quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O filme do ano (VIII)


Já temos mais algumas novidades sobre "John Carpenter's The Ward". Desde logo, o filme terá a sua estreia internacional na secção Midnight Madness do Festival de Toronto, que abre no dia 9 de Setembro. Na ficha do filme, vislumbramos uma foto oficial do mesmo e outro dado que não tínhamos ainda reparado: 86 minutos será a duração total do filme, o que fará dele, seguramente, uma das longas mais curtas do realizador.

Filmes que (não) vou ver em sala (III): L'Illusionniste"

Tati nunca fez animação? Tati está morto? Sylvain Chomet responde com um categórico "Não" a estas questões: a animação faz parte do ADN do cinema de Tati, por isso, bastou pegar num argumento escrito por si para que o resto surgisse tão naturalmente quanto... um "Les triplettes de Belleville". Na exposição que a Cinemateca de Paris dedicou à obra do génio cómico francês já havia visto um excerto de "L'Illusionniste", filme que continuava a mostrar um Chomet orgulhosamente 2D e um Tati mais vivo do que nunca - eis o Monsieur Hulot a tirar coelhos da cartola e a fazer os seus deliciosos disparates!

As críticas excelentes que recebeu no Festival de Berlim e a recepção positiva que já teve em Paris fazem deste "Tati revisitado" uma obra que gostaria de ver nas nossas salas, mas, como já disse, Chomet mantém-se "orgulhosamente 2D" - e as salas portuguesas perseveram, totalitariamente..., nas 3D. E se não é 3D, tem de ser "digital": veja-se a forma criminosa como o genial filme em "stop motion" "Fantastic Mr. Fox" foi relegado para o mercado DVD. Vamos lá acabar com os truques de feira - de Pavilhão do Futuro - e fazer com que a verdadeira MAGIA regresse às nossas salas.


Trailer de "L'Illusionniste" de Sylvain Chomet, já estreado em França.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Nova trilha (XVII): Swain e The Kinks

Dominique Swain em "Lolita" (1997) de Adrian Lyne


(Não ponho a "Lolita" de Kubrick, porque, por uma vez, este foi ultrapassado por outro realizador: Adrian Lyne.)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Uma farsa genuína: "I'm Still Here" com Joaquin Phoenix (I)

Escrevi neste blogue algumas linhas sobre as aparições acidentadas, inclassificáveis mesmo, de Joaquin Phoenix em certos talk shows por altura da promoção do brilhante "Two Lovers", de James Gray. Phoenix tinha anunciado o fim da sua carreira enquanto actor para se dedicar à música... rap, mais especificamente. Enfim, especulou-se muito sobre a autenticidade daquelas aparições públicas e da aparência e comportamento estranhos do próprio Phoenix, até porque, para onde quer que ele fosse, lá ia o senhor Casey Affleck atrás com uma câmara em ombros.

Pronto, à boa maneira de Hollywood, tudo isto foi fabricado - e o resultado está já em formato trailer no YouTube. O curioso é que este "I'm Still Here" não parece ser nem um documentário real nem um documentário ficcional, mas sim pura ficção - uma farsa genuína? Vejam o trailer e tirem as primeiras conclusões.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Filmes que (não) vou ver em sala (II): Bal

Penso que não me estou a precipitar ao incluir nesta rubrica o último Urso de Ouro, "Bal"/"Honey", terceira parte de uma trilogia que o realizador turco Semih Kaplanoglu iniciou com "Yumurta"/"Egg" (2007), a que se seguiu "Sût"/"Milk" (2008). Digo que não me precipito, porque apenas ouvi dizer que este realizador é um dos nomes grandes do cinema turco - do qual os espectadores portugueses apenas têm visto obras do excelente Nuri Bilge Ceylan.

Também acho que não me estou a precipitar porque o Urso de Ouro só por si não significa que as distribuidoras portuguesas se dêm conta deste filme, já que não seria a primeira vez que o premiado máximo de Berlim não estreava nas nossas salas (veja-se o exemplo de "Tuya's Marriage" de Wang Quan`an). Para adocicar os ânimos, cá está o trailer belíssimo.

