sábado, 19 de outubro de 2013

Ecúmena do ecrã-postal

Jean-Luc Godard, "Les carabiniers" (1963)

¿Seguimos hablando de cine cuando vemos un filme en una pantalla de 480x320 píxeles durante una sesión interrumpida que puede prolongarse horas o incluso días? Jean-Luc Godard opina que ver cine en una pantalla no tradicional es metafóricamente asistir a una reproducción del original, una acción que introduce exactamente la misma distancia que existe entre un cuadro y la postal que lo reproduce.

Luis Navarrete Cardero, ¿Qué es la crítica de cine?, Madrid, Editorial Sintesis, 2013, p. 109 

According to home entertainment specialists I spoke to in Hollywood, many kids are "plataform agnostic" - that is, they will look at movies on any screen at all, large or small.

David Denby, Do the Movies Have a Future?, Nova Iorque, Simon & Schuster, 2012, versão Kindle (o "postal" dos livros?)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Animação (pré-cinematográfica)

"India: Matri Bhumi" (1959) de Roberto Rossellini

"Xi meng ren sheng"/"The Puppetmaster" (1993) de Hou Hsiao-hsien

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Filmes que (não) vou ver em sala (VIII): The Sacrament


A distribuição de "The Innkeepers" não desmentiu a minha previsão de ou não conseguir ver o filme em sala ou de o conseguir ver apenas em contexto de festival. Isto porque a distribuição que a Lanterna de Pedra fez do filme sofreu de uma limitação geográfica de modo algum benéfica à sua projecção em todo o país. O impacto na imprensa nacional foi também quase nulo, merecendo, contudo, uma ou outra crítica de circunstância que não entendeu a dimensão profundamente inovadora deste filme de Ti West, entre o burlesco e o filme de assombrações, entre a sátira social e a comédia romântica verborreica. Em termos simples, este ano não houve ainda obra mais brilhante a estrear nas salas comerciais.

Posto isto, adivinha-se um destino semelhante para "The Sacrament", a mais recente obra escrita e realizada - esperamos que "realizada pela escrita" - de Ti West. Já estão online algumas reacções ao filme, que dão a entender que se mantém a muito gradual construção de atmosferas que tornou "The House of the Devil" e "The Innkeepers" engenhosos teasings de horror. Uma nota de apreensão prende-se com o uso do dispositivo do found footage na primeira metade do filme, levando alguns reviewers a verem em "The Sacrament" uma extensão de "V/H/S", empreitada para qual Ti West contribuiu com o melhor episódio da série (incluo aqui já a sequela). Na realidade, aponta-se o episódio ultrajantemente divertido de Gareth Evans, em "V/H/S 2", como a obra mais próxima, penso/espero que mais temática do que formalmente, deste "The Sacrament". De qualquer modo, registo com agrado as queixas de "lentidão" nos primeiros minutos, mas com alguma apreensão o uso do estilo rough, pseudo-documental, do found footage. Parece-me que West, mesmo não sendo um magistral cineasta de câmara - é mais na construção pela escrita que se destaca -, dificilmente ganhará muito em aprofundar este subgénero hoje quase exaurido nas suas possibilidades.

A participação da trupe do costume, como os actores (também realizador) Joe Swanberg e AJ Bowen - vimo-los recentemente, no MOTELx, em "You're Next" -, garante um trabalho de luxo desenvolvido entre amigos. Sacramental.

domingo, 6 de outubro de 2013

Casas com bibliografia anexa (pouco citável)

"The Evil Dead" (1981) de Sam Raimi

"…E tu vivrai nel terrore! L'adilà"/"The Beyond" (1981) de Lucio Fulci

(Revejo "The Evil Dead" e confirmo que não envelheceu nem um anito que seja. Grandioso circo de horrores frenético e sem cedências morais. Agora sustenha a respiração e prepare-se para a revelação: o remake do uruguaio Fede Alvarez transforma esse carnaval de possessões, mutilações, sangue e vómitos numa viagem aos infernos sem tempos mortos, só com deliciosos tempos de morte - a descida à cave lembra, aliás, "The Beyond" ou outro filme de Fulci do mesmo ano, "The House by the Cemetery"... É uma versão junkie hardcore das diabrices ensandecedoras de Raimi. Um remake que actualiza, reinterpreta e adiciona um cheirinho muito seu, com doses extra de acção e muito, mas mesmo muito gore. Imperdíveis leituras, ou melhor, "visões".)

