De uma forma ou de outra, o cinema parece ser o grande protagonista nos seus filmes. Bogdanovich será, provavelmente, um dos cinéfilos mais incuráveis da geração dos movie brats, o que quer dizer que vive assombrado pelos grandes clássicos - tanto ou mais do que, por exemplo, um De Palma ou um Scorsese... O que corre por entre as paisagens e os rostos de "Last Picture Show" e deste "Paper Moon" que não uma genuína sentimentalidade clássica? Como dizia Jean Baudrillard, reportando-se ao primeiro, nada diria que estávamos a ver uma obra dos anos 70; poderia muito bem ser um filme dos anos 50, mas não é, definitivamente, um "filme de época".
Confesso que sentimento semelhante só tive aquando do visionamento de "The House of the Devil" de Ti West, filme que, não tendo NADA a ver com o universo formal e temático de Bogdanovich, se reporta aos anos 80 sem fazer disso qualquer tipo de pretexto nostálgico-revivalista, pelo contrário, "naturalizando" de tal maneira os sinais desse tempo, que surge como um filme "mais eighties" que muitos filmes que se fizeram na década dos coletes e dos walkmen.
Poder-se-ia dizer o mesmo de um "Last Picture Show" ou "Paper Moon": não são filmes "passados" nos anos 40/50, são antes, e sem fazer disso mais do que aquilo que é, são filmes dos anos 40/50, que se desenrolam ou não nesse período (no caso da acção de "Paper Moon" estamos no período da Grande Depressão, por exemplo). E é a partir desses anos, já de si de começo de despedidas do glamour do star system, da brincadeira adulta (muito adulta) dos grandes géneros cinematográficos, primeiras sementes de uma nova era que culminaria, precisamente, com o nascimento da geração de Bogdanovich... digo, é a partir desses anos em que este começou a ser mimado pela Sétima Arte que o realizador norte-americano desenvolve o seu próprio cinema.
O habitat de Bogdanovich são os grandes clássicos, mais especificamente, neste "Paper Moon" - mas também em "What's Up Doc?" ou mesmo no subvalorizado "Daisy Miller" -, são os diálogos fulminantes, as personagens (femininas) astutas, as intrigas rebuscadas dos grandes clássicos screwball (de Hawks, de Capra, de Sturges, de Cukor). Tatum O'Neill, a pequena endiabrada Addie Loggins, arrasta o seu suposto pai, que não assume a paternidade..., o burlão Moses Pray (Ryan O'Neill) para uma aventura "on the road" cheia de pequenos, e deliciosos, contra-tempos maquinados por essa criança com alma de adulto, ou melhor, que sabe como fermentar a sua inteligência aguçada com o seu espírito de criança - aquele que vê mais longe que o dos adultos, aquele que, como talvez só Mark Twain soube verbalizar, faz da sua condição "menor" motivo para auspiciosos "negócios" com os adultos apatetados pela vida.
Bogdanovich filma maravilhosamente esta screwball on the road, com uma distinção, sobriedade e, acima de tudo, uma justa medida muito dignas dessa tal "sentimentalidade" - que não se deve confundir com sentimentalismo - nascida das profundezas de uma vivência intensa do grande cinema clássico. "Paper Moon" não é, por isso, um filme nostálgico; é um filme clássico, com as "impurezas" dos anos 70 é certo, mas é, de facto, um filme clássico que não vive de qualquer truque pós-moderno auto-celebratório. Não, nisso Baudrillard tinha muita razão: quantos não errarão hoje ao tentarem adivinhar o ano da estreia de "Paper Moon"? E, por outro lado, caso errem ou acertem, o que é que isso importa?