terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (XIII)


Mês de alta actividade no À pala de Walsh. Com o Ricardo Vieira Lisboa, cobri com enorme prazer o festival de cinema de terror de Lisboa, MOTELx 2013. Foi no âmbito dessa cobertura que entrevistei um dos realizadores marcantes da minha vida cinéfila, Tobe Hooper. Com o Ricardo Vieira Lisboa e a assistência do Miguel Domingues, também tive oportunidade de trocar umas palavras com Hideo Nakata.

Ainda dentro do âmbito do terror, dediquei a minha crónica Civic TV à análise do filme "Our Mother's House" de Jack Clayton. Produzi ainda uma análise ao não só pouco como mal lembrado "L'uomo dalla croce" de Roberto Rossellini.

Como já divulguei neste espaço, produzi ainda uma reportagem sobre a actual situação do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, mais conhecido por ANIM. Considero fundamental que se difundam algumas das inquietações manifestadas nesta peça, para a qual contei com a colaboração preciosa da fotógrafa Mariana Castro.

Ainda hoje, abrimos Outubro com a entrevista que eu e a Sabrina D. Marques (de novo, com fotografias de Mariana Castro) realizámos ao Buster Keaton do porno, à cinéfila, à actriz, à escritora, à modelo Sasha Grey.

Nas rubricas do Contra-campo, participei como é hábito no telejornal cinéfilo Actualidades e na Sopa de Planos dedicada, nem de propósito, ao acto de despertar.

Lateralmente, gostaria de destacar a belíssima homenagem da Sabrina D. Marques a um grande realizador esquecido, desaparecido este mês, chamado Richard C. Sarafian. Indo para lá do seu filme mais popular, o brilhante "Vanishing Point", a Sabrina analisa a sua magnum opus, por sinal, uma das obras que mais marcaram o meu ano cinéfilo de 2012: "Man in the Wilderness".

Neste mês de Outubro, a edição está entregue ao Ricardo Vieira Lisboa. Desde já, posso prometer mais entrevistas surpreendentes.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

À boleia do Caminho Largo


Recentemente fui à boleia do Jorge Teixeira, do muito dinâmico blogue Caminho Largo, e respondi como pude às suas interessantíssimas questões. Agora, em modo de auto-publicidade, venho reencaminhar os leitores do CINEdrio para o resultado desta parceria blogoesférica (que venham mais como estas!).

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Cinemateca/ANIM: arquivo sob perigo


A peça "Cinemateca/ANIM: arquivo sob perigo" foi realizada por mim e pela Mariana Castro para percebermos e darmos a perceber à opinião pública o real estado do arquivo de cinema em Portugal. Nesse sentido, aos cidadãos preocupados com os assuntos da cultura no nosso país, apelo à leitura, ao comentário e, enfim, à partilha. Trata-se de um inestimável contributo de dois dos principais responsáveis pelo ANIM para a reflexão sobre as consequências que já acarreta esta revolucionária transição do formato analógico para o formato digital. Se o leitor ainda não compreendeu bem o alcance desta revolução, então (de novo) apelamos para que leia, comente e partilhe esta peça.

Quero agradecer ao Rui Machado, António Medeiros e restantes trabalhadores do ANIM que facilitaram a concretização desta reportagem, desejando o melhor para o seu futuro.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Barreto Xavier e a Cinemateca: "não me agrada que os meus directores gerais façam dramatizações em público"


Abaixo transcrevo um excerto da entrevista (que pode ser vista aqui, a partir do minuto 17:10) realizada por Luís Gouveia Monteiro ao secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, no programa "O que Fica do Que Passa" do canal Q. Momento decisivo para se perceber o que já tinha escrito aqui, no CINEdrio, a propósito do jogo do telefone estragado que se tem desenvolvido entre a actual direcção da Cinemateca e a Secretaria de Estado da Cultura. As declarações de Jorge Barreto Xavier são graves e podem significar a última estocada na autoridade da actual direcção. O lamentável episódio da reabertura ou não da Cinemateca neste Verão é qualificado pelo próprio de "um disparate" e uma "e(n)fabulação" feita - e Jorge Barreto Xavier não se poupa em informalismos - "pela Maria João Seixas".

