sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

El ángel exterminador (1962) de Luis Buñuel

Analisar um filme de Buñuel é em si uma heresia ou, pelo menos, procurar algum sentido que não aquele que está à vista nas imagens é um acto redundante que mereceria o desprezo de qualquer surrealista. Mas qualquer surrealista acharia graça a uma boa heresia. Sendo assim, e que nos perdoem os mais crentes e os menos socialistas, vamos a ela! Antes de tudo, "El ángel exterminador" (1962) pode ser abreviadamente descrito como uma "sátira surrealista" à sociedade capitalista e aos rituais postiços da classe burguesa, aquela que se alimenta da pobreza dos outros em "Viridiana" (1961), aquela que tem desejos de carne a meio da noite em "Le charme discret de la bourgeoisie" (1972)...

Em 1962, Buñuel provava de novo ser dos poucos cineastas do seu tempo - senão o único - que fazia questão de sujar as mãos enquanto brincava com o absurdo na sua feição mais chocante. Começamos a ver "El ángel exterminador" com um sorriso (receoso, ainda assim, porque nada é previsível aqui) e acabamos com pesadelos e a engolir em seco. E com isto queremos dizer: se este seu filme se resumisse a um retrato cómico dos maneirismos, etiquetas e modus vivendi inane e frívolo de uma classe social, Buñuel era quase inofensivo, mas não é, porque o problema não está na classe burguesa, está sim na própria ideia de classe - ai, como nos dói hoje...

Quando os "excelentíssimos" convidados de um sarau exclusivo e ultra-chic estão de roupas rasgadas, descalços, a cheirar mal e famintos diríamos que o filme começa a ampliar o alvo. O que está ali, a nu, em todo o seu esplendor, são os instintos animais, burgueses e não burgueses, do Homem. É que, em "El ángel exterminador", Buñuel converte os "pobres" burgueses nos loucos, andrajosos e malcheirosos, que não tinham onde cair mortos em "Viridiana". Esta desconstrução esquerdófila da sociedade tal qual a conhecemos faz-se na progressiva eliminação das marcas sociais que dividem ricos e pobres.

O difícil exercício que Buñuel nos propõe é, em traços largos, o seguinte: imaginem que, num serão quase perfeito, isto é, uma ida à ópera seguida por um jantar requintado num luxuoso palacete, onde há caviar e as mais divinais e raras iguarias servidas por vários empregados, nenhum dos ilustres convidados toma a iniciativa de sair - como resolveria tão complicada equação?

No filme, como um simulacro, aclaram-se algumas respostas. No início, todos os presentes como que ficam enredados nas malhas da etiqueta burguesa: "se ninguém se decide pelo fim do serão, então, por solidariedade e cortesia, também nos deixamos ficar...". Face a cenário tão imponderável, os anfitriões deixam-se tomar, passivamente, pela incredibilidade: "ninguém sai, deixam-se ficar... mas não ousamos sequer sugerir outra coisa, pois isso constituiria um ataque ao seu bom-nome e estragaria uma noite até agora tão correcta".

Enfim, o tempo passa e eles lá vão ficando em sala alheia um, dois, três, quatro... dias. O ritual, a verdadeira "razão de ser" de toda uma classe de gente honrada, fica bloqueado ali - "um encantamento", tenta explicar, muito seriamente, o médico. À medida que os dias se transformam em meses, esta gente, que se tem como imputrescível, vai perdendo literalmente "a classe".

No fim, temos homens sem máscara (roupa, maquilhagem, pose...) a comerem-se vivos por uma gota de água ou pelo apuramento do responsável por tão terrível impasse. O que é escusado, pois o autor desta trama é (será?) Deus ou, porque ele não acreditava Nele, o génio Perverso: Luis Buñuel.

Ler mais aqui: IMDB e DVDbeaver.

2 comentários:

Victor Afonso disse...

Não é o meu Buñuel preferido, mas é um Buñuel fabuloso.

Luís Mendonça disse...

Sim, não é o melhor do Buñuel. Para mim, "Viridiana" e "O Charme Discreto da Burguesia" são melhores, pegando só nos que refiro no texto.

Já agora, aproveito para recomendar o DVD que a Criterion lançou do filme: tem um dos melhores, mais comoventes, documentários que eu vi dedicados a um cineasta. É só o filho de Buñuel e Jean-Claude Carrière a fazerem uma grande viagem pelos lugares da vida de Buñuel (Espanha, EUA, México). Lindíssima a forma como termina, precisamente, com a lembrança do último abraço que Carrière deu ao seu grande amigo, no México...

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