segunda-feira, 25 de julho de 2011

Técnicas de observação para uma arte verdadeira

Víctor Erice, "El sol del membrillo" (1992)

Se um artista, em quem temos de supor um talento natural, depois de ter, nem que seja moderadamente, exercitado os olhos e as mãos com os modelos, recorresse logo muito cedo aos objectos da Natureza, se imitasse da maneira mais exacta, com lealdade e aplicação, as figuras e as suas cores, nunca se afastasse escrupulosamente delas, recomeçasse uma vez mais e acabasse na sua presença qualquer quadro que tivesse de produzir, um artista destes seria sempre estimável; pois não se pode acusá-lo de não ser verdadeiro num grau inacreditável, de os seus trabalhos não serem seguros, vigorosos e ricos.

Goethe,«Simples Imitação da Natureza, Maneira, Estilo», in A Metamorfose das Plantas, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, s.d., p. 62

Quem noticiará o aguardado messias que venha separar a boa política da má política? Quem carregará o fardo da palavra revolucionária?

"All the King's Men" (1949) de Robert Rossen

"Terra em Transe" (1967) de Glauber Rocha

["Terra em Transe" é um Glauber Rocha em estado de graça, filme-síntese pujante da primeira parte da sua obra, sendo que a segunda parte será constituída sobretudo por um filme - tenho "Idade da Terra", neste caso, como o seu filme antítese, isto é, esboço de um reinício em si mesmo revolucionário do seu discurso cinematográfico... Mensagem política dirigida aos problemas do povo, repartição da terra e das riquezas da terra, luta de classes e luta com Deus, grito contra as hipocrisias dos regimes autoritários, ofensiva contra a aniquilação da poesia, apelo à libertação do indivíduo, elogio fúnebre e funesto à falência de valores, ataque à hipocrisia e demagogia dos "anti-extremismos de esquerda", etc... e etc... Em "Terra em Transe" todos estes ingredientes ideológicos são fervidos em lume muito alto na história do seu protagonista, um poeta e jornalista que presencia, nos dois lados da "estória", à derrocada total do seu sonho revolucionário. Também no filme de Rossen, pelos olhos de um jornalista "sonhador", se debate essa fronteira, talvez abismal nas ideias, talvez ténue na prática, que separa a boa política da má política - porque a política como está organizada será, por natureza, corruptora dos homens, até ou SOBRETUDO daqueles que começam (ao lado dos) "inocentes".]

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Recorte de falas (VII): Beat the Devil

"Beat the Devil" (1953) tinha tudo para correr muito bem: John Huston na realização, Truman Capote no argumento, Humphrey Bogart, Peter Lorre e Jennifer Jones no elenco. O que falha então neste filme? Quase tudo, salvo a qualidade "literária" de algumas das suas linhas de diálogo e uma das personagens que as diz copiosamente: Mrs. Chelm, a inglesa esperta, imaginativa, ambiciosa, por vezes, capciosa, que tem todas as personagens na mão. É ela que "abre" o filme com uma tirada brilhante, dirigida ao grupo de trapaceiros que o protagonizam - como ela bem "pressente", um bando de desesperados em busca de fortuna fácil em África.

Gwendolyn Chelm: Harry, we must beware of these men. They are desperate characters.
Harry Chelm: What makes you say that ?
Gwendolyn Chelm: Not one of them looked at my legs!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Trigger Man (2007) de Ti West


Depois de "The House of the Devil", vejo o filme que Ti West realizou dois anos antes. Falo do pouco conhecido "Trigger Man", obra de terror minimal sobre a típica situação quase parabólica em que o caçador se torna caçado - certo? Nem por isso.

Neste filme de ritmo lento - já é uma marca autoral de Ti West? -, sem medo de ser quase quase quase quase chato, o espectador é confrontado violentamente com o único ensinamento sobre caça que uma das personagens transmite às demais: para caçar é preciso paciência. Pois bem, a paciência aqui combate a vontade de matar. West prolonga a dissipação/descarga de tensão mais do que qualquer outro cineasta; ele sabe entender o terror, o "bom terror", como gestão audaciosa, quase cínica, dos "tempos mortos". Na realidade, "Trigger Man" vai mais longe que o brilhante "The House of the Devil" nesta matéria, porquanto o grande desafio aqui é: como transformar os "tempos mortos" em "tempos de morte", em que se pressente até ao infinito uma espécie de ameaça aguda que, a qualquer momento, irá atravessar os corpos estejam eles onde estiverem - para o caso, através de uma bala furtiva vinda de... não se sabe onde.

Portanto, vemos "tempos mortos" tornarem-se "tempos de morte" e, por outro lado, a omnipresença de uma ameaça "sem rosto" - puramente "conceptual", isto é, quase apenas uma "ideia de mal" - a sublimar-se num clima de tensão a tender para uma placidez, um vazio..., paradoxal. Porque Ti West não corta onde os outros cortam; ele encara de frente, em timings completamente diferentes do cinema típico de horror, a passagem do tempo e faz das deambulações das personagens no espaço (na floresta, numa casa misteriosa, onde quer que seja) uma espécie de imagem perfeita deste complexo: mobilidade no finito como metáfora para o horror sem fim, "inescapável". Tornar podre um ambiente de tensão, torná-lo quase "insensível" à personagem, é o desafio que Ti West coloca a si mesmo, a nós e, enfim, ao protagonista, nas suas deambulações pelo espaço, apalpando o terreno em busca do seu caçador invisível - um caçador procura outro caçador.... isto é, "não há presas" nesta caça, verdadeiramente...

