domingo, 16 de novembro de 2014

A carne não se encena*

"Before the Devil Knows You're Dead" (2007) de Sidney Lumet

"Welcome to New York" (2014) de Abel Ferrara

[Acho que desde a cena de sexo entre Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei que abre "Before the Devil Knows You're Dead" que não sentia desta forma não só a carnalidade do corpo como, na realidade bem mais que isso, o corpo maciço de um (grande) actor como aparição performática."Welcome to New York", melhor filme que vi neste LEFFest (sendo um dos piores o outro Ferrara mostrado, "Pasolini", e assim se resume, de facto, o "risco de ser Ferrara"), é uma parábola sobre o poder e o dinheiro (ou "a verdade" do poder e do dinheiro). Todavia, o grande happening aqui é o próprio Depardieu, a sua respiração ofegante, o ritmo no despir e no vestir ou, em plano geral, a forma bulbosa e grosseira do seu corpo. *O Carlos Natálio disse tudo: a carne não se encena - é este o verdadeiro tagline deste filme de Ferrara. No filme, também é quase comovente esse gesto de renúncia ao poder em benefício de uma incorrigível natureza viciosa. Como diz o próprio Depardieu no prelúdio, a política é uma coisa odiosa, mas ele fala da política dos políticos. A política do corpo, essa, é a redenção possível para si enquanto actor e, talvez o momento em que a personagem coincide com o actor na perfeição, para Dominique Strauss-Kahn enquanto viciado em sexo que, afinal, não quer ser "o próximo Presidente de França".]

2 comentários:

Sabrina D. Marques disse...

Só me lembras dos filmes do Ulrich Seidl...

Luís Mendonça disse...

Olá Sabrina! :)

É um bom exemplo disso… o problema é que é só carne. É preciso um pouco mais. Aí é a alma que dá substância às personagens. E as personagens dos filmes do Lumet e Ferrara são, à sua maneira, mártires de si mesmos. São personagens pungentes, não são "sacos de pancada", "carne vazia", como nos filmes horrendos e chantagistas do Seidl.

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