quarta-feira, 16 de julho de 2008

McCabe & Mrs. Miller (1971) de Robert Altman

"McCabe & Mrs. Miller" (1971), western tardio, filmado com a aspereza poética que reconhecemos nalgumas obras de Robert Altman, funciona como último sopro de um género, já de si, eminentemente crepuscular. Dois anos depois, Sam Peckinpah fazia o seu derradeiro western: o elegíaco "Pat Garret & Billy The Kid".

Os planos apertados e fugídios e a montagem elíptica de "McCabe & Mrs. Miller" relembram-nos que já estamos muito longe de Ford ou Hawks. Aliás, sentimos os anos 70. Veja-se a personagem interpretada por Julie Christie, que personifica algo não muito distante do ideal feminino em voga na época: segura, determinada, assertiva, fria e inteligente. Ao mesmo tempo, suficientemente independente - e sofisticada - para preparar e consumir a sua própria erva.

A sua condição de "prostituta profissional" serve, apenas, para sublinhar o ridículo da sociedade machista. O "sexo fraco" é aqui, quanto muito, o homem: um Warren Beatty delicioso na pele de um "chulo" fanfarrão, que borrifa as suas maiores fraquezas - covardia, pouca habilidade para a matemática e mau jeito no manejo da arma - com uma água de colónia de terceira categoria.

Trabalham em parceria, mas, convenhamos, quem faz tudo - e quase sempre bem - é ela, que introduziu civilização - por exemplo, o hábito do banho - numa cidade infestada de homens trogloditas e malcheirosos. Ele passeia-se aprumado pela cidade, a exalar um "novo riquismo", tão pífio quanto patético, que acabará por lhe sair caro.

É uma história de amor particular: Altman deixa subentendida a união (amorosa) e quase que sobrefilma a separação - as duas personagens são filmadas tantas vezes juntas quanto separadas; as cenas de sexo estão omissas e o facto de começarem a partilhar a mesma cama passa quase despercebido.

Contudo, a falta de romantismo visível é compensada pela poesia de Leonard Cohen, por exemplo, em winter lady: Well I lived with a child of snow/ when I was a soldier/ and I fought every man for her/ until the nights grew colder. E por estas palavras eu digo que a última imagem de Beatty é uma das mais tristes declarações de amor na história do cinema. "Aspereza poética", dizíamos nós...

Ler mais aqui: IMDB.

3 comentários:

Rui Luís Lima disse...

O "Western" revisto pelo olhar/arte de Robert Altman onde as canções de Leonard Cohen vão pontuando o desenrolar da história.
"Duelo no Missouri" de Arthur Penn é outra película que também merece ser recordada, pelo olhar diferente que nos oferece deste género cinematográfico.
Rui Luís Lima

Luís Mendonça disse...

Não vi o "Duelo no Missouri", mas ainda bem que falas do Arthur Penn, provavelmente o principal realizador de transição entre o cinema clássico e moderno ("Bonnie & Clyde" como ponto charneira).

"Little Big Man" (1970) é outro "western" muito interessante que pouco ou nada tem a ver com o "western" clássico.

H. disse...

Nicholas Ray e Otto Preminger podem ser vistos como cineastas de transição. E, para mim, muitos furos acima de Penn...

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