(Um parêntesis: imaginei que Brillante Mendoza teria visto "Trigger Man" e gostado tanto que fez, num dispositivo formal mais ou menos semelhante, "Kinatay" - é que talvez haja a mesma "devoração de tempos mortos" em ambos.)

Ti West, de câmara nervosa, em modo "mira", volta a mostrar que é um cineasta que pensa o cinema de horror como espaço singular de experimentação, enfim, espaço onde se pode filmar o nada ou o quase nada com a liberdade de uma criança infernal. Junta-se, assim, Ti West a nomes como Bryan Bertino e, num registo mais "clássico", Greg Mclean, naquele que é o grupo de jovens realizadores mais promissor na cena do terror contemporâneo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os amontoamentos de filmes: uma questão de sensibilidade


O que é chocante na forma como o cinema é tratado tem muito a ver com aquilo que, como nota Walter Benjamin em «A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica», é a sua essência automática ou mecânica, industrial e, enfim, "serial". O cinema é mercadoria. Benjamin não pôde conhecer os vários modos de comercialização que se seguiram às salas de cinema, como a difusão maciça do cinema pela televisão, muitos anos mais tarde, o VHS e depois o DVD. Não pôde conhecer, mas escreveu sobre isso. Hoje, é mais do que evidente que o cinema está, num domínio de mercado, ao mesmo nível que um shampoo ou um pacote de batatas de fritas. A imagem mais perfeita disso é os amontoamentos de DVDs em promoção que encontramos nos supermercados, a poucos metros de outro amontoamento de roupas, trapos coloridos..., em saldos. O cinema pode ser "passado" neste regime de "feira industrial", em que tudo é vendido com um certo nojo, como despojos que não fazem falta nenhuma, como algo que só se vende porque, no limite, não se pode despejar no lixo... Ver filmes, quaisquer filmes, mas sobretudo "obras do Cinema", nesses amontoamentos não pode deixar indiferente quem acarinha o cinema como uma expressão artística especial nem mesmo como um "meio de comunicação social" singular.

Estes amontoamentos têm a sua existência física mais degradante nas tais superfícies comerciais, onde DVDs são vendidos colados a refrigerantes (já vi isto) e coisas semelhantes, mas há outros modos de amontoamentos, menos chocantes, mas ainda assim diminuidores desse grau de solenidade e respeito que deve - não deve? - acompanhar as grandes descobertas "artísticas". Falo, por exemplo, dos videoclubes e a forma, por vezes, autista como os filmes estão (des)arrumados nas prateleiras. Podemos encontrar, nas secções dos clássicos, filmes como "Harry Potter" ou coisas do género. Isso choca, mas nada choca mais do que constatar a completa falta de cultura cinematográfica - é mesmo, antes disso, uma completa ausência de SENSIBILIDADE cultural - no amontoamento virtual de filmes nos videoclubes on-demand. Falarei, aqui, apenas do MEO videoclube, espaço gerido certamente por aquele tipo de gente que vende "cinema" como quem poderia estar a vender legumes ou trapos da feira.

Apresento aqui dois exemplos do "grau de desinstrução" de quem toma conta destas superfícies virtuais onde se vendem filmes; superfícies essas que, certamente, estão muito pouco preocupadas com o público que é sensível a manifestações grosseiras de ignorância e incompetência.


Vamos, então, ao primeiro exemplo. Na secção Premiados, encontramos filmes como "Camino", "Marie Antoinette", "The Assassination of Jesse James..." - até aqui, nada de muito escandaloso, mas depois... -, "Miss Congeniality 2", "A Guerra das Misses", "17 Outra Vez" e - para citar apenas mais um... - "Grande Moca, Meu". Estou certo que a rubrica "premiados" deve estar a ser levada tão à letra que, provavelmente, basta que um filme receba um MTV award ou uma Framboesa para se tornar elegível, mas a forma grosseira como são combinados filmes de natureza, objectivos, públicos vá, tão distintos parece-me não só pouco instrutivo como, na realidade, verdadeiramente equívoco - para não dizer degradante. Não estou a sugerir que se retirem filmes como "A Guerra das Misses" da oferta de videoclubes, mas é preciso colocá-los no seu devido lugar, porque ver cinema não é um acto automático como trincar uma maçã ou vestir um trapo de feira; requer uma aprendizagem, um encaminhamento informado de quem "programa".


Outro exemplo. O caso crónico de tudo o que são superfícies deste género, físicas ou virtuais: a rubrica Clássicos. Clássico, dentro da cultura cinematográfica, quer dizer o cinema que se produziu em Hollywood no período que vai de Griffith a "Rio Bravo", ou, se quiserem, o "estilo" de fazer cinema que se instituiu, depois de Griffith, com a entrada em cena do código Hays. Não quero com isto dizer que a rubrica clássicos no MEO videoclube tenha de seguir qualquer uma destas interpretações à risca e até percebo que se siga a acepção mais "popular" de clássico: não aquilo que se repete, mas aquilo que permanece, isto é, obras que resistiram ao tempo e que constituem pedras-de-toque fundamentais na compreensão da história do cinema. Ora, nem esta acepção se safa na rubrica Clássicos do referido videoclube, porque temos... "Amor em Fuga" de Truffaut ao pé de coisas como "Alex Rider Operação Stormbreaker", "Judge Dredd" (sim, aquele com Stallone), "A Espada do Rei", "Apocalypto", "O Corvo: Reencarnação"... e telefilmes de qualidade suspeita sobre os quais não me pronuncio. É preciso acrescentar uma palavra que seja ao total disparate que é esta selecção de filmes? Será que os responsáveis pelo cinema, seja nos videclubes virtuais como este, seja nas superfícies comerciais, seja mesmo nalguns canais de televisão, conseguiriam passar naqueles testes do "onde está o intruso?" da Rua Sésamo?

