domingo, 8 de agosto de 2010

Inception (2010) de Christopher Nolan

A síntese

"Inception" (2010) , etc.

"The Matrix" (1999)

"Inception" (2010)

"The Matrix" (1999)

Não vou perder muito tempo com grandes reflexões em torno de "Inception" - pelo menos, por agora. Antes de mais, escrevo motivado pela forma como, a meu ver, este filme de Nolan tem sido injustamente banalizado por alguma crítica nacional, que por estes dias tem respondido reactiva e preguiçosamente com nota contrária à recepção histérica de muita crítica norte-americana. Normalmente, como aconteceu com "The Dark Knight", as unanimidades no outro lado do Atlântico são mau presságio, mas a regra tem de ter as suas excepções - e a crítica, em geral, deverá estar aberta a abraçá-las.

Veja-se como "The Matrix" foi, no seu tempo, reduzido a "filme da moda" irrelevante por todos aqueles que queriam pertencer ao clube das cine-filiações exóticas e bem parecidas. Veja-se como quem criticou mais "Avatar" foi, precisamente, quem mais linhas gastou a reduzi-lo ao seu gimmick tecnológico, fazendo desta publicidade negativa - mas, caramba, má publicidade é boa publicidade - arma de arremesso contra todos aqueles que queriam olhar "para lá" da cortina tridimensional - e reflectir sobre o conteúdo, irónico e pessimista, logo, genuinamente Cameroniano, deste filme, que, está visto, até fez o favor de aniquilar as três dimensões.

Auto-conexão colectiva

"Inception" (2010)


"Avatar" (2009), etc.

"The Matrix" (1999)


Menciono estes filmes porque "Inception" engole-os tematicamente com a sofisticação formal que reconhecemos no melhor Nolan, que, de forma extremamente hábil, faz com esta sua última obra uma espécie de correcção de rumo depois de andar perdido por Gotham City.

Se "Memento" era um exercício de montagem desafiante, "Insomnia" apostava num modelo formal de sobriedade clássica, assente numa história de mistério e acção centrada num inspector da polícia, que - e isto não é um pormenor, como o título bem indica- não conseguia dormir. Por um lado, tínhamos a montagem cinematográfica a juntar as peças do puzzle mental de Guy Pearce e, por outro, a história - línear, unívoca, não-fragmentária e ininterrupa como que em permanente "estado de vigília" - de um detective que precisava de resolver o mistério de um crime para, finalmente, fechar os olhos e dormir. No primeiro, Nolan exteriorizava a "condição" do seu protagonista; no segundo, surpreendentemente, resolvia interiorizá-la o mais possível, numa das melhores interpretações de sempre de Pacino, que, com o corpo, ia transferindo o interesse da história do crime para a sua batalha contra uma insónia (ou a sua consciência). Não era Pacino versus Robin Williams, era Pacino versus Pacino. Nolan mostrava-nos isso, inteligentemente, naquele final elegíaco.

Ok, falámos muito de outros filmes que não "Inception". Falemos então deste filme. Nolan, agora com os bolsos cheios de dinheiro, pôde voltar a estas temáticas, isto é, pôde voltar ao seu "universo", numa espécie de reafirmação autoral no coração da grande indústria, a mesma que se mostrou algo insensível quando lhe endereçou o convite para filmar o intragável "Batman Begins". Enfim, Nolan voltou a si mesmo e com vontade de fazer sínteses, ligando, armado com as mais talentosas estrelas americanas (adoro Page, Gordon-Levitt e acho Di Caprio um actor admirável - já para não falar dos Senhores Watanabe e Caine -) e os melhores efeitos especiais do mercado, o exercício formal de "Memento" ao assombramento interior, concreto, de "Insomnia".

(Di)visões oníricas (ou não)

"Inception" (2010)


"INLAND EMPIRE" (2006)

"Blue Velvet" (1986)

Nolan cola as peças do seu puzzle, que parecia esquecido - falo da sua obra, claro -, e eleva um dos edifícios narrativos e visuais mais arriscados que Hollywood construiu nos últimos anos. Eis uma elaboradíssima Arquitectura narrativa em torno de conceitos como os sonhos, as realidades paralelas, a memória e, finalmente, o próprio cinema - que é isso tudo ou quase.

Nolan faz, de facto, um "blockbuster de autor", mas a crítica não vê isso - porque, se calhar, já tinha o lápis, como a língua, bem afiado antes do visionamento. Arrisco-me a dizer que, "corrompido" por tantos dólares, Nolan vai mais longe que Lynch em "INLAND EMPIRE" na tradução espacio-temporal dos sonhos ou no questionamento (filosófico, não há que ter medo da palavra) das nossas realidades subjectiva e intersubjectiva.

