quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Os melhores de 2013

Não pensem que sofro de esquizofrenia ou que os meus Tops estão de tal modo imersos em hesitações que faço um no À pala de Walsh e outro ligeiramente diferente aqui, no bom velho CINEdrio. Não, a verdade é que as regras walshianas são mais estritas do que aqui no burgo mais pequeno, onde sempre contabilizei os mais infames direct-to-DVDs da temporada. Este ano (em que consegui ver 64 títulos), curiosamente, um filme que ainda nem sequer está em DVD chega a este Top com honras de pódio. Falo do inevitável "Killer Joe". A sua estreia em sala foi sucessivamente adiada até que - não sei se é para celebrar ou lamentar - um dos filmes mais selvagens e animais a sair de Hollywood em muito tempo, de um dos seus mais indisciplinados filhos, chega aos lares de todos os portugueses através da oferta on-demand.

Matthew McConaughey tem o papel mais marcante de 2013 e se juntarmos ao seu Joe aquele que é o muito pedido "segundo fôlego" de Jeff Nichols, depois do decepcionante "Take Shelter" e do tão entusiasmante "Shotgun Stories", então aí estamos mesmo perante o mais sério candidato a "figura internacional do ano" - balanço a ser feito em breve aqui, no CINEdrio. A única crítica a "Mud" que li por cá que lhe faz justiça é esta de Manuel S. Fonseca, que bem a propósito cita o clássico de Fritz Lang "Moonfleet". "Mud" é o possível conto de piratas ou "de pirata" dentro desta nossa contemporaneidade.

Trabalhar com os realizadores certos ajuda, mas McConaughey já pertence hoje ao restrito grupo de actores com alma de cineasta, verdadeiros "fazedores" de filmes nos filmes. A forma do corpo, do andar, do falar, do gesticular, tudo nele condiciona o "objecto final". Algo semelhante acontece com Adèle naquela que é, para mim, a obra máxima de 2013. Penso que o título do filme é bem mais exacto do que o título da banda desenhada que lhe esteve na origem: este filme, esta vida é DE Adèle antes de ser DE Kechiche. E com isto endereço o maior elogio possível ao cineasta franco-tunisino, que soube descobrir no rosto certo o princípio - e o fim - de um filme que é uma odisseia sentimental única.

Estaria a falar de "The Immigrant" no lugar de "La vie d'Adèle" (e pode ser que algures entre os dois cada um de nós encontre uma novíssima Maria Falconetti…), caso o filme tivesse merecido a sua estreia comercial em 2013. Ainda sinto o seu impacto desde que o vi no último Estoril & Lisbon Film Festival. Espero que, ao contrário de "Killer Joe", esta obra-prima de James Gray (penso que só talvez "Little Odessa" a supere) mereça uma estreia à sua altura no 2014 que se avizinha. "Stemple Pass" de James Benning estaria no lugar de "The Immigrant" (caso este último tivesse estreado) se tivessse tido a sorte da habitual montanha de filmes irrelevantes que chegaram às salas comerciais em 2013. Alguns entendem os filmes de Benning como peças de um museu. Por isso, será, neste momento, profundamente inglório e frustrante bater-me pela estreia em sala de um filme como "Stemple Pass". De qualquer modo, não posso deixar de sublinhar o valor estético e político deste objecto, um dos mais perfeitos do realizador de "Landscape Suicide".

Uma nota final para a outra obra-prima do ano, que teve uma distribuição tão ou até mais limitada que outro dos filmes que constam deste Top, "La fille de nulle part". Falo da assombrosa - e assombrada - hawksização do horror levada a cabo pelo talentosíssimo realizador norte-americano Ti West. "The Innkeepers" é o grande filme que a crítica não quis ver ou viu mal. "Insidious - Chapter 2" de James Wan, irmão mais tresloucado e "indomável" do filme de West, foi outro exemplo de como a crítica oficial consegue passar ao lado do essencial: mise en scène pura (como a definia Rivette), isto é, filme que é só câmara, corpos em movimento e décor. É tão livre que roça a mais alta abstracção fantasmática.

