sábado, 8 de março de 2014

Ligação directa à pala de Walsh (XVIII)


Foi um mês polarizado pelo encontro nocturno entre os quatro walshianos em torno da "fogueira das vaidades" dos Óscares (rebaptizados por nós, na imagem, "Óscardozos"), onde pizza e selfies deram mais que falar do que filmes e cinema. Desse encontro resultaram dois podcastas que publicámos aqui.

Para as Conversas à Pala convidámos José Fonseca e Costa e dessas conversas resultaram também dois vídeos que podem ver e ouvir aqui. No Estado da Arte, o Ricardo Vieira Lisboa cruzou, pela primeira vez na rubrica, cinema com cinema e desta redundância resultou um dos mais imprevistos casamentos que se poderiam imaginar - mas que já se anunciara aqui. O Razzie Shyamalan e Nicholas Ray. Pela minha parte, decidi sabotar as notícias ainda mais do que estas já se sabotam a si mesmas, na sua missão de fazer jornalismo sério.

Na minha crónica Civic TV, aproveitei a passagem de "The Thomas Crown Affair" no ciclo universitário que organizei e no canal Hollywood para antecipar os festejos de celebração da libertação de John McTiernan da prisão. A habitual Sopa de Planos foi feita, desta vez, debaixo de água.

Mais recentemente, publiquei a entrevista que fiz a Billy Woodberry. Por fim, queria destacar o texto que o Francisco Valente escreveu em homenagem à memória do grande Alain Resnais. Podem-no ler aqui.

Este mês, sob os comandos do Carlos Natálio, posso desde já antecipar a publicação de uma entrevista altamente relevante sobre o fim do histórico programa da RTP2, "Onda Curta". O entrevistado será o seu criador: João Garção Borges. Fique atento.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

The Sacrament com novo poster e já com trailer


Apesar de provocar experimentações interessantes sobre a linguagem do medium cinematográfico, o found footage é um género fechado sobre si mesmo, que parece promover mais repetição inconsequente do que avanços substantivos da sua própria gramática. Quando se anuncia mais um destes títulos filmados com câmara nervosa, explorando a aleatoriedade (simulada) das imagens e promovendo a indagação voyeur, de reality show, da matéria que tem à frente, não ficamos propriamente em pulgas. Apesar do meu guilty pleasure por filmes deste género, tenho de assumir a predominância de objectos inúteis neste domínio.

Posto isto, repetindo algo que já escrevi aqui, de momento "The Sacrament" activa-me algumas resistências. Pelo que vejo do seu trailer, este é um tímido found footage film ao pé de outro projecto com a mão de Ti West, "V/H/S". Não sei o que é pior: assumir o género ou escondê-lo como coisa embaraçosa, mas… narrativamente necessária. Para se infiltrar no core de uma seita religiosa, West torna as suas personagens repórteres de televisão. Há uma confusão aparente entre "o directo" do horror e ir directo ao horror. Como sabemos, até pelo que a televisão nos mostra, ou melhor, até pela forma como a televisão nos mostra diariamente o horror, o "directo" não é condição sine qua non de maior contacto com uma determinada verdade. Tenho receio, pelo que vejo do trailer de "The Sacrament", que West tenha caído neste raciocínio básico e algo preguiçoso de associar "reportagem", found footage e verdade como traduções imediatas e necessárias entre si.

Olhando para "The House of the Devil" e "The Innkeepers", fica claro que a filiação de West é clássica e assim deve permanecer. Esta é a principal fonte de desconfiança que me provoca o trailer de "The Sacrament". Fora isso, vemos, a subirem à superfície, todos os elementos - os melhores elementos - do seu cinema: esta ideia de invadir um espaço ou uma comunidade tomada por actividades ocultas, senão mesmo paranormais, cola perfeitamente com as obras anteriores do realizador. O destaque dado ao "mestre" desta congregação ou seita poderá aproximar West de uma espécie de versão horrífica, ou ainda mais horrífica, de "There Will Be Blood" e "The Master", dois filmes de Paul Th. Anderson onde a religião funciona como sistema vicioso  não de revelação mas de aniquilação dos espíritos. Esperemos que, por esta via, West prove ser "mestre do seu mundo" e não traia a minha crença no brilhantismo que lhe é inato.

