quarta-feira, 11 de junho de 2008

The Happening (2008) de M. Night Shyamalan

Muito curioso: Shyamalan não mostra a cara neste filme. Talvez não tenha coragem de assumir que ficou sem ideias. Com efeito, "The Happening" é o seu filme mais certinho, na forma e no conteúdo (vazio), mas mesmo como entretenimento resulta frouxo. Em cada cena, esperamos pela próxima, rezando para que Shyamalan esteja a enganar-nos com sucessivos MacGuffins. Mas não, não há cartas na manga: é desinspiração pura, espécie de fac-simile ecológico, gráfico (o único R rated movie do realizador) e pateticamente lacrimejante de "Signs".

Claro que é melhor que a maioria dos filmes que vamos vendo no cinema, porque a câmara de Shyamalan, mesmo quando domada por... um qualquer objectivo encapotado de relançamento comercial de uma carreira, tem sempre momentos de alguma inventividade (exemplo da forma como enquadra várias personagens no mesmo plano).

Normalmente, os seus filmes fazem-nos rir, comovem-nos e arrepiam-nos. Em "The Happening", todas estas características são relativizadas: raramente nos faz rir, nunca nos comove e arrepia-nos tanto quanto nos entedia.

O argumento pode ter sido escrito a pensar em Mark Wahlberg, mas este não deixa de ser um dos pontos mais apagados do filme: para começar, Mark Wahlberg na pele de um professor de biologia é, desde logo, pouco credível; depois, chora perdidamente cena sim, cena não - uma "flor de estufa" que nada tem a ver com esses poços de energia viril, fria e quase boçal, que eram as personagens que interpretou, por exemplo, nos filmes de James Gray e, acima de tudo, em "The Departed", de Martin Scorsese. O mesmo para John Leguizamo, que nunca entra no papel.

A excepção (sim, aquela que confirma a regra) é garantida por Zooey Deschanel, cujo fácieis alucinado empresta ao filme um toque estético de estranheza, espécie de ponto de luz na fotografia banal de Tak Fujimoto (o mesmo director de fotografia de "Signs"). Ainda assim, Zooey está a anos-luz da magnífica Bryce Dallas Howard ("The Village" e "Lady in the Water").

Não gastemos mais palavras: "The Happening" é o pior filme de Shyamalan.

Ler mais aqui: IMDB.

6 comentários:

Paulo disse...

Também diria que é o pior, mas isso não é necessariamente mau. No entanto, concordo basicamente com tudo o que dizes, embora haja para ali momentos que conseguem arrebatar.

Luís Mendonça disse...

Este ano, lamentavelmente, está a ser fértil em grandes desilusões. Wong Kar-Wai, Wes Anderson, Alain Resnais, Francis Ford Coppola e agora Shyamalan fazem filmes que, a meu ver, estão muito longe do seu melhor. Claro que o caso de Coppola é de puro "horror", e que Shyamalan, mesmo quando está desinspirado, é melhor que muito subproduto de terror que Hollywood vomita todos os anos. Mas sabe a muito pouco, sobretudo, depois da sua maior obra-prima, "Lady in the Water", ter mostrado um universo no topo da sua criatividade e originalidade - virtude muito rara nos dias de hoje.

José disse...

a meu ver, o pior dele, ainda continua a ser "wide awake"...

Luís Mendonça disse...

Confesso que desde que li algures que o próprio Shyamalan considera que "The Sixth Sense" é a sua primeira obra, desinteressei-me por essa que é a sua primeira longa-metragem com visibilidade - recordo que Shyamalan, que não tem curtas na carreira, estreou-se com "Praying With Anger" (1992), obra de reduzidíssimo orçamento, mas muito pessoal: é protagonizada pelo próprio Shyamalan e fala sobre um teenager norte-americano que parte numa viagem de regresso às origens... na Índia.

Ainda assim, José, é bom que se fale de "Wide Awake".

José disse...

infelizmente nunca consegui ver o "praying with anger"....

quanto ao "wide awake" mesmo que ele diga isso, estão lá ps grandes temas da filmografia de nms. a fé, a familia, a inocencia. e claro, a reviravolta do fim que o ia imortalizar com o "six sense".

[já agora, não conhecia este blog. continua o bom trabalho]

David Santos disse...

Eu lamento discordar.
é o bom regresso de Shymalan.
Geriu de forma extremamente eficaz o suspense durante todo o filme, tão bem ao melhor que o Alfred Hitchcock ou que o Steven Spielberg no Tubarão ou mesmo o próprio em Sinais ou na Vila
O inicio é fantástico e prende-nos logo à cadeira.
Concordo no ponto em que o Mark Walberg não terá sido das escolhas mais acertadas.
Há semelhanças entre este Happening e o Sinais, a questão do pânico generalizado, a imagem da familia na banheira a ver a tv só falta o papel aluminio a fazer de cabeça.
Agora desilusões: falem do Indiana Jones.
Cumps

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