terça-feira, 2 de dezembro de 2008

La frontière de l'aube (2008) de Philippe Garrel

"La frontière de l'aube" (2008) é um poema visual sobre os dois amores de Garrel (pai) e Garrel (filho): o primeiro é louco, indómito, obcecante, refractário, impossível, agitado e contraditório como uma revolução violenta dos sentimentos; o segundo é brando, meigo, inofensivo, indulgente, programado e, porque aqui o amor também é uma questão política, "aburguesado". Onde a paixão fervilha no primeiro, a resignação a uma história de amor "típica" cava fundo no segundo. Garrel e Garrel, o reflexo do pai no filho e vice-versa, são os realizadores (cineasta e fotógrafo) que procuram suspender esses amores no tempo, numa espécie de jogo ritualizante entre a vida e a morte, entre o que a câmara capta - e eterniza - e o seu objecto, que, fora dela, se deteriora e morre. É com Philippe Garrel que nos apercebemos que a arte se faz nessa fronteira ténue que separa a vida (e nela os sonhos) da morte (e nela a "outra vida").

Daí a metáfora do espelho como ponto de contacto entre dois mundos (que no filme são os tais dois amores), mas em "La frontière de l'aube" a simbologia vai, a nosso ver, mais longe: há os espelhos do filme e o outro que deseja (voyeuristicamente) capturar uma realidade, que por nunca ser presente, é sedutora e fatal. Veja-se a forma como a câmara de Garrel (pai) procura fugir, na segunda parte do filme (segundo amor), de um passado que a persegue porque já foi filmado (primeiro amor). Uma das cenas mais belas do filme é aquela em que Garrel (filho) se reencontra com Carole, depois desta ter saído do hospital psiquiátrico: numa total rejeição do campo-contra-campo clássico, o diálogo no café é filmado num longo plano-sequência que "inventa" no reflexo de um espelho o contra-campo de Louis Garrel. É o momento que marca uma viragem; o prenúncio do "salto" que Garrel dá no fim.

A estabilidade de Garrel (filho), que entretanto curiosamente passou a fotografar muito menos, é acompanhada por uma maior rigidez formal da câmara. Mas o filme (espécie de subconsciente da câmara aqui) não cessa de (n)os puxar para os fantasmas de um amor que superou a sua própria desmaterialização. Garrel (filho) é então enfeitiçado pelo seu reflexo, que é interior e ainda pertence ao passado. A imagem de Carole (primeiro amor) assombra os sonhos, tal como a vida, de Garrel; ela tornou-se mais interior e profunda que a imagem de Ève (segundo amor). Esta descoberta quase necrófila do amor verdadeiro é qualquer coisa que lembra Preminger e Lang. A fotografia miraculosa de William Lubtchansky, com o seu claro-escuro ofuscante e saturado de grão, dá a textura ideal a um universo de semi-vivos. A certa altura, Garrel diz a Carole "nós somos as pessoas que dormem" - este é o registo de "La frontière de l'aube", espécie de sonambulismo no limiar da morte.

Aliás, é curioso ver como num filme sobre relações entre homens e mulheres o sexo é quase sempre preterido ao sono. E daí a importância fundamental do último plano do filme: imagem de um corpo, esvaído em sangue, estendido no chão não como um morto mas como quem dorme um sono sereno e... libertador. A imagem mais violenta de todo o filme é uma imagem de pacificação ou a expressão emancipadora de um amor selvagem, romântico e puro ou, retomando uma expressão que melhor cabe em "Les amants réguliers", "desaburguesado". Com ele, Garrel passa para o outro lado: da vida, do espelho, da câmara... e o filme acaba quando o amor (re)começa.

Ler mais aqui: IMDB.

3 comentários:

Sara disse...

que bonito...

M. disse...

acabei de vir do cinema, do filme, e quero dar.te os praabéns pela critica. caramba.

Nuno Gonçalves disse...

Um dos grandes filmes do ano certamente.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...