Se Lynch se fica pela experiência sensorial, quase puramente plástica ou sugestiva - o mais freudiano "Alice no País das Maravilhas", qual Burton qual quê! -, Nolan torna-se "acessível" a uma intriga com pessoas lá dentro, concebendo uma obra em camadas que se vão amontoando na presença do espectador - em "INLAND EMPIRE", a certa altura, Lynch começa a brincar sozinho no quarto escuro com a sua casa de bonecas assombrada, enquanto nós, espectadores-voyeurs, assistimos a tudo isto perdidos, aprisionados, violados... entre-muros. É natural: somos expulsos de um território que deixou de ser nosso. Em "Inception" - porra, é um filme comercial -, estamos sempre em casa.

"Inception" (2010)

"eXistenZ" (1999)

Ao mesmo tempo, "Inception" é um exercício quase matemático, uma equação complexa que Nolan nos dará a desvendar muito depois das luzes da sala de cinema voltarem a acender - o mais lúdico T.P.C. É, também, um filme, ou melhor, é cinema. Digo: uma obra que, não se perdendo num excessivo auto-deslumbramento tecno-lógico ou ilógico, não cedendo à tentação de instrumentalizar a história de amor como um Deus ex machina esotérico, tão pífio quanto incongruente - o que acontece com o final desastrado de "The Matrix" -, vai surpreendentemente longe na concretização espacial da sua narrativa totalmente abstracta (ou mental). É que "Inception" tem cinema lá dentro, como nenhum filme de Nolan. É um "eXistenZ" sem o excesso viscoso, por vezes, auto-indulgente, de Cronenberg.

Arquitectura dos sonhos/a narrativa "matrioshka"

"Inception" (2010)

"Synecdoche, New York" (2008)


"Inception" é também um filme que Charlie Kaufman não escreveu, mas que podia tê-lo feito dentro da estrutura (i)lógica em estilo "matrioshka" de "Being John Malkovich" ou mais ainda de "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" ou do subvalorizado "Synecdoche, New York". Nas cenas do hotel ou entre divisões, lembra "The Matrix", mas, mais que tudo, a mise en scène de David Lynch, com semelhante cuidado na iluminação, na escolha de adereços e no posicionamento dos "corpos" no espaço.


"Inception" (2010)

"Shutter Island" (2010)

Curiosamente, "Inception" também poderá rimar com um dos grandes filmes deste ano, "Shutter Island". Nos dois, Di Caprio vê-se obrigado a enfrentar - em sonhos ou fora deles... - a memória da mulher recém-falecida e, em ambos os filmes, entrecruzam-se inúmeras linhas de acção, cujo denominador comum é, precisamente, essa "luta interior". Por outro lado, em ambos, o slow motion é usado como grande efeito especial - e aqui detectamos um retorno a um certo primitivismo hiper-cinéfilo (também o filme de Scorsese é um cocktail de referências e estilos cinematográficos, uns vivos, outros mortos).

Enfim, face a tudo isto, pergunto, especialmente aos detractores, o seguinte: se a indústria é uma inevitabilidade, não será melhor que o dinheiro seja canalizado para filmes com ideias, que nos põem a pensar (nos seus Conceitos/Imagens), ao invés de ser usado para financiar filmes de acção vazios, com ruidosos efeitos especiais e uma história previsível e, tantas vezes, repetitiva, a servir de pretexto a autênticas "demonstrações de software"; mais Emmerichs e menos Nolans? Como fundamentam o ataque a "Inception" em face do que é, hoje, o mainstream norte-americano? Enfim, ficam as perguntas. Quanto a mim, foi o blockbuster mais divertido e inteligente que vi em muito muito tempo: acima de "V for Vendetta" e, inclusivamente, acima de "The Matrix".

11 comentários:

Sabrina Marques. disse...

"É que "Inception" tem cinema lá dentro, como nenhum filme de Nolan."

!!!!
Este post tem urgência e traz verdade, pois parece ser tantas vezes necessário relembrar à camada cinéfila que os filmes de acção - cuja existência é inevitável! - podem e devem trazer cinema, e que apreciá-los construtivamente não corresponde a um desnivelar do gosto em direcções convergentes à procura mainstream e das bilheiras...
Se é certo que o snobismo elitista - estupidificante - por parte da maioria dos críticos parece ter medo é treinado em fazer a má-publicidade em vez do invés, que incentivasse a ida do público ao cinema , hábito que está tão em crise, continuo a achar impressionante as recorrências da má-vontade e a verborreia balística, pronta a disparar semanalmente sem dó (nem inteligência) sobre as várias frontes que não se coadunem com uma certa linha muito restritiva, que é perceptível a cada um dos críticos, com um mínimo de acompanhamento.

