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quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Deus ex machina VIII: das prisões injustas ao apagamento fetichista na imagem
Desta selecção, gerada automaticamente (ou perto disso) pela aplicação LinkWithin, encontro duas narrativas "interligadas" que considero, no mínimo, curiosas. Do lado esquerdo, o preso de Bresson alterna com o preso de Lang, dois iminentes evadidos, que não toleram as grades tanto quanto se batem por um ideal de justiça - bem pervertido no clássico do realizador alemão...
Do lado direito, leio um "efeito íris" sobre a imagem de um tornozelo feminino com mais de 100 anos de idade, instante que, no frame seguinte, desfecha na escuridão "cheia de imagens" do famigerado filme de João César Monteiro, o negro de morte "Branca de Neve". Não há coincidências: César era um orgulhoso fetichista, ou melhor, um nada pudico apreciador de "partes femininas". Mas agora, antes que o leitor veja demasiado... lights out!
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Listas individuais Sight and Sound (I): o que dizem os especialistas sobre o cinema português
"Juventude em Marcha" (2006) de Pedro Costa
Acabam de ser tornadas públicas as listas individuais do top dos "especialistas em cinema" (vamos chamar assim todos os críticos, distribuidores, programadores, académicos que responderam ao desafio da Sight and Sound de eleger os melhores filmes de sempre, uma lista que comentei aqui).
Esta base de dados tem muito sumo lá dentro e, por isso, precisarei de alguns dias até a ter digerido convenientemente. Todavia, deixo já aqui as minhas conclusões mais imediatas.
Primeiro, a produção nacional está de parabéns. Três realizadores portugueses viram mais que um dos seus filmes mencionados por especialistas numa lista onde só se inclui a "nata da nata" do cinema mundial. Pedro Costa, com 13 nomeações no total, e Manoel de Oliveira, com 10, são os cineastas portugueses em maior destaque - seguindo-se João César Monteiro.
Segundo, "Juventude em Marcha" é o filme português com mais menções, 7 no total, seguido de "No Quarto da Vanda", 5 no total. "Vale Abraão" é o terceiro filme português mais "votado", contando com um total de 3 votos, a par de "Mistérios de Lisboa" de Raoul Ruiz. Críticos franceses, espanhóis, britânicos e americanos fazem parte do eleitorado especializado que resolveu alinhar o cinema português com os melhores do mundo.
Terceiro, este resultado é um triunfo nacional que deve ser analisado, antes de cinematograficamente, sob uma perspectiva política. Isto porque, afinal, fica de novo provado, e agora diria "em definitivo", a longevidade e alcance de filmes que, por uma razão ou outra, não mereceram a atenção devida internamente, quer do público, quer do poder político, quer mesmo de alguns "colegas de profissão". Fica provado que cineastas como António-Pedro Vasconcelos ou agentes políticos como o actual Secretário de Estado da Cultura estão rotundamente errados quando vêm desmerecer o cinema de autor nacional, com epítetos como "Pedro Costa, o cineasta oficial das Fontainhas" ou asserções ligeiras em torno da reconciliação um, dois, três entre o cinema nacional e o seu público. A eles devia ser dedicada esta lista.
Quarto, o cinema português vive um período de graça lá fora. Em muito mais casos do que se calhar esperaríamos há uns anos, Pedro Costa e Manoel de Oliveira são ou colocados entre os dez maiores cineastas de sempre ou quando não o são a sua ausência é lamentada pelo especialista votante. Pergunto-me se para tal não terão contribuído as recentes edições em DVD de Pedro Costa, por algumas das melhores editoras de filmes do mundo, como a americana Criterion Collection ou a espanhola )intermedio(, ou caseiramente pela própria Midas (com legendas em inglês), como também o lançamento nacional de algumas obras de Oliveira que estavam há demasiado tempo inacessíveis no mercado (inter)nacional.