Trailer de "Bal" de Semih Kaplanoglu.

domingo, 15 de agosto de 2010

Seconds (1966) de John Frankenheimer


As problemáticas da aparência (o exterior) e da identidade (o interior) estão presentes em variadíssimas obras da Sétima Arte. Normalmente, a mudança de visual - que poderá ter consequências mais profundas e imprevisíveis - nasce de uma urgência absolutamente legítima: a correcção de uma deformidade provocada por um qualquer acidente. Nesta categoria encontramos títulos tão emblemáticos como "Les yeux sans visage" de Franju e "The Face of Another" de Teshigahara, passando pelo recente (e outrossim brilhante) "Darkman" de Raimi.

Tudo filmes que, arrisco dizer, se centram mais nas questões do corpo e menos na questão da identidade que este não suficientemente divulgado filme de Frankenheimer. Contudo, todas essas pontes são pertinentes, nem que num domínio puramente visual, que, aqui, se consubstancia numa espécie de subjectivização hiper-expressionista do espaço fílmico, com a opção (radical, no seu tempo) por uma trepidante câmara solta, muitos planos apertados, subjectivos e curtos, muitas vezes, distorcidos por uma grande angular, que parece esticar até ao limite a diagonal da imagem (a sua pele...), desempenhando, bem a propósito, uma espécie de amplificação artificial do espaço. Dito de outro modo: o filme, propriamente dito, ainda que seja sobre, é mais uma plástica cirúrgica - de câmara - do que uma metafórica cirurgia plástica...

Frankenheimer vivia, nos anos 60, aquele que terá sido o período mais brilhante da sua carreira, tendo realizado, quatro anos antes deste "Seconds", o clássico "The Manchurian Candidate". Nesse filme, o realizador mostrava já alguns destes elementos; uma espécie de esteticização da paranóia securitária da guerra fria, mediante a criação de um ambiente visual e sonoro sufocante. "Seconds" vai mais longe quando revela não só o mesmo apetite surrealizante de Teshigahara na sua obra-prima lançada precisamente nesse ano como quando não manifesta qualquer pejo em absorver o (mau?) exemplo que recentemente Fuller dera, ao deixar as suas personagens à solta na história, livres para exporem os seus podres, os seus arrependimentos e bestialidades - falo do "em si mesmo" catatónico "Shock Corridor". Ao mesmo tempo, Frankenheimer faz da câmara instável elemento fundamental ao envolvimento atmosférico da história. Uma espécie de update do que Polanski fizera com a banal história do tenebroso "Repulsion".

Nestes filmes de Polanski e Fuller, a redenção poderá ou não poderá acontecer; o "happy ending" não está - pode bem não estar, aliás... - prescristo. Ou seja, seguindo os conselhos desviantes dos seus colegas, Frankenheimer parece libertar-se com "Seconds" da moldura clássica e, logo nos primeiros minutos alucinantes e alucinados, lança a ameaça de conduzir o mais incauto espectador por territórios desconhecidos sem retorno.

Com efeito, o começo da narrativa de "Seconds" apresenta algumas semelhanças com a contextualização da personagem de Michael Douglas em "The Game" de Fincher: um homem, bem instalado na vida, com uma mulher, filha e casa modelares, mas que, APESAR DE TUDO, não é feliz. Qual a solução? Começar a viver a vida que sempre desejou ter, o que quer dizer que o velho eu daquele quadro perfeito do american dream terá de desaparecer. Uma empresa entra "em jogo" para concretizar o desejo que lhe ferve o inconsciente. Rapidamente, através da tal (miraculosa) cirurgia plástica, o velho amargurado transforma-se num Rock Hudson (ainda) atlético e garboso. Cá está a premissa-base de um thriller distópico transformado por Frankenheimer num ensaio cinematográfico sobre a identidade e os seus (im)possíveis metabolismos.

Esconderão estas ligaduras toda uma nova pessoa ou apenas uma pessoa nova?

"Tanin no kao"/"The Face of Another" (1966) de Hiroshi Teshigahara

"Seconds" (1966) de John Frankenheimer

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"O" diálogo ao espelho (de si para si)

a. Extracto de "Raging Bull" (1980) de Martin Scorsese



b. Extracto de "25th Hour" (2002) de Spike Lee

c. Extracto de "Pulp Fiction" (1994) de Quentin Tarantino (ver clip clicando na imagem)

Qual a sua escolha?