O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte


"Mas acredite senhor Padre o burro tem alma de gente", diz a certa altura Zé do Burro ao padre da Igreja de Santa Bárbara, numa tentativa - já desesperada? - de convencê-lo a abrir as portas à cruz que vem carregando às costas desde a sua terra, para pagar uma promessa à santa milagreira que lhe salvou Nicolau, o seu melhor amigo... um burro, mas não um burro qualquer...

"O Pagador de Promessas" é uma sátira religiosa que faz uma síntese inusitada entre o neo-realismo "místico" de Rossellini (um "São Francisco, Arauto de Deus"), o neo-realismo social e político de De Sica (sobretudo, "Ladrão de Bicicletas") e a truculência herética de Buñuel ("Viridiana"). Faz a síntese, mas também antecipa; antecipa a "peregrinação exemplar" do burro com alma de gente, ou melhor, que carrega a cruz de Jesus até ao seu sacrifício final, na obra-prima de Bresson, "Au hasard Balthazar"; e, em boa verdade, inaugura internacionalmente a nova vaga do cinema brasileiro, estando já impregnado de algumas das temáticas que encontramos em cineastas como Glauber Rocha - a colonização do território, a cristianização do povo versus a resistência, uma resistência revolucionária..., do passado da terra e das crenças ancestrais dos nativos con(tra-)vertidos.

Entre o chamamento da terra e a imposição da vontade do homem branco - de uma Ordem religiosa, normativa e totalizadora da experiência... - está o nosso herói, o camponês humilde e ignorante que ama o seu burro e que ama a santa que o curou, a santa que ele acredita que o terá curado. Mas será o burro um "bode-expiatório" - ok, o jogo de palavras deve ficar por aqui... - do Diabo, da macumba maldita que resiste, como um vírus, nas zonas onde a civilização - leia-se, a Igreja e o dinheiro do homem branco - ainda não se instalou em definitivo? O padre diz que sim, que o pobre Zé do Burro "investiu" a sua fé numa feitiçaria demoníaca, pagã, herética e, por isso, a sua entrada na Igreja será um atentado à imagem de Deus. Zé do Burro, com a cruz aos ombros, tem agora de perseverar, até o senhor padre mudar de opinião. Enquanto Zé do Burro se "cristifica", a sua mulher titubeia... entre o seu pio marido e um pérfido "gigolô", "bonitão" de alcunha e de aparência. O filme vai-se coser entre estas duas histórias: a santidade (crescente) de Zé do Burro e a profanação (crescente) da sua mulher, que, como a Virgem, acompanhou o malogrado marido na sua peregrinação de sete léguas.

Ora, o que é interessante neste filme de Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro em 1962, é o modo como estas duas narrativas se vão deixar infiltrar por uma série de micronarrativas que traçam, com muita ironia, o choque entre a tradição mais enraizada do Brasil (a capoeira, a feitiçaria "negra", etc.) e uma modernidade cínica tomada pelo dinheiro e a fama fáceis (veja-se o jornalista que monta um autêntico "Big Carnaval" em torno do nosso herói, para, com isso, vender mais uns jornais; veja-se o galego da tasca, que vê no grande "sacrifício" oportunidade de negócio ou veja-se, por fim, o "gigolô", que apenas quer ficar com a mulher do pobre camponês...).

Para além da urdidura mordaz da história, "O Pagador de Promessas" é também hábil quando põe em diálogo, um diálogo visual, todos estes "ícones" contraditórios da cultura brasileira; no fundo, quando se encara como uma espécie de auto iconoclasta da tropicalidade brasileira, do seu eclectismo religioso contra o nivelamento cego do capital e da política, contra a demagogia da "religião dos media" e a intolerância da Igreja Católica... Numa palavra, eis um filme religioso "de esquerda", sobre uma espécie de "resistência franciscana" à doutrina/ideologia oficial, que se auto-sacrifica para expor o mundo e o homem na sua real dimensão - talvez uma dimensão, na sua essência, "anti-religiosa".

domingo, 17 de julho de 2011

Drama puro, teatro de emoções cruas, intenso espectáculo do real. Ó Lei, miserável Lei, o tribunal iraniano também é isso.