Luís Mendonça disse...

É bem verdade, isso que dizes: "a maioria dos críticos é treinado em fazer má-publicidade". Parece que não gostam de cinema, ou querê-lo-ão só para eles? Por isso viro-me cada vez mais para autores como David Bordwell, que analisa o cinema no seu todo como uma grande narrativa de imagens intercomunicante, que se vai alimentando, do McTiernan ao Wong Kar-wai - aliás, é interessante ver o estudo que ele faz da escala e fotografia do "Slumdog", filme que detesto, mas que, lá está, ele levou-me a vê-lo. Já alguém dizia, no nascimento do cinema, que se há coisa espantosa neste medium é que até os maus filmes são bons. A nossa elite cultural ligada à Sétima Arte adora menosprezá-los.

Quanto à crise que referes. Não é uma crise de bilheteiras, nem se calhar será uma crise de pipocas, mas, curiosamente, há uma crise reflexiva. O cinema não é discutido, falado abertamente, há um fechamento quase ditatorial de tudo o que são ideias novas ou velhas, originais ou gastas... ninguém está para aí virado. Querem o seu Roland Emmerich e já está. A crítica está pouco preocupada com este fenómeno, porque parece presa a uma espécie de visão clubística do cinema: os do Nolan contra os anti-Nolan, os do Boyle contra os anti-Boyle. Enfim... também há aqueles que preferem escrever sobre os mesmos temas ad nauseum e olham para a análise cinematográfica como uma coisa estática - e insistem em fazer críticas tipificadas, do estilo "história-análise-conclusão". Mas, depois, são capazes, a meu ver, cinicamente, de lamentar que já não se escrevam as críticas que um Godard escrevia; já não se perdem caracteres a descrever um plano! Pois não, já ninguém sabe o que é isso, um plano! Já ninguém sabe por que raio vai ao cinema, por que raio GOSTA de cinema!

Sabrina Marques. disse...

Sabes que eu dou esse mesmíssimo murro na mesa!
Tem sido uma discussão recorrente, a que nos remete para a necessidade geral de que se convoquem novas formas de olhar - em quaisquer plataformas - em vez de embalar o público nas cadeiras de lona do entorpecimento.
Para isso já basta a televisão - que, infelizmente, é um permanente alvo de CRÍTICA A MENOS!

Carlos Natálio disse...

Bom está visto que tenho mesmo de ver "Incepcion" e espero, sem cinismo, que tenha mesmo todo esse cinema lá dentro. Acho muito interessante essa concepção de Bordwell sobre a narrativa de imagens inter-comunicantes, porque na verdade, pelo menos para mim, o que mais gozo me dá é tentar encontrar pistas de reflexão em filmes menores, e é verdade que as há. Como se fossem trilhas inexploradas e possíveis.
Assim como é também verdade que há pessoas que têm uma espécie de grelha implacável segunda a qual filtram os filmes, sem pensar neles em concreto. Ou seja, pensam mais nos limites estereotipados que impõem entre o valor e não valor na história do cinema, e por decorrência pensam neles próprios, e menos nas obras em si.
Sobre a descrição dos planos, lembrei-me da célebre contestação da Susan Sontag contra a interpretação. Segunda ela interpretar é desvirtuar a natureza de um objecto artístico. Portanto, resta-nos a descrição do que lá está, o mais objectivamente possível, com os seus planos e imagens. Ou então, a referência ao nosso estado interior, o impacto emocional que o filme provocou. E o curioso é que a crítica Cahiers estava sempre entre estes dois pólos: violentíssima e caricata na assumpção dos estados subjectivos e do outro lado, descritiva. Interpretações, mais semióticas regra geral, eram guardadas para estudos transversais sobre autores. Bom, mas regras é uma coisa difícil de aceitar. Olhem o que o Bénard fazia da interpretação...
E sim é importante discutir as imagens. Mas elas entram a uma velocidade tão grande nos olhos de toda a gente que há pouco tempo para pensar no que se viu. Se é que se viu alguma coisa. E por isso triunfa, porque a nossa mente é de hábitos, a perspectiva quantitativa sobre a qualitativa, ou seja, as pessoas preferem ver muito, indiscriminadamente, a ver com qualidade. Eu penso que a civilização da imagem sofrerá uma certa “queda” e que nos próximos anos vamos aprender a lidar com este turbilhão de forma mais apaziguada.