Um certo olhar de cão triste e débil (quase punk)

"Journal d'un curé de campagne" (1951) de Robert Bresson

"Edward Scissorhands" (1990) de Tim Burton

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Ligação directa à pala de Walsh (XVII)



Foi, fundamentalmente, um mês de alta criatividade. A rubrica Estado da Arte nasceu, com o intuito de pôr a dançar os movimentos das imagens (da TV, do Cinema, da Internet, etc.). Pus aqui em destaque dois dos meus pares favoritos, mas pode ir visitando as nossas criações - minhas e do Ricardo Vieira Lisboa - a partir daqui. A minha colaboração ao longo do mês resumiu-se ainda à habitual crónica Civic TV, cujo tema foi o cinema de Blake Edwards. Entrei nas terceiras Conversas à Pala, na presença do meu colega Carlos Natálio e do convidado Vasco Baptista Marques. O objecto da conversa foi o ano cinematográfico que passou e o que se projecta para o novo ano.

Escrevi com a Sabrina D. Marques um texto de homenagem a Miklós Jancsó. Em mês de importantes desaparecimentos - onde se contou ainda o do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, paz à sua alma -, deixei ainda umas palavras sobre uma das personagens mais marcantes de Philip Seymour Hoffman. O texto conta com participações de cada um dos membros do grupo fundador do À pala de Walsh.

A Sopa de Planos do mês teve como tema "sombras". Fui levado pela minha memória recente e escolhi "Elvis", o pouco visto biopic de John Carpenter. As minhas palavras podem ser lidas aqui.

Para o que resta de Fevereiro, mês editado por João Lameira, reservo a expectativa de conseguir publicar a entrevista que fiz ao excelente cineasta norte-americano Billy Woodberry, durante o programa de Harvard na Gulbenkian. Deixo ainda o convite a todos os leitores do CINEdrio: apareçam, dia 14 de Fevereiro (sexta-feira), às 19h30, livraria da Cinemateca (Babel), nas quartas Conversas à Pala, com João Lameira, Ricardo Vieira Lisboa e o convidado especialíssimo José Fonseca e Costa. O principal pretexto para este encontro é o lançamento recente no nosso mercado DVD de três dos filmes mais celebrados do veterano cineasta português: "Kilas, o Mau da Fita", "Sem Sombra de Pecado" e "Balada da Praia dos Cães". Imperdível.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O eterno toque no leito da morte

Foto de Sentimental Journey, Winter Journey (1971-1991) de Nobuyoshi Araki

"Le passé" (2013) de Asghar Farhadi

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Arte, gesto ténue da loucura/Loucura, gesto ténue da arte

"Le moindre geste" (1962-1970) de Fernand Deligny, Josée Manenti e Jean-Pierre Daniel

"Jaime" (1974) de António Reis

domingo, 19 de janeiro de 2014

Duche cortante

"Psycho" (1960) de Alfred Hitchcock

"Days of Wine and Roses" (1962) de Blake Edwards

[Não é o único paralelismo inusitado que podemos encontrar entre estes dois títulos. Por exemplo, é interessante como a obsessão de Kirsten (Lee Remick) por chocolates no filme de Edwards é usada como pista para o alcoolismo que desenvolverá na companhia de Joe Clay, seu marido (Jack Lemmon). Também Norman Bates joga nervosa e insistentemente bombons para a boca, dando a ler - se não a Marion Crane, pelo menos ao espectador - a sua inclinação obsessiva, viciante ou viciosa. A imagem que se segue ao "duche cortante" de Kirsten é a de Joe com um colete de forças, enlouquecido pelo alcoolismo. Uma imagem de alienação que não é estranha à situação final de Norman Bates no clássico de Hitchcock, um filme quase nos antípodas deste pungente melodrama de pulsão realista - e, contudo, tangente a este nalguns pontos.] 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ligação directa à pala de Walsh (XVI)