"Close-Up" (1990) de Abbas Kiarostami

"Divorce Iranian Style" (1998) de Kim Longinotto e Ziba Mir-Hosseini

[Uma descoberta recente verdadeiramente surpreendente: o cinema da documentarista britânica Kim Longinotto. "Divorce Iranian Style" e "Runaway", o seu díptico iraniano que me foi dado a ver pela Second Run, são dois retratos poderosíssimos do Irão moderno, sobretudo, da condição feminina e da batalha diária que é travada sob o tecto de diferentes instituições (o tribunal no primeiro e um lar que recebe raparigas que fugiram de casa no segundo), pela emancipação das mulheres numa sociedade ainda dominada pelos valores tradicionais "falocráticos". Mas não há "agenda" nenhuma, nem "discursos na manga" no cinema de Longinotto, que se revela uma cineasta de uma sensibilidade, de uma prudência e, por vezes, de uma espirituosidade muito fina que até agora só associava ao cinema de Frederick Wiseman.]

sábado, 16 de julho de 2011

Detour (1945) de Edgar G. Ulmer


A velocidade com que a história de um série B de Edgar G. Ulmer - ou, por regra, outro qualquer - se desenrola deve-se simplesmente a isto: é preciso que o espectador não respire, porque se, suponhamos, tiver esse tempo para respirar, isto é, tempo para oxigenar o cérebro, irá, por momentos, desprender-se do plot, irá, em primeiro lugar, atentar no décor e adereços pobres, na realização e direcção de actores feitas em cima do joelho e ganhará distância suficiente para detectar todas as mil e uma incongruências da história, de tudo, na realidade.

Penso que os filmes que se realizaram em duas semanas ou pouco mais da autoria de grandes "working men" do cinema como Ulmer ou Corman ou mesmo Preminger (o low-budget noir "Angel Face" é disso exemplo) padecem desta espécie de desassossego permanente muito por razões técnicas/orçamentais que inevitavelmente se traduzem numa estética. A verdade é que instutiram um MODO específico de contar histórias, narrativas que, entenda-se, têm de ter tudo lá dentro que cause emoção - mulheres, amor, vingança, morte, fuga, polícia, ladrões, prisões, mais mulheres... tudo de rajada, de preferência. Sabemos que este verdadeiro "pacote de emoções" (emotions como emoções "put in motion") impactou indelevelmente os mais insaciáveis amantes do cinema, como, por exemplo, alguns dos ciné-filhos da Nouvelle Vague, à cabeça, obviamente, Godard ("À bout de souffle" é ulmeriano) e Rivette ("Paris nous appartient" também tem o seu quê de ulmeriano), o que se percebe sem dificuldades.

Cineastas como Ulmer, mas não esquecer nunca Corman, baixaram a fasquia do modo de produção mainstream da grande indústria até ficar à altura de quem ama o cinema - amar o cinema é amar os maus filmes, tanto quanto os bons, amar o cinema será, para esta gente que fazia filmes em duas semanas, uma necessidade que supera qualquer busca autoral de um estilo próprio. O que é preciso é fazer filmes, em simultâneo, com ou sem actores de jeito, com muito ou quase nenhum dinheiro - amar o cinema é uma urgência! Ulmer falhou várias vezes até encontrar um equilíbrio entre todas os constrangimentos logísticos e financeiros e um modo de storytelling bem como uma estética capazes de absorver todos os impactos, galopantes, irracionais..., infligidos pela sua condição de cineasta de bolsos furados.

Um "pacote de emoções" é como um "pacote de medidas de austeridade" que temos de administrar com redobrado cuidado; e, nessa matéria, "Detour" é um verdadeiro "filme-troika" exemplar, porque converteu a tal velocidade "incongruente", estrutural às narrativas dos série B, numa imagem - um homem + carro + estrada - e fez-se revolver em ambiência onírica - que se haveria de tornar canónica do noir - para "desculpar" não só a "pressa" como uma certa "pobreza cénica" de todo o filme - contado num flashback que parte de um estado de espírito perturbado, muito convulso, espiral doentia em alta "rotação"... Portanto a imagem perfeita que Ulmer encontrou, para fazer a sua obra-prima, foi esta: um sonho + um homem + carro + estrada + o resto. O resto é, mais propriamente, os ingredientes de um "bom filme" de mistério e tensão; o tal "pacote de emoções" que nos vai sendo injectado, quando deve ser injectado, com vista à produção de choques que logo se contrabalançam com contra-choques.

"Detour" é um filme que só é um dos noirs mais brilhantes de sempre, porque não custou um chavo, porque foi filmado em meia-dúzia de dias, porque tinha atrás das câmaras um realizador que sabia precisamente ao que vinha e com o que é que podia contar - quase nada. Esse quase nada, combinado com a tal "imagem da justa medida" do cinema à la troika, é habilmente moldado dentro de um estilo rough, quase negligente, embrutecido, feroz e veloz... não há espaço para "respirações inúteis" porque o filme - o calendário de filmagens, o dinheiro disponível, o realizador, mas depois a história e a personagem lá dentro que está, também ela, numa espécie de "corrida tensa contra o tempo" -, digo, porque todo o filme TEM de nascer directamente das suas circunstâncias internas e externas, isto é, todo o filme TEM de nascer dessa tensão. É essa a lição, muito incoerentemente coerente para tanta (boa) gente, que tenho aprendido a assimilar enquanto vou vendo filmes de Ulmer.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Newsletter #5: Rossellini


Parece que a Assembleia não vai de férias. Pois nós também não. Nós também não MESMO ou como diz a ex-ministra da Educação "MÊMO". Isto porque, amigos e amigas, leitores e leitoras, subscritores e subscritoras, a nosso herói do mês de Agosto será, a vosso mando, um dos pais do neo-realismo italiano, mestre inspirador dos "autores" da Nouvelle Vague... Isso "MÊMO": o grande Roberto Rossellini.

