Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Pausa

Como já devem ter reparado, o blogue tem estado muito parado nos últimos meses. Isto deve-se, como sempre, à falta de tempo e, também, a algum cansaço. Neste momento, ponderamos suspender este espaço por tempo indefinido até que encontremos um formato mais leve que se coadune melhor com a nossa vida.

No próximo ano curricular, ano de tese para nós, haverá maior disponibilidade para voltar a escrever posts, aqui ou num novo projecto. Não fechamos, por isso, as portas do CINEdrio nem tão-pouco nos despedimos definitivamente da blogosfera. Por tudo isto, deixamo-vos, por ora, com um "até breve!".

"Adieu Philippine" (1962) de Jacques Rozier

PS: Continuarei a escrever regularmente no fórum Peeping Tom, um verdadeiro espaço de discussão e divulgação da Sétima Arte que muito prezo e recomendo.

Sábado, 4 de Julho de 2009

Behaviorismo ou como é que as pessoas (re)agem

"Le fantôme de la liberté" (1974) de Luis Buñuel

"Mon oncle d'Amérique" (1980) de Alain Resnais

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

A pré-visão de Marker: a imobilidade fetichista na era do digital

"La jetée" de Chris Marker

The slowing down and the stilling process opens up new areas of fascination, especially with the human figure. Certain privileged moments can become fetischized moments for endless and obsessive repetition, while looks or gestures can suddenly acquire a further dimension of fascination once freed from their subordination to narrative.

Laura Mulvey, «Stillness in the Moving Image: Ways of Visualizing Time and Its Passing», in Cinematic

The pause and rewind buttons along with online viewing have made analysts of us all to some extent.

David Company, Photography and Cinema

Etc.

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Cannes 2009: a Palma que falta dar e as outras (V - fim de votação)

O Festival de Cannes já começou e, por isso, fechamos as urnas da nossa sondagem sobre a mais acertada Palma de Ouro dos últimos 8 anos. Apesar de alguma divisão inicial e um certo tête-à-tête final entre o filme de Van Sant e o de Polanski, a maioria acabou por premiar de novo a obra-prima "Elephant", que obteve mais dois votos que "O Pianista" (35% contra 27%). "A Turma", a Palma do ano passado, ainda beneficia do hype que gerou na crítica e no público. O seu brilhantismo permanece bem fresco na mente de, pelo menos, três dos votantes (12%). O mesmo parece acontecer com a pungente obra de Cristian Mungiu, que também recebe três votos (12%).



Nanni
Moretti e o drama familiar "O Quarto do Filho" recebem dois votos, deixando para os últimos lugares "Brisa de Mudança" de Ken Loach, "A Criança" dos irmãos Dardenne e, com zero votos, "Farenheit 9/11". Curiosamente ou não, é nestes filmes que encontramos alguma ponte com a actualidade: Ken Loach está de novo na competição pela Palma com "Looking for Eric", protagonizado pelo jogador de futebol Eric Cantona, e Tarantino ("Inglorious Basterds"), que presidiu ao júri que atribuiu a Palma a Michael Moore por "Farenheit 9/11", é o único americano na competição oficial.

Não tendo mais nada a acrescentar, resta-nos agradecer aos 26 visitantes do CINEdrio que votaram nesta pequena sondagem.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

It's a Free World... (2007) de Ken Loach

O senhor Ken Loach fez um grande filme, um dos retratos mais crus, anti-moralistas da realidade social britânica, leia-se, europeia, mas nenhuma distribuidora se dignou a distribui-lo nas salas nacionais. "It's a Free World..." é mais um caso inexplicável de direct-to-DVD cinema aqui no nosso país. Não há obra mais pertinente que esta: um pedaço vivo da realidade da imigração ilegal, da questão do desemprego, da desintegração das famílias, todo o círculo vicioso que aflige as sociedades modernas está aqui contido e filmado sem juízos ou um pingo de sentimentalismo, sem leituras abusivas, retórica política ou super-heróis salvíficos ou sacrificiais. A protagonista aqui é como um protagonista de um filme de Laurent Cantet, que com "Entre les murs" se transformou num insólito sucesso de bilheteiras - estejam atentas, senhoras distribuidoras, que o realismo de forte cariz sociológico nunca chamou tanta gente às salas.