Para lá do que já destaquei em matéria de entrevistas na última ligação à pala de Walsh, venho retransmitir-vos os conteúdos que mais trabalho me deram neste último mês de 2013. O primeiro, curiosamente, não me inclui (na imagem), mas ocupou-me durante um ou dois dias no processo de montagem. As segundas Conversas à Pala, moderadas pelo João Lameira e pelo Carlos Natálio, contam com uma interessante entrevista à cineasta Salomé Lamas, a propósito do seu "Terra de Ninguém".

Outro contributo meu, mas desta vez mais visível, foi dado no debate de lançamento da caixa de DVDs "The Story of Film: An Odyssey" de Mark Cousins. O João Lameira aproveitou esse debate para escrever a sua última crónica "Em Série", deixando lá link para que os nossos leitores possam ouvir o debate que se desenrolou entre mim, ele e os convidados especiais João Mário Grilo e Maria João Madeira.

Na minha crónica "Civic TV", despedi-me do canal TCM, um desaparecimento que me enluta. Recordo que 2013 também foi o ano em que a RTP2 voltou a suspender o "5 Noites, 5 Filmes", deixando de passar cinema numa base minimamente regular.

O prato forte de Dezembro terá sido o post com os Tops do ano de todos os redactores do À pala de Walsh que quiseram responder ao nosso desafio de fazer um balanço do que de melhor passou pelas nossas salas.

Escrevi ainda uma crítica Em Sala a um excelente filme que poderá estar a passar ao lado da maioria dos portugueses: "O Som ao Redor" de Kleber Mendonça Filho. Menos excelente foi o Filme Falado do mês.

A fechar o ano, pus a minha colherada numa Sopa de Planos feita de paisagens e fechei, com o Ricardo Vieira Lisboa, a rubrica Actualidades, que termina assim um ano a reprojectar a agenda noticiosa através das imagens dadas do cinema.

Em Janeiro, mês editado pelo Ricardo Vieira Lisboa, teremos como destaque máximo as Conversas à Pala #3, onde eu, o Carlos Natálio e o nosso convidado Vasco Baptista Marques iremos falar do ano cinematográfico que passou. Apareçam!

Bom 2014 a todos e desejos de mais e melhores filmes!

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Recorte de falas (XXXII): Switch

A comédia datada mas saudavelmente disparatada é de Blake Edwards. Chama-se "Switch" (1991) e conta-nos a história de Steve Brooks, um mulherengo chauvinista, sem consideração pelo sexo oposto, que acaba por fatalmente sofrer na pele a consequência dos seus actos pelas mãos de três das suas conquistas femininas, sendo que do purgatório Deus e o Diabo concordam com uma segunda chance na terra, uma oportunidade de redenção, mas agora no corpo de... uma mulher. Não é preciso revelar muito mais, porque a partir da premissa estapafúrdia Blake Edwards retoma os elementos típicos do seu habitat humorístico: comédia de sexos, ou "entre sexos", estrondosamente queer (relembro "Victor/Victoria") e, sobretudo, o prazer dionisíaco pela festarola.

Por vezes, parece que Edwards recorre a todas as diligências dramáticas para conduzir a acção ao maior número possível de festas, de alta-sociedade ou de baixa-sociedade. O gag encarrega-se de mandar abaixo toda e qualquer ritualização da vida social. É a costela tatiesca de Edwards, algo que faz do brilhante "The Party" um bom cartão de visita à sua obra. Posto isto, e pondo de parte - ou não - o party animalism de Edwards, recorto aqui uma pequena cena em que Margo Brofman, uma das vítimas do charme venenoso de Steve Brooks, é abordada por um eco-transeunte que a assedia com a sua eco-consciência. Tudo por causa de um sumptuoso casaco de peles que traz vestido. A resposta a esse assédio de rua é muito pouco… como dizer? Eco-lógica?

