Melhor filme: "La vie d'Adèle - chapitre 1 & 2". Sem sair do essencial de uma história de amor, Kechiche produz uma das mais belas e emocionalmente intensas imersões na existência de uma personagem, que de tão viva e autêntica que é chega, de facto, a confundir-se com a vida. O ecrã dessa viagem não é o plano mas o rosto de Adèle, é ele que "reflecte" o universo de todos os sentimentos humanos: amor, rejeição, ciúme, dúvida, angústia… fome e desejo. O resultado é de uma simplicidade de tal modo desarmante que já muitos se precipitaram em qualificar esta "Vida" de "vazia" ou até - a meu ver, incompreensivelmente, porque não há filme mais honesto com a dimensão humana, eminentemente singular e universal, da sua personagem - "exploratória". Mas não há ratoeiras nenhumas aqui: o filme só nos dá um rosto pleno, sujeito a todas as intempéries interiores. É simples, complexo, claro e denso. Tudo isto ao mesmo tempo. Não há que ter medo de um cinema que provoca emoções contraditórias, nem se deve confundir isto - a vida, enfim - com "manipulação", a palavra mais ligeiramente atribuída a esta obra-prima da autoria de Kechiche ou, antes dele, da autoria da actriz mais bela do ano: Adèle Exarchopoulos.
Melhor realização: James Wan ("Insidious - Chapter 2"). Gosto de realizadores de câmara e eles escasseiam com a dimensão experimental e concreta deste James Wan. No cinema americano, num ano sem Fincher e sem Michael Mann, Wan ocupa o lugar de destaque no lote de cineastas que pensam um filme em movimentos de câmara, em coreografias do corpo; enfim, que pensam o cinema espacialmente. Em "Insidious - Chapter 2" e "The Conjuring", Wan filma os mesmos objectos, as mesmas situações dramáticas, mas sempre de modo - é uma questão de modo o que aqui trato - refrescante. As suas "partidas de criança", as aparições in situ - anti-CGI -, a bonecada, o jogo de hide and seek entre as "quatro paredes" da casa, tudo o que a câmara de Wan produz - o seu efeito horrífico - está na maneira como ela se move no espaço. O grande efeito especial do seu cinema é, precisamente, o seu apurado sentido de mise en scène.
Melhor plano: logo a seguir ao incandescente lettering de "Insidious - Chapter 2", um travelling para a frente faz-nos percorrer o abismo até à nossa personagem, num quarto escuro usado para o interrogatório policial que nos relança na história da família do primeiro "Insidious". Não há medo de dizer que, num ano sem Tarr, este foi o mais engenhoso dos planos vistos em cinema. Um plano que não só nos faz "vir do abismo" como, mais inteligentemente, nos faz "percorrer o abismo" até chegarmos a este radicalíssimo "Chapter 2". Queria destacar ainda outro travelling de outro primitivo: o último plano, magistralmente encenado (digno de Cocteau), de "La fille de nulle part". É também abissal, mas o abismo tem aqui tons de dourado. O travelling como questão de moral ou o travelling como questão de mortal, frágil como o mundo?
Melhor actor: aqui escolho dois. Primeiro, Matthew McConaughey. Segundo, Matthew McConaughey. O detective-assasssino e assassino-detective Joe, de Friedkin, e o pirata dos nossos dias Mud, de Nichols. Dois mundos opostos gerados no e pelo mesmo actor.
Melhor actriz: aqui escolho duas. Primeira, Adèle Exarchopoulos. Segunda, Adèle Exarchopoulos. As duas estão em "La vie d'Adèle": a Adèle-actriz, a Adèle-personagem, as duas estão tão unidas quanto nós a elas. Fusão de peles, de "eus", de vidas. Experiência total graças a uma grande actriz com, então, 18 anos.
A revelação: Ti West ("The Innkeepers"). Howard Hawks dizia que o seu segredo estava em "filmar comédia como se fosse drama e drama como se fosse comédia". Já o escrevi: West "filma horror como se fosse comédia e comédia como se fosse horror" neste pequeno grande filme sobre dois frescos espécimes da geração precária "detidos" num hotel centenário que, azar o deles, está assombrado por espíritos inquietos. Ti West dá, a meu ver, um passo em frente em relação a "The House of the Devil" quando inscreve o burlesco, o "desajeitamento", de Sara Paxton (outra das actrizes do ano) numa história de "casa maldita" 100% convencional. O terror é palco de experimentalismo áudio/visual (muito literalmente) neste filme sempre a jogar subtilmente "entre divisões". É o paradigma de como o mais experimental pode ser, ao mesmo tempo, o mais clássico. Hawksiano, neste caso. (Isto é, também carpenteriano.)
A desilusão: "Django Unchained". Tarantino voltou ao exercício de copy pasting cinefilamente hipercalórico, uma espécie de banquete tão sumptuoso quanto enjoativo, onde o cozinheiro se esqueceu do sal. Uma desarmoniosa amalgama de referências que deleitará quem vê o cinema com uma lupa à procura dos links para o lado B da história do cinema. Na realidade, tanto quanto no sobrevalorizado "Kill Bill", Tarantino põe tudo de tal modo à vista que já nem a lupa será necessária. O que lhe interessa é a mais apolítica citação pela citação, não o exercício de degustação, de reciclagem ou transformação da matéria fílmica em confronto com uma certa realidade dramática. Estamos, por isso, longe de "Death Proof" ou "Inglourious Basterds", os seus dois melhores filmes do século XXI. O primeiro inscrevia o slasher na "escrita" lubitschiana de Tarantino, o segundo punha a matéria fílmica em confronto com uma recriação, ou melhor, com um recreação histórica. Em "Django Unchained" a saturação citacional é tal que não descortinamos exercício algum de inscrição ou assimilação de ou confronto com… Tudo é jogado ao (jogado ao, não com o) espectador como uma sucessão de piscares de olho pós-modernos que nos assediam em vez de seduzir. Aguardamos por melhores filmes vindos da forja tarantinesca.
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sábado, 28 de dezembro de 2013
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Os rostos de 2013
Figura do ano (internacional)
Matthew McConaughey
O CINEdrio não hesita na escolha, mesmo que não tenha por hábito escolher actores (ou actrizes) nesta secção. Matthew McConaughey fez uma viragem de 180º na sua carreira sensivelmente desde "Bernie" - ou um pouco antes com "Tropic Thunder". Desde aí, como o próprio já o disse em entrevista, só aceita projectos arriscados. E se a realização é uma actividade decisória, gestão de riscos, então podemos dizer que McConaughey deixou de pensar como um actor para começar a pensar como um cineasta. Olhando para o papel que desempenha em "Mud", mas sobretudo para a sua composição em "Killer Joe" até apetece dizer que pensa como e com o cineasta, qual co-autor dos seus filmes. Não é só um bom actor para Óscar ver, é alguém que parece estar disposto a ultrapassar-se ou a desaparecer em abono do filme.
Conta Friedkin, na sua autobiografia Friedkin Connection, que McConaughey terá começado a folhear o argumento e, repugnado, tê-lo-á atirado para o lixo. A estratégia do risco, contudo, dominou a fúria e o "nojo" - acho que a palavra é essa - e McConaughey, imaginem a ignomínia, terá ido ao lixo resgatar as páginas de Tracy Letts, dramaturgo que assinou também o argumento de "Bug". O que faz depois ficará na história do cinema moderno como a composição mais, simultaneamente, calculada e histriónica que nos foi dada a ver. Num ano em que Tarantino digeriu Tarantino até ao enjoo, McConaughey e Friedkin (os dois "lobos maus") fizeram a mais radical e transgressora fábula contemporânea, fazendo uso, precisamente, do mesmo shock effect. Em "Mud", o registo é outro, o monólogo é interior e melancólico, o rosto e os gestos são igualmente seguros mas atravessados por uma descrença muito humana no futuro. Mud é um "pirata" caído, perseguido por um amor que lhe corrói a existência. A interpretação mais comovente de 2013.
Em Janeiro, McConaughey traz-nos "Dallas Buyers Club", multipremiado filme que se baseia numa interpretação que tem feito correr tinta, já que o actor terá perdido cerca de 17 quilos para dar corpo (mais osso do que pele) à história de vida de Ron Woodroof, que de redneck homofóbico e racista passou a activo combatente da "epidemia do século" nos Estados Unidos. Teremos ainda McConaughey no mais recente filme de Martin Scorsese, "The Wolf of Wall Street", e com alguma sorte ainda estreia em 2014 o próximo filme de Christopher Nolan (cujo teaser já anda a circular) e que é protagonizado por… you know who. Portanto, a figura internacional de 2013 tem tudo para ressoar no ano que aí vem.