Quanto à gestão financeira da instituição, o secretário de Estado não se coíbe de criticar também a direcção (os seus responsáveis...) por não conseguir suprir a receita que falta ou reduzir a despesa. Denuncia ainda aquilo que será uma orçamentação "miraculosa" das actividades da Cinemateca desde 2008: "não corresponde à verdade das coisas". Recordo que Maria João Seixas anunciou no dia 21 de Agosto que a Cinemateca não reunia condições financeiras para abrir portas. Menos de 24 horas depois, com um simples mail, o secretário de Estado da Cultura prontamente garantiu que a Cinemateca não ia fechar - e, de facto, não fechou. Durante todo o processo, a directora da Cinemateca nunca criticou directamente a acção do secretário de Estado e mesmo quando a casa estava a arder manifestou a sua crença de que tudo iria correr bem.

Mas não é consensual por exemplo que se tenha chegado a uma situação a que se chegou neste Verão de emergência de não haver dinheiro para funcionar...

Não. Essa foi uma dramatização excessiva feita pela Maria João Seixas. E eu, de facto, não me agrada que os meus directores gerais façam dramatizações em público.

Se não tivesse sido essa dramatização, a Cinemateca teria dinheiro para funcionar até ao fim do ano?

Isso é um disparate. Isso é um disparate. Obviamente eu não vou discutir em público aquilo que é o meu trabalho com os meus directores gerais, mas aquilo que eu consensualizo com os directores gerais - e isso aconteceu com os da Cinemateca - é explicar que as dificuldades existiam, existem, mas que eu garantia que não iria haver fecho da Cinemateca. Tive de o repetir em público, o que não era necessário.

E teve que aparecer com aqueles 700 000 euros...

Eu não apareci com 700 000 euros nenhuns. Tudo isso já existia. Isso foi uma enfabulação [sic] de uma circunstância feita... eu ainda hoje não percebi porquê.

(...) Ainda a propósito daquela questão Ministério versus Secretaria de Estado, diz-me a minha quinta coluna que esse dinheiro terá vindo de fundos europeus depois postos no Fundo de Fomento (...)

No que diz respeito à questão da Cinemateca, a questão do financiamento não tem de todo a ver com fundos comunitários. Nós estamos a suprir as necessidades de funcionamento da Cinemateca com montantes adicionais que fomos buscar ao Fundo de Fomento Cultural. A Cinemateca desde 2008 que tem decréscimo de receita. Mas desde 2008 que a Cinemateca inscreve todos os anos, erradamente, uma previsão orçamental em função do montante de 2007. Ou seja, ou os governos tinham encontrado a diferença do gap entre o montante inscrito e o montante da receita - visto que a taxa de publicidade televisiva baixou 50% de 2008 a 2013.. Cada ano, desde essa data, a Cinemateca não tinha o dinheiro da previsão orçamental. É expectável que os seus responsáveis e obviamente os membros do governo encontrem um caminho ou para suprir a receita que falta ou para reduzir a despesa. Não existem orçamentos miraculosos, em que se coloca um certo número no Orçamento de Estado que não corresponde à verdade das coisas. Isto foi mal feito e não foi mal feito em 2013, foi mal feito sucessivamente, durante vários anos. Nós estamos a corrigir isso e obviamente temos propostas para o Orçamento de Estado de 2014 para suprir isso. Não vamos é agora pensar que é uma coisa que de repente aconteceu em Julho de 2013. Isso é completamente falso e por isso é lamentável o modo como o processo passou, mesmo em termos públicos.

domingo, 22 de setembro de 2013

Corpo sem órgãos (puro medium do terror)

"Dead of Night" (1945) de Alberto Cavalcanti et al.