Carlos Natálio disse...

Bom está visto que tenho mesmo de ver "Incepcion" e espero, sem cinismo, que tenha mesmo todo esse cinema lá dentro. Acho muito interessante essa concepção de Bordwell sobre a narrativa de imagens inter-comunicantes, porque na verdade, pelo menos para mim, o que mais gozo me dá é tentar encontrar pistas de reflexão em filmes menores, e é verdade que as há. Como se fossem trilhas inexploradas e possíveis.
Assim como é também verdade que há pessoas que têm uma espécie de grelha implacável segunda a qual filtram os filmes, sem pensar neles em concreto. Ou seja, pensam mais nos limites estereotipados que impõem entre o valor e não valor na história do cinema, e por decorrência pensam neles próprios, e menos nas obras em si. (continua no próximo commment, eh eh)

Carlos Natálio disse...

Sobre a descrição dos planos, lembrei-me da célebre contestação da Susan Sontag contra a interpretação. Segunda ela interpretar é desvirtuar a natureza de um objecto artístico. Portanto, resta-nos a descrição do que lá está, o mais objectivamente possível, com os seus planos e imagens. Ou então, a referência ao nosso estado interior, o impacto emocional que o filme provocou. E o curioso é que a crítica Cahiers estava sempre entre estes dois pólos: violentíssima e caricata na assumpção dos estados subjectivos e do outro lado, descritiva. Interpretações, mais semióticas regra geral, eram guardadas para estudos transversais sobre autores. Bom, mas regras é uma coisa difícil de aceitar. Olhem o que o Bénard fazia da interpretação...

E sim é importante discutir as imagens. Mas elas entram a uma velocidade tão grande nos olhos de toda a gente que há pouco tempo para pensar no que se viu. Se é que se viu alguma coisa. E por isso triunfa, porque a nossa mente é de hábitos, a perspectiva quantitativa sobre a qualitativa, ou seja, as pessoas preferem ver muito, indiscriminadamente, a ver com qualidade. Eu penso que a civilização da imagem sofrerá uma certa “queda” e que nos próximos anos vamos aprender a lidar com este turbilhão de forma mais apaziguada.

Luís Mendonça disse...

A tua resposta só prova que, de facto, estes "filmes menores da indústria" podem levar-nos a falar (quase ontologicamente) do que é o cinema e das maneiras de o ver e pensar. Sontag, Cahiers, Bordwell... e tudo começou com um blockbuster para as massas.

Luís Mendonça disse...

Só mais uma coisa, relativamente aos Cahiers: é curioso porque se há revista que sempre procurou articular os "sinais" da grande indústria com o cinema menos dependente foi precisamente os Cahiers. Já agora: a política de autores nasce na análise ao mainstream americano!

Carlos Natálio disse...

Sim, sim, claro. Mas longe vão os tempos onde só o que era "belo" era objecto de contemplação. O que eu também gostava de referir é que na actividade da boa crítica artística (e os cahiers fizeram-no de forma sublime) há uma dose de criatividade/originalidade que tornam muitas vezes quase acidental a colocação de certos autores nas boas graças. E é isso que de certa forma me fascina nesta área: não tanto o meter obsessivamente filmes em "caixotes" do bom e mau, mas sim permitir-te prolongar com as tuas palavras o universo ficcional/reflexivo que o filme te dá. Nesse sentido é possível (e atenção, sem diabolizar ou endeusar a obra em casa) escrever algo interessante que te faça pensar mesmo que o filme seja um pastel. O que acredito não será o caso de Inception, by the way.
Abraço,

João Palhares disse...

Se me é permitido;
"Inception" merecia uma análise por parte da crítica pelo objecto que é: um produto da Indústria com ambições "filosóficas" e minimamente inteligente. Seja bom ou mau (eu acho-o razoável) é, de facto, melhor que o público veja filmes destes do que bays ou emmerichs.. mas onde andam os McTiernans (já não faz filmes há algum tempo) e os Camerons dos anos 80 e 90?; esses, talvez, merecedores da denominação "blockbuster de autor" (mesmo assim, forçada, talvez) que, pessoalmente, me parece exagerada para o filme do Nolan como "autor" para o Nolan. Por todas as obsessões que possa ter pela mente humana e pelo inconsciente e por muitos anos que tenha dedicado ao projecto não me parece que o mereça. De resto, há realizadores bem mais interessantes a trabalhar no mainstream e com grandes orçamentos, como o Mann ou o Shyamalan.