Figura do ano (nacional)
Joaquim Pinto
As premiações de "E Agora? Lembra-me" já são várias, mas tudo começou em Locarno com a conquista do Grande Prémio do Júri (para além do Prémio FIPRESCI). Desde aí que merecidamente o público e a crítica por todo o mundo têm aplaudido este épico documentário sobre a vida, a morte, o tempo, mas também muito particularmente sobre o amor e o trabalho como forma de resistência à doença (o HIV). Foi o filme mais "total" que vi este ano, uma lufada de ar fresco no actual panorama do cinema português. Não é de modo algum comum no nosso cinema encontrar objectos de uma honestidade e nudez tão "sem artifício". É a história de uma grande viagem, que não tem começo e que não tem fim, que não encerra nada, apenas abre a janela sobre uma vida e uma luta que, nem que metaforicamente, nos toca a todos. Aliás, "tocante" - em toda a riqueza do adjectivo - é a melhor palavra que encontro para qualificar a experiência de "E Agora? Lembra-me". Não se procura um santo ou um statement, mas apenas um registo sobre a fragilidade do corpo, mas também a sua fome inesgotável por conhecimento, por amor, pela terra, pelo toque, pela pura ruminação. Fome pela vida.
É um ensaio, um diário, um épico sobre a existência que, quero deixar claro, TEM de passar no circuito comercial de salas. E se as distribuidoras - por causa das suas perto de 3 horas, talvez - acharem que NÃO TEM, eu acho que finalmente é tempo de se desbloquear o regime fascizante e obscurantista da RTP2 e RTP1 e usar os canais públicos supostamente de serviço público como espaços de exibição do cinema português, aquele que as salas querem passar e aquele que as salas não querem passar. Lembro-me de João Salaviza, no dia da sua premiação em Berlim, quando disse que o seu filme "Rafa" e "Tabu" de Miguel Gomes deviam estar a passar naquele dia na televisão portuguesa; quando disse que teve mais espectadores em festivais de cinema do que nas salas comerciais.
Se o público está sentado no sofá, em frente à "caixa mágica", pois então que se active a sua missão de serviço público ou até, já agora, que o poder político a leve mais longe: independentemente de haver contrato de distribuição, todos os filmes produzidos com dinheiro do Estado deveriam estrear directamente na televisão pública. Uma primeira exibição que desse que falar e pusesse os filmes a circular, de olho em olho, de boca em boca, até à eventual (mas não necessária nem tão-pouco mendigada…) passagem pelo grande ecrã. O que é preciso é não ficar à espera da iniciativa das distribuidoras ou deixar que estes filmes se enredem numa desinteressantíssima "guerra especulativa de audiências", seja ela travada na piscina dos grandes, seja ela travada na piscina dos pequenos. Se o público está plantado no sofá, se o Estado tem forma de chegar a ele, muito facilmente, através dos seus dois canais, parece-me evidente que está encontrada a forma e a fórmula para prolongar a vida de um investimento cultural de monta. O Estado não só não deve esperar pelo mercado da distribuição como acho que se deve sempre antecipar a este. Estou cada dia mais convencido disto.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Balanço caseiro de 2013
O CINEdrio dá prosseguimento ao tradicional balanço caseiro do ano (recordo aqui o de 2012). Filmes vistos em casa, em DVD, Blu-ray ou em antena televisiva. 2013, ano de algumas grandes descobertas. Como sempre, os destaques que se seguem não são apresentados segundo nenhuma ordem particular sem ser aquela que comanda (aleatoriamente?) a minha memória.
Jack Arnold
Todo o Jack Arnold, de "Creature From the Black Lagoon" a "Monster on the Campus", de "Man in the Shadow" a "No Name on the Bullet", do poeta da ficção científica ao documentarista do western. Destaco, aliás, o western noir protagonizado por Jeff Chandler e Orson Welles que é um tour de force de síntese cinematográfica, com uma estonteante fotografia a preto-e-branco (a tal grande "sombra" do título é atmosferizada por ela). Na ficção científica, se calhar antes dos títulos já citados, vem-me de imediato ao espírito quando penso neste ano que passou o prazer enorme que "Tarantula" e "The Incredible Shrinking Man" me deram. O primeiro é um tratado lapidar sobre o potencial visual - e poético, lá está - do série B fantástico, já o segundo eleva o conto metamórfico à reflexão metafísica sobre a nossa pequeníssima condição humana. Com estes títulos, fica à mostra que Arnold é um dos mais inventivos e, a todos os níveis, aventureiros cineastas do seu tempo.
Hollis Frampton
Um dos nomes cimeiros do structural cinema, Frampton é um artesão da linguagem, a do cinema, a da palavra escrita, a da palavra dita, a da luz, a do movimento, a da inércia. Cada possibilidade que a matéria lhe oferece é esticada até ao limite, numa tentativa de dar a ver o seu "todo" potencial. Temos então "Zorns Lemma" como uma alfabeto de imagens ou imagens do alfabeto, um alfabeto "gerado" espontânea ou alteatoriamente "na rua"; temos em "Surface Tension" uma viagem pela cidade feita de imagens paradas, fotografias como motor do cinema e jogos de palavras que muito provavelmente inspiraram Jean-Luc Godard (que, tenho ideia, descobriu Frampton nos anos 80); temos ainda "Nostalgia" sobre um exercício de memória indexado a fotografias em chamas, um passado descoordenado que se eleva no ar como éter; temos "Lemon", uma natureza morta académica sobre luz e sombra; temos isto e muito mais na excelente caixa que a The Criterion Collection lhe dedicou, com entrevistas e um muito interessante ensaio/intervenção com voz de Michael Snow e texto de Frampton. Ver e ouvir tudo isto em Blu-ray foi um dos bons luxos que 2013 me deu.
Curtis Harrington
Descoberta absoluta que me deixou boquiaberto. Harrington, que para muitos é "apenas" um cineasta série B de "gosto duvidoso", foi nos anos 40 um dos nomes mais influentes da chamada primeira vanguarda do cinema underground americano. As suas curtas dos anos 40 estão algures entre Poe, Cocteau e Lynch, histórias sobre a efemeridade da vida - e da juventude - realizadas por um adolescente imberbe com capacidade para encontrar fronteiras novas entre o cinema avant-garde e o cinema fantástico de terror. A edição Dual Format da Flicker Alley será o motivo ideal para se conhecer ou reavaliar toda a obra deste realizador esquecido. Talvez em 2014 tenha motivos para voltar a falar dele aqui.
Ida Lupino e The Bigamist
Ida Lupino é a patrona de um punhado de filmes socialmente engajados e moralmente confrontantes que saíram da produtora fundada por si e pelo seu marido, Collier Young, The Filmmakers. Realizou alguns filmes pungentes como "Outrage" e "The Hitch-Hiker", este último um mini-clássico do film noir duro e visceral como não seria de esperar de uma "donzela". A humilhação de que é alvo uma mulher depois de ser violada por um estranho na rua - numa sequência memorável feita de pura sugestão fílmica - é o objecto de "Outrage", mas "The Bigamist", realizado e protagonizado pela própria Ida Lupino, vai mais longe. Na realidade, vai tão longe que ainda hoje nos "desconforta", pela forma como nos permite aceder, sem moralismos, às subjectividades (todas elas feridas) da mulher humilhada (a belíssima Joan Fontaine, que nos deixou este ano), da segunda mulher (é esta que Lupino interpreta, corajosamente) e... do homem (Edmond O'Brien) que opta por uma vida dupla, sobranceiramente indiferente ao amor que a sua mulher sente por ele, mas sobretudo - e é aqui que está o ponto de desnorte - ao próprio amor que ele sente pela sua mulher. É um (melo)drama filmado com um sentido, diria, implacavelmente justo por Ida Lupino. Um acto de confronto, mas antes de tudo um acto de coragem que só pode vir de uma grande realizadora.
The Quiet Man
India: Matri Bhumi
Le amiche
Pursued
Choses secrètes
O noir do ano
Jack Arnold
Hollis Frampton
Um dos nomes cimeiros do structural cinema, Frampton é um artesão da linguagem, a do cinema, a da palavra escrita, a da palavra dita, a da luz, a do movimento, a da inércia. Cada possibilidade que a matéria lhe oferece é esticada até ao limite, numa tentativa de dar a ver o seu "todo" potencial. Temos então "Zorns Lemma" como uma alfabeto de imagens ou imagens do alfabeto, um alfabeto "gerado" espontânea ou alteatoriamente "na rua"; temos em "Surface Tension" uma viagem pela cidade feita de imagens paradas, fotografias como motor do cinema e jogos de palavras que muito provavelmente inspiraram Jean-Luc Godard (que, tenho ideia, descobriu Frampton nos anos 80); temos ainda "Nostalgia" sobre um exercício de memória indexado a fotografias em chamas, um passado descoordenado que se eleva no ar como éter; temos "Lemon", uma natureza morta académica sobre luz e sombra; temos isto e muito mais na excelente caixa que a The Criterion Collection lhe dedicou, com entrevistas e um muito interessante ensaio/intervenção com voz de Michael Snow e texto de Frampton. Ver e ouvir tudo isto em Blu-ray foi um dos bons luxos que 2013 me deu.