sábado, 5 de outubro de 2013

Sobre documentários impossíveis... (como que) trazidos por um projéctil

 Yakov Protazanov, "Aelita" (1924)

Poderemos entender porque é que os habitantes de uma estrela distante, caso possam ver a Terra com potentes teslecópios, são realmente os contemporâneos de Jesus, uma vez que assistem, no preciso momento em que escrevo estas linhas, à sua crucifixão, da qual, provavelmente, eles captam provas fotográficas ou mesmo cinematográficas, porque a luz que nos ilumina demora dezanove ou vinte séculos a chegar até eles. Podemos até imaginar, e isso pode mudar ainda mais significativamente a nossa ideia de tempo, que um dia veremos esse filme, quer porque ele nos seja enviado por um qualquer projéctil, quer porque um sistema de projecção interplanetária o enviar para os nossos ecrãs.

Élie Faure, Função do Cinema e das Outras Artes (1960), Lisboa, Texto & Grafia, 2010, p. 35

(...) "El cant dels ocells" um objecto tão fascinantemente inclassificável, um documentário impossível, por vezes, imbuído de um realismo lírico paradoxal, que é uma purga para o olho moderno. 

CINEdrio, 9 de Abril 2009

Etc.

Sem emprego como actor? Pois então seja actriz!

"The Masquerader" (1914) de Charles Chaplin

"Tootsie" (1985) de Sydney Pollack

(Um delirante pedaço de metacinema vindo de 1914, saído directamente do génio de Charles Spencer Chaplin. Chaplin é Chaplin, depois transforma-se no famoso tramp. O transformismo culmina com Madame Chaplin à procura do emprego perdido. Isto sim, filho, é grande cinema "queer", ou seja, como se lê no dicionário, "strange or odd from a conventional viewpoint; unusually different; singular".)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Clair e Atget: a Paris vazia que lhes pertence

"Coin de la rue Valette et Pantheon, 5e arrondissement, matinee de mars" (1925) de Eugène Atget 

"Paris qui dort" (1925) de René Clair

(A todos aqueles que sentem a vertigem das cidades desocupadas.)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (XIII)


Mês de alta actividade no À pala de Walsh. Com o Ricardo Vieira Lisboa, cobri com enorme prazer o festival de cinema de terror de Lisboa, MOTELx 2013. Foi no âmbito dessa cobertura que entrevistei um dos realizadores marcantes da minha vida cinéfila, Tobe Hooper. Com o Ricardo Vieira Lisboa e a assistência do Miguel Domingues, também tive oportunidade de trocar umas palavras com Hideo Nakata.

Ainda dentro do âmbito do terror, dediquei a minha crónica Civic TV à análise do filme "Our Mother's House" de Jack Clayton. Produzi ainda uma análise ao não só pouco como mal lembrado "L'uomo dalla croce" de Roberto Rossellini.

Como já divulguei neste espaço, produzi ainda uma reportagem sobre a actual situação do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, mais conhecido por ANIM. Considero fundamental que se difundam algumas das inquietações manifestadas nesta peça, para a qual contei com a colaboração preciosa da fotógrafa Mariana Castro.

Ainda hoje, abrimos Outubro com a entrevista que eu e a Sabrina D. Marques (de novo, com fotografias de Mariana Castro) realizámos ao Buster Keaton do porno, à cinéfila, à actriz, à escritora, à modelo Sasha Grey.

Nas rubricas do Contra-campo, participei como é hábito no telejornal cinéfilo Actualidades e na Sopa de Planos dedicada, nem de propósito, ao acto de despertar.

Lateralmente, gostaria de destacar a belíssima homenagem da Sabrina D. Marques a um grande realizador esquecido, desaparecido este mês, chamado Richard C. Sarafian. Indo para lá do seu filme mais popular, o brilhante "Vanishing Point", a Sabrina analisa a sua magnum opus, por sinal, uma das obras que mais marcaram o meu ano cinéfilo de 2012: "Man in the Wilderness".