A vantagem esmagadora que obteve na nossa sondagem - que teve, ao todo, 61 participações, obrigado a todos! - só reforça a legitimidade desta escolha e, ao mesmo tempo, obriga-nos a esforços redobradíssimos para vos proporcionarmos o que melhor há no mercado não só DE como também SOBRE Rossellini e o seu cinema de tão largo e celebrado escopo formal, temático e, até, filosófico.

O que podemos prometer mais para a Newsletter de Agosto do CINEdrio? Muita coisa. Por exemplo: as sugestões do mês a cargo do escritor "marcado pelo cinema" Fernando Cabral Martins, os "Argumentos para Filmes" de Pessoa - calha bem, sendo Fernando Cabral Martins um grande especialista em Pessoa -, vários Criterions com descontos monumentais, edições futuras dedicadas à vida e obra da crítica Pauline Kael, textos póstumos de Bazin publicados em inglês, Adorno e Benjamin e Kracauer "postos" a falar sobre cinema em livro promissor, muito livro raro, de edição brasileira, a preços mais acessíveis, aqui, em Portugal, filmes de Minnelli raros (re)editados, o filme iraniano do momento, etc. e etc.

Russian Ark (2002) de Aleksandr Sokurov


É verdade que "Russian Ark" parece estar reduzido a um dado técnico: o de ser filmado num único plano, um infindável e virtuosíssimo travelling levitante pelos corredores e salas do museu-cidade/arca Hermitage.

Um travelling levitante é um triunfo notável, isto porque nem todos os travellings levitam e nos fazem levitar; quanto muito, fazem a câmara deslizar sobre o espaço e, nos melhores casos sublinhamos, nos fazem deslizar com ela. Mas "Russian Ark" é uma fantasia histórica; há um bailado feérico proporcionado pelo seu dispositivo formal, que, como já insinuei, não é tudo neste filme de Sokurov, mas mesmo se fosse era muito. Travelling levitante, o que é isso aqui? É, quanto a mim, um travelling que levita e que nos levita, isto é, um plano que avança sobre o espaço - temporaliza-o - e que nos arranca do chão; enfim, um "voo de câmara" pela história e pela História. O "h" minúsculo assinala que "Russian Ark" também é o mais longo plano subjectivo da história do cinema (AVISO: não vi o último de Gaspar Noé) - e quão notável é! - e o "h" maiúsculo assinala aqui a tentativa da câmara não só temporalizar o espaço como, ao mesmo tempo, espacializar o tempo - em cada sala, há uma "cena" da História russa para contar, sem que a cronologia dite o que quer que seja, quem dita é a história que o narrador-câmara nos faz "passear", ou seja, espacializa-se o tempo para temporalizar o espaço e vice-versa... Ou, pelo menos, a câmara insinua, entre a história individual do narrador participante, que "sonha" esta fantasia..., e a História do seu país um bailado onde tempo e espaço fazem alternar os seus "tempos narrativos" - os tempos da imagem, do plano, do cinema é que ditam este bailado que Ophuls não filmou.

Depois falámos do plano em contínuo que é o filme. Ora, parece que é possível falar de "Russian Ark" sem pronunciar por uma vez que seja a palavra "montagem". Nada mais errado. E é aí que "Russian Ark" sabe interrogar os próprios limites do seu dispositivo formal, inédito na história do cinema (desculpa, querido Hitchcock... sem ofensa, Tarr e amigos...); isto é, sabe não se "conformar" a ele. É que esta obra-prima de Sokurov é um filme repleto de quadros, quadros dentro de quadros e histórias/cenas que se colam entre si. O "raccord" está aqui na própria imagem; no próprio plano. A montagem, muito modernamente, auto-gera-se no plano contínuo. Seja entre um quadro de El Greco e de Van Dyke (dois quadros dentro de "o quadro" de uma hora e quarenta minutos que é o filme...), seja entre uma porta que se abre e outra que fecha; um grande plano de mãos ou pés que se transforma num plano geral de corpos graciosos que se movimentam... Há raccord, claro, mas é um raccord puramente visual, coisa que só nos apercebemos ser possível numa experiência tão radical quanto esta. E isto não é reduzi-la a aspectos técnicos; é amplificá-la até ao infinito através de aspectos técnicos ou formais - mise en abyme autenticamente DO cinema.

(Obrigado Midas, obrigado Público. Graças a vós pude ver finalmente este filme, que já sonhara ter visto... e que filme perfeito para "já se ter sonhado ter visto"!)

domingo, 10 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

Petição Cinema na RTP2: balanço final

Meus caros, lamento, mas acho que esta espada nem o Rei Artur conseguia arrancar

O balanço desta iniciativa por um serviço público de qualidade que respeite o espectador e que faça de uma programação cultural oportunidade que não se pode esbanjar de fornecer as ferramentas críticas e conceptuais para que o português médio se possa "defender" do que vê, das imagens que o bombardeiam, a toda a hora, no seu dia-dia, digo, o balanço deste movimento cívico, surgido ESPONTANEAMENTE, sem recados ou objectivos que não sejam mais do que aquilo que está no texto da petição - mais cinema! mehor cinema! mais cultura! -, que SABE separar as águas entre o que é a televisão pública - seguramente não uma finalidade em si mesma - e o serviço público - este sim, um "fim" significativo que nos moveu -, digo, o balanço desta parceria entre bloggers de cinema - nem propriamente os mais "populares", sem nome mediático ou redes de contactos mediáticas... -, digo, o balanço deste debate entre o verdadeiro público da RTP2 e a administração plantada há quase 5 anos num lugar que, por todas as razões, exigia rotatividade e abertura, digo, o balanço destes vários meses de reflexão, escrita, filmada, trocada em mensagens, fomentada em encontros informais, etc... sempre em torno da problemática, complexa, admitimo-lo, do serviço público, digo, o balanço deste verdadeiro teste à democracia, nomeadamente, à forma como DE FACTO os agentes políticos e as entidades reguladoras estão disponíveis a ouvir quem DEVIAM representar, a dita "sociedade civil", muito elogiada sobretudo quando não "incomoda", que em todos os lados ouvimos dizer que está "morta" neste país... Digo, o balanço disto tudo é, quanto a mim, negativo.