Curtis Harrington
Descoberta absoluta que me deixou boquiaberto. Harrington, que para muitos é "apenas" um cineasta série B de "gosto duvidoso", foi nos anos 40 um dos nomes mais influentes da chamada primeira vanguarda do cinema underground americano. As suas curtas dos anos 40 estão algures entre Poe, Cocteau e Lynch, histórias sobre a efemeridade da vida - e da juventude - realizadas por um adolescente imberbe com capacidade para encontrar fronteiras novas entre o cinema avant-garde e o cinema fantástico de terror. A edição Dual Format da Flicker Alley será o motivo ideal para se conhecer ou reavaliar toda a obra deste realizador esquecido. Talvez em 2014 tenha motivos para voltar a falar dele aqui.
Ida Lupino e The Bigamist
Ida Lupino é a patrona de um punhado de filmes socialmente engajados e moralmente confrontantes que saíram da produtora fundada por si e pelo seu marido, Collier Young, The Filmmakers. Realizou alguns filmes pungentes como "Outrage" e "The Hitch-Hiker", este último um mini-clássico do film noir duro e visceral como não seria de esperar de uma "donzela". A humilhação de que é alvo uma mulher depois de ser violada por um estranho na rua - numa sequência memorável feita de pura sugestão fílmica - é o objecto de "Outrage", mas "The Bigamist", realizado e protagonizado pela própria Ida Lupino, vai mais longe. Na realidade, vai tão longe que ainda hoje nos "desconforta", pela forma como nos permite aceder, sem moralismos, às subjectividades (todas elas feridas) da mulher humilhada (a belíssima Joan Fontaine, que nos deixou este ano), da segunda mulher (é esta que Lupino interpreta, corajosamente) e... do homem (Edmond O'Brien) que opta por uma vida dupla, sobranceiramente indiferente ao amor que a sua mulher sente por ele, mas sobretudo - e é aqui que está o ponto de desnorte - ao próprio amor que ele sente pela sua mulher. É um (melo)drama filmado com um sentido, diria, implacavelmente justo por Ida Lupino. Um acto de confronto, mas antes de tudo um acto de coragem que só pode vir de uma grande realizadora.
The Quiet Man
Foi uma assombrosa experiência. Os verdes da paisagem irlandesa, os vermelhos dos cabelos de Maureen O'Hara, a "escala" de John Wayne, o ludus das relações humanas que a câmara de Ford mascara com pathos - por baixo do melodrama, a comédia!, parece que grita, como uma mensagem de revolta. Não se atiram paralelepípedos, mas "joga-se" contra a paisagem a mais épica das rixas, num final que nos embriaga de entusiasmo e genuína diversão. Mas o resto é o mais importante: as cores, o vento, a precisão de tudo o que se coloca à frente da câmara. É dos filmes mais inebriantes de Ford e, em Blu-ray (vi a edição espanhola, tão recomendável quanto a americana, parece-me), tudo parece ganhar uma força extra.
India: Matri Bhumi
Quero muito rever este filme, porque preciso de arrumar algumas ideias em torno da hipótese de Godard e Truffaut terem estado sempre completamente certos e de, portanto, este ser "o filme" de Roberto Rossellini. Senti o mesmo gesto milagroso de se ir ao berço do Mundo, senti uma comoção intensa com a história dos elefantes e o conto elegíaco do macaquito, toda esta grandiosidade e esta pequenez "contra" uma paisagem de uma beleza esmagadora. O plano mais belo que vi este ano está aqui - e acima reproduzo, para tentar irradiar a minha crença neste milagroso filme. "India" deveria ser o Deus-Sol de todas as cinefilias. Impõe-se uma edição DVD/Blu-ray digna desse nome. (E diria o mesmo para o subvalorizado "Era notte a Roma", outro momento intenso deste meu 2013.)
Le amiche
Não sei o que é mais belo: se o rosto de Eleonora Rossi Drago, se a sua solidão deprimida, se a "confusão" amorosa que a rodeia, junto das suas "amigas". Senti este filme - e vou usar a palavra sem medo - como uma obra profundamente feminina, de uma delicadeza e elegância que só Antonioni consegue manusear. Não sei por que demorei tanto tempo a chegar a esta obra-prima, mas nunca é tarde demais para ver "as amigas".
Pursued
Podia escolher "Along the Great Divide", "Gentleman Jim", "Colorado Territory" ou "Distant Trumpets". Mas vou ser fiel à minha impressão mais profunda: "Pursued" é a obra-prima superior de Raoul Walsh. Não digo que seja a mais paradigmática - de facto, não o é - mas é um filme tão belo e, ao mesmo tempo, tão brusco que não podia fugir a ele. Aliás, foi o único filme em 2013 que vi - numa boa edição Blu-ray da Olive Films - e voltei a ver mal terminou. Não consegui processar a imensidão (psicológica, sim) deste western noir que encontra em Robert Mitchum o seu ecrã primordial mais cativante. Ninguém sai daqui indiferente. Não é um tratado "autoral", mas uma manifestação da força sedutora, da potência estética do cinema de Walsh.
Choses secrètes
O Correio da Manhã TV presenteou-nos este ano com um pequeno ciclo Brisseau, extraído directamente da caixa lançada pela Leopardo Filmes. Ficou-me na retina este seu título, que me havia escapado quando saiu no circuito comercial português. Talvez por andar a rever a obra completa de Losey, ou por ter visto há dias "La fille de nulle part", "Choses secrètes" teve um impacto enorme em mim. A sua construção sobre a ascensão e queda de duas femmes fatales na íngreme escadaria social, o seu exercício de exorcismo e terror sobre o desejo e o corpo pareciam-me vir de "The Servant" ou, em boa medida, emparelhar com a odisseia subterrânea de "Eyes Wide Shut". Foi um momento alto que passou, como um fantasma, nos ecrãs de muitos portugueses. O pequeno ecrã engrandeceu-se.
O noir do ano
Escolhi "The Prowler" de Joseph Losey. Pensei em "The Lineup" de Don Siegel (mas o seu efeito-choque não perdura tanto) ou em "Raw Deal" de Anthony Mann (mas este vi na Cinemateca, pelo que não ficaria bem num balanço desta natureza tão… doméstica). O filme de Losey é, nas palavras de James Ellroy, o paradigma do "perv noir". Uma história de voyeurismo que se transforma numa intrincada teia de decepção e medo. Medo não da habitual femme fatale, mas do mais cínico homme fatal que se poderia arranjar: Van Heflin num papel estarrecedor, ao lado da não menos brilhante Evelyn Keyes. Este filme nunca vai pelo caminho mais fácil, há qualquer coisa nele que se resume bem na desesperante imagem final da personagem de Heflin: uma inglória e humilhante subida em declive, uma condenação próxima de Sísifo que lembra quão "ilusórias" são as subidas ou as descidas (sociais) no cinema de Losey. Experimente derrapar aqui.
Os melhores de 2013
Não pensem que sofro de esquizofrenia ou que os meus Tops estão de tal modo imersos em hesitações que faço um no À pala de Walsh e outro ligeiramente diferente aqui, no bom velho CINEdrio. Não, a verdade é que as regras walshianas são mais estritas do que aqui no burgo mais pequeno, onde sempre contabilizei os mais infames direct-to-DVDs da temporada. Este ano (em que consegui ver 64 títulos), curiosamente, um filme que ainda nem sequer está em DVD chega a este Top com honras de pódio. Falo do inevitável "Killer Joe". A sua estreia em sala foi sucessivamente adiada até que - não sei se é para celebrar ou lamentar - um dos filmes mais selvagens e animais a sair de Hollywood em muito tempo, de um dos seus mais indisciplinados filhos, chega aos lares de todos os portugueses através da oferta on-demand.
