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terça-feira, 8 de março de 2011

Famílias felizes

"A Family on the Lawn One Sunday in Westchester, N.Y." (1968) de Diane Arbus

"Somewhere" (2010) de Sofia Coppola

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Rohmer Romântico

"A Marquesa do O" (1976) de Eric Rohmer

"O Pesadelo" (1781) de Johann Heinrich Füssli (1741-1825)

Directa ou indirectamente relacionado com a pintura ocidental, o cinema de Eric Rohmer parece muitas vezes recuperar imagens pictóricas que povoam o nosso imaginário, seja através de quadros que dão vida aos cenários dos seus filmes, chegando a ser comentados pelas personagens (veja-se em "Agente Triplo" e, de forma ainda mais expressiva, em "Os Amores de Astrea e de Celadon"), ou a partir da construção das próprias cenas, como a de "A Marquesa do O" que vemos aqui reproduzida.

De facto, tanto a pose lânguida, acentuada pelo pregueado da veste branca e acetinada, como o ambiente semi-obscuro e quase teatral (com panos vermelhos sobre o leito e no fundo) desta cena lembram substancialmente o erotismo e onirismo que exalam de "O Pesadelo" de Füssli ou Fuseli (designação britânica para o pintor de origem suiça, mas que passou grande parte da sua vida em Inglaterra). E é exactamente evocando uma atmosfera de sonho nocturno ou irrealidade (contrária à racionalidade do dia) e uma pose de volúpia, tão caras aos valores da subjectividade romântica que se iam esboçando desde o final do século XVIII (quando foi pintado "O Pesadelo" e quando decorre a acção de "A Marquesa do O" - 1799), que Rohmer consegue, através desta cena, sugerir e sustentar o mistério que envolve todo o filme e que, aparentemente, não é explicável racionalmente: a gravidez da Marquesa.

Neste sentido, o tema do filme, reforçado pelo tratamento formal desta cena e pelo enquadramento temporal da acção, parece ligar o Rohmer de "A Marquesa do O" a uma valorização do subjectivo, do onírico e do emotivo/irracional, característica de uma sensibilidade romântica.

sexta-feira, 21 de março de 2008

O Regresso ou a Ressurreição

"O Regresso" (2003) de Andrei Zvyagintsev

"Cristo Morto" (c. 1500) de Andrea Mantegna (c.1431-1506)

O paralelismo formal é claro. No filme "O Regresso" muitas cenas parecem construídas de acordo com os cânones classicistas do belo, amplamente codificados pelo Renascimento italiano, de que o pintor Mantegna é só mais um exemplo. Nelas, como a cena da refeição, vemos a preocupação pela simetria, pelo equilíbrio e, neste caso particular, um exercício perspéctico que tende a beber na representação quase escultórica do "Cristo Morto" de Mantegna. Apesar da origem russa, o realizador parece, assim, ceder a uma das imagens que melhor define a tradição pictórica ocidental, posta em causa a partir do século XIX, e que se caracteriza pela obsessão em representar uma realidade objectiva, a três dimensões, em contraposição ao ícone oriental.

Mas a metáfora cristológica, que parece percorrer toda a narrativa do filme, acaba por clarificar-se no recurso a este paralelismo: o pai em o "Regresso", que os dois filhos desconheciam até o verem pela primeira vez nesta cena, funciona quase como uma aparição, tão fugaz, misteriosa e não corpórea como a de um Cristo que, de morto, passa a ressuscitado. E talvez não seja por acaso que, depois de verem o pai deitado a dormir, as duas crianças procurem a fotografia de família, onde poderiam confirmar a identidade paterna do homem que acabavam de observar, num livro com imagens de pintura religiosa.

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