(Outros momentos aqui - vote!)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XIV): a batateira pública


Dizia eu há uma semana:

(...) deixo outro desafio: olhando para a sessão dupla desta semana, "Tess" de Polanski (que passou há pouco tempo no mesmo canal) e "Deus Sabe Quanto Amei" de Vincente Minnelli, queria saber junto de tão sapientes votantes e leitores qual a lógica (fora a da batata) deste double bill.

O desafio era, de facto, complicado. Mas no próximo sábado as coisas não melhoram: pela milésima vez, "Amarcord" e, antes, o recente "Almoço de 15 de Agosto". Um encontro (diria "forçado") entre dois filmes, simplesmente/simplisticamente motivado pelo facto de ambos serem... italianos?

Filmes que (não) vou ver em sala (I): introdução e Independencia

Recentemente fui ao King, coisa que não fazia há muito tempo. Este era um espaço onde podia encontrar uma programação diferente da que me oferecia a maioria das salas; mais cinema independente americano, mas, acima de tudo, mais cinema para lá de Hollywood. A ATALANTA - a distribuidora - tem no King a tradução mais imediata do seu sucesso/insucesso. Se, por um lado, os espaços foram melhorados - livraria e café -, o cinema propriamente dito nunca atravessou uma crise tão grande, em qualidade e em quantidade.

Entrar no King e ver cartazes de "Embargo" (novo filme de António Ferreira, que aguardo com grande expectativa) ao lado não de um, mas três cartazes de "Saraband" - inexplicavelmente, aparece este filme de Bergman ao pé das grandes ante-estreias que se avizinham - dá-nos a sensação de estarmos a entrar num cinema abandonado, por quem o gere e pelos espectadores. Mas vão repor a última obra-prima do mestre sueco? Ou é como os cartazes que podemos ver no corredor no andar de baixo, onde, ao fundo, está um desbotadíssimo cartaz de "O Caimão"? Não encontro imagem mais triste da decadência - abandono mesmo - a que chegou um cinema tão importante como o King, mas acima de tudo também é a imagem de um país cada vez mais consumido pelos multiplexes e o cinema pipoqueiro norte-americano.

A ATALANTA distribui nem um quarto do que distribuía quando eu ia regularmente ao King e os poucos filmes que distribui são (por norma) opções certinhas, sem o mínimo de arrojo - já agora, nesta vez, vi o péssimo "O Segredo dos Seus Olhos", um filme descabeladamente televiseiro (muito pouco) argentino que deve ter ganho o Óscar porque, de facto, a Academia americana está, neste momento, entregue a labregos que só entendem o cinema dentro da mais primária linguagem televisiva. De qualquer modo, o estado da distribuição em Portugal é calamitoso.

À decadência total da ATALANTA acresce a total falta de arrojo das demais distribuidoras: como é possível que "Fantastic Mr. Fox", um (brilhante, refrescante, genial) filme de animação com vozes de Clooney e Streep, tenha sido lançado directamente em DVD? Como é possível que não haja sinais de "Frozen River" no mercado português? Como é possível que os filipinos, tantos iranianos, romenos (menos, mas podia haver mais), tailandeses, taiwaneses, chineses, sul-coreanos, japoneses... estejam quase totalmente arredados das nossas salas? Sabem quanto tempo demorou "Whisky" a chegar às nossas salas?...

...Não, mais: 6 anos! Ok, vão-me dizer que não há público para este "tipo" de cinema. Ah não há? Já olharam bem para o caso de sucesso que é, neste momento, a Midas, tanto no campo da distribuição, como na edição de DVDs e ainda na produção de cinema? E já algum dos senhores da Lusomundo e companhia se interrogou por que carga de água tem-se assistido a um crescimento impressionante de tantos festivais de cinema que passam "coisas estranhas", como o Indie e o DocLisboa?

Da minha experiência nas salas comerciais, posso ainda dizer que há pouquíssimo tempo vi mais gente na sessão de "Shirin" que na de "Inception", o que é, quanto a mim, muito significativo. Enfim, fica o desabafo em jeito de intróito a nova rubrica: (trailers apetitosos de) filmes que (não) vou ver em sala.