Não escolho estes filmes por reacção ao que ficou de fora da maioria dos Tops, escolho-os porque me parece que todos eles participam na mesma evidência: o cinema, na época mais quente da sua desmaterialização, regressa às origens, aos truques de ou muito simplesmente para dentro da câmara e às fantasmagorias do cinema mudo pré-griffithiano, a Edison, Méliès, Segundo de Chomón... Resistir ao digital ou assombrá-lo - resistir para progredir… - com os efeitos do cinematógrafo? O Carlos Natálio (no seu texto de balanço à pala de Walsh) invoca a fórmula less is more, mas acho que fundamentalmente 2013 é uma lição de back-to-basics a reter.


1. "La vie d'Adèle - chapitre 1 & 2" de Abdellatif Kechiche


2. "The Innkeepers" de Ti West

3. "Killer Joe" de William Friedkin (on-demand)

4. "Zero Dark Thirty" de Kathryn Bigelow

5.  "La fille de nulle part" de Jean-Claude Brisseau

6. "Passion" de Brian De Palma 

7. "Da-reun na-ra-e-suh"/ "Noutro País" de Hong Sang-soo 

8. "Insidious - Chapter 2" de James Wan

9. "Before Midnight" de Richard Linklater

10. "Mud" de Jeff Nichols

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

TCN Blog Awards 2013


Nos últimos TCN Blog Awards, o À pala de Walsh arrecadou dois prémios: o de Melhor Entrevista (a que eu e a Sabrina, com fotografias de Mariana Castro, fizemos a Sasha Grey) e o de Melhor Blogue Colectivo (a consagração maior, que nos deixa naturalmente contentes). O CINEdrio contava com uma nomeação, para Melhor Inciativa (pela sua Newsletter), mas acabou por não conseguir vencer o prémio. Pode consultar a lista final de vencedores aqui.

A qualidade e quantidade dos convidados surpreendeu, tal como me parece que nunca a cerimónia terá encontrado um tom mais justo, descontraído e natalício. Carlos Reis do blogue Cinema Notebook está de parabéns pelo trabalho imenso que tem realizado, uma dedicação que seguramente lhe sai do corpo e da carteira, dada a dimensão que os TCN Blog Awards atingiram.

Estar na blogosfera é cada vez mais um acto de resistência, por isso, daqui do CINEdrio saúdo todos aqueles que alimentam de informação e "amor à arte" os confins mais ou menos recônditos do ciberespaço.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Recorte de falas (XXXI): Escape Plan

O outro dia apanhei um ex-árbitro de futebol a dizer que a história das compensações é uma grande treta: se um árbitro erra para anular outro erro está apenas, muito simplesmente, a cometer dois erros. A reflexão é útil, faz sentido racionalmente, mas no cinema, por vezes, a lei das compensações funciona. Numa história de evasão presidiária - mais uma… - Sylvester Stallone, isto é, Ray Breslin, está algures entre o brutamontes e o MacGyver. Arnold Schwarzenegger, na pele de Swan Rottmayer, é o simples seguidor da arte da evasão de Stallone neste filme onde, de facto, a única coisa que coisa que se vende é ela: a evasão, a distração, o puro entretenimento vintage, numa espécie de reedição geriátrica de "Lock Up".

Stallone faz astrolábios com uma esferográfica e um pedaço de papel, arruma com um murro três ou quatro matulões, desmantela uma câmara de filmar ou mesmo todo o sistema de vigilância da prisão mais high tech do planeta, faz explodir um cargueiro com a precisão de dois ou três tiros disparados de um helicóptero… numa escada de resgate. A parte bruta de Stallone está marcada no seu rosto, no seu corpo, já a parte de astrónomo, demógrafo, químico, físico e informático de uma astúcia superhumana dificilmente convenceria se não se aplicasse, neste filme, um dado compensatório decisivo: em "Escape Plan" (2013), 50 Cent é o nerd informático de serviço. Ao pé disto (dele, digo), Stallone passa melhor por génio, num filme de gente indisfarçavelmente com mais massa muscular do que massa cinzenta.

Swan Rottmayer: You don't look that smart!

Ray Breslin: You don't either!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Edição Especial Natal da Newsletter do CINEdrio já online

(Para consultar a versão pública da Newsletter #24, clique na imagem.)

Esta edição, que homenageia o cinema de Jack Arnold, foi feita a pensar na época festiva. Tivemos, então, destaques a dobrar e ainda dois inquiridos, Francisco Ferreira e Carlos Alberto Carrilho.