"Dead Silence" (2007) de James Wan

(Mais e melhor bonecada manobrada/assombrada por James Wan aqui e, a não perder em sala, aqui. Outros cruzamentos vizinhos aqui e aqui.)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

The Tall T (1957) de Budd Boetticher


"The Tall T" é um western justíssimo, magro e elegante como o seu protagonista - e todos os melhores filmes do seu realizador -, sobre o despertar da potência feminina de uma mulher entre homens, ora selvagens e implacáveis (o grupo de assassinos que a sequestra), ora cobardes e interesseiros (de que o seu marido é o espécime mais grosseiro). Claro que para que Doretta (Maureen O'Sullivan) se dê a mostrar como a mulher que é será precisa a companhia do homem intrépido, justo e compreensivo interpretado por Randolph Scott - presença óbvia ou não seria este um western de Boetticher, o realizador que deu expressão e dimensão à carreira desse actor que no final dos anos 50 já estava longe do pico da sua vitalidade física. Trata-se, portanto, de um casal menos glamoroso do que é habitual num filme de Hollywood: um homem cuja idade começa a pesar - ele perde uma aposta com um amigo, que pôs à prova a sua frescura física - e uma mulher que está em risco de nunca ter sido nova - e a sua feminilidade adormecida, retraída, reside tragicamente nessa constatação.

Ele é um cinquentão solitário, um loner que "cavalga sozinho" (alone, lonesome, tudo sinónimos boetticherianos). Ela é uma quarentona, filha de um milionário que lhe deu riqueza material em vez de amor paterno. Ele descobre nela aquilo que ela não sabia ter: as propriedades femininas que fazem um homem agir. Boetticher narra, sinuosamente, a história dessa acção desde o princípio: primeiro, a personagem de Randolph Scott tenta dominar um touro (a tal aposta que irá perder... até porque a idade não perdoa), depois o tempo transcorre... até que Scott agarra Doretta pelo braço e lhe diz "You don't think anything of yourself, how can you expect anyone to? (...) Sometimes you have to walk up and take what you want!".

O beijo que se segue, um dos mais violentos do cinema clássico - ia escrever "que o cinema clássico nos deu" -, é uma lição vingativa - a única intensamente vingativa deste filme - contra esta mulher que negou a si mesma o tesouro mais precioso: a sua feminilidade. A partir daqui, rodeada por homens num mundo de homens, nasce uma flor no deserto. Boetticher traça, de novo com uma simplicidade de mestre, esta metamorfose de uma desvalorizada mulher rica (isto é, que apenas e só simboliza a sua riqueza) numa mulher valiosamente feminina (a riqueza que o herói desperta e que lhe dá força para matar os vilões). Masculina alquimia.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Cinema na RTP2: história de uma fachada sem edifício


No ano televisivo que passou o "5 Noites, 5 Filmes" regressou à antena da RTP2, mas pouco ou nada foi feito para a solidicação de uma verdadeira programação de cinema. Para quem está minimamente atento à programação das duas televisões públicas, foi-se tornando cada vez mais evidente que o segundo canal estava a ser usado como despensa dos filmes que haviam passado na RTP1 ao longo do ano anterior.

Assistimos a ciclos avulsos, produzidos sem a preocupação, como manda o contrato com o Estado, de contextualizar pedagogicamente as obras difundidas. Quando chamámos o canal à atenção, a resposta foi (a ameaça de) um empobrecimento da sua programação cinematográfica. No início do Verão, a RTP2 terá decidido suspender o "5 Noites, 5 Filmes", passando no seu lugar séries americanas ou/e reprises de séries portuguesas. Durante os últimos meses, não tivemos sequer o direito a dois filmes semanais, como acontecia no tempo de Jorge Wemans. Na realidade, a situação actual é ainda mais preocupante, já que hoje a RTP2 se escusa de programar cinema, para lá do "Onda Curta".

O DN falou do "fim do cinema na RTP2", tentámos perceber o que se passava junto do grupo do "5 Noites, 5 Filmes" no Facebook que foi tão expedito a reagir às nossas críticas passadas, mas, desta vez confrontado com as nossas dúvidas quanto ao futuro do cinema no canal, não só não foi esclarecedor como, para nosso espanto, disse ser apenas uma "página de fãs" do programa. Apesar de alegar agora ser "só isso", este grupo que antes respondera a título oficial às nossas críticas não hesita em afirmar, com um sentido de humor igualmente surpreendente (sejam eles representantes legítimos ou somente "fãs" fazendo-se passar por representantes do canal), que é "irrevogável" a saída do cinema da RTP2. Contudo, para melhor esclarecimentos, e transcrevo a resposta ipsis verbis, "isso têm de Perguntar a RTP!!!"