Trailer de "Independencia" de Raya Martin (em exibição em França), extraído daqui.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Nova trilha (XVI): Politoff e Dean & Britta

Haydée Politoff (e Patrick Bauchau) em "La collectionneuse" (1967) de Eric Rohmer

Talk shows desportivos (I): o "Dia Seguinte" ou a selvajaria intelectual


Uma coisa é certa: a bola é redonda e no início há onze contra onze. Tudo pode acontecer, o futebol é assim mesmo.

Agora que o campeonato nacional de futebol já começou, voltam com ele os inenarráveis talk shows desportivos com os habituais comentadores (parciais e assumidamente facciosos) a representar cada um dos três grandes. O programa "O Dia Seguinte" é, de longe, o mais degradante produto televisivo dentro deste formato de abominável celebração fanática e fascizante do "desporto-rei" - por sinal, um rei absolutista... Há séculos que este programa mantém um formato quase inalterado e o mesmo painel - só há um ou dois anos o comentador do Benfica, Fernando Seara, mudou-se para a concorrente TVI 24.

Se há modelo, de facto, fascista de televisão é este: três adultos, "vendidos" como homens sérios - veja-se como gostam de puxar dos seus galões de juristas - defendem com argumentos de bradar os céus cada um dos seus clubes - como se fosse uma questão de vida ou de morte. As insinuações mais gravosas são feitas de forma genérica ("o sistema...", "eles") e intelectualmente infantil (cada comentador faz, por programa, a sua birra) sem que haja, da parte do "jornalista" moderador, qualquer tipo de pedido de esclarecimentos ou tentativa de elevar o debate dentro dos possíveis - no caso, muito, mas muito pelo contrário.

O contraditório é falsificado, porque todos eles dizem, todas as semanas, as mesmas coisas, repetem ad nauseam os mesmos disparates, lançam as mesmas insinuações criminosas (principal alvo: os árbitros, claro...) e entram nas mesmas discussões vazias em torno do "se não ganhamos, empatamos ou perdemos" e outras tiradas absolutamente néscias que tão ilustres juristas/políticos (por acaso, sobretudo, de direita) vomitam todas as segundas com a soberba de quem se julga muito inteligente e mordaz -- e, o que sinceramente me deixa de queixo caído, corajoso! Mordaz e corajoso, no mundo do futebol, é pensar-se pela própria cabeça e fazer-se comentário a milhas da "clubite aguda", que só instiga o ódio e o pensamento selvagem (o anti-benfiquismo, o anti-sportinguismo, o anti-portismo...).

Ouvir um destes senhores a chamar "corrupto", imputar actos de corrupção a dirigentes e árbitros é o pão nosso de cada dia. Mas pior são os raciocínios circulares em torno dos lances de arbitragem polémica: todos defendem a respectiva cor perante a "EVIDÊNCIA" das imagens, mas todos convergem numa coisa (esta é a birra que os une): os árbitros são parciais, não se sabe bem por quê, nem se sabe se DE FACTO são, mas são, porque erram "de propósito". Bem, então, se é assim tão EVIDENTE, porque é que tão ilustres senhores (e são juristas, minha Nossa Senhora do Caravaggio!) têm tantas dúvidas ou divergem tanto nos juízos que fazem a cada lance, mesmo através de mil repetições, em mil posições de câmara diferentes e em slow motion? Haja paciência! Parem com insultos à inteligência do espectador!

Pena que este modelo "arena" tenha contaminado o debate político, na Assembleia e/ou na Televisão. Cada vez há mais programas de debate político com representantes das forças políticas com acento parlamentar. A TV pública defende-se com o dever de pluralidade, mas que pluralidade há numa conversa onde ninguém está disposto a ouvir, onde todos têm o dever - e ai de... - de seguir a sua agenda partidária? Onde estão os valores da independência e da mínima decência moral e intelectual, senhores da televisão?

domingo, 8 de agosto de 2010

Nova trilha (XIV): Spacek e The Sound

Sissy Spacek (e Martin Sheen) em "Badlands" (1973) de Terrence Malick

Inception (2010) de Christopher Nolan

A síntese

"Inception" (2010) , etc.