Matthew McConaughey tem o papel mais marcante de 2013 e se juntarmos ao seu Joe aquele que é o muito pedido "segundo fôlego" de Jeff Nichols, depois do decepcionante "Take Shelter" e do tão entusiasmante "Shotgun Stories", então aí estamos mesmo perante o mais sério candidato a "figura internacional do ano" - balanço a ser feito em breve aqui, no CINEdrio. A única crítica a "Mud" que li por cá que lhe faz justiça é esta de Manuel S. Fonseca, que bem a propósito cita o clássico de Fritz Lang "Moonfleet". "Mud" é o possível conto de piratas ou "de pirata" dentro desta nossa contemporaneidade.
Trabalhar com os realizadores certos ajuda, mas McConaughey já pertence hoje ao restrito grupo de actores com alma de cineasta, verdadeiros "fazedores" de filmes nos filmes. A forma do corpo, do andar, do falar, do gesticular, tudo nele condiciona o "objecto final". Algo semelhante acontece com Adèle naquela que é, para mim, a obra máxima de 2013. Penso que o título do filme é bem mais exacto do que o título da banda desenhada que lhe esteve na origem: este filme, esta vida é DE Adèle antes de ser DE Kechiche. E com isto endereço o maior elogio possível ao cineasta franco-tunisino, que soube descobrir no rosto certo o princípio - e o fim - de um filme que é uma odisseia sentimental única.
Estaria a falar de "The Immigrant" no lugar de "La vie d'Adèle" (e pode ser que algures entre os dois cada um de nós encontre uma novíssima Maria Falconetti…), caso o filme tivesse merecido a sua estreia comercial em 2013. Ainda sinto o seu impacto desde que o vi no último Estoril & Lisbon Film Festival. Espero que, ao contrário de "Killer Joe", esta obra-prima de James Gray (penso que só talvez "Little Odessa" a supere) mereça uma estreia à sua altura no 2014 que se avizinha. "Stemple Pass" de James Benning estaria no lugar de "The Immigrant" (caso este último tivesse estreado) se tivessse tido a sorte da habitual montanha de filmes irrelevantes que chegaram às salas comerciais em 2013. Alguns entendem os filmes de Benning como peças de um museu. Por isso, será, neste momento, profundamente inglório e frustrante bater-me pela estreia em sala de um filme como "Stemple Pass". De qualquer modo, não posso deixar de sublinhar o valor estético e político deste objecto, um dos mais perfeitos do realizador de "Landscape Suicide".
Uma nota final para a outra obra-prima do ano, que teve uma distribuição tão ou até mais limitada que outro dos filmes que constam deste Top, "La fille de nulle part". Falo da assombrosa - e assombrada - hawksização do horror levada a cabo pelo talentosíssimo realizador norte-americano Ti West. "The Innkeepers" é o grande filme que a crítica não quis ver ou viu mal. "Insidious - Chapter 2" de James Wan, irmão mais tresloucado e "indomável" do filme de West, foi outro exemplo de como a crítica oficial consegue passar ao lado do essencial: mise en scène pura (como a definia Rivette), isto é, filme que é só câmara, corpos em movimento e décor. É tão livre que roça a mais alta abstracção fantasmática.
Não escolho estes filmes por reacção ao que ficou de fora da maioria dos Tops, escolho-os porque me parece que todos eles participam na mesma evidência: o cinema, na época mais quente da sua desmaterialização, regressa às origens, aos truques de ou muito simplesmente para dentro da câmara e às fantasmagorias do cinema mudo pré-griffithiano, a Edison, Méliès, Segundo de Chomón... Resistir ao digital ou assombrá-lo - resistir para progredir… - com os efeitos do cinematógrafo? O Carlos Natálio (no seu texto de balanço à pala de Walsh) invoca a fórmula less is more, mas acho que fundamentalmente 2013 é uma lição de back-to-basics a reter.
Matthew McConaughey tem o papel mais marcante de 2013 e se juntarmos ao seu Joe aquele que é o muito pedido "segundo fôlego" de Jeff Nichols, depois do decepcionante "Take Shelter" e do tão entusiasmante "Shotgun Stories", então aí estamos mesmo perante o mais sério candidato a "figura internacional do ano" - balanço a ser feito em breve aqui, no CINEdrio. A única crítica a "Mud" que li por cá que lhe faz justiça é esta de Manuel S. Fonseca, que bem a propósito cita o clássico de Fritz Lang "Moonfleet". "Mud" é o possível conto de piratas ou "de pirata" dentro desta nossa contemporaneidade.
Trabalhar com os realizadores certos ajuda, mas McConaughey já pertence hoje ao restrito grupo de actores com alma de cineasta, verdadeiros "fazedores" de filmes nos filmes. A forma do corpo, do andar, do falar, do gesticular, tudo nele condiciona o "objecto final". Algo semelhante acontece com Adèle naquela que é, para mim, a obra máxima de 2013. Penso que o título do filme é bem mais exacto do que o título da banda desenhada que lhe esteve na origem: este filme, esta vida é DE Adèle antes de ser DE Kechiche. E com isto endereço o maior elogio possível ao cineasta franco-tunisino, que soube descobrir no rosto certo o princípio - e o fim - de um filme que é uma odisseia sentimental única.
Estaria a falar de "The Immigrant" no lugar de "La vie d'Adèle" (e pode ser que algures entre os dois cada um de nós encontre uma novíssima Maria Falconetti…), caso o filme tivesse merecido a sua estreia comercial em 2013. Ainda sinto o seu impacto desde que o vi no último Estoril & Lisbon Film Festival. Espero que, ao contrário de "Killer Joe", esta obra-prima de James Gray (penso que só talvez "Little Odessa" a supere) mereça uma estreia à sua altura no 2014 que se avizinha. "Stemple Pass" de James Benning estaria no lugar de "The Immigrant" (caso este último tivesse estreado) se tivessse tido a sorte da habitual montanha de filmes irrelevantes que chegaram às salas comerciais em 2013. Alguns entendem os filmes de Benning como peças de um museu. Por isso, será, neste momento, profundamente inglório e frustrante bater-me pela estreia em sala de um filme como "Stemple Pass". De qualquer modo, não posso deixar de sublinhar o valor estético e político deste objecto, um dos mais perfeitos do realizador de "Landscape Suicide".
Uma nota final para a outra obra-prima do ano, que teve uma distribuição tão ou até mais limitada que outro dos filmes que constam deste Top, "La fille de nulle part". Falo da assombrosa - e assombrada - hawksização do horror levada a cabo pelo talentosíssimo realizador norte-americano Ti West. "The Innkeepers" é o grande filme que a crítica não quis ver ou viu mal. "Insidious - Chapter 2" de James Wan, irmão mais tresloucado e "indomável" do filme de West, foi outro exemplo de como a crítica oficial consegue passar ao lado do essencial: mise en scène pura (como a definia Rivette), isto é, filme que é só câmara, corpos em movimento e décor. É tão livre que roça a mais alta abstracção fantasmática.
Não escolho estes filmes por reacção ao que ficou de fora da maioria dos Tops, escolho-os porque me parece que todos eles participam na mesma evidência: o cinema, na época mais quente da sua desmaterialização, regressa às origens, aos truques de ou muito simplesmente para dentro da câmara e às fantasmagorias do cinema mudo pré-griffithiano, a Edison, Méliès, Segundo de Chomón... Resistir ao digital ou assombrá-lo - resistir para progredir… - com os efeitos do cinematógrafo? O Carlos Natálio (no seu texto de balanço à pala de Walsh) invoca a fórmula less is more, mas acho que fundamentalmente 2013 é uma lição de back-to-basics a reter.
1. "La vie d'Adèle - chapitre 1 & 2" de Abdellatif Kechiche
2. "The Innkeepers" de Ti West
3. "Killer Joe" de William Friedkin (on-demand)
4. "Zero Dark Thirty" de Kathryn Bigelow
5. "La fille de nulle part" de Jean-Claude Brisseau
6. "Passion" de Brian De Palma
8. "Insidious - Chapter 2" de James Wan
9. "Before Midnight" de Richard Linklater
10. "Mud" de Jeff Nichols
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Prémios CINEdrio 2012
Com os dez mais identificados, parto para os prémios CINEdrio deste ano.
Melhor filme: "O Cavalo de Turim". Já disse quase tudo aqui, por isso, apenas me resta sublinhar melhor esse lugar que é seu e só seu por direito próprio: o de obra-prima do ano. Aqui está um monumento ímpar erigido com recurso à mais depurada das linguagens fílmicas e que leva ao limite as potencialidades estéticas do plano e da duração cinematográficos.