Nenhum filme aparece previsto na programação do canal para este mês. Contudo, desde o dia 9 de Setembro, a RTP2 não designa qualquer programa para as 23:30 e para as 00:30. Manda o contrato com o Estado que a RTP2 consagre espaços regulares dedicados ao cinema. Não esperamos por isso outra coisa que não seja a restituição de um espaço de cinema no segundo canal, ou seja, que a RTP2 esteja à altura do compromisso que fez com o Estado português e do melhor que fez pela cultura e as artes num passado, infelizmente, já longínquo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Viva a Cinemateca!


No texto "Clarificação e rápida resolução da actual situação da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema", que eu subscrevi, pode-se ler a certa altura:

Reivindicamos, enquanto utentes da instituição, enquanto contribuintes e cidadãos do Estado português, que as partes (direcção e tutela) se reúnam e que desse encontro resulte um documento, cujas linhas principais sejam tornadas públicas, onde conste um rigoroso compromisso com soluções de longo prazo. É mister que este conjunto de medidas assegure a resolução das várias insuficiências – materiais, financeiras, estruturais e/ou políticas – que têm, cumulativamente, perturbado e comprometido o funcionamento da casa-mãe do cinema.

A reivindicação é simples e directa. Nada justifica o jogo do telefone estragado que há demasiado tempo se tem desenrolado entre a direcção da Cinemateca e a tutela - e destas duas com a opinião pública. É tempo da sociedade civil chamar as partes à sua responsabilidade e provocar uma resolução imediata e sustentada de todos os problemas que minam a credibilidade do nosso Museu do Cinema.

Adenda (do dia 23 de Agosto): transcrevo abaixo o comentário deixado pelo Samuel Andrade, do blogue Keyzer Soze's Place, no supracitado artigo do À pala de Walsh. Um comentário que me parece muito significativo.

Confesso-me bastante perturbado com as notícias recentes sobre uma eventual impossibilidade, por motivos financeiros, de reabertura da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. No entanto, e como fã inveterado de todos os quadrantes da actividade da Cinemateca, também não posso deixar de manifestar desagrado pela natureza da reacção, ou ausência da mesma, a essa perspectiva.

Com todo o respeito pelo cariz público da instituição e dos seus representantes, sinto-me na obrigação de frisar que temos — e não é só de agora… — apenas assistido, por parte dos responsáveis da Cinemateca, ao mero anúncio da “catástrofe iminente” e posterior cruzar de braços, numa atitude de quem espera que sejam “os outros” a resolver os problemas presentes.

Há muito que deveriam ter sido encontradas fontes alternativas de financiamento. Há muito que se exige um comportamento substancialmente mais proactivo por parte de quem gere a instituição. Há muito que a Cinemateca deveria ter aberto as suas portas à comunidade que a rodeia, numa efectiva demonstração de adaptação e capacidade de atracção pública, social e financeira à prova de qualquer “tumulto” ou negligência de ordem política.

E a rápida resolução da actual situação da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema tem de passar, portanto, pela obrigatória e radical remodelação do seu modelo humano, estratégico(?) e organizativo presentemente em vigor.

Adenda (do dia 24 de Agosto): acabo de assinar uma petição pública dirigida à Assembleia da República que pretende "promover o debate urgente deste assunto, visando as iniciativas legislativas e políticas necessárias para garantir o funcionamento e evitar o encerramento da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, protegendo, desta feita, grande parte da memória de todos nós, que é um enorme pedaço de Portugal, em risco de se perder para sempre".

A iniciativa é louvável, mas a sua formulação incompleta, já que, como se percebeu, a Cinemateca irá reabrir, mas a sua reabertura poderá não querer dizer que os problemas que a têm afligido tenham sido resolvidos ou que o seu encerramento não esteja simplesmente a ser adiado. Esta petição poderia ser mais útil se procurasse abrir a discussão acerca de um novo modelo de gestão assente em compromissos claros mutuamente acordados entre tutela e direcção, que dêem garantias aos utentes de que a Cinemateca não vai continuar a ser vítima deste processo de rápida e aparentemente inevitável degenerescência.