Ken Loach está aqui dez mil vezes mais depurado que o Mike Leigh de "Happy-Go-Lucky", filme totalmente inútil, quase patético, ao pé deste verdadeiro soco no estômago, de muito fina e cortante ironia - compare-se a primeira imagem do filme, quando a protagonista ainda "segue as regras" e está perfeitamente assimilada pelo establishement, com a imagem final, em que a sua aventura pelo mercado paralelo de recrutamento de trabalhadores atinge um ponto de saturação para nós e, imaginamos, para ela (os seus olhos cansados, face deformada e cabelo desgrenhado não mentem). O que se filma aqui é alguém que queria vencer na vida pelos seus próprios meios, mas acabou pior do que começou.

O final é de impasse: não há saída para aquela pessoa, que, como nós, é produto de uma educação desfasada - de outro tempo... como ela bem explica ao seu pai, também ele algo contraditório nos seus princípios - e, acima de tudo, de uma sociedade e de um mercado à beira da implosão. É através do "testemunho" de Angie, a protagonista de que falamos e que é interpretada brilhantemente pela bela Kierston Wareing, que todo este monstro se eleva e nos esmaga. "Há algo de profundamente errado na forma como estruturamos as nossas sociedades", pensamos isto e depois perguntamos "o que fazer, então?" - deste filme emana uma força que nos (quer) leva(r) a agir.

"It's a Free World..." é um filme para a crise, para um Portugal, leia-se, uma Europa, em tempo de eleições, em tempo de auto-reflexão e auto-avaliação. Pena que certas distribuidoras (Zon Lusomundo, em primeiro lugar) não pensem assim... (Estreou-se internacionalmente em 2007, mas "It's a Free World..." será um dos grandes filmes deste ano de cinema em Portugal.)

Ler mais aqui: IMDB.

Domingo, 26 de Abril de 2009

Cannes 2009: a Palma que falta dar e as outras (IV)

Pensamos que a rectificação merece novo post: anunciámos aqui que Francis Ford Coppola e Werner Herzog não iriam a Cannes, o que não foi totalmente rigoroso. O filme "Tetro", de Coppola, abrirá a competição na Quinzena dos Realizadores, mas, de facto, não estará na corrida pela Palma de Ouro. Esta subalternização de um realizador já laureado com a Palma não parece incomodar o implicado.

No site dos Cahiers du Cinéma, Francis Ford Coppola afirma-se mais do que contente com esta opção, revelando, um pouco como já fizera na entrevista que deu ao Expresso, a vontade de ter novamente 18 anos (sonho possível apenas para o protagonista de "Youth Without Youth"...): "I am extremely pleased to bring TETRO to Director’s Fortnight. This film embodies my original passions as a filmmaker, and is a reflection of my goals and ideals when I first began. It is so difficult to work in a personal way in the cinema today, between the business constraints and commercial realities, that you must let your work be a cry for independence, which is why it is so appropriate that TETRO is premiered in the Director’s Fortnight, where young filmmakers go".

Quanto a "Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans", presumimos que não terá caído minimamente nas graças do júri de selecção e, por isso, nem a Quinzena lhe valeu. Nobuhiro Suwa, realizador nipónico que já foi herói independente do IndieLisboa, teve sorte diferente: "Yuki & Nina", filme também assinado pelo francês Hippolyte Girardot, estará na Quinzena dos Realizadores.

Nesta secção ainda podemos encontrar, para além dos portugueses Pedro Costa ("Ne Change Rien") e João Nicolau ("História de Amor e Saúde"), as novas obras de Alain Guiradieu ("Le Roi de l’évasion"), cineasta francês que estreou entre nós o surpreendente "Pas de repos pour les braves", e o veterano cineasta da Nouvelle Vague Luc Moullet ("La Terre de la folie"). Mas a grande extravagância desta secção é, sem dúvida, um filme norte-americano: "I Love You Phillip Morris" , primeira realização da dupla que escreveu "Bad Santa", Glenn Ficarra e John Requa, com uns muito gays Jim Carrey, Rodrigo Santoro e Ewan McGregor nos principais papéis.