Estou certo que teríamos mais nomes e títulos nacionais referenciados se outras obras fundamentais da nossa história tivessem o mesmo tratamento, falo de "Acto da Primavera", "Benilde ou a Virgem Mãe" e "Amor de Perdição" (este apenas disponível numa edição de qualidade suspeita, em Espanha) ou, reportando-me a outros grandes cineastas e obras-primas lusas, toda a obra de António Reis e Margarida Cordeiro, o enorme "Verdes Anos" de Paulo Rocha, etc.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Recorte de falas (XI): Vai~e~Vem
João Vuvu, familiar de João de Deus (ambos encarnados por João César Monteiro), ouve o desabafo da sua amiga, a actriz wannabe de nome Jacinta (Rita Durão) que desabafa sobre uma experiência pouco satisfatória que teve no mundo da Sétima Arte. As meninas actrizes ouviam sermões que envolviam trocadilhos com grandes actrizes do ido star-system. A famosa diva sueca merece, aliás, o trocadilho do século. Mas o Excelentíssimo Senhor Director João de Deus tinha razão: sem o seu nome como objecto e o sobrenome como qualidade, não há quem se faça Actriz!
Jacinta: Depois dos minetes, éramos obrigadas à leitura de poemas. Horas e horas a fio, com as armas e os barões assinalados para trás e para frente. Que seca! Mas o pior era quando ele se punha a andar dum lado para o outro e começava a arrotar postas de pescadas, com maus modos: 'Só sabem é fazer olhinhos e pestanejar, julgando-se belas, talvez. É por estas e por outras que o cinema chegou ao estado a que chegou.' Nós começávamos a fazer beicinho e a ficar nervosas, completamente destroçadas. Era então que sobrevinha a fúria. Parecia fora de si, transfigurado os olhos raiados de sangue. Dava-lhe uma na veneta e descompunha-nos, em altos gritos: 'Nunca terão o garbo da Greta nem sequer a greta da Garbo!'
João Vuvu: Um tiranete pouco estimulante, em suma. E ao menos pagava?
Jacinta: Nunca vi cheta.
(Muito obrigado ao meu amigo Francesco Giarrusso, o maior experto em César Monteiro, pelo fino recorte.)
Jacinta: Depois dos minetes, éramos obrigadas à leitura de poemas. Horas e horas a fio, com as armas e os barões assinalados para trás e para frente. Que seca! Mas o pior era quando ele se punha a andar dum lado para o outro e começava a arrotar postas de pescadas, com maus modos: 'Só sabem é fazer olhinhos e pestanejar, julgando-se belas, talvez. É por estas e por outras que o cinema chegou ao estado a que chegou.' Nós começávamos a fazer beicinho e a ficar nervosas, completamente destroçadas. Era então que sobrevinha a fúria. Parecia fora de si, transfigurado os olhos raiados de sangue. Dava-lhe uma na veneta e descompunha-nos, em altos gritos: 'Nunca terão o garbo da Greta nem sequer a greta da Garbo!'
João Vuvu: Um tiranete pouco estimulante, em suma. E ao menos pagava?
Jacinta: Nunca vi cheta.
(Muito obrigado ao meu amigo Francesco Giarrusso, o maior experto em César Monteiro, pelo fino recorte.)
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Etiqueta boboniana do cinema
10. E, pronto, depois eu fui ao Blogger, editar mensagem e escrevi no ponto 10 da minha Etiqueta boboniana: "Em momento algum, deverá assumir em público que aprendeu o que aprendeu graças a esta etiqueta boboniana. Nem Paula Bobone assume as suas fontes, apenas refere que por pertencer a uma classe superior a boa educação corre-lhe naturalmente no sangue". Depois fui a imagem e fiz o upload de duas fotos da mesma Paula Bobone em "Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço" (1970), primeiro filme de João César Monteiro. Escrevi uma legendagem espirituosa com hiperlink e lembrei-me logo de outra regra: "Se quer escrever livros sobre boas maneiras, por favor, certifique-se que NUNCA trabalhou para um senhor chamado João César Monteiro". E depois cliquei em Publicar Mensagem e pronto. Foi giro enquanto durou.
Paula Bobone em "Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço": "Não sei nada. Não sei nada."
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