Fur Protestor: Do you know how many poor animals they had to kill to make that coat?
Margo Brofman: Know how many rich animals I had to fuck to get this coat?

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

sábado, 28 de dezembro de 2013

Prémios CINEdrio 2013

Melhor filme: "La vie d'Adèle - chapitre 1 & 2". Sem sair do essencial de uma história de amor, Kechiche produz uma das mais belas e emocionalmente intensas imersões na existência de uma personagem, que de tão viva e autêntica que é chega, de facto, a confundir-se com a vida. O ecrã dessa viagem não é o plano mas o rosto de Adèle, é ele que "reflecte" o universo de todos os sentimentos humanos: amor, rejeição, ciúme, dúvida, angústia… fome e desejo. O resultado é de uma simplicidade de tal modo desarmante que já muitos se precipitaram em qualificar esta "Vida" de "vazia" ou até - a meu ver, incompreensivelmente, porque não há filme mais honesto com a dimensão humana, eminentemente singular e universal, da sua personagem - "exploratória". Mas não há ratoeiras nenhumas aqui: o filme só nos dá um rosto pleno, sujeito a todas as intempéries interiores. É simples, complexo, claro e denso. Tudo isto ao mesmo tempo. Não há que ter medo de um cinema que provoca emoções contraditórias, nem se deve confundir isto - a vida, enfim - com "manipulação", a palavra mais ligeiramente atribuída a esta obra-prima da autoria de Kechiche ou, antes dele, da autoria da actriz mais bela do ano: Adèle Exarchopoulos.

Melhor realização: James Wan ("Insidious - Chapter 2"). Gosto de realizadores de câmara e eles escasseiam com a dimensão experimental e concreta deste James Wan. No cinema americano, num ano sem Fincher e sem Michael Mann, Wan ocupa o lugar de destaque no lote de cineastas que pensam um filme em movimentos de câmara, em coreografias do corpo; enfim, que pensam o cinema espacialmente.  Em "Insidious - Chapter 2" e "The Conjuring", Wan filma os mesmos objectos, as mesmas situações dramáticas, mas sempre de modo - é uma questão de modo o que aqui trato - refrescante. As suas "partidas de criança", as aparições in situ - anti-CGI -, a bonecada, o jogo de hide and seek entre as "quatro paredes" da casa, tudo o que a câmara de Wan produz - o seu efeito horrífico - está na maneira como ela se move no espaço. O grande efeito especial do seu cinema é, precisamente, o seu apurado sentido de mise en scène. 

Melhor plano: logo a seguir ao incandescente lettering de "Insidious - Chapter 2", um travelling para a frente faz-nos percorrer o abismo até à nossa personagem, num quarto escuro usado para o interrogatório policial que nos relança na história da família do primeiro "Insidious". Não há medo de dizer que, num ano sem Tarr, este foi o mais engenhoso dos planos vistos em cinema. Um plano que não só nos faz "vir do abismo" como, mais inteligentemente, nos faz "percorrer o abismo" até chegarmos a este radicalíssimo "Chapter 2". Queria destacar ainda outro travelling de outro primitivo: o último plano, magistralmente encenado (digno de Cocteau), de "La fille de nulle part". É também abissal, mas o abismo tem aqui tons de dourado. O travelling como questão de moral ou o travelling como questão de mortal, frágil como o mundo?

Melhor actor: aqui escolho dois. Primeiro, Matthew McConaughey. Segundo, Matthew McConaughey. O detective-assasssino e assassino-detective Joe, de Friedkin, e o pirata dos nossos dias Mud, de Nichols. Dois mundos opostos gerados no e pelo mesmo actor.

Melhor actriz: aqui escolho duas. Primeira, Adèle Exarchopoulos. Segunda, Adèle Exarchopoulos. As duas estão em "La vie d'Adèle": a Adèle-actriz, a Adèle-personagem, as duas estão tão unidas quanto nós a elas. Fusão de peles, de "eus", de vidas. Experiência total graças a uma grande actriz com, então, 18 anos.