Neste mês de Outubro, a edição está entregue ao Ricardo Vieira Lisboa. Desde já, posso prometer mais entrevistas surpreendentes.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

À boleia do Caminho Largo


Recentemente fui à boleia do Jorge Teixeira, do muito dinâmico blogue Caminho Largo, e respondi como pude às suas interessantíssimas questões. Agora, em modo de auto-publicidade, venho reencaminhar os leitores do CINEdrio para o resultado desta parceria blogoesférica (que venham mais como estas!).

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Cinemateca/ANIM: arquivo sob perigo


A peça "Cinemateca/ANIM: arquivo sob perigo" foi realizada por mim e pela Mariana Castro para percebermos e darmos a perceber à opinião pública o real estado do arquivo de cinema em Portugal. Nesse sentido, aos cidadãos preocupados com os assuntos da cultura no nosso país, apelo à leitura, ao comentário e, enfim, à partilha. Trata-se de um inestimável contributo de dois dos principais responsáveis pelo ANIM para a reflexão sobre as consequências que já acarreta esta revolucionária transição do formato analógico para o formato digital. Se o leitor ainda não compreendeu bem o alcance desta revolução, então (de novo) apelamos para que leia, comente e partilhe esta peça.

Quero agradecer ao Rui Machado, António Medeiros e restantes trabalhadores do ANIM que facilitaram a concretização desta reportagem, desejando o melhor para o seu futuro.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Barreto Xavier e a Cinemateca: "não me agrada que os meus directores gerais façam dramatizações em público"


Abaixo transcrevo um excerto da entrevista (que pode ser vista aqui, a partir do minuto 17:10) realizada por Luís Gouveia Monteiro ao secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, no programa "O que Fica do Que Passa" do canal Q. Momento decisivo para se perceber o que já tinha escrito aqui, no CINEdrio, a propósito do jogo do telefone estragado que se tem desenvolvido entre a actual direcção da Cinemateca e a Secretaria de Estado da Cultura. As declarações de Jorge Barreto Xavier são graves e podem significar a última estocada na autoridade da actual direcção. O lamentável episódio da reabertura ou não da Cinemateca neste Verão é qualificado pelo próprio de "um disparate" e uma "e(n)fabulação" feita - e Jorge Barreto Xavier não se poupa em informalismos - "pela Maria João Seixas".

Quanto à gestão financeira da instituição, o secretário de Estado não se coíbe de criticar também a direcção (os seus responsáveis...) por não conseguir suprir a receita que falta ou reduzir a despesa. Denuncia ainda aquilo que será uma orçamentação "miraculosa" das actividades da Cinemateca desde 2008: "não corresponde à verdade das coisas". Recordo que Maria João Seixas anunciou no dia 21 de Agosto que a Cinemateca não reunia condições financeiras para abrir portas. Menos de 24 horas depois, com um simples mail, o secretário de Estado da Cultura prontamente garantiu que a Cinemateca não ia fechar - e, de facto, não fechou. Durante todo o processo, a directora da Cinemateca nunca criticou directamente a acção do secretário de Estado e mesmo quando a casa estava a arder manifestou a sua crença de que tudo iria correr bem.

Mas não é consensual por exemplo que se tenha chegado a uma situação a que se chegou neste Verão de emergência de não haver dinheiro para funcionar...

Não. Essa foi uma dramatização excessiva feita pela Maria João Seixas. E eu, de facto, não me agrada que os meus directores gerais façam dramatizações em público.

Se não tivesse sido essa dramatização, a Cinemateca teria dinheiro para funcionar até ao fim do ano?

Isso é um disparate. Isso é um disparate. Obviamente eu não vou discutir em público aquilo que é o meu trabalho com os meus directores gerais, mas aquilo que eu consensualizo com os directores gerais - e isso aconteceu com os da Cinemateca - é explicar que as dificuldades existiam, existem, mas que eu garantia que não iria haver fecho da Cinemateca. Tive de o repetir em público, o que não era necessário.

E teve que aparecer com aqueles 700 000 euros...

Eu não apareci com 700 000 euros nenhuns. Tudo isso já existia. Isso foi uma enfabulação [sic] de uma circunstância feita... eu ainda hoje não percebi porquê.

(...) Ainda a propósito daquela questão Ministério versus Secretaria de Estado, diz-me a minha quinta coluna que esse dinheiro terá vindo de fundos europeus depois postos no Fundo de Fomento (...)