Estão surpreendidos? Acredito que sim, porque, afinal, reunimos quase 3000 assinaturas; por outras palavras, 5 perfeitos desconhecidos*, zés-ninguém, que escrevem uns posts aqui e ali, conseguiram convocar praticamente todos os sectores da sociedade portuguesa para a resolução de um problema tão específico - será? - como o cinema na televisão pública, melhor, a forma como o cinema NÃO é programado - isto é, é DESprogramado - na RTP2... mesmo depois disto, por que venho agora dizer que o balanço é negativo? Porque, ingenuamente ou não, achámos a certa altura que a nossa causa não só era intrinsecamente justa, como também era praticamente unânime, tendo ganho ressonâncias na sociedade portuguesa como não nos tinha, em qualquer momento, passado pela cabeça. Lembro-me que no primeiro encontro que tive com o Miguel Domingues, no meu espírito, não iríamos conseguir mais do que 200 assinaturas ou coisa parecida. Foi uma feliz surpresa ver como a petição cresceu. Mas desenganem-se aqueles que pensam que cresceu POR ACASO. Todos nós, sobretudo eu, o Miguel Domingues, o Ricardo Lisboa, o João Palhares e o Carlos Natálio trabalhámos imenso para manter minimamente viva a chama ao longo destes meses; muitas vezes numa insistência que, à partida, nos transcendia por completo, abordámos o problema de todos os ângulos, quisemos fazer desta reunião única, e, para sempre!, irrepetível, uma grande oportunidade para tornar imediatamente consequente uma causa nascida, feita a pensar e pela sociedade civil. Quisemos iniciar a discussão da utilidade ou não da televisão pública num campo apartidário, mas não num campo apolítico - bem pelo contrário, nunca deixámos, sem medos, de intervir directamente, convocando todos os agentes com poder e confrontando-os com as suas responsabilidades, coisa que muitos se demitiram de assumir. É aqui que entra a desilusão.

O meio do cinema, altamente tribalizado, comportou-se de forma pequena, muito pouco à altura dos pergaminhos que tanto diz ter e mostrou-se pouco determinado em defender o direito à cultura, isto é, o acesso de todos ao cinema, princípio que só deveria oferecer da sua parte a mais inequívoca e incansável das defesas. Nenhuma organização, instituição privada ou pública nos ajudou ou quis colaborar de forma expressa e substancial nesta causa. A forma como a Associação Portuguesa de Realizadores ignorou por completo esta iniciativa é sintomática de como as gentes do cinema estão muito pouco disponíveis para apoiar iniciativas cívicas desta natureza. Também registamos com desagrado o pouco eco e apoios que obtivemos junto da Cinemateca Portuguesa, de quem acabámos por não merecer uma única assinatura. Seria interessante saber o que pensam estas instituições públicas da forma como a RTP2 tem tratado aquilo que deveriam defender incondicionalmente: o Cinema, precisamente. Numa altura em que a Cinemateca Portuguesa passa por dificuldades, cortes na programação e coisas afins, seria, a nosso ver, mais do que interessante reposicionar-se a RTP2 como um agente cultural, democrático, que promova o acesso do público ao cinema. As instituições devem-se preocupar com os seus problemas, mas nunca o podem fazer abdicando completamente de combater pelo que lhes é estrutural; e o princípio da democratização do cinema na televisão pública pode constituir um relançamento de uma certa "consciência cinéfila" nacional, que leve mais pessoas para a rua, defendendo o serviço público de televisão, a cinemateca e os cineclubes deste país.

Muita gente, de modo cobarde e pouco nobre tendo em conta, para mais, o estado actual do país, não apoiou esta iniciativa com medo de represálias, de cortes nos subsídios por parte da televisão pública e coisas do género. Lamento dizê-lo, mas o cinema português, que está bem servido em matéria de cineastas, está PESSIMAMENTE servido em matéria de cidadania. O comportamento de muita gente com responsabilidades na área é sinal de que Wemans é só a ponta do icebergue de um problema maior que começa com algo que a nós, grupo-peticionário, sempre causou espanto: o facto de durante cinco anos, fora umas trocas boçais de insultos na praça pública e umas conspirações cobardes, quem se diz DEFENSOR DO CINEMA não ter feito nada de visível para contestar a programação do segundo canal, que coerentemente tem arrastado a cultura para a lama - e, como pergunta muito bem o cineasta João Mário Grilo, quem vai agora querer "ir para as ruas" defendê-la contra uma qualquer medida de privatização de parte ou de toda a televisão pública?

