"Kiss Me Deadly" é um film noir muito especial. Percebemos isso logo nos primeiros minutos, em que vemos uma mulher semi-nua a correr desesperada, ao longo de uma estrada. Os carros passam, ignorando-a... até que esta decide colocar-se à frente do carro daquele que irá ser o protagonista do filme: Mike Hammer (Ralph Meeker). Os minutos seguintes são decisivos: "remember me", diz a mulher a Hammer, segundos antes desta morrer e ele ficar ferido, e amnésico, na sequência de um desastre de viação com muito pouco de acidental...A partir daqui, é noir puro: Hammer inicia uma investigação particular, começa a ligar variadíssimos nomes (o enredo é difícil de seguir, como um "The Big Sleep" ou "Murder, My Sweet") e, entrementes, seduz várias mulheres, algumas loiras (venenosas?) e uma morena (aquela que verdadeiramente ama). O mais especial nesta obra-prima de Robert Aldrich é, para além da sua extrema negridão e violência (a lembrar, a espaços, esse autêntico mergulho no abismo que é "Nightmare Alley", filme maldito de Edmund Goulding), a forma como paulatinamente vai perdendo o contacto com a realidade, deixando que a paranóia se apodere da história como um vírus.
Perto do fim, "Kiss Me Deadly" desliza para uma espécie de vertigem horrífica, só comparável a um David Lynch, mais concretamente, ao seu noir revisionista, "Mulholland Drive" - o que esconde a caixa misteriosa a que todos querem deitar mão?
Aldrich filma este noir febril e demencial, seguindo um objectivo claro: a cada plano, uma obra de arte. Com a câmara em posições inauditas, a sublinhar permanentemente a estranheza da história-pesadelo de Hammer, Aldrich constrói uma teia de imagens plasticamente notáveis e engenhosas. Singular.

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