Adenda (do dia 29 de Agosto): apelo a todos que marquem presença na "Concentração contra o encerramento da Cinemateca Portuguesa". A iniciativa é boa, dará visibilidade pública (e esperemos que também mediática) à presente situação da instituição. Penso que seria de bom tom que, durante esta concentração, a direcção fizesse como no passado protesto e tomasse a palavra para, primeiro, actualizar os níveis de alarme provocados há uma semana e, segundo, sensibilizar os presentes para todas as insuficiências que precisam de ser superadas para que a Cinemateca não só assegure a estabilidade no funcionamento como a qualidade programática e aptidão museológica de todos os seus serviços.

Adenda (do dia 1 de Setembro): a concentração da passada sexta-feira deu para comprovar várias coisas que tenho aqui escrito e descrito. Primeiro, a Cinemateca, tal como anunciou a directora Maria João Seixas e o subdirector José Manuel Costa, irá reabrir já amanhã- o programa, aliás, pode ser consultado aqui. Segundo, a solução encontrada com a tutela é meramente provisória ou, pior adjectivação é impossível, "excepcional". Isto é, o dinheiro que foi desbloqueado para assegurar a manutenção dos serviços da Cinemateca e ANIM cobrirá, de modo excepcional (!), o período que vai de Setembro a Dezembro deste ano. Findo este remendo mal amanhado, a Cinemateca regressa à estaca zero e, nessa altura, os protestos serão, certamente, menos intensos - todos nós conhecemos a história do Pedro e do Lobo... Terceiro, confirma-se que a verdadeira luta não se deve ficar apenas pela abertura ou não desta que é não só a nossa única Cinemateca como é, inquestionavelmente, uma Cinemateca única no panorama internacional.

O funcionamento de uma instituição como esta não pode ser susceptível de discussão, o que é susceptível de discussão - e indignação! - é a forma como a nossa Cinemateca está a ser tratada, rasando neste momento a mais inconcebível indignidade. Posto isto, a sociedade civil tem como missão assegurar um debate sério e objectivo sobre a sustentabilidade desta instituição. Para tal, as duas partes (direcção e tutela) terão de se sentar à mesma mesa e, com total clareza e transparência, REPENSAR o modelo de financiamento e a própria orgânica de poder da Cinemateca/ANIM. É urgente que tal aconteça, visto que o poder político - de novo, muito à la Griffith - fixou Dezembro como o novo deadline, uma "linha de morte" que poderá, desta feita, ser traçada pela última vez.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cinemateca Portuguesa: a derradeira queda da casa-mãe do cinema?


A Cinemateca Portuguesa, adianta o jornal Público de hoje, poderá não reabrir portas em Setembro. A sua directora fala de uma situação aflitiva e insustentável. Diz que avisou atempadamente o secretário de Estado da situação e que, apesar de todo o seu empenho, este não conseguiu "buscar dinheiro" das Finanças. Face ao derradeiro golpe na dignidade da instituição, que poderá deixar de poder assegurar o pagamento da electricidade e, com isso, não só encerrar portas como comprometer todo o espólio cinematográfico nacional armazenado no ANIM, a directora declara: "Acredito que tudo se pode ainda resolver, mas este momento é de grande aflição.”

A política da Cinemateca tem-se baseado nesta crença numa solução salvífica de última hora à la Griffith, fazendo figas para que no mês seguinte o miraculoso Deus ex machina venha não impedir mas, já só e apenas, adiar a catástrofe. Escrevi sobre tudo isto em três posts que podem ser consultados aqui, sendo que o primeiro, que prenuncia o terrível fim da Cinemateca, data de 2011. Passaram quase 3 anos e continuadamente assistimos nos media a uma Cinemateca no fio da navalha, sempre à beira de uma catástrofe que se sente mas sobre a qual se "acredita" que não poderá vir. Os problemas acumulam-se, nenhum é resolvido, tudo desliza para o abismo... mas "acredita-se", ainda assim, que tal não venha a acontecer. A sensação que fica é a de que se agora a electricidade for desligada parcialmente na Cinemateca para salvar o ANIM, essa medida será encarada como a salvação possível e desse remendo rapidamente passaremos para a sua permanência futura sem solução à vista, sustentada apenas por essa crença vaga de que tudo ficará bem no fim: quiçá uma Cinemateca sem filmes e pessoas, mas (ainda assim!) limpa e com casas de banho funcionais.