Melhor realização: Béla Tarr. Despediu-se do cinema com "O Cavalo de Turim", o seu filme maior (talvez superior a "Tango de Satan") que, em sala, devolveu ao cinema a sua dimensão de "coisa experienciada" mais do que de "coisa percepcionada". Foi, na minha opinião, a grande resposta à espectacularização oca que Hollywood tem promovido com ferramentas tantas vezes inconsequentes, como o 3D. Na sala escura, nessa "caverna platónica", Tarr usou como ferramenta a própria linguagem do cinema, o seu ADN mais "primitivo", mais "primeiro". O resultado é para receber com espanto.
Melhor plano: O que abre "O Cavalo de Turim". Sobre ele, escrevi: "Não se trata (...) apenas do plano de uma carroça, porque, para isso, Tarr teria optado por filmar o conjunto (homem mais cavalo). O que o realizador húngaro faz é mostrar um cavalo e um homem, o que só é possível, precisamente, através do gesto do plano contínuo que alterna entre os dois, o cavalo mais o homem e o cavalo (= carroça). Aqui reside, em toda a sua pungência plástica, a gravitas cosmológica da câmara de Tarr: ela gravita em torno dos corpos, como astros em torno do sol, indiferente, enfim, ao peso cultural e humano das coisas, aproximando-se portanto de uma ideia ontológica significativa: o plano deve ser mesmo plano, como a realidade que nos aparece à frente, o que não quer dizer que destituída de profundidade e da tal... gravitas - esta emana, naturalmente, das pessoas como dos animais como das coisas... a câmara deve apenas planar no tempo e no espaço para captar esta Verdade."
Melhor actor: Denis Lavant ("Holy Motors") em ex aequo com Jack Black ("Bernie"). O primeiro foi o grande "personificador" do ano, uma espécie de corpo re-ligioso que opera sobre o real um pouco fazem os media: "enchendo" os vazios, os espaços deixados vagos, os papéis que urge representar. O stuntman do real ou o metteur en scène burlescamente primordial, Lavant é o rosto dos rostos ou os rostos do rosto de "Holy Motors" e de 2012. Tudo, claro, pela "beleza do gesto". Já Jack Black desmonta a hipocrisia da lei, da moral (e) da comunidade onde vive através do seu carácter, que é oferecido a todos numa transparência ou candura (quase) absoluta. Será que um anjo pode ser um "bom anjo da morte"?
Melhor actriz: Rooney Mara ("The Girl With the Dragon Tattoo"). Descobri o seu talento em bruto em 2012 - e se bruto continuar, mais vezes merecerá a nomeação. Mara tem a roughness e a punkness no sangue... Não sei se primeiro veio o ovo ou a galinha, mas estou convencido que, neste caso, o papel e a actriz encaixam na perfeição.
A revelação: Markus Schleinzer. Primeira obra como realizador e sai o filme mais perturbante de 2012: "Michael". Mas, atenção: ao contrário do seu "tutor", Michael Haneke, Markus não inquina os jogos que faz com o espectador. Na realidade, "Michael" é um filme que quase abdica de qualquer jogo, estabelecendo-se desde o início como um filme "sem assunto": a pedofilia aparece inserida numa rotina "normalizada", cabendo em primeiro lugar ao espectador a tarefa de se lembrar a si mesmo que essa "normalidade" é uma impossibilidade humana ou uma "anormalidade"... Muito difícil de ver, mas feito com grande habilidade.
A desilusão: Jeff Nichols ("Take Shelter"). Não que tenha caído com estrondo depois do excelente "Shotgun Stories", mas confesso que esperava muito mais. A segunda obra, da confirmação ou do desastre, pode ser o instante decisivo na carreira de um realizador talentoso. Neste caso, não houve nem confirmação nem desastre. Talvez "Take Shelter" seja mais o filme que faça a ponte com o que aí vem, no sentido em que "adia" o que normalmente é provocado pela segunda obra. Vamos aguardar por "Mud", que já teve a sua estreia mundial - muito discreta, por sinal - no último Festival de Cannes.
Melhor filme: "O Cavalo de Turim". Já disse quase tudo aqui, por isso, apenas me resta sublinhar melhor esse lugar que é seu e só seu por direito próprio: o de obra-prima do ano. Aqui está um monumento ímpar erigido com recurso à mais depurada das linguagens fílmicas e que leva ao limite as potencialidades estéticas do plano e da duração cinematográficos.
Melhor realização: Béla Tarr. Despediu-se do cinema com "O Cavalo de Turim", o seu filme maior (talvez superior a "Tango de Satan") que, em sala, devolveu ao cinema a sua dimensão de "coisa experienciada" mais do que de "coisa percepcionada". Foi, na minha opinião, a grande resposta à espectacularização oca que Hollywood tem promovido com ferramentas tantas vezes inconsequentes, como o 3D. Na sala escura, nessa "caverna platónica", Tarr usou como ferramenta a própria linguagem do cinema, o seu ADN mais "primitivo", mais "primeiro". O resultado é para receber com espanto.
Melhor plano: O que abre "O Cavalo de Turim". Sobre ele, escrevi: "Não se trata (...) apenas do plano de uma carroça, porque, para isso, Tarr teria optado por filmar o conjunto (homem mais cavalo). O que o realizador húngaro faz é mostrar um cavalo e um homem, o que só é possível, precisamente, através do gesto do plano contínuo que alterna entre os dois, o cavalo mais o homem e o cavalo (= carroça). Aqui reside, em toda a sua pungência plástica, a gravitas cosmológica da câmara de Tarr: ela gravita em torno dos corpos, como astros em torno do sol, indiferente, enfim, ao peso cultural e humano das coisas, aproximando-se portanto de uma ideia ontológica significativa: o plano deve ser mesmo plano, como a realidade que nos aparece à frente, o que não quer dizer que destituída de profundidade e da tal... gravitas - esta emana, naturalmente, das pessoas como dos animais como das coisas... a câmara deve apenas planar no tempo e no espaço para captar esta Verdade."
Melhor actor: Denis Lavant ("Holy Motors") em ex aequo com Jack Black ("Bernie"). O primeiro foi o grande "personificador" do ano, uma espécie de corpo re-ligioso que opera sobre o real um pouco fazem os media: "enchendo" os vazios, os espaços deixados vagos, os papéis que urge representar. O stuntman do real ou o metteur en scène burlescamente primordial, Lavant é o rosto dos rostos ou os rostos do rosto de "Holy Motors" e de 2012. Tudo, claro, pela "beleza do gesto". Já Jack Black desmonta a hipocrisia da lei, da moral (e) da comunidade onde vive através do seu carácter, que é oferecido a todos numa transparência ou candura (quase) absoluta. Será que um anjo pode ser um "bom anjo da morte"?
Melhor actriz: Rooney Mara ("The Girl With the Dragon Tattoo"). Descobri o seu talento em bruto em 2012 - e se bruto continuar, mais vezes merecerá a nomeação. Mara tem a roughness e a punkness no sangue... Não sei se primeiro veio o ovo ou a galinha, mas estou convencido que, neste caso, o papel e a actriz encaixam na perfeição.
A revelação: Markus Schleinzer. Primeira obra como realizador e sai o filme mais perturbante de 2012: "Michael". Mas, atenção: ao contrário do seu "tutor", Michael Haneke, Markus não inquina os jogos que faz com o espectador. Na realidade, "Michael" é um filme que quase abdica de qualquer jogo, estabelecendo-se desde o início como um filme "sem assunto": a pedofilia aparece inserida numa rotina "normalizada", cabendo em primeiro lugar ao espectador a tarefa de se lembrar a si mesmo que essa "normalidade" é uma impossibilidade humana ou uma "anormalidade"... Muito difícil de ver, mas feito com grande habilidade.
A desilusão: Jeff Nichols ("Take Shelter"). Não que tenha caído com estrondo depois do excelente "Shotgun Stories", mas confesso que esperava muito mais. A segunda obra, da confirmação ou do desastre, pode ser o instante decisivo na carreira de um realizador talentoso. Neste caso, não houve nem confirmação nem desastre. Talvez "Take Shelter" seja mais o filme que faça a ponte com o que aí vem, no sentido em que "adia" o que normalmente é provocado pela segunda obra. Vamos aguardar por "Mud", que já teve a sua estreia mundial - muito discreta, por sinal - no último Festival de Cannes.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Os melhores de 2012
Confesso que na elaboração deste Top senti de imediato a frustração de não poder incluir "Killer Joe", passado que está mais um ano sobre a sua primeira exibição em Portugal (no Lisbon and Estoril Film Festival não deste ano mas do anterior). A exibição do "escandaloso" filme de Friedkin continua a sofrer sucessivos adiamentos, o que só demonstra a incapacidade das distribuidoras para acompanharem em ousadia o percurso dos cineastas mais corajosos do momento. O próprio Friedkin assumiu este ano na Cinemateca Francesa que este filme era "tudo ou nada" para ele; que estava consciente de que "Killer Joe" poderia acabar de vez (vitimar, por assim dizer) a sua carreira no cinema. Os empresários do mercado de distribuição parece que não quiseram dar essa hipótese ao autor de "Bug", o que é, de facto, uma pena. Pena maior talvez foi não ter visto no circuito comercial duas obras-primas que passaram em contexto de festival: "The Innkeepers" de Ti West e "Everybody in Our Family" de Radu Jude. Se qualquer um destes três filmes tivesse estreado, o meu Top seria muito diferente (para melhor).