Queria agradecer especialmente à Leopardo Filmes, pela parceria que inicia com a Newsletter do CINEdrio. É da editora o filme "Noutro País" de Hong Sang-soo que destacamos na rubrica Lançamentos Recentes. Na mesma rubrica, da editora Alambique, a quem agradecemos a atenção, destaco a bonita e dolorosa travessia "Lore". No âmbito dos livros, destacamos "Da Civilização da Palavra à Civilização da Imagem", mais um ponto de excelência da investigação levada a cabo por Olga Pombo. A edição é da responsabilidade da Fim de Século. O livro de Edgar Pêra "Hollywood: Estórias de glamour e miséria no império do cinema" chega-nos pela mão da Esfera dos Livros. Da Verso Books, foi um prazer ler a prosa bem burilada e muitíssimo arguta de Jim Hoberman no seu mais recente livro, "Film After Film".

Partilhe esta versão natalícia da nossa Newsletter e se não assinou ainda, aqui tem mais esta oportunidade:



sábado, 14 de dezembro de 2013

Lendário amor líquido

"Der Tiger von Eschnapur"/"O Tigre de Eschnapur" (1959) de Fritz Lang

"Tini zabutykh predkiv"/"Shadows of Our Forgotten Ancestors" (1965) de Serguei Paradjanov

(À Cinemateca Portuguesa.)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Killer Joe estreia em Portugal… directo em DVD*


Por muito destacado que o possamos pôr no nosso top do ano, o facto de "Killer Joe", um dos filmes com mais tomates do cinema norte-americano recente (a minha análise, com já dois anos, pode ser lida aqui), dizia, o facto de um dos mais selvagens, anarquistas ou estrondosamente imorais e insurrectos filmes dos últimos anos sair directamente em DVD* no nosso país já ninguém consegue anular. Recordo que "Killer Joe" esteve em Veneza e foi aí que William Friedkin foi apontado por uma boa parte (ou a parte boa) da imprensa como um dos mais do que possíveis vencedores do Leão de Ouro. (Este acabou por ser entregue ao horripilante e académico ou academicamente horripilante "Faust" de Aleksandr Sokurov.)

Apanhar no mercado de empilhamento de títulos supostamente "sem história" que é o direct-to-DVD* este ultrajante conto americano, com a maior interpretação masculina do ano de longe, pelo já inevitável Matthew McConaughey, é constatar que a coragem dos mais velhos não sai premiada no mercado, que o que o mercado quer - e o público não se queixa - é rotina, copinhos de leite e ignorância. Ou então quer apenas telenovela, como dizia João César Monteiro. O espírito crítico - e este é um filme em que a crítica é só corpo, hereticamente contra o espírito -  não vai longe num país onde as bolsas de resistência contra o monopólio crescente da pipocada são cada vez menos, em número e em força. Resta-nos alugar "a coisa" para provar que o público não se deixa domar pelos falsos confortos ideológicos. O acto terrorista, anti-sistema, do ano é alugar e ver "Killer Joe", como quem encomenda um balde de pernas de frango do KFC ou vai ao cinema divertir-se com "jogos da fome".

* - Na realidade, é preciso impor aqui uma ressalva: até agora, só apanhei o filme de Friedkin na oferta do MEO Videoclube. Não seria o primeiro título a sair directo no mercado (virtual) de aluguer e não ser sequer lançado em suporte DVD. Por isso, nem o DVD neste momento está garantido. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (XV)


O meu primeiro destaque do último mês no À pala de Walsh é o meu último destaque no CINEdrio: "La vie d'Adèle" de Abdel Kechiche. O Francisco Valente entrevistou o realizador, aquando do Estoril & Lisbon Film Festival e dedicou ainda a sua crónica Movimento Perpétuo a esse filme. O Ricardo Gross escreveu a crítica aqui.

Abrimos o mês de Novembro com a publicação do vídeo das primeiras Conversas à Pala, com a presença de Luís Miguel Oliveira e sob o signo do cinema de Fritz Lang. A não perder aqui. Ainda esta semana deveremos publicar a sequela, com Salomé Lamas como convidada. Posso adiantar que nas próximas conversas (#3) o convidado será o crítico de cinema do Expresso Vasco Baptista Marques e o tema principal "o balanço cinematográfico de 2013".

Redigi a crítica a "2001" - que responsabilidade! - e o resultado está à vista, e para ser posto à prova, aqui. Participei ainda na parceria que o À pala de Walsh celebrou com a primeira edição do Frames Portuguese Film Festival, festival do cinema português em Estocolmo. As folhas de sala são da nossa autoria e podem ser lidas aqui (em inglês).