A política directiva da Cinemateca está reduzida a um modo de sobrevivência, a um pronto socorro sem horizontes ou, enfim, a um exercício de fé inconsequente. Dois executivos passaram - e neste último vamos no segundo secretário de Estado da Cultura -, manifestações públicas foram organizadas, artigos de opinião já foram redigidos, um mês dedicado à situação da Cinemateca ("Foco no Arquivo" = "Fogo no Arquivo", como leu e bem Margarida Gil) já foi posto em marcha e graças a ele poucas são as altas personalidades da comunidade de profissionais do cinema que não estão mais do que conscientes de todos os problemas que, ontem como hoje, põem em risco o futuro da Cinemateca. Tudo isto já foi feito, mas politicamente o resultado é quase nulo. A direcção tentou, timidamente dirão algumas vozes, mas tentou denunciar a sua própria impotência.

O que resta hoje é a crença de que essa impotência poderá estar ou vir a estar na origem do fim da instituição tal como a conhecemos ou do seu fim ponto final. Face a isto, ou se repensa de uma vez por todas - se for caso disso, para lá da presente direcção - a política de sustentabilidade, os canais de comunicação com a tutela e a própria orgânica interna de uma instituição com a complexidade da Cinemateca ou o filme continuará rápida e previsivelmente a aproximar-se da mensagem final que ninguém quer ler: "The End".

Adenda (hoje, dia 21 de Agosto): era preciso alarmar toda a gente para numa rápida troca de mails termos esta reacção? A direcção da Cinemateca não fala com a secretaria de Estado? O que está a falhar aqui? Acho que não está a ser feito tudo em defesa desta grande instituição.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O 'específico' do cinema é a escala/a sala

Ingmar Bergman, "Persona" (1966)

Un acteur de théâtre, c'est une petite tête dans une grande salle; un acteur de cinéma, une grande tête dans une petite salle.

André Malraux, Esquisse d'une psychologie du cinéma (1939), Paris, Nouveau Monde Éditions, 2003, pp. 53-56

Jean-Luc Godard, "Les carabiniers" (1963)

In concert with Godard on this topic, Chris Marker is alleged to have said, "It's not a movie unless the people on the screen are larger than those who watch it." 

Dudley Andrew, What Cinema is, Chicester, Wiley-Blackwell, 2010, p. 74

Quando pensamos no cinema… o cinema não tem original, o original é o negativo, mas o negativo não é o que o espectador vê, o que vemos é uma cópia – até lhes chamamos cópia. Portanto, o cinema é, de todas as artes, e o Benjamin já assinala esse paradoxo no texto dele, a única que não tem original. Mas há uma coisa que é original no cinema: a sala.

Eduardo Geada, entrevista À pala de Walsh, 2013, leitura aqui

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Recorte de falas (XXX): Nights and Weekends

Nesta passagem de "Nights and Weekends" (2008), pequeno filme independente sobre as agruras do amor à distância, somos levados a reconsiderar o velho cliché da "beleza interior". James, interpretado pelo realizador do filme, Joe Swanberg, tem uma conversa solta, "sem guião", com a namorada, Mattie, interpretada pela belíssima Greta Gerwig, que co-dirige o filme. A intimidade desta cena é extensível a todo o filme: fragmento que põe a nu a relação entre duas existências (duas personagens) e entre dois corpos (duas personagens encarnadas, sem filtros, por dois actores). Ao contrário da maioria de um certo cinema indie norte-americano, Swanberg e Gerwig sabem gerir a palavra sempre em benefício de uma comunicação rosto-contra-rosto, próxima de um Cassavetes. Apesar disso, aqui está um dos poucos momentos verbalmente "lapidares", onde o que se expõe é não a demagógica exaltação das mais-valias psicológicas de cada um, mas a capacidade do protagonista para criar a sua própria "beleza interior". É ela que permite a James esquecer-se de si (do seu corpo) e resistir ao estranhamento da sociedade, ao estranhamento do mundo.