(continua)

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Cannes 2009: a Palma que falta dar e as outras (III)

Pois é, afinal, Francis Ford Coppola e Werner Herzog não vão concorrer pela Palma de Ouro. Se ao primeiro ainda foi dada a oportunidade de mostrar a sua última obra, "Tetro", na Quinzena dos Realizadores, já o segundo viu o seu remake de "Bad Lieutenant" ser completamente ignorado pelo Comité de Selecção - por que este último não vem, então, ao IndieLisboa? Acaba de sair a lista com o alinhamento da 62ª edição do Festival de Cannes. Em relação às previsões da Variety, confirmaram-se quase todas, ainda assim importa vermos algumas nuances importantes.

Desde logo, a presença de um português na secção "Un Certain Regard": "Morrer Como um Homem", última obra de João Pedro Rodrigues. "Mother" de Bong Joon-ho, "Air Doll" de Hirokazu Kore-eda e a dupla presença romena, "Police, Adjective" de Corneliu Porumboiu e o filme omnibus "Tales from the Golden Age" (que é assinado, entre outros, por Cristian Mungiu) são outros destaques possíveis nesta secção. A Quinzena de Realizadores também não se esqueceu do cinema de origem portuguesa. Falamos das exibições de "Ne Change Rien" de Pedro Costa, sobre a cantora e actriz Jeanne Balibar, e a curta "Canção de Amor e Saúde" do muito promissor João Nicolau.

Na competição temos uma série de pratos fortes: para além dos realizadores já laureados com a Palma (Ken Loach, Jane Campion, Lars von Trier e Quentin Tarantino), mostram-se as últimas obras de Ang Lee, Pedro Almodóvar, Isabel Coixet, Marco Bellochio, Michael Haneke, Elia Suleiman, Chan-wook Park, Johnnie To, Lou Ye, etc. A Europa e a Ásia são os continentes mais representados na competição, mas entre os países a proeminência de filmes da casa é outro dado diferente desta edição de Cannes: na competição confirmam-se Alain Resnais, Jacques Audiard e acrescenta-se um nome muito polémico, Gaspar Noé ("Enter the Void").

Fora da competição, Terry Gilliam mostra os últimos minutos de Heath Ledger e Amenábar regressa com "Agora". "Drag Me to Hell", de Sam Raimi, será mostrado na secção "Midnight Screenings".

(continua)

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

The Strangers (2008) de Bryan Bertino

Enquanto os filmes de terror continuarem a encarar o mal como produto de uma série de circunstâncias socialmente identificáveis, dificilmente nos aproximaremos da sua essência. Essa força terrível que vive dentro de todos nós e que, por vezes, é puxada à superfície, sob a forma de um pesadelo ou de uma qualquer manifestação física ou verbal de violência, nem sempre se pauta por relações simples de causalidade. Pois o cinema de terror norte-americano, treslendo em toda a linha as suas bases, tem perdido muito do seu e, sobretudo, do nosso tempo a tentar racionalizar as causas do mal nas nossas sociedades. E, por isso, Columbine superou o cinema. E, por isso, o 11 de Setembro superou o cinema. Também por isso continuamos sem respostas para a pergunta que todos os filmes de terror nos colocam: porquê isto?

Erro primário, quase ingénuo, por exemplo, comete Rob Zombie no seu sofrível "Halloween" quando nos tenta convencer, bem para lá das intenções de Carpenter, que Mike Myers é o resultado de um lar destroçado; logo, Mike Myers podia ser qualquer um de nós - atenção pais deste mundo, nas vossas mãos poderá estar um assassino carniceiro em potência! Mas nada disto explica, de facto, o seu talento para as artes do esquartejamento de teens inanes que consomem drogas ou fazem sexo enquanto os pais não estão em casa - o que é quase sempre.

No filme de Carpenter, obra-prima maior do cinema (não esperem pelo qualificativo "de terror", pois este só vem estreitar a importância de um dos mais impressionantes exercícios de câmara da Sétima Arte, onde a forma implica directamente com o conteúdo e vice-versa), o mal é Mike Myers, vilão sem face visível que corporiza um mal maior: a hipócrita sociedade norte-americana, que com os seus bairros doentiamente simétricos, com os seus relvados impecavelmente aparados, que só são pisados pelas famílias mais castas do planeta, não consegue evitar que, por trás da fachada, quando a figura paterna não está a vigiar, seja tão igual ou pior que as outras. Não estão os pais, está Mike Myers a cumprir, em jeito de ama-seca, uma função institucionalizante de segundo grau. Ele é a prova de que o mal é uma fabricação cultural profundamente enraizada nos nossos espíritos, algo cuja origem transcende a lógica escapista do "2+2=4".