Publiquei, finalmente, a entrevista que fiz a Mark Cousins quando estive na Polónia, a cobrir o festival New Horizons. Destaco ainda a entrevista a David Thomson, realizada pelo João Lameira com a minha assistência. Entretanto, saiu a escandalosa entrevista que eu e o Carlos Natálio fizemos a Albert Serra, o realizador catalão autor dos magníficos "O Canto dos Pássaros" e mais recentemente - ponto alto do ano - "História da Minha Morte".

Na Sopa de Planos deste passado mês o ingrediente comum foi reflexos. Nas Actualidades, como é hábito, eu e o Ricardo revimos a actualidade noticiosa através da perspectiva do cinema.

A edição de Dezembro está a cargo do Carlos Natálio. O prato forte será, inevitavelmente, o top geral e os tops individuais do ano feitos pela equipa do À pala de Walsh. Fique atento.

sábado, 7 de dezembro de 2013

La vie d'Adèle - chapitre 1 & 2 (2013) de Abdellatif Kechiche


Emma gosta de ostras. Adèle gosta de esparguete à bolonhesa. Os dados estão lançados: será possível uma vida a dois entre estas duas pessoas? Resistirá o amor ao apetite devorador de Adèle, ao seu gosto pela pele (assume, aliás, a Emma que nunca a deixa no prato), à sua atracção pelos fios (sempre invisivelmente azuis?) do esparguete à bolonhesa? Resistirá o amor à degustação mais "experimentada" de Emma, que não gosta de comer a pele da carne (carne que de modo algum recusa), que prefere engolir, num só movimento, o muco ranhoso das ostras?

Este amor terá de enfrentar o conflito gastronómico que é sempre um conflito sexual: a pele é a única coisa que interessa à câmara de Kechiche, sobretudo a pele do rosto e, porque a carne nunca fica no prato, tudo o que ele gera. A imagem-afecção está nas lágrimas, no ranho, nos cabelos despenteados, na boca que saboreia a bolonhesa, que chupa a ostra, que sacia o desejo pela carne e pela pele. (E o pathos sentimental estará numa explosão de lágrimas, numa explosão de ranho, numa explosão de desejo…)

Uma boca - a de Adèle é um monumento de expressividade, aliás, o rosto de Adèle é todo um décor de que não quereremos sair ou é ele que não sai de nós - que deseja amar e ama desejar outra boca (o sol une-as!), mesmo que nesta a degustação da bolonhesa não se faça tão bem como a ostra. Emma e a sua pele doce e o seu cabelo de esparguete. Adèle e as suas lágrimas e ranho e… frescura de ostra. Antes da união, da mudança de capítulos, cada uma provará um pouco de si pensando que prova um pouco da outra: Adèle as ostras de Emma e Emma o esparguete de Adèle. Mas já no início viramos quem tem o apetite mais descontrolado: Adèle lambe a faca, não deixando escapar o último fio de esparguete disponível. O seu apetite é descontrolado, mas, porque a faca pode ferir, também é auto-destrutivo. No jardim, antes de se beijarem pela primeira vez, Adèle gaba-se da sua capacidade para "comer de tudo"… menos, lá está, marisco. Emma diz que o seu prato favorito é ostras e daqui surgirá a única analogia gastronómico-sexual mais ou menos flagrante de todo o filme.

O filme de Kechiche é a história da vida de Adèle, mais concretamente, da vida do seu rosto, da adolescência à entrada na idade adulta. O rosto como lugar de mudança e o plano fílmico como topografia do rosto. Durante o filme, nós seguimos o rosto; depois do filme, é o rosto poderosamente belo, intoxicantemente jovem de Adèle que não cessa de nos percorrer. Com efeito, a câmara não renuncia a nenhum poro de Adèle, o seu apetite pela pele e pela boca (e faltará falar dos dentes…) é tão intenso que será impossível que cada gesto banal, quotidiano, não ganhe uma dimensão quase metafísica (até porque, como já disse, o sol une-as!). Nada há de mais humano que as cenas com comida, o mesmo diria sobre as cenas de sexo, mas as duas - e o poder da vida, como do cinema, também é esse - equivalem-se como partes de uma mesma e sublime ementa.