James: I think I always had a mental image of myself that's not associated with the way I actually look.
Mattie: Oh, I know what you mean.
James: Like I forget myself. I forget my actual face and I think that in my head I project some kind of confident, handsome face. And then occasionally I see myself and go "oh my god, this is what you look like? That's pathetic!". But then I don't need to worry about it, because I have a mental handsome projection that gives me confidence in the world.  

O muito necessário elogio ao pior cinema

Joe Dante, "Matinee" (1993)

In paying my respects to James Agee, I noted that in any film, however unpromising, some moment of interest, even beauty, is likely to appear.

Stanley Cavell, The World Viewed (1971), Cambridge, Harvard University Press, 1979, p. 104

«O pior cinema continua, apesar de tudo, a ser cinema, isto é , qualquer coisa de comovente e de indefinível»

J.F. Laglenne apud Edgar Morin, O Cinema ou o Homem Imaginário (1956), Lisboa, Relógio D'Água, 1997, p. 26

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (XII)



Foi o mês da grande celebração: o À pala de Walsh fez um ano, ao fim de mais de três centenas de artigos. Cobrimos praticamente todos os nossos objectivos e, em certa medida, a adesão superou as nossas melhores expectativas. Estamos muito gratos a todos os leitores, os presentes e, aproveito já, os futuros. Incentivo os leitores do CINEdrio a aderirem à página Facebook do À pala de Walsh. O trabalho que se desenvolveu ao longo do ano também passou pela rede social mais popular do momento, com divulgações diárias não só dos artigos produzidos mas também de sessões especiais por todo o país, em cine-clubes, faculdades, pequenas salas espalhadas por todo o país.

Para celebrarmos o primeiro ano, produzimos um post especial com cine-ensaios inspirados neste ano de trabalhos. Dos resultados, faço o destaque especial aqui de um vídeo que já anda aí a circular pela Internet e que é uma prodigiosa reflexão audio/visual sobre o gesto e o olhar em Raoul Walsh. "Whiskey com Leite" de Ricardo Vieira Lisboa é o grande filme de 2013 que estreou directamente no YouTube. Vejam, comentem e partilhem.

No passado mês de Julho, fiz a minha crónica Civic TV andar à volta do filme de terror, que tem passado no canal Syfy, "The Changeling". A título individual, apenas produzi mais o já aqui divulgado texto de balanço geral da minha experiência na Polónia, que poderá ler ou reler através deste link. Nos habituais posts colectivos, fizemos da pausa e da espera - aquela que domina este mês de descanso no À pala de Walsh - ingredientes para uma inspirada Sopa de Planos e, seguindo a votação dos leitores no Facebook, pusemos em fala o magnífico melodrama cómico ou comédia melodramática ou comédia/melodrama "Una donna ha ucciso" de Vittorio Cottafavi.

Neste mês de Agosto, fazemos a tal pausa, mas, atenção!, não ficaremos totalmente fora de campo. Alguns posts irão sair ao longo do mês e, em Setembro, como é evidente, estaremos de regresso e com entusiasmo redobrado. O editor, neste período, será o cine-ensaísta Ricardo Vieira Lisboa.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Lista cinéfila, um 'exercício benéfico' de Serge Daney

Deleitando-me com as notas soltas que Serge Daney deixou ao mundo antes de partir precocemente em 1992, dei de caras com uma pequena lista (deixada muito incompleta) que exercita uma classificação sui generis de filmes, quase em modo íntimo, autobiográfico ou confessional. A arte de fazer listas, como sabemos, é uma mania do bom cinéfilo, por isso, dada a originalidade desta, quis partilhar com os leitores, como "refresco de Verão", as seguintes três páginas de "L'exercice a été profitable, Monsieur", obra que poderão encomendar aqui ou (mais barato, para nós, portugueses) aqui, sendo que o stock deste livro editado em 1993 é, hoje, compreensivelmente limitado.




(Por favor, clique nas imagens para ler melhor)

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