Posto isto, também quero deixar uma nota sobre a descabida estreia "direct-to-DVD" (ou "direct-to-TV") de "Pa negre" de Agustí Villaronga. Face à quantidade de porcaria que passou pelas nossas salas, pergunto-me como não foi possível ter havido espaço para mostrar aquele que terá sido o filme espanhol do ano, o regresso de um cineasta que já assombrara o público nacional (em sala, por sinal) com "El mar". (Adenda do dia 27 de Dezembro: depois de visto "Guerra Civil" de Pedro Caldas, estreado também na RTP2, perguntava não às distribuidoras, mas à Sociedade Portuguesa de Autores, como pode ser possível que "barre" a distribuição comercial de um filme com esta pujança e com esta pungência?!)
Outro registo menos bom, que não sei se será da responsabilidade das distribuidoras, é a qualidade baixa deste ano cinematográfico. Coincidiu (ou então adveio disso) que foi dos anos em que vi mais filmes estreados em sala (mais de 70), dos quais recomendaria com algum entusiasmo cerca de 30, mas dos quais apenas 13 ou 14 consideraria obras de relevo, que merecerão a nossa atenção em futuras (re)descobertas ou já marcaram em definitivo a vida cinéfila. O mais marcante foi "O Cavalo de Turim", a obra-prima de 2012 que não deu hipóteses nenhumas à concorrência. Todavia, tenho de alertar que não consegui ver os últimos de Oliveira, Akerman, Ceylan e Chabrol. (Desconfio que, pelo menos, o filme do centenário realizador português teria muitas possibilidades de integrar este elenco de excepção.)
Posto isto, também quero deixar uma nota sobre a descabida estreia "direct-to-DVD" (ou "direct-to-TV") de "Pa negre" de Agustí Villaronga. Face à quantidade de porcaria que passou pelas nossas salas, pergunto-me como não foi possível ter havido espaço para mostrar aquele que terá sido o filme espanhol do ano, o regresso de um cineasta que já assombrara o público nacional (em sala, por sinal) com "El mar". (Adenda do dia 27 de Dezembro: depois de visto "Guerra Civil" de Pedro Caldas, estreado também na RTP2, perguntava não às distribuidoras, mas à Sociedade Portuguesa de Autores, como pode ser possível que "barre" a distribuição comercial de um filme com esta pujança e com esta pungência?!)
Outro registo menos bom, que não sei se será da responsabilidade das distribuidoras, é a qualidade baixa deste ano cinematográfico. Coincidiu (ou então adveio disso) que foi dos anos em que vi mais filmes estreados em sala (mais de 70), dos quais recomendaria com algum entusiasmo cerca de 30, mas dos quais apenas 13 ou 14 consideraria obras de relevo, que merecerão a nossa atenção em futuras (re)descobertas ou já marcaram em definitivo a vida cinéfila. O mais marcante foi "O Cavalo de Turim", a obra-prima de 2012 que não deu hipóteses nenhumas à concorrência. Todavia, tenho de alertar que não consegui ver os últimos de Oliveira, Akerman, Ceylan e Chabrol. (Desconfio que, pelo menos, o filme do centenário realizador português teria muitas possibilidades de integrar este elenco de excepção.)
1. "A torinói ló" de Béla Tarr
2. "4:44 Last Day on Earth" de Abel Ferrara
3. "Cosmopolis" de David Cronenberg
4. "Tabu" de Miguel Gomes
5. "The Girl With the Dragon Tattoo" de David Fincher
6. "Moonrise Kingdom" de Wes Anderson
7. "Kiseki" de Hirokazu Kore-eda
8. "The Hunter" de Rafi Pitts
9. "Michael" de Markus Schleinzer
10. "Hors Satan" de Bruno Dumont / "Holy Motors" de Leos Carax
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Os rostos de 2012
Figura do ano (internacional)
Despediu-se do cinema com uma obra-prima sem par, um daqueles filmes que se arrisca a lançar todo o resto de 2012 para o buraco negro do esquecimento. "O Cavalo de Turim", que graças à MIDAS Filmes pôde ser apreciado em sala (o único sítio possível para o ver) pelos portugueses, não é só o maior filme deste ano, é também um dos maiores filmes de todos os tempos. Aqui no CINEdrio dediquei-lhe 9 pontos de análise, o décimo está guardado para um artigo que sairá em breve na revista CineCachoeira da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. A figura internacional de 2012 premeia, assim, a despedida genial de um grande realizador de cinema.
Figura do ano (nacional)
Miguel Gomes
É inevitavelmente o grande nome do cinema português da actualidade. Nesta época de balanços e tops o que é difícil é não encontrar "Tabu" entre os melhores. Os Cahiers du cinéma (8.º lugar) iniciaram a onda que tem sido cavalgada por várias publicações, desde a britânica Sight & Sound (2.º lugar) até, mais recentemente, aos americanos da Film Comment (11.º lugar). Os ingleses são, de facto, os maiores entusiastas, tendo o London Film Critic's Circle nomeado "Tabu" para o prémio de melhor filme estrangeiro do ano, ao lado de títulos como "Amour" e "Holy Motors". Também é na Grã-Bretanha que este filme será lançado em Blu-ray, no dia 14 de Janeiro, pela mão da New Wave Films. Penso que ainda não ouvimos tudo acerca deste que é mais um grande filme de Miguel Gomes, que se junta assim aos seus outros excelentes filmes: "Aquele Querido Mês de Agosto" (para mim, o melhor) e "A Cara Que Mereces" (já para não falar de algumas óptimas curtas-metragens que realizou antes desta sua subvalorizada primeira longa).
Muito cá de casa: balanço caseiro do ano de 2012
Tradições são tradições. Passado que está pouco mais que um ano sobre o balanço caseiro de 2011, é tempo de rebobinar 2012 e tentar deixar aqui uma amostra do que melhor vi no "pequeno ecrã". Tento replicar o critério utilizado nos últimos dois anos, pelo que não estranhem se numa ou noutra escolha não haja, na realidade, uma correspondente edição em DVD ou Blu-ray pronta a ser adquirida. Volto a sublinhar: o mercado, sobretudo agora com o reboot da alta-definição, é muito expedito a reeditar títulos famosos, mas, pelo contrário, arrisca pouco no lançamento de obras que precisam de ser vistas pela primeira vez. Colecciono e divulgo filmes, mas nem sempre o mercado é suficiente para responder à minha curiosidade em relação às obras que ainda não mereceram a atenção devida.
Jordan Belson
O que me trouxe à obra do cineasta experimental norte-americano Jordan Belson foi um texto de Gene Youngblood, «The Cosmic Cinema of Jordan Belson», publicado na revista Film Culture na Primavera de 1970. O que me atraiu mais foi a associação feita entre a trip cósmica de "2001" e as experiências audiovisuais de Belson. De facto, vendo por exemplo "Allures" e "Samadhi", entendi a comparação, mas descobri mais: um cinema puramente sensorial que consegue lidar com formas abstractas e uma impressionante palete de cores sem se tornar minimamente "pictórico". É, de facto, um mergulho no cosmos, uma experiência no limite do Absoluto. Retroactivamente, pensar em "The Tree of Life" de Malick parece-me inevitável ante a monumentalidade destas imagens miraculosas.
Peter B. Hutton
Peter B. Hutton terá sido "a descoberta" de 2012. A sua trilogia de Nova Iorque e o seu retrato de Budapeste produziram em mim um sentimento de assombramento despertado em cada plano, em cada fade out repentino (e há verdadeiramente um "Hutton's touch" nestes "blackouts" súbitos, como no grão do seu preto-e-branco matérico) ou em cada traço novo produzido a partir do (des)velamento de uma paisagem "comum". É o triunfo de um verdadeiro "olhar de cineasta" sobre o mundo.