E os agentes políticos? Agradecemos a vontade de mudança, ACTUANTE, da bancada do bloco de esquerda, na pessoa da deputada Catarina Martins, mas lamentamos a apatia do PS ou o modo como assobiou para o lado, em vésperas de subir ao poder um partido que - dirá o PS - defende o fim da televisão pública e do serviço público. Ao contrário da deputada Inês de Medeiros, considero que entidades como a AR e a ERC, antes de serem intransigentes na defesa da televisão pública, devem ser intransigentes na defesa do serviço público. Tanto a AR, pela mão da deputada Inês de Medeiros, como a ERC, que não respondeu aos nossos mails, telefonemas e carta, perderam uma enorme oportunidade para mostrarem que o combate que dizem encabeçar pela televisão pública não é fruto apenas de uma circunstância mediática/partidária.

Se a ERC não regula o cumprimento das obrigações de serviço público, se é ingénua na leitura das estatísticas abusivamente manipuladas que a RTP2 apresenta nas auditorias anuais ao canal, se, por outro lado, face a tudo isto, a AR nos diz que é demagógico e "ilegal" qualquer tipo de pressão sobre o segundo canal, porque isso constitui uma intromissão nas decisões editoriais da direcção - o que leva a um vazio de regulação inevitável, visto que, deste modo, a RTP2 poderá continuar a desenvolver impune e orgulhosamente a sua "programação para as audiências", que não se sabe bem que interesses serve... nem se quer imaginar que interesses tem servido... se face a tudo isto, ninguém age ou muda alguma coisa, como podem esperar que os espectadores, a sociedade civil, os contribuintes de onde vem o orçamento da televisão pública, venham defender os seus interesses? Quem nos representa? Nesta matéria, chegámos à conclusão que pouca gente. O bom-senso e independência não imperam nem no meio político nem no meio televisivo nem mesmo entre as "elites" do cinema. O balanço é negativo porque pensamos que, com todos eles, hoje teríamos uma programação de cinema DIGNA no segundo canal.

Desde o início, mesmo não esperando metade da adesão que tivemos, como já referi, sempre tive um único objectivo e mais nenhum: ligar a televisão e ter cinema, um pouco como já tivemos noutros tempos com programas como "5 Noites, 5 Filmes" ou "Filme da Minha Vida" ou, recuando mais, o "Cine-Clube"... A verdade é que, hoje, tendo já entregue as 2962 assinaturas na Assembleia, tendo escrito mais de uma centena de posts, realizado vídeos, podcasts e um debate que tornámos público, nada mudou no segundo canal. Este sábado, em sessão dupla, a esmola que Wemans ainda vai dando ao "público" da RTP2, passam os filmes "Excalibur" de John Boorman, seguido de "A Promessa" de Chen Kaige. O que os liga, o que é que os põe em diálogo? A lenda do rei Arthur encontra ressonâncias na história lendária da China das concubinas? É isso? São as espadas e os cavalos? É Boorman e Kaige? Mas, ó chatos de uma figa, o que é que isso interessa? O povo é ignorante, quer continuar a ser ignorante; enfim, quer é ligar a TV e ver imagens em movimento, acção, acção e poucas palavras, como se diz no filme do outro! A televisão não serve para ser pensada nem para fazer pensar, não é? Está visto que sim. Frank Capra, que sempre se interessou pelas "causas grandes" dos pequenos "sem nome", teria ficado envergonhado com um desenlace destes.

* - Falo, para além de mim, do Miguel Domingues, Ricardo Lisboa, João Palhares e Carlos Natálio. A título pessoal devo dizer que o mais gratificante de tudo foi ter tido a oportunidade de privar com os meus colegas da petição e de perceber que há pessoas de grande valor, que pensam o cinema e que o defendem acima de qualquer interesse.

e da Liberdade

"Professione: Reporter" (1975) de Michelangelo Antonioni

"Dans la ville blanche" (1983) de Alain Tanner

Nova trilha (XXVII): Paltrow e Bowie

Gwyneth Paltrow em "Se7en" (1995) de David Fincher

quinta-feira, 7 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Viagem no tempo para inflectir o curso da história (distopias nucleares)

"Beyond the Time Barrier" (1960) de Edgar G. Ulmer

"La jetée" (1962) de Chris Marker

(Não tem de haver espanto quando se põe o filme de culto de Marker e o mais obscuro filme sci-fi série B de Ulmer no mesmo post. Os dois lidam com a questão da ameaça nuclear com a mesma gravidade e ambos fazem da viagem no tempo a única escapatória possível para a humanidade - seja por via da memória, seja por via das viagens no espaço. Ulmer, autêntico artesão à la troika, que filmava filmes em simultâneo ao preço do salário mínimo, não oferece metade do arrojo que qualquer experiência fílmica de Marker, mas, de qualquer modo, parece-me que "Beyond the Time Barrier" é uma tentativa muito subvalorizada de questionar a nossa finitude, rompendo, para isso e com isso, qualquer ilusão convencional de "temporalidade" - o que, para um drive-in movie, é deep enought.)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Debate Cinema na RTP2 4/4

Eis a quarta, e última, parte do debate Cinema na RTP2. A conclusão é assinalada pelas reacções do painel à intervenção de Jorge Wemans.