A revelação: Ti West ("The Innkeepers"). Howard Hawks dizia que o seu segredo estava em "filmar comédia como se fosse drama e drama como se fosse comédia". Já o escrevi: West "filma horror como se fosse comédia e comédia como se fosse horror" neste pequeno grande filme sobre dois frescos espécimes da geração precária "detidos" num hotel centenário que, azar o deles, está assombrado por espíritos inquietos. Ti West dá, a meu ver, um passo em frente em relação a "The House of the Devil" quando inscreve o burlesco, o "desajeitamento", de Sara Paxton (outra das actrizes do ano) numa história de "casa maldita" 100% convencional. O terror é palco de experimentalismo áudio/visual (muito literalmente) neste filme sempre a jogar subtilmente "entre divisões". É o paradigma de como o mais experimental pode ser, ao mesmo tempo, o mais clássico. Hawksiano, neste caso. (Isto é, também carpenteriano.)

A desilusão: "Django Unchained". Tarantino voltou ao exercício de copy pasting cinefilamente hipercalórico, uma espécie de banquete tão sumptuoso quanto enjoativo, onde o cozinheiro se esqueceu do sal. Uma desarmoniosa amalgama de referências que deleitará quem vê o cinema com uma lupa à procura dos links para o lado B da história do cinema. Na realidade, tanto quanto no sobrevalorizado "Kill Bill", Tarantino põe tudo de tal modo à vista que já nem a lupa será necessária. O que lhe interessa é a mais apolítica citação pela citação, não o exercício de degustação, de reciclagem ou transformação da matéria fílmica em confronto com uma certa realidade dramática. Estamos, por isso, longe de "Death Proof" ou "Inglourious Basterds", os seus dois melhores filmes do século XXI. O primeiro inscrevia o slasher na "escrita" lubitschiana de Tarantino, o segundo punha a matéria fílmica em confronto com uma recriação, ou melhor, com um recreação histórica. Em "Django Unchained" a saturação citacional é tal que não descortinamos exercício algum de inscrição ou assimilação de ou confronto com… Tudo é jogado ao (jogado ao, não com o) espectador como uma sucessão de piscares de olho pós-modernos que nos assediam em vez de seduzir. Aguardamos por melhores filmes vindos da forja tarantinesca.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Os rostos de 2013

Figura do ano (internacional)

Matthew McConaughey

O CINEdrio não hesita na escolha, mesmo que não tenha por hábito escolher actores (ou actrizes) nesta secção. Matthew McConaughey fez uma viragem de 180º na sua carreira sensivelmente desde "Bernie" - ou um pouco antes com "Tropic Thunder". Desde aí, como o próprio já o disse em entrevista, só aceita projectos arriscados. E se a realização é uma actividade decisória, gestão de riscos, então podemos dizer que McConaughey deixou de pensar como um actor para começar a pensar como um cineasta. Olhando para o papel que desempenha em "Mud", mas sobretudo para a sua composição em "Killer Joe" até apetece dizer que pensa como e com o cineasta, qual co-autor dos seus filmes. Não é só um bom actor para Óscar ver, é alguém que parece estar disposto a ultrapassar-se ou a desaparecer em abono do filme.

Conta Friedkin, na sua autobiografia Friedkin Connection, que McConaughey terá começado a folhear o argumento e, repugnado, tê-lo-á atirado para o lixo. A estratégia do risco, contudo, dominou a fúria e o "nojo" - acho que a palavra é essa - e McConaughey, imaginem a ignomínia, terá ido ao lixo resgatar as páginas de Tracy Letts, dramaturgo que assinou também o argumento de "Bug". O que faz depois ficará na história do cinema moderno como a composição mais, simultaneamente, calculada e histriónica que nos foi dada a ver. Num ano em que Tarantino digeriu Tarantino até ao enjoo, McConaughey e Friedkin (os dois "lobos maus") fizeram a mais radical e transgressora fábula contemporânea, fazendo uso, precisamente, do mesmo shock effect. Em "Mud", o registo é outro, o monólogo é interior e melancólico, o rosto e os gestos são igualmente seguros mas atravessados por uma descrença muito humana no futuro. Mud é um "pirata" caído, perseguido por um amor que lhe corrói a existência. A interpretação mais comovente de 2013.