"The Strangers", do estreante Bryan Bertino, chega-nos como uma reinterpretação da lição dos mestres (Romero, Carpenter, Hitchcock, De Palma e, por que não?, o Shyamalan de "Signs" e "The Village"): o mal existe, não se explica, mas poderá ser traduzido em imagens e sons. Por que atormentam os "estranhos" do título um casal que não fez mal a ninguém, a não ser, quanto muito, a si mesmo? Se calhar foi mesmo porque a personagem de Liv Tyler rejeitou o pedido de casamento da personagem de Scott Speedman, o que não é lá muito cristão, mas não vamos por aí: como um dos "estranhos" chega a dizer, nós fazemos isto porque vocês "estavam em casa".

E aqui entra a ideia de ocupação de um espaço, a que, entre todas, mais se aproxima ao "Halloween" de Carpenter. Neste, o mal tem um corpo que se confunde no espaço com o corpo da câmara (daí a proliferação de planos subjectivos), mas por vezes estes dois corpos desencontram-se, produzindo uma tensão: o plano que parecia subjectivo revela-se objectivo, mas rapidamente passa de novo a subjectivo, uma indecisão que poderá desaguar numa espécie de objectivização do sujeito do mal ou, por outras palavras, numa absolutização da ideia de mal. É aqui que entra a coreografia terrificante de Carpenter que "The Strangers" tão inteligentemente absorve: a imobilidade, terrível, perscrutadora, vigilante, total, do mal, coisa abstracta em ameaçadora simetria com a condição - também ela, imóvel - do espectador, em choque com a mobilidade vertiginosa da câmara (do cinema).

Numa palavra, tudo é uma profanação do real, uma assunção do impossível no cinema e contra o cinema: por exemplo, veja-se a sequência de imagens e sons em que o protagonista regressa ao carro para recuperar o telemóvel e é tocado nas costas por uma mão que seria, julgávamos nós, espectadores exaustos de slashers, mais um susto em falso sacado de um equívoco entre os protagonistas, mas não, não é isso, nem o contrário: a mão feminina que toca nas suas costas não existe, simplesmente, irrompe do vazio. A relação entre a câmara e o objecto converte-se numa esquizofrenia dialógica de feição incerta (afinal, quem são e onde estão, ou de onde vêm, os "estranhos"? Quem é e onde está, ou de onde vem, a câmara?). Eis uma mise en scène convulsa que teoriza sobre si mesma.

Bertino está na mui exclusiva linhagem de cineastas que trabalham o espaço com a precisão de um bisturi e que entendem o mal como coisa que se move entre e, sublinhamos, dentro de nós. A sequência em que Liv Tyler observa um "estranho" pelas costas é uma inversão/perversão inteligentíssima - e, novamente, teórica - dos papéis do bom e do mau na narrativa.

A mesma ideia é explorada na menos subtil, ainda que igualmente tensa, sequência em que estamos lado-a-lado com os protagonistas, ele com caçadeira em riste, num dos quartos da casa e só vemos, à sua/nossa frente, um corredor por onde, a qualquer segundo, poderá passar a personificação impossível de todos os seus/nossos medos. O resultado desta equação é o primeiro homicídio de todo o filme - e, ao pé de Eli Roth e amigos, podemos dizer que poucos acontecerão. Contudo, este não é perpetrado por um "estranho", mas sim por outro "killer" que, ironicamente ou não, merecerá o castigo pelos seus pecados num final aterrador, de montagem quase expressionista - o quintal, uma facada, uma árvore, outra facada -, atravessado, imagine-se, pela luz mais incandescente e fulminante da manhã. Não vamos mais longe que isto: "The Strangers", um exercício vivo de mise en scène onde a verdadeira noite começa de dia.

Ler mais aqui: IMDB.