Como diz Adèle em entrevista, este é um filme sobre o acto de comer: "eu como, e eu como-a". Sabemos da importância que a comida tem no cinema de Kechiche - veja-se ou reveja-se "O Segredo de um Cuscuz" - e também já sabíamos como a sua câmara é táctil  - veja-se ou reveja-se "A Esquiva". "A Vida de Adèle" reduz estes "apetites" de Kechiche a uma relação triangular entre dois rostos e uma câmara (e não é ela aqui, sem voyeurismos, o lugar do nosso rosto?). A Palma de Ouro dada ao realizador e às duas actrizes faz, por isso, total sentido, ou não estaríamos aqui, ao contrário dos outros filmes do realizador franco-tunisino, na presença de uma fulgurante co-autoria. Tudo gira à volta dos gestos e dos seus efeitos no rosto de Adèle e é nele que enforma uma mise en scène feita de desejo, decepção e dor. Entenda-se o alcance deste gesto: a mise en scène é engendrada pelo rosto-cineasta de Adèle, não o contrário.

O que se cozinha aqui é o amor em todas as suas etapas. A discriminação está tanto no sexo como nos ingredientes: no limite, deverá uma pessoa que gosta de ostras juntar-se a uma pessoa que gosta de esparguete à bolonhesa? A pior propaganda queer fica definitivamente fora do prato (isto é, fora de campo), porque o amor (= o apetite de amar) não escolhe cores ou géneros, mas apenas ingredientes. Para mais, como todos sabemos, o apetite humano é, por natureza, muito variado e variável. Aqui, por exemplo, Adèle decide "engolir" a paixoneta heterossexual com um chocolate. Numa sequência como esta, vemos Adèle a saborear de boca vazia o rosto de Emma. Adèle deseja Emma como se a quisesse de facto devorar, roubando à faca, com a língua, cada um dos seus últimos fios azuis. Pelo menos em 2013 - e que o leitor aponte isto -, o amor serve-se quente como a bolonhesa e vivo como a ostra.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ângulo (branco e preto)

"L'eclisse" (1962) de Michelangelo Antonioni

"New York Portrait Part III" (1990) de Peter B. Hutton

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Imigrante

"The Immigrant" (1917) de Charles Chaplin

"The Immigrant" (2013) de James Gray

["The Immigrant" é a obra-prima dourada de James Gray, filme de uma subtileza, de uma delicadeza, de uma finura, de uma solenidade que só é reconhecível no grande cinema clássico norte-americano… começando precisamente no clássico homónimo e homólogo de Charles Chaplin e culminando em John Ford - e este é o filme mais católico de Gray -, filiação reflectida por Luís Miguel Oliveira aqui e que o próprio James Gray secundou após a sessão no Estoril & Lisbon Film Festival. Charlot é, na primeira parte, o cavalheiro que se mostra sensível à pobreza da donzela em apuros, que nos dois filmes é acompanhada por um familiar enfermo (irmã, no filme de Gray, e mãe, no filme de Chaplin). O interessante é que Charlot se revela menos inocente no fim, quando bruscamente atira Edna, a amada, para a casa do notário civil, parecendo precipitá-la pouco cavalheirescamente para o matrimónio. É um final abrupto, algo atordoante para o espectador contemporâneo. No filme de Gray temos o mesmo dar de mãos salvífico, no mesmo barco com imigrantes (o descendente de imigrantes Gray filma a Estátua da Liberdade, mais tarde "alegorizada" na figura de Ewa, com o desencanto do imigrante Chaplin). Também em sintonia está o subsequente empurrão para uma vida "sem saídas", uma liberdade escrava ou uma escravatura livre (walshiana?). A liberdade - a feminina liberdade, com tocha ou sem tocha - torna-se nestes dois clássicos numa questão de posse e de possessão. "The Immigrant", passado em 1921, e "The Immigrant", passado no ano da sua rodagem, ou seja, 4 anos antes, atracam assim no mesmo porto - "clássico = moderno", como diz Godard e actualiza Luís Miguel Oliveira no texto linkado acima.]

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Newsletter #24: Arnold


Jack Arnold, o homem da ficção científica e do western série B. Ou então: Jack Arnold, o poeta das metamorfoses do corpo e do coração. Ou então: Jack Arnold, documentarista político marginal (e pelos marginalizados) que fantasia com uma sociedade mais humanizada, definitivamente liberta de uma crença desmesurada na ciência (sintoma da era pós-nuclear?). Nos seus títulos mais célebres (como "It Came From Outer Space" ou "The Incredible Shrinking Man"), Arnold pega em intrigas fantásticas para as enquadrar sob o ângulo dos mais terrenos problemas humanos e societais. Nos anos 40 e sobretudo nos "decadentes" (decadência esplendorosa, como é claro) anos 50, realiza alguns dos filmes mais notáveis a saírem da fábrica Hollywood. É ele o herói do mês de Novembro, numa edição da Newsletter do CINEdrio especial de Natal, com destaques a dobrar.