O embuste chamado FOX Movies

Os operadores de televisão continuam a tratar o espectador como se este fosse um débil mental. Aliás, alertava a DECO para o facto do espectador de TV continuar a ser tratado como um mentecapto. O último barrete que nos quiseram enfiar - e terão enfiado nos mais distraídos - foi a criação de um canal de cinema chamado FOX Movies, que não é mais do que a reunião num só canal dos filmes que passavam nas demais FOX. Ou seja, re-arrumam-se os conteúdos e promove-se um canal como se constituisse, de facto, uma oferta nova. É mais uma chico-espertice de quem gere a televisão portuguesa - a mediocridade não mora só dentro das televisões, mas também à volta. Televisão,à frente e atrás, local cada vez pior frequentado.

Debate Cinema na RTP2 3/4

Para todos aqueles que têm seguido esta causa, só temos a dizer que esta parte é imperdível, na medida em que nos dá, finalmente, a oportunidade de ouvir os (contra-)argumentos da principal figura do segundo canal, o dr. Jorge Wemans. Tentámos cortar o mínimo que conseguimos, para assim preservar na plenitude o direito do mesmo ao contraditório. Como diz o outro, "absolutamente a não perder".

sábado, 2 de julho de 2011

Os critérios da programação de cinema na RTP2

Para ficar para a posteridade o que o senhor Jorge Wemans considerou ser uma "boa programação de cinema", é preciso escrever sobre a conversa que tivemos com ele no final do debate.

Depois de defender, com algum custo, que programava para um "público" e não a pensar numa "audiência", Jorge Wemans explicou-nos por que não contextualiza as obras que passava na sessão dupla, que, revelou-nos, é ele próprio que programa. Disse-nos, então, que se passar uma introdução feita por um cineasta ou alguém entendido na área, isso fará o público mudar de canal imediatamente. Wemans tinha falado na importância de se constituir um público, mas a principal razão para não passar o cinema "como deveria passar" - porque ninguém, no seu estado normal podia defender que o cinema não precisa de ser explicado, ou que PERDE em ser explicado... - parecia, agora, prender-se com uma questão de "audiência". Dissemos-lhe isso, o que foi imediatamente reprovado pelo director do segundo canal. Contudo, quanto mais falávamos, mais ficava claro que, de facto, Wemans, mesmo depois de 3 horas de debate, estava determinado em não fazer nada.

Na sua óptica, que, pelos vistos, se sobrepõe às responsabilidades legais do segundo canal, as pessoas não querem "contextualizações"; na realidade, preferem ver filmes na total escuridão. O director da estação acrescentou ainda que os critérios demasiados óbvios não são bem-vindos e que não se devem "engavetar" filmes. Concordámos que não se devem "engavetar" filmes, mas dissemos que não considerávamos correcta uma sessão dupla tão pouco clara nos seus pressupostos como a que juntou "Caramelo" e "Rainha Margot" ou "Laço Branco" e "Persépolis" (esta sessão dupla foi "justificada" por Wemans pelo facto dos dois falarem de uma "comunidade"...).

Por outro lado, em razão da sua súbita postura "pós-moderna" de rejeição de programações demasiado óbvias, perguntámos-lhe como explicava então as programações semanais, muito esporádicas, de cinema na RTP2, que, quase sempre, juntam filmes segundo um género específico (exemplo, o "western", o "filme de ficção científica") ou por serem de um realizador ou actor notável... Nesta altura não consegui descortinar qualquer coisa próxima de uma resposta.

Retratos de Jason e Deleuze: os perceptos de Clarke/Lee e Boutang/Parnet

"Portrait of Jason" (1967) de Shirley Clarke (e Carl Lee)

"L' abécédaire de Gilles Deleuze" (1996) de Pierre-André Boutang (e Claire Parnet)

(Já vos disse que "Portrait of Jason" é, como Bergman bem dizia, um dos filmes mais fascinantes de sempre? Já vos disse que "O Abecedário de Gilles Deleuze" é uma oficina do pensamento como poucos? Já vos disse que, enquanto perceptos, a loucura "magistral" de Jason "filosofa" bem com o génio de Deleuze? Se calhar ainda não vos disse, porque tenho receio de, com isso, estar a dizer um disparate...)

Debate Cinema na RTP2 2/4

Esta segunda parte do debate é marcada, essencialmente, pela exposição do Professor Rui Cádima sobre o contexto legal e financeiro da televisão pública europeia, a apresentação do articulado que diz respeito às obrigações da RTP2 relativamente ao cinema e por desassombradas palavras do ex-Provedor do Telespectador, José Paquete de Oliveira. Vale a pena ver.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Concurso de beleza Verão 2011: Prémio Nivea - Colgate - Pringles para o Melhor Conjunto

Tarefa difícil para o nosso júri: escolher entre o estilo conservador das vestimentas de Rossellini e Dovzhenko ou apostar no estilo tropical de Glauber Rocha ou ainda eleger o estilo geek chic de Eisenstein... Difícil, muito díficl, mas a decisão foi anunciada há horas: Eisenstein, depois de receber o prémio Melhor Penteado, volta a ser premiado, desta feita, com o Prémio Nivea - Colgate - Pringles para Melhor Conjunto. O mais bem vestido e penteado estava bem disposto no final da cerimónia, tendo mostrado grande fair play quando afirmou que "neste caso, o Glauber tinha tudo para ganhar. Eu até acho que ele deveria ter ganho". Gesto bonito do realizador de "Ivan, o Terrível".

Entretanto, no concurso paralelo, Roberto Rossellini toma isoladamente a dianteira para "Autor do Mês de Agosto" da Newsletter CINEdrio. Lanço o apelo final: votem, votem e votem. É que será já no dia 15 de Julho que anunciamos o vencedor.

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