Hotel Monterey
O segundo filme de Chantal Akerman, realizado quando tinha apenas 22 anos, provocou em mim um trauma do qual ainda não me recompus - e entretanto revi-o em sala, redescobrindo logo aí outro filme... É um filme feito com uma câmara que se movimenta - não certamente por si mesma - num cenário tão banal e universal como é um hotel de Nova Iorque, mas aí vamos percebendo que habitam fantasmas antes de habitarem pessoas. Quer dizer, os fantasmas aparecem-nos através da sua câmara, através do seu olhar - porque é ele, e não a câmara, que é específico e singular - sobre aqueles lugares... É um exercício sobre o tempo e o espaço com uma densidade estética e atmosférica terrivelmente hipnotizadora. A sua edição pela mão da Eclipse, numa caixa com outros títulos magníficos, é obrigatória para qualquer cinéfilo.
Jalsaghar
Este "Salão de Música" de Satyajit Ray é um daqueles filmes que não existem, na realidade, não existe porque invoca imediatamente um lugar. É um lugar habitado apenas pela memória, uma memória traduzida pela música, mais concretamente pela reverberação de sons do passado que ainda encantam - e assombram - cada um dos recantos do grande salão caído no esquecimento. Experiência estética que faz de um clássico arco narrativo pretexto para a exibição das sonoridades mais ou menos secretas da música indiana, dada aqui a ouvir como música do mundo (não há exotismos, porquanto tudo isto nos toca). Um mundo cabe aqui no salão mágico, tal como o candeeiro de cristais cabe, reflectido, num copo de vinho. Terá sido o último Criterion que comprei em formato DVD, numa cópia impecável. Contudo, se puder arranjar o Blu-ray, ficará melhor servido.
The Leopard Man
Obra-prima absoluta que sintetiza tudo o que se deve saber em matéria de criação de atmosferas de terror. Jacques Tourneur, qual grande engenheiro do medo, compõe quadros de um preto-e-branco assombroso que, na sua sucessão, vão transformando uma historieta banal num trabalho de pura arte fílmica e, outrossim, de sedução e medo provocados pela indefinição dos seus mistérios mais escondidos... É o grande filme produzido por Val Lewton, obra que sobe mais alto que todas as outras na magnífica caixa editada pela Warner Home Video.
Man in the Wilderness
Richard C. Sarafian, para muitos reconhecido por ser o realizador de "Vanishing Point", foi o autor que mais me encheu as medidas neste final de ano. A sua magnum opus chama-se "Man in the Wilderness", filme com Richard Harris e John Huston sobre a fé, a Natureza e a luta pela sobrevivência de um homem traído pelos seus iguais. Algumas imagens são de uma beleza arrebatadora, mas o que fica é a viagem espiritual/a via sacra do protagonista e a comunicação íntima que vai estabelecendo com o meio natural que o envolve e interpela. Vi "Man in the Wilderness" e também o magnífico "The Man Who Loved Cat Dancing" numa edição da marca francesa Wilde Side Video, que recomendo também por causa da entrevista exclusiva a Sarafian que tem como extra (já a qualidade de imagem das cópias é algo discutível).
Les cousins
Hesitei um pouco, mas este é o meu "Blu-ray de 2012" (seria "On the Bowery", mas já o destaquei, em DVD, no balanço realizado há um ano). Não falo só da qualidade da transcrição - que é óptima, de qualquer modo - mas acima de tudo do choque que foi o encontro com este filme de Chabrol, só o seu segundo filme, mas até hoje - a par de "Juste avante la nuit" - o que me perturbou mais. A forma como o registo do filme nunca estabiliza, entre a tragédia realista e a aragem livre e leve da Nouvelle Vague, é um dos elementos que me fez, simultaneamente, estranhar e entranhar este filme muito difícil de classificar. Jean-Claude Brialy compõe uma máscara poderosa que anula o rosto "sem máscara" - logo, desprotegido - de Gérard Blain, dois papéis imensos que aqui produzem uma espécie de reflexo invertido sobre o filme anterior - o primeiro - de Chabrol, "Le beau Serge" (também editado em Blu-ray). Vi "Les cousins" na edição Blu-ray da Gaumont, mas entretanto não faltam alternativas (ainda mais) simpáticas: edição da Criterion e, em breve, da Masters of Cinema.
Milestones
Tendo sido a Cinemateca Portuguesa/ANIM responsável pelo restauro deste filme "esquecido" - mas muito amado por quem se lembra - de Robert Kramer e John Douglas, pergunto-me se não se perdeu uma grande oportunidade para uma distribuidora com coragem o lançar no circuito comercial. Não só isso não aconteceu, como também não foi em DVD que esta ficção documental ou este documentário ficcional chegou aqui a casa. Na realidade, foi pela mão da RTP2 que os portugueses puderam apreciar este monumento erigido a toda uma geração, aquela que, na América, fez a ponte entre os anos 60 e os anos 80. Fim de muitos sonhos - de uma certa ideia de liberdade - para o começo de uma outra vida, talvez, com menos sonhos - e, talvez também, com menos liberdade.
O noir do ano
Aqui hesitei muito. Podia ter escolhido "High and Low" de Kurosawa ou, por exemplo, "Bob le flambeur" de Melville. Também havia a hipótese "The Big Combo" de Joseph H. Lewis, film noir que tem sido muito recuperado nos últimos tempos mas que me deixou um travo a decepção... Escolho, então, outro "filme grande" que tinha em falta, mas que não deixei fugir em 2012: "Touchez pas au grisbi" de Jacques Becker. Não é bem o típico film noir ou polar, diria que tende até mais para o gangster movie, uma espécie de "gangster movie de avôzinhos". Eis a visão (com a sua ponta de ironia) de um grupo de veteranos "senhores do crime" e a tentativa de um deles de procurar sair em beleza da "profissão de uma vida". Jean Gabin, o "herói", é excelente, mas o que gostei mais ainda foi a mise en scène de Becker, nomeadamente o seu gosto por pacientes "alternâncias de cenário" antes que o plot estale e chame a si todas as atenções. Muita classe.
sábado, 24 de dezembro de 2011
Os rostos de 2011
Figura do ano (internacional)

Jafar Panahi
Bem... Panahi não "realizou" propriamente um filme - porque isso seria ilegal -, na realidade, o que ele fez foi "desrealizar" um dos seus últimos argumentos que, por razões políticas, viria a não se concretizar e que nunca poderia ser realizado nas condições presentes de Panahi, entre quatro paredes e sem a efectiva possibilidade... de realizar - "Isto Não é um Filme" é, por isso, sobre a impossibilidade de um filme e, ao mesmo tempo, sobre a urgência anti-egotista do cineasta-artista de o fazer. Quem realizou esta "desrealização" foi o seu amigo Mojtaba Mirtahmasb, ainda que Panahi "comande" cada movimento de câmara, determine o conteúdo deste "filme que não é um filme" - a única coisa a que está "proibido" é de "mandar cortar".

Os limites da realização numa obra feita em cativeiro, que lembra "Offside", filme que Panahi assinou em 2006, nomeadamente, a situação das mulheres aficcionadas de futebol que, proibidas de assistir por razões legais/culturais ao jogo que opõe a selecção do Irão à do Bahrein, se vêem limitadas por um perímetro de segurança, dentro do qual o jogo só lhes chega em ruídos ou mediado, através de relatos feitos pelos seguranças. Em certa medida, "Offside" é um "Isto Não é um Jogo de Futebol" para essas mulheres, que se debatem com a angústia de estarem simultaneamente perto e muito longe do objecto de desejo: portanto, um jogo de bola, neste caso; um filme que não foi realizado ou "à beira de se realizar...", no primeiro caso. Constatação assombrosa, proporcionada por esse double bill que chegou às nossas salas este ano: mesmo preso, "sem perspectivas de futuro", Jafar Panahi continua a pensar o seu país e a condição dos que nele produzem e procuram imagens - outras e novas imagens... Algo notável, que mereceu a minha sincera compaixão.
Figura do ano (nacional)

Susana Sousa Dias
Já escrevi, mas repito: com "48", Susana Sousa Dias ensaia sobre o poder extraordinário que as imagens de[ um] Portugal irreconhecível conferem às suas vítimas: o poder de lembrar e, mais importante, o poder de esquecer. Por um lado, as fotos despertam narrativas que estavam adormecidas; por outro lado, só essas fotos conseguem libertar as histórias de quem as viveu (o narrado passa a narrador). É um aprisionamento NA imagem que é seguido de uma libertação do encarcerado DA imagem. Uma cartarse histórica, que Susana Sousa Dias inicia (des)assombradamente. Acrescento ainda que, para além de ter feito o filme português mais significativo do ano, Susana Sousa Dias foi uma das responsáveis pela programação do último DocLisboa, que, nem por acaso, teve, quanto a mim, a sua melhor programação de sempre. Está, portanto, duplamente de parabéns.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Prémios CINEdrio 2011
Com o top publicado, avanço para os prémios do ano.