Em Janeiro, McConaughey traz-nos "Dallas Buyers Club", multipremiado filme que se baseia numa interpretação que tem feito correr tinta, já que o actor terá perdido cerca de 17 quilos para dar corpo (mais osso do que pele) à história de vida de Ron Woodroof, que de redneck homofóbico e racista passou a activo combatente da "epidemia do século" nos Estados Unidos. Teremos ainda McConaughey no mais recente filme de Martin Scorsese, "The Wolf of Wall Street", e com alguma sorte ainda estreia em 2014 o próximo filme de Christopher Nolan (cujo teaser já anda a circular) e que é protagonizado por… you know who. Portanto, a figura internacional de 2013 tem tudo para ressoar no ano que aí vem.

Figura do ano (nacional)

Joaquim Pinto

As premiações de "E Agora? Lembra-me" já são várias, mas tudo começou em Locarno com a conquista do Grande Prémio do Júri (para além do Prémio FIPRESCI). Desde aí que merecidamente o público e a crítica por todo o mundo têm aplaudido este épico documentário sobre a vida, a morte, o tempo, mas também muito particularmente sobre o amor e o trabalho como forma de resistência à doença (o HIV). Foi o filme mais "total" que vi este ano, uma lufada de ar fresco no actual panorama  do cinema português. Não é de modo algum comum no nosso cinema encontrar objectos de uma honestidade e nudez tão "sem artifício". É a história de uma grande viagem, que não tem começo e que não tem fim, que não encerra nada, apenas abre a janela sobre uma vida e uma luta que, nem que metaforicamente, nos toca a todos. Aliás, "tocante" - em toda a riqueza do adjectivo - é a melhor palavra que encontro para qualificar a experiência de "E Agora? Lembra-me". Não se procura um santo ou um statement, mas apenas um registo sobre a fragilidade do corpo, mas também a sua fome inesgotável por conhecimento, por amor, pela terra, pelo toque, pela pura ruminação. Fome pela vida. 

É um ensaio, um diário, um épico sobre a existência que, quero deixar claro, TEM de passar no circuito comercial de salas. E se as distribuidoras - por causa das suas perto de 3 horas, talvez - acharem que NÃO TEM, eu acho que finalmente é tempo de se desbloquear o regime fascizante e obscurantista da RTP2 e RTP1 e usar os canais públicos supostamente de serviço público como espaços de exibição do cinema português, aquele que as salas querem passar e aquele que as salas não querem passar. Lembro-me de João Salaviza, no dia da sua premiação em Berlim, quando disse que o seu filme "Rafa" e "Tabu" de Miguel Gomes deviam estar a passar naquele dia na televisão portuguesa; quando disse que teve mais espectadores em festivais de cinema do que nas salas comerciais. 

Se o público está sentado no sofá, em frente à "caixa mágica", pois então que se active a sua missão de serviço público ou até, já agora, que o poder político a leve mais longe: independentemente de haver contrato de distribuição, todos os filmes produzidos com dinheiro do Estado deveriam estrear directamente na televisão pública. Uma primeira exibição que desse que falar e pusesse os filmes a circular, de olho em olho, de boca em boca, até à eventual (mas não necessária nem tão-pouco mendigada…) passagem pelo grande ecrã. O que é preciso é não ficar à espera da iniciativa das distribuidoras ou deixar que estes filmes se enredem numa desinteressantíssima "guerra especulativa de audiências", seja ela travada na piscina dos grandes, seja ela travada na piscina dos pequenos. Se o público está plantado no sofá, se o Estado tem forma de chegar a ele, muito facilmente, através dos seus dois canais, parece-me evidente que está encontrada a forma e a fórmula para prolongar a vida de um investimento cultural de monta. O Estado não só não deve esperar pelo mercado da distribuição como acho que se deve sempre antecipar a este. Estou cada dia mais convencido disto. 

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