No mercado home cinema, anunciaremos os lançamentos de uma caixa dedicada a Pere Portabella, "Museum Hours" de Jem Cohen (um dos melhores filmes de 2013), a série "Dekalog" de Kieslowski, uma caixa com filmes de Adolpho Arrietta, "Lore" de Cate Shortland, "El Dorado" de Howard Hawks em Blu-ray, a descoberta de caixas do cineasta finlandês Teuvo Tulio, grandes clássicos de Vidor e Stroheim finalmente em edições decentes no mercado, uma espantosa integral Eric Rohmer, a nova vida do filme omnibus "Body Bags" e muito mais.

Na parte dos livros, destacaremos o recente "Hollywood: Estórias de glamour e miséria no império do cinema" de Edgar Pêra, "Film After Film" de Jim Hoberman e "Da Civilização da Palavra à Civilização da Imagem" de Olga Pombo e António Guerreiro. Anunciaremos também lançamentos ou descobertas de livros sobre Ida Lupino, Ozu, os mais recentes trabalhos de Michel Chion e Raymond Bellour, um promissor título de Michael Witt sobre Godard, um conjunto de vídeo-ensaios de Peter Thompson, etc.

Ao nosso inquérito respondem o crítico do Expresso Francisco Ferreira e Carlos Alberto Carrilho do blogue There's Something Out There. Agradecemos a sua disponibilidade.

Deixamos também um agradecimento especial à Leopardo Filmes, com quem inauguramos uma pequena parceria.



domingo, 10 de novembro de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (XIV)


Com um ligeiro atraso, venho fazer o levantamento habitual do que escrevi para o À pala de Walsh. Começo pela minha crónica Civic TV, que mereceu no início do passado mês de Outubro um número dedicado ao fenómeno cult em torno de "Sharknado" e que já hoje, acabadinha de publicar, ensaia um diálogo particularmente malcheiroso entre cinema na televisão e actualidade jornalística.

A minha cobertura ao ciclo do DocLisboa "Moving Stills" foi resumida num artigo que pode ser lido aqui. Destaco também a cobertura que os quatro fundadores do site (mas sobretudo o Carlos Natálio) fizeram ao DocLisboa 2013, que pode ser lida aqui. Façam o favor de parar na entrevista que o Francisco Valente e a Mariana Castro fizeram a Alain Cavalier, em registo íntimo, quase secreto, como o cinema deste pedia.

Participei ainda nas habituais rubricas de contra-campo: ActualidadesSopa de Planos e, numa edição dedicada ao clássico maior de Jack Arnold (na imagem acima), Filme Falado.

À margem dos meus textos, queria destacar a verdadeira tese de mestrado sobre a representação ou apresentação da morte no cinema - e não só - que o Ricardo Vieira Lisboa produziu a partir de um filme esquecido e maldito de Blake Edwards, "Trail of the Pink Panther". Texto obrigatório para ser lido aqui.

Também queria destacar o primeiro texto que leio em português sobre o mais recente filme de David Mamet, estreado directamente na televisão americana. João Lameira escreve sobre "Phil Spector" aqui.

Por fim, cumprimento Ricardo Gross, o novo colaborador do À pala de Walsh, que se estreia no site com um bom texto de antevisão ao Lisbon & Estoril Film Festival, de quem somos parceiros mediáticos.  Já no âmbito deste festival, a Helena Ferreira produziu um texto que passa a pente fino praticamente toda a obra de Wong Kar-Wai. Aos fãs do cineasta de Hong Kong, recomendo vivamente que o leiam e partilhem.

Durante Novembro, eu serei o editor. As novas e promissoras entrevistas que prometi para Outubro foram adiadas para este mês. Também  posso prometer a publicação do vídeo da primeira Conversa à Pala, que teve lugar na Babel Cinemateca na passada sexta-feira e que contou com a presença especial do crítico do jornal Público e programador da Cinemateca Portuguesa Luís Miguel Oliveira. Estejam atentos.

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