quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Marty (1955) de Delbert Mann


Cheio de moralzinha de Hollywood, com personagens desgraçadinhas, reduzidas a estereótipos que não se percebe se pertencem à sociedade norte-americana ou se pertencem à dita moral OFICIAL, com probleminhas que só acentuam o auto e hetero-miserablismo reinante e uma concepção primária, infantil mesmo, de felicidade... Cheio de tudo isto está "Marty", filme vencedor de quatro Óscares em 1955, ano em que os códigos de decência levavam alguns arrombos importantes por dentro (exemplo de Otto Preminger), algo que tinha de ser rapidamente debelado pela Grande Indústria.

A "chapada" final de Marty ao seu amigo solteiro pode ser visto por muitos como um acto redentor, mas é, quanto a mim, hoje, no século XXI, um gesto cínico do "Marty"-filme de perpetuação da feição mais tradicional da sociedade americana, dividida entre casados e solteiros, entre casados felizes/infelizes e viúvas solitárias, entre isto e aqueleoutro. As divisões morais são motivo para cada cena de "Marty", onde cada fala é aproveitada para pregar ao espectador a história da carochinha: quem quer casar com o homem gordo e feio que, aos 30 e tal anos, lida com a sufocante pressão social de ser um solteirão?

Ele é um "dog", isto é, a espécie de pessoas com quem ninguém quer dançar nos bailes ou com quem ninguém quer ir ao cinema ou jantar. A forma como a existência do protagonista se resume sempre entre o ser solteiro e o estar à beira de não o ser é, para além de um exercício degradante de comiseração - pena mesmo... -, de um oportunismo moral completo. Mas o amor aqui é uma questão de status, tudo na sociedade americana é. Para deixar de ser um dog, uma pessoa de segunda, Marty tem de arranjar mulher. E ele fará de tudo para arranjar, provando a si e ao espectador que, mesmo sendo um homem gordo e feio, conseguiu o que a sociedade ditou que ele queria.

Valeu-lhe a sua generosidadezinha auto-comiserativa e valeram-lhe também os astros. Recordo que a rapariga com quem Marty passa a noite a conversar - a sua futura mulher... - parecia deslumbrada, no início, por um sujeito indecoroso, mas bem parecido, "not a dog", que lhe deu com os pés mal conseguiu, tratando-a abaixo de cão. Mas ela só quer um homem e Marty só quer uma mulher. Não interessa muito, no fundo, se isto é um filme sobre dogs que se casam com dogs para deixarem de ser dogs e not dogs que se casam com not dogs para levarem uma vida de cão - o casal de bonitos deste filme sofre tanto, coitado... Coitados eles e coitados, também, homessa!, os feios. Coitados todos, coitada a humanidade entretida na sua própria domesticação moral e intelectual - caninazinha ou não.

5 comentários:

Sabrina Marques. disse...

divertiste-te a escrever isto, suponho?

cumps.

Luís Mendonça disse...

hehehe mais que a ver o filme, por quê? :)

Sabrina Marques. disse...

Para mim, a única maneira de desculpar este género de descrições de ódio ou, pior, de irritação, é se daí houve um prazer regenerativo sincero e necessário, muito bem legitimado fora da gratuitidade.

Sabes tão bem ter energia para a elevação, que não me parece que valha a pena o esforço, por muitos e distintos motivos, de dedicar palavras a um filme tão datado como este, que, para mais, não se implica directamente no estado concreto do cinema ou da sociedade de hoje.

Luís Mendonça disse...

Acho que é um filme simplista que Hollywood premiou para precisamente conservar um modelo de cinema - uma moral - que estava a ser desafiado (a).

Sabrina Marques. disse...

Está bem!
Cumps.

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