"The Matrix" (1999)

"Inception" (2010)

"The Matrix" (1999)

Não vou perder muito tempo com grandes reflexões em torno de "Inception" - pelo menos, por agora. Antes de mais, escrevo motivado pela forma como, a meu ver, este filme de Nolan tem sido injustamente banalizado por alguma crítica nacional, que por estes dias tem respondido reactiva e preguiçosamente com nota contrária à recepção histérica de muita crítica norte-americana. Normalmente, como aconteceu com "The Dark Knight", as unanimidades no outro lado do Atlântico são mau presságio, mas a regra tem de ter as suas excepções - e a crítica, em geral, deverá estar aberta a abraçá-las.

Veja-se como "The Matrix" foi, no seu tempo, reduzido a "filme da moda" irrelevante por todos aqueles que queriam pertencer ao clube das cine-filiações exóticas e bem parecidas. Veja-se como quem criticou mais "Avatar" foi, precisamente, quem mais linhas gastou a reduzi-lo ao seu gimmick tecnológico, fazendo desta publicidade negativa - mas, caramba, má publicidade é boa publicidade - arma de arremesso contra todos aqueles que queriam olhar "para lá" da cortina tridimensional - e reflectir sobre o conteúdo, irónico e pessimista, logo, genuinamente Cameroniano, deste filme, que, está visto, até fez o favor de aniquilar as três dimensões.

Auto-conexão colectiva

"Inception" (2010)


"Avatar" (2009), etc.

"The Matrix" (1999)


Menciono estes filmes porque "Inception" engole-os tematicamente com a sofisticação formal que reconhecemos no melhor Nolan, que, de forma extremamente hábil, faz com esta sua última obra uma espécie de correcção de rumo depois de andar perdido por Gotham City.

Se "Memento" era um exercício de montagem desafiante, "Insomnia" apostava num modelo formal de sobriedade clássica, assente numa história de mistério e acção centrada num inspector da polícia, que - e isto não é um pormenor, como o título bem indica- não conseguia dormir. Por um lado, tínhamos a montagem cinematográfica a juntar as peças do puzzle mental de Guy Pearce e, por outro, a história - línear, unívoca, não-fragmentária e ininterrupa como que em permanente "estado de vigília" - de um detective que precisava de resolver o mistério de um crime para, finalmente, fechar os olhos e dormir. No primeiro, Nolan exteriorizava a "condição" do seu protagonista; no segundo, surpreendentemente, resolvia interiorizá-la o mais possível, numa das melhores interpretações de sempre de Pacino, que, com o corpo, ia transferindo o interesse da história do crime para a sua batalha contra uma insónia (ou a sua consciência). Não era Pacino versus Robin Williams, era Pacino versus Pacino. Nolan mostrava-nos isso, inteligentemente, naquele final elegíaco.

Ok, falámos muito de outros filmes que não "Inception". Falemos então deste filme. Nolan, agora com os bolsos cheios de dinheiro, pôde voltar a estas temáticas, isto é, pôde voltar ao seu "universo", numa espécie de reafirmação autoral no coração da grande indústria, a mesma que se mostrou algo insensível quando lhe endereçou o convite para filmar o intragável "Batman Begins". Enfim, Nolan voltou a si mesmo e com vontade de fazer sínteses, ligando, armado com as mais talentosas estrelas americanas (adoro Page, Gordon-Levitt e acho Di Caprio um actor admirável - já para não falar dos Senhores Watanabe e Caine -) e os melhores efeitos especiais do mercado, o exercício formal de "Memento" ao assombramento interior, concreto, de "Insomnia".

(Di)visões oníricas (ou não)

"Inception" (2010)


"INLAND EMPIRE" (2006)

"Blue Velvet" (1986)

Nolan cola as peças do seu puzzle, que parecia esquecido - falo da sua obra, claro -, e eleva um dos edifícios narrativos e visuais mais arriscados que Hollywood construiu nos últimos anos. Eis uma elaboradíssima Arquitectura narrativa em torno de conceitos como os sonhos, as realidades paralelas, a memória e, finalmente, o próprio cinema - que é isso tudo ou quase.

