isto", virará "comentador" do que se está a passar, afirmando, num desabafo jocoso, "eis disto!". Deixo para o fim o menos conseguido destes filmes: o apenas amenamente divertido e enternecedor, quando quasi-tatiesco, filme de Aki Kaurismaki. Menos conseguido, talvez, mas de modo algum um mau filme. Aliás, nenhum dos quatro filmes parecem querer ir para lá do "filme-teste" (Erice e Costa) ou da piada inteligente (Oliveira). Kaurismaki conta uma estória, encena o seu burlesco deadpan colorido, um gesto que diríamos ser automático não tivesse este como cenário a nossa cidade berço.
domingo, 28 de julho de 2013
O Som ao Redor (2012) de Kleber Mendonça Filho
O jogo coral é intenso aqui: uma acção reverbera noutra como os sons, diegéticos e extra-diegéticos, se vão, em sentido quase literal, "edificando". Esta ideia de construção está desde logo plasmada no movimento da câmara, no encadeamento da montagem, nos vários detalhes das pequenas narrativas que despreocupadamente se vão desenrolando, sem procurarem explorar a ansiedade do espectador - apesar de uma certa tensão latente, ao contrário de um Iñarritu, não há aqui nenhum trauma ou evento trágico que liga todas as personagens entre si, nem tão-pouco o filme assentará a sua estrutura naquele que poderá ser considerado o seu principal ou único twist dramático.
Posto isto, temos aqui um cineasta que pensa audio/visualmente o espaço que serve de palco rotativo ao encadeamento das histórias; não só ao registo da vida de um bairro (= ecossistema) suburbano no Recife mas, antes de mais, à construção de imagens e sons que funcionam, elas mesmas, numa vizinhança imperfeita, sempre "em construção". É também obviamente um retrato social de classes com a mordacidade e um sentido de humor - e terror! - muito próprios, mas decididamente não é aí ou só aí que "O Som ao Redor" se revela um refrescante naco de cinema. Kleber Mendonça Filho trabalha as personagens ao mesmo tempo que à volta e dentro delas (nessas extraordinárias curtas-metragens que são os seus sonhos!) cria uma atmosfera de sentidos (sons, movimentos, cores) no lugar de colar os cacos todos através de uma espalhafatosa "grande narrativa" que justifique e melodramatize tudo o que é dado a ver (à la Iñarritu).
O uso da elipse perto do fim - em torno do desenlace do romance que abre o filme - é um exemplo de como a ânsia de mostrar e ao mesmo tempo justificar ou explorar a realidade sentimental destas personagens pode ser dominada e, com isso e pela surpresa, nos "provocar" mais - e mais coisas. Esta brilhante primeira longa de ficção de Kleber Mendonça Filho pede para ser vista e revista várias vezes. É que o prazer da descoberta deste ou daquele detalhe parece não se ficar apenas pelo primeiro visionamento. Até quando temos nós, portugueses, de esperar pela sua estreia comercial?
What is This Film Called Love? (2012) de Mark Cousins
"What is This Film Called Love?" é um ensaio visual de Mark Cousins no formato de cine-diário sobre três dias de "tédio" na cidade do México por que o realizador teve de passar durante a divulgação internacional de um dos seus filmes. Esse tédio terá provocado um desejo de fazer alguma coisa e tendo Mark Cousins uma paixão incontida, orgulhosa até!, pela história do cinema não é de espantar que desse desejo resulte um objecto fílmico talvez difícil de classificar, entre o ensaio pessoal e o documentário pedagógico.
Acontece algo assim: um pequeno e muito frágil objecto que explora a intimidade deste cineasta perdido no México através de uma fantasiada (vídeo-)correspondência com Serguei Eisenstein. Repisando o solo que Eisenstein percorreu, aquando da preparação da sua obra-prima inacabada, "Que viva México!", Cousins encontra o pretexto ideal para sair do quarto e enfrentar o tédio. Há um problema aqui: ele não chega verdadeiramente a enfrentá-lo. Todo o filme é uma distracção de algo, uma espécie de transferência simples de uma certo estado espírito para esse grande repositório amalgamente chamado cinema.
Com uma banalíssima câmara digital, com uma foto de Eisenstein na mão, com um dispositivo básico que faz de uma correspondência delirante, além-túmulo, um motivo para conhecer a gigantesca capital mexicana, Cousins "improvisa" um filme desnecessário, que acaba por documentar menos o homem e mais a forma como este foge de si mesmo, da sua solidão numa cidade imensa que lhe escapa - e é preciso dizer que "a forma da fuga" nunca chega a convencer. Um home video sofisticado para amigos e família ou, no limite, um sofrível extra de DVD, o visionamento de "What is This Film Called Love?" só se justifica dentro do contexto específico de uma retrospectiva da obra de Cousins.
Camille Claudel, 1915 (2013) de Bruno Dumont
Temos aqui uma mise en scène levada ao mínimo - talvez o efeito mais espampanante seja o rosto de Binoche - que sustenta um igualmente reduzido número de situações dramáticas, sendo que de novo uma personagem num filme de Dumont se confessa de frente para a paisagem, para um ícone religioso, ou no limite para nós espectadores, o último ecrã para o qual se projectam estes rostos acossados pela dúvida, pela culpa, pela dor e pelo medo. Decerto nada de muito novo na economia dumontiana, que aqui parece estagnar e não conseguir ir além (ou aquém) do mistério magnificamente exorcizado em "Hors satan".
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