Melhor filme: "The Tree of Life". Vi e revi, e tenho a dizer o seguinte: "The Tree of Life" é , quanto a mim, antes de tudo, uma experiência poderosíssima de redescoberta dos limites "originários" da existência. A existência, ponto 1, como "produção de vida", a existência, ponto 2, como "experiência de toque", de reconhecimento do outro, a existência, ponto 3, como luto, como celebração e aceitação de um Fim (para que algo "exista" alguma coisa tem de desaparecer, alguma coisa tem de falhar, daí a natureza destrutiva do homem, que começa no ódio de morte do miúdo pelo pai... por si mesmo... e termina com a morte de um filho e a incompreensão da mãe, do pai, do filho dirigida a Deus). A marcha final, com vivos e mortos de mãos dadas, é, a meu ver, um momento de aceitação de tudo isto, logo, um poderoso hino à vida. É que a criança que morre é, como Job, a "boa" do filme, algo que a justiça dos homens não compreende, mas que é parte da vida, isto é, parte fundamental da nossa existência/insistência.
"The Tree of Life" não é um filme cristão, pois, mais do que isso, é um filme transcendente ou, essencialmente, Re-ligioso. Malick aceita a graça - a mãe - mas também encontra beleza, uma "necessária" beleza, na implacabilidade (se calhar, pouco cristã...) da Natureza - o pai. Não é espantoso que o universo nasceu de explosões, cinzas e caos? O universo nasceu da destruição e continua a constituir-se e a progedir, mesmo no mais microcósmico dos "ciclos de vida", alimentando-se desse "fim" - como uma experiência de luto em contínua renovação. Fica a ressoar no espírito de quem quis ver e ouvir este monumento malickiano uma oração, que começa assim: celebremos, "sem culpa", o Fim como geração de vida algures no espaço... de uma árvore, quem sabe.
Melhor plano: Frammartino em "Le quattro volte". Aqui, muito sinceramente, apetecia-me responder "todos os planos de "The Tree of Life", da "dança dos pássaros", passando pela "dança da mãe" (pelo ar... como um pássaro? Não, como uma borboleta...), ao plano invertido das sombras das crianças que brincam sobre o asfalto..." O filme de Malick é uma obra-prima cinematográfica de uma pureza e transcendência visual que não cabe num plano isolado. Por isso mesmo, escolho o magnífico plano-sequência, ou melhor, o magnífico plano-sequênciaS de "Le quattro volte", que tem o cãozinho, que atrapalha a procissão romana, como denominador comum, uma espécie de pêndulo que entrecruza, num curto percurso, várias pequenas narrativas. Só visto, porque parece um milagre.
Melhor actor: Peyman Moaadi ("Uma Separação") em ex aequo com Albert Brooks ("Drive"). O rosto marcante do excelente filme de Farhadi é, talvez ao contrário do que seria de esperar, o do pai, interpretado por Peyman Moaadi, com uma sinceridade e naturalidade comoventes. Albert Brooks, por seu lado, é a mais arrojada "solução de casting" do ano; ele que interpreta o cruel, mas ao mesmo tempo "compreensivo" vilão de "Drive", lançando assim vinagre sobre uma carreira feita de personagens bondosas e docemente "passivas" (vide, por exemplo, "Lost in America" ou o genial "Broadcast News").
Melhor actriz: Anabela Moreira ("Sangue do Meu Sangue"). O pódio é dela e só dela. Foi a interpretação mais exigente do ano, de uma entrega "com o corpo" que não vemos habitualmente no cinema - só talvez nas personagens femininas de Lars von Trier. Já a tínhamos destacado em "Mal Nascida", mas aqui consegue a proeza de sobressair, com grande mérito, num dos elencos mais fortes do ano.
A revelação: Susana Sousa Dias. Foi tirar do baú as imagens do Portugal sombrio de Oliveira Salazar, da PIDE, do terror e do trauma. As imagens dos rostos "encarcerados" da Resistência sobrepõem-se em camadas de memória (repressivas, reprimidas), revelando - e o termo certo é mesmo revelar - a dimensão aurática da imagem fotográfica, que Benjamin fala n'"A Pequena História da Fotografia". Com "48", Susana Sousa Dias ensaia sobre o poder extraordinário que as imagens desse Portugal irreconhecível conferem às suas vítimas: o poder de lembrar e, mais importante, o poder de esquecer. Por um lado, as fotos despertam narrativas que estavam adormecidas; por outro lado, só essas fotos conseguem libertar as histórias de quem as viveu (o narrado passa a narrador). É um aprisionamento NA imagem que é seguido de uma libertação do encarcerado DA imagem. Uma cartarse histórica, que Susana Sousa Dias inicia (des)assombradamente.
A desilusão: David Cronenberg ("A Dangerous Method"). É Cronenberg a reprimir Cronenberg, isto é, a deixar de fazer psicanálise para passar a se constituir como objecto de psicanálise. Uma "psicose autoral", uma egomania snobe, talvez decorrente de uma qualquer crise de meia idade consubstanciada num career move mais estratégico do que estético: ao se constituir como um realizador à americana, à moda antiga, deixará de queixo caído quem viu no seu cinema a mais expressiva "exteriorização de uma interioridade". Agora temos o auto-referencial e muito "caro" processo inverso: tudo o que se exteriorizava é agora interiorizado, para ser detectado "à superfície" com pinças e uma lupa - pasmem-se se quiserem, Cronenberg agora é MESTRE! Resulta daqui o seguinte: o novo Cronenberg é cinema de género para as massas - e funciona! - e trabalho de crítico erudito (subtextual) para as elites - e, pelos vistos, também funciona! Eu, pela minha parte, não tenciono fazer parte deste jogo tão demagógico quanto reaccionário.
(Subtileza, subtileza... a palavra parece marcar presença em quase todos as críticas entusiastas deste filme de Cronenberg, mas só vejo subtileza no seguinte: o filme sobre os pais da psicanálise é o menos psicanalítico filme de Cronenberg, ou só é psicanalítico na medida em que faz do filme e do seu realizador um caso de psicanálise: por que adapta Cronenberg esta história agora? Não está Freud e o surrealismo e os complexos de édipo e castração devidamente latentes em toda a sua obra? Cronenberg adapta esta história para mostrar que consegue falar de Freud sem ser freudiano, sem ser "cronenberguiano"! Quem se seguirá no futuro próximo: um Kafka não kafkiano? Brilhante! Subtil!, dizem... Subtileza mole e indolente, acrescento eu.)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Os melhores de 2011
Não vou referir "Killer Joe" de William Friedkin (melhor filme que vi no último Lisbon & Estoril Film Festival), "Bummer Summer" de Zach Weintraub (melhor filme que vi no último IndieLisboa), "Twenty Cigarettes" de James Benning e, sobretudo, a obra-prima "O Nosso Homem" de Pedro Costa (os melhores filmes que vi no último DocLisboa). Um punhado de excelentes filmes que talvez tivessem lugar assegurado num top do ano, mas que, por não se terem (ainda) estreado comercialmente em Portugal, excluo para não misturar alhos com bugalhos.
Noto, comparando com o top do ano passado, que nesta selecção não aponto nenhum "direct-to-DVD", algo que fazia, por duas vezes - mas até podia ter feito por mais vezes -, na lista de 2010. Trata-se de um sinal positivo quanto à qualidade dos critérios de selecção das nossas distribuidoras, que melhorou substancialmente em relação a 2010. Ainda assim, filmes de Claire Denis ("White Material"), Todd Solondz ("Life During Wartime"), Anh Hung Tran ("Norwegian Wood") ou, sobretudo, Greg McLean ("Rogue") talvez merecessem uma estreia em sala, mas, como digo, podia ter sido bem pior. Contudo, critico, com severidade, os responsáveis pela decisão de limitar geograficamente a distribuição em sala de filmes como "Restless".
1. "The Tree of Life" de Terrence Malick






8. "Jodaeiye Nader az Simin" de Asghar Farhadi


1. "The Tree of Life" de Terrence Malick
2. "Restless" de Gus Van Sant

3. "48" de Susana Sousa Dias

4. "The Ward" de John Carpenter

5. "Bal" de Semih Kaplanoglu

6. "Loong Boonmee raleuk chat" de Apichatpong Weerasethakul

7. "Le quattro volte" de Michelangelo Frammartino
8. "Jodaeiye Nader az Simin" de Asghar Farhadi
9. "Sangue do Meu Sangue" de João Canijo

10. "Le gamin au vélo" de Jean-Pierre & Luc Dardenne
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