Nolan faz, de facto, um "blockbuster de autor", mas a crítica não vê isso - porque, se calhar, já tinha o lápis, como a língua, bem afiado antes do visionamento. Arrisco-me a dizer que, "corrompido" por tantos dólares, Nolan vai mais longe que Lynch em "INLAND EMPIRE" na tradução espacio-temporal dos sonhos ou no questionamento (filosófico, não há que ter medo da palavra) das nossas realidades subjectiva e intersubjectiva.

Se Lynch se fica pela experiência sensorial, quase puramente plástica ou sugestiva - o mais freudiano "Alice no País das Maravilhas", qual Burton qual quê! -, Nolan torna-se "acessível" a uma intriga com pessoas lá dentro, concebendo uma obra em camadas que se vão amontoando na presença do espectador - em "INLAND EMPIRE", a certa altura, Lynch começa a brincar sozinho no quarto escuro com a sua casa de bonecas assombrada, enquanto nós, espectadores-voyeurs, assistimos a tudo isto perdidos, aprisionados, violados... entre-muros. É natural: somos expulsos de um território que deixou de ser nosso. Em "Inception" - porra, é um filme comercial -, estamos sempre em casa.

"Inception" (2010)

"eXistenZ" (1999)

Ao mesmo tempo, "Inception" é um exercício quase matemático, uma equação complexa que Nolan nos dará a desvendar muito depois das luzes da sala de cinema voltarem a acender - o mais lúdico T.P.C. É, também, um filme, ou melhor, é cinema. Digo: uma obra que, não se perdendo num excessivo auto-deslumbramento tecno-lógico ou ilógico, não cedendo à tentação de instrumentalizar a história de amor como um Deus ex machina esotérico, tão pífio quanto incongruente - o que acontece com o final desastrado de "The Matrix" -, vai surpreendentemente longe na concretização espacial da sua narrativa totalmente abstracta (ou mental). É que "Inception" tem cinema lá dentro, como nenhum filme de Nolan. É um "eXistenZ" sem o excesso viscoso, por vezes, auto-indulgente, de Cronenberg.

Arquitectura dos sonhos/a narrativa "matrioshka"

"Inception" (2010)

"Synecdoche, New York" (2008)


"Inception" é também um filme que Charlie Kaufman não escreveu, mas que podia tê-lo feito dentro da estrutura (i)lógica em estilo "matrioshka" de "Being John Malkovich" ou mais ainda de "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" ou do subvalorizado "Synecdoche, New York". Nas cenas do hotel ou entre divisões, lembra "The Matrix", mas, mais que tudo, a mise en scène de David Lynch, com semelhante cuidado na iluminação, na escolha de adereços e no posicionamento dos "corpos" no espaço.


"Inception" (2010)

"Shutter Island" (2010)

Curiosamente, "Inception" também poderá rimar com um dos grandes filmes deste ano, "Shutter Island". Nos dois, Di Caprio vê-se obrigado a enfrentar - em sonhos ou fora deles... - a memória da mulher recém-falecida e, em ambos os filmes, entrecruzam-se inúmeras linhas de acção, cujo denominador comum é, precisamente, essa "luta interior". Por outro lado, em ambos, o slow motion é usado como grande efeito especial - e aqui detectamos um retorno a um certo primitivismo hiper-cinéfilo (também o filme de Scorsese é um cocktail de referências e estilos cinematográficos, uns vivos, outros mortos).

Enfim, face a tudo isto, pergunto, especialmente aos detractores, o seguinte: se a indústria é uma inevitabilidade, não será melhor que o dinheiro seja canalizado para filmes com ideias, que nos põem a pensar (nos seus Conceitos/Imagens), ao invés de ser usado para financiar filmes de acção vazios, com ruidosos efeitos especiais e uma história previsível e, tantas vezes, repetitiva, a servir de pretexto a autênticas "demonstrações de software"; mais Emmerichs e menos Nolans? Como fundamentam o ataque a "Inception" em face do que é, hoje, o mainstream norte-americano? Enfim, ficam as perguntas. Quanto a mim, foi o blockbuster mais divertido e inteligente que vi em muito muito tempo: acima de "V for Vendetta" e, inclusivamente, acima de "The Matrix".

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