Enfim, gostos de lado, o filme do Nolan (como o Avatar, há um ano), apesar das suas qualidades ou defeitos, é filme essencial para perceber a evolução da indústria norte-americana, que tem vindo a tentar atrair público e gerir propostas evolutivas (seja a nível técnico ou narrativo), nesse sentido.

Sobre ninguem gostar, já, de Cinema; é, provavelmente, verdade mas não se pode marcar a barreira pelos que vêem Cinema em Inception e os que o não vêem... A crítica em Portugal, porém, também me entristece. Mesmo as críticas de Luís Oliveira e João Lopes (que são os críticos que mais gosto) ao Inception parecem menos sobre o filme em si e mais um fortalecimento de um discurso que lhes convém defender, é "usar" o filme, se assim se pode dizer...

Bem, concluindo, digo apenas que o post é, realmente, urgente e necessário e a discussão que ele fez surgir, também.

Luís Mendonça disse...

É, confesso que não li a crítica do João Lopes, mas li a do Luís Miguel Oliveira. Crítico que - já o explicitei várias vezes, até ao próprio - gosto muito e com o qual me identifico bastante, mas, neste caso, de facto não concordo minimamente com o que escreve.

Não acho o filme minimamente auto-explicativo, até digo mais: a contextualização deste filme é imediata e não se perde com grandes "construções" (por ex. são descartadas informações sobre quem inventou aquela tecnologia, como é que ela funciona concretamente, qual o historial da empresa para a qual o Di Caprio trabalha, etc.).

Na realidade, o filme introduz o conceito complexo de extracção em apenas alguns minutos, para, logo de seguida, introduzir a sua reinterpretação: o conceito de indução, ou seja, não há nenhum tipo de auto-deslumbramento que leva Nolan a "namorar" filosoficamente a ideia principal; um conceito é introduzido e, pouco depois, já está a ser desafiado em toda a profundidade (sendo a indução o processo inverso ao da indução). Já tive também oportunidade de dizer que até acho que se percebe bem o tal trabalho de vários anos que Nolan teve na redacção do argumento, porque a contenção no desenvolvimento das ideias é, para mim, tão evidente quanto isto: somos lançados para um filme, que suspeitamos ser mais do que um derivado de 007, pela sua ambiência "deslocada" (e o seu início enigmático). Até parece, arrisco dizê-lo, que "Inception" é a sequela de um filme que não foi feito tal o "desinteresse" que Nolan mostra pela sua ideia original (de extracção).

Enfim, depois também acho que visualmente/conceptualmente Nolan está no topo da sua forma, sabendo como traduzir uma ideia complexíssima numa narrativa fluída, quase línear na sua construção simples em espelho - excelente a cena em que Page "multiplica" até ao infinito o reflexo de Di Caprio -, uma técnica simples de crosscutting que concilia os diferentes níveis de sonho e é simplificada pelo (complexo - daí a habilidade paradoxal de Nolan -) jogo de relativização dos tempos entre a "realidade" e o sonho, e o sonho e os sonhos que se formam lá dentro...

Nolan, tirando uma ou outra cena vistosa, trabalha muito em ou entre divisões e edifícios arquitectonicamente arrojados, uma interioridade/exterioridade não-psicológica ultra-inventiva que desafia o espectador a pensar não só sobre as "realidades paralelas", mas, antes de mais, a pensar sobre a própria dimensão onírica ou virtual do cinema.


Mas a minha defesa de "Inception" vai bem mais longe que o algo condescendente "entretenimento de qualidade" que o próprio Mário Torres invoca. Como aponto logo no início do meu texto, só agora, com "Inception", é que fica clara a dimensão de obra na carreira de Nolan; a tal síntese era fundamental que tivesse sido feita depois de dois filmes (que, na época, me pareceram) tão diferentes como "Memento" e "Insomnia". Essa síntese não foi feita nos "Batman", mas só agora -- e, contudo, Nolan fê-la no coração da indústria, como o que aconteceu com outros grandes realizadores mainstream, entre eles, o próprio Spielberg (de "Duel" para "Jaws").

Mann e Shyamalan são grandes autores de cinema, que têm actualmente uma relação muito menos pacífica com o mainstream do que tem o Nolan - o que, até devo dizer, me faz ficar ainda mais surpreendido com o filme que é "Inception".

Com tanto dinheiro em mãos - e expectativas da indústria e do grande público -, o homem que há pouco tempo fazia "Memento" está mais próximo do que nunca de si - ou de uma "existência" autoral.

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