domingo, 1 de agosto de 2010

Syndromes and a Century (2006) de Apichatpong Weerasethakul

Os "eclipses" de "Syndromes":

Primeira Parte



Segunda Parte


O cinema de Apichatpong parece caminhar, a passos largos, para a derradeira fusão entre a instalação audiovisual e o cinema - aliás, é o próprio que diz que ambos os media pertencem ao mesmo reino.

Apesar de não possuir o poder encantatório de um "Tropical Malady", "Syndromes and a Century" leva mais longe o nível de abstracção sensorial característico do realizador tailandês, sobretudo, ao traçar uma linha divisória ultra-conceptual a meio do filme: uma primeira parte explora, esparsamente, alguns esboços de plot que se perdem no tempo com a mesma facilidade com que a câmara vai sendo atraída pelos sons da floresta que ressoam na interioridade futurista dos corredores branco asséptico de uma clínica de saúde; e uma segunda parte, que se inicia na repetição da primeira, mas que se detém na subtracção das marcas VISÍVEIS do humano e da Natureza, deixando à câmara, só no espaço fechado - sem luz natural -, a tarefa de transformar o vazio numa narrativa própria, mediante a sua "levitação" em tal set insondável, digno de um filme de ficção científica. (Bem que "Syndromes and a Century" poderia ser descrito, para quem já viu algum filme de Apichatpong, como o seu "2001".)

Aliás, este filme de Apichatpong, espectral e cosmológico, antecipa exercícios seus subsequentes, como "A Letter to Uncle Boonmee", a curta embrionária da sua recente Palma de Ouro*: aí, o humano é quase abafado pela floresta, os espíritos que a povoam em surdina e, enfim, a própria câmara, que se move pelo impenetrável dos bosques com uma graciosidade impossível. Há qualquer coisa de profundamente inefável, ou inclassificável, que torna este cineasta e cada um dos seus planos num dos enigmas mais interessantes do cinema actual. "Syndromes and a Century" é a nova verificação disso mesmo.


* Sobre "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives", recomendo vivamente o visionamento da conferência que Apichatpong deu em Cannes sobre este seu último filme e demais obras.

5 comentários:

Sabrina Marques. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luís Mendonça disse...

Sim. Mas, atenção, como digo no texto, "A Letter to Uncle Boonmee" é a curta que deu origem ao filme que ganhou a Palma. Esse ainda não vi, mas espero ansiosamente. Avaliando pelo magnífico trailer - e pela magnífica curta - , deve sair daqui grande filme!

Carlos Natálio disse...

Preferes esre Syndromes ou o Tropical? Ainda não vi este mas o Tropical é maravilhoso. O Apichatpong, apanhei no outro dia uma entrevista na CNN, é muito calmo a falar e parece ser uma pessoa extremamente inteligente.

Luís Mendonça disse...

Prefiro o "Tropical Malady", que é um ovni visualmente assombroso. Agora, "Syndromes" oferece coisas que não estão no "Tropical Malady", como um experimentalismo sonoro e imagético levado ao limite. A câmara desprende-se das narrativas, desinteressa-se delas, como se tivesse sobre elas uma espécie de "autoridade poética". Enfim, vê. E, se conseguires, vê o "A Letter to Uncle Boonmee" para ficares a salivar pela Palma. :)

Carlos Natálio disse...

Tenho de os ver. Já estou a salivar! Já devo ver O Uncle Boone em Portugal.

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