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segunda-feira, 22 de julho de 2013

A cada realizador, o seu chicote amestrador

Federico Fellini, "Otto e mezzo" (1963) 

Não sou um carrasco de atores. Como devem saber, há duas grandes escolas de amestrar leões: a francesa e a alemã. Na primeira, a francesa, os animais são mantidos rigorosamente em lugares precisos. Na outra, a alemã, os animais parecem sempre estar brigando com o domador. Esperava-se antes que a primeira escola fosse a alemã e a segunda a francesa, mas é precisamente o contrário. Há também duas grandes escolas de diretores: aquela em que o diretor domina o ator e o aterroriza para fazer sua parte, e a outra, à qual pertenço.

Entrevista a Orson Welles in André Bazin, Orson Welles, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998, p. 176

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os dez melhores de sempre

Inspirado pela lista, recém publicada pela revista inglesa Sight & Sound, com os "melhores filmes de sempre" (que comentei aqui) e pelo desafio que o Samuel do Keyzer Soze's Place colocou aos seus leitores, elaborei um top 10 da minha autoria, onde constam, posso dizê-lo, os dez filmes que moldaram a minha cinefilia. O problema com as listas é o de termos de conviver com as ausências imperdoáveis, no caso, o critério foi muito pessoal, quase autobiográfico.

1. "2001: A Space Odyssey" (1969) de Stanley Kubrick


Aqui aprendi a pensar com imagens e percebi que, no cinema (como na vida), o mistério pode nunca acabar (= a minha primeira grande noção de infinito).

2. "Citizen Kane" (1941) de Orson Welles


Aqui percebi o que podia ser a grandeza do classicismo norte-americano e, logo a seguir, a loucura de um génio que o celebrou ao mesmo tempo que o dinamitou por dentro.

3. "North by Northwest" (1959) de Alfred Hitchcock


Aqui deixei-me levar pela aventura de um "homem errado" e desejei que esta nunca acabasse.

4. "Raging Bull" (1980) de Martin Scorsese


Aqui aprendi a ver tragédia e bailado a partir de um palco só: um ringue de boxe, mais especificamente.

5. "Monsieur Verdoux" (1947) de Charles Chaplin


Aqui percebi que há mais vida para lá dos clássicos maiores de Chaplin; logo, aprendi a amar a descoberta cinéfila.

6. "El espíritu de la colmena" (1973) de Victor Erice


Aqui voltei a ouvir e a ver como uma criança e apercebi-me do papel que o silêncio e a paisagem podem desempenhar sobre as imagens. 

7. "Assault on Precinct 13" (1976) de John Carpenter


Aqui aprendi a relacionar e a ler cinema, para descobrir, por exemplo, que por trás de uma coisa (o thriller urbano de cerco) pode estar outra (um western de cerco hawskiano).

8. "Bringing Up Baby" (1938) de Howard Hawks


Aqui desfiz um preconceito que me perseguia: é que a comédia não é mesmo nada um "género menor".

9. "Mon Oncle" (1958) de Jacques Tati


Aqui encontrei as figuras, os ritmos e as distracções que, ainda hoje, alimentam o meu (resistente!) imaginário de infância (uma infância idealizada, claro está).

10. "Ivan, o Terrível Parte I e II" (1944-1958) de Serguei M. Eisenstein


Aqui sim, verdadeiramente, percebi como se pode "escrever História com luz" (a frase é de Woodrow Wilson a propósito do moralmente deplorável "The Birth of a Nation" de D.W. Griffith).


Reendereço o desafio a todos os bloggers de cinema (e não só!) que passem por este cantinho.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Recorte de falas (XII): Isto Não é um Filme

"Isto Não é um Filme" (2010) é um dos grandes títulos deste ano de cinema. E é também dos mais exactos: de facto, não é filme nenhum este documentário sobre os dias de prisão domiciliária de Jafar Panahi - condenado pelo Estado iraniano a uma pena que poderá ir até aos 6 anos de prisão e até 20 anos de interdição de filmar. Quer dizer, não é o filme que Panahi quer que ele seja: a concretização "in door" do último argumento que escreveu e que acabou rejeitado.

(Esta expressão do cinema como necessidade mais do que criação galvanizante e egotista faz-me lembrar um dos momentos mais extraordinários da história do cinema, sendo que também esse momento não é um filme. Orson Welles, depois de ficar sem os negativos da sua adaptação de "O Mercador de Veneza", vai de carro para o cimo de uma montanha isolada do mundo para ler, de frente para a câmara, os diálogos finais do grande clássico de Shakespeare. Estas preciosas e raras imagens foram incluídas num dos melhores documentários sobre o realizador de "Macbeth": "Orson Welles: The One-Man Band".)

Mas voltando ao que nos traz: cedo o realizador iraniano se apercebe da impossibilidade de "recriar" o seu filme usando só fita adesiva para marcar o espaço sobre um tapete e a ilusão "dogvilleana" dos objectos e das pessoas. Ele diz algo para todos aqueles que insistem, de forma particularmente ignorante, na ideia de que um bom filme é a tradução simples de um bom argumento. Que um bom argumento faz um bom filme e que, por isso, o argumentista é mais do que essencial - uma espécie de "política de autor" aplicada aos homens que escrevem. Esta ideia é partilhada por alguns "auto-denominados" cinéfilos, mas também por muita gente que "usa" o cinema como distracção e que, por sistema, descreve um filme a outra pessoa contando a sua história. Depois o outro dir-lhe-á que "não, não vi esse filme". No meu mundo ideal, uma pessoa - qualquer que ela seja - identifica a outra um filme descrevendo um plano, um gesto de uma personagem, um décor... e não contando anedoticamente a sua estória...*

Jafar Panahi: Se os filmes se contassem, não se faziam.


* - "Epá, este é aquele filme com o Jack Nicholson, em que ele rouba a identidade a um tipo e depois anda em fuga pelo deserto, com uma gaja... Sabes?". "Não estou a ver. Acho que não vi esse". OU, numa versão "mundo ideal": "Epá, este é aquele filme com aquele plano-sequência final que dura vários minutos, em que a câmara atravessa como que por magia uma grade". "Ah, sim, sim: "The Passenger" de Michelangelo Antonioni."

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