No que diz respeito à questão da Cinemateca, a questão do financiamento não tem de todo a ver com fundos comunitários. Nós estamos a suprir as necessidades de funcionamento da Cinemateca com montantes adicionais que fomos buscar ao Fundo de Fomento Cultural. A Cinemateca desde 2008 que tem decréscimo de receita. Mas desde 2008 que a Cinemateca inscreve todos os anos, erradamente, uma previsão orçamental em função do montante de 2007. Ou seja, ou os governos tinham encontrado a diferença do gap entre o montante inscrito e o montante da receita - visto que a taxa de publicidade televisiva baixou 50% de 2008 a 2013.. Cada ano, desde essa data, a Cinemateca não tinha o dinheiro da previsão orçamental. É expectável que os seus responsáveis e obviamente os membros do governo encontrem um caminho ou para suprir a receita que falta ou para reduzir a despesa. Não existem orçamentos miraculosos, em que se coloca um certo número no Orçamento de Estado que não corresponde à verdade das coisas. Isto foi mal feito e não foi mal feito em 2013, foi mal feito sucessivamente, durante vários anos. Nós estamos a corrigir isso e obviamente temos propostas para o Orçamento de Estado de 2014 para suprir isso. Não vamos é agora pensar que é uma coisa que de repente aconteceu em Julho de 2013. Isso é completamente falso e por isso é lamentável o modo como o processo passou, mesmo em termos públicos.

domingo, 22 de setembro de 2013

Corpo sem órgãos (puro medium do terror)

"Dead of Night" (1945) de Alberto Cavalcanti et al.

"Dead Silence" (2007) de James Wan

(Mais e melhor bonecada manobrada/assombrada por James Wan aqui e, a não perder em sala, aqui. Outros cruzamentos vizinhos aqui e aqui.)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

The Tall T (1957) de Budd Boetticher


"The Tall T" é um western justíssimo, magro e elegante como o seu protagonista - e todos os melhores filmes do seu realizador -, sobre o despertar da potência feminina de uma mulher entre homens, ora selvagens e implacáveis (o grupo de assassinos que a sequestra), ora cobardes e interesseiros (de que o seu marido é o espécime mais grosseiro). Claro que para que Doretta (Maureen O'Sullivan) se dê a mostrar como a mulher que é será precisa a companhia do homem intrépido, justo e compreensivo interpretado por Randolph Scott - presença óbvia ou não seria este um western de Boetticher, o realizador que deu expressão e dimensão à carreira desse actor que no final dos anos 50 já estava longe do pico da sua vitalidade física. Trata-se, portanto, de um casal menos glamoroso do que é habitual num filme de Hollywood: um homem cuja idade começa a pesar - ele perde uma aposta com um amigo, que pôs à prova a sua frescura física - e uma mulher que está em risco de nunca ter sido nova - e a sua feminilidade adormecida, retraída, reside tragicamente nessa constatação.

Ele é um cinquentão solitário, um loner que "cavalga sozinho" (alone, lonesome, tudo sinónimos boetticherianos). Ela é uma quarentona, filha de um milionário que lhe deu riqueza material em vez de amor paterno. Ele descobre nela aquilo que ela não sabia ter: as propriedades femininas que fazem um homem agir. Boetticher narra, sinuosamente, a história dessa acção desde o princípio: primeiro, a personagem de Randolph Scott tenta dominar um touro (a tal aposta que irá perder... até porque a idade não perdoa), depois o tempo transcorre... até que Scott agarra Doretta pelo braço e lhe diz "You don't think anything of yourself, how can you expect anyone to? (...) Sometimes you have to walk up and take what you want!".

O beijo que se segue, um dos mais violentos do cinema clássico - ia escrever "que o cinema clássico nos deu" -, é uma lição vingativa - a única intensamente vingativa deste filme - contra esta mulher que negou a si mesma o tesouro mais precioso: a sua feminilidade. A partir daqui, rodeada por homens num mundo de homens, nasce uma flor no deserto. Boetticher traça, de novo com uma simplicidade de mestre, esta metamorfose de uma desvalorizada mulher rica (isto é, que apenas e só simboliza a sua riqueza) numa mulher valiosamente feminina (a riqueza que o herói desperta e que lhe dá força para matar os vilões). Masculina alquimia.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

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