terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ligação directa à pala de Walsh (VII)


Foi um mês menos produtivo da minha parte, mas o investimento não foi menor, já que a minha crónica Civic TV, fazendo o raio X da programação de cinema na passagem de ano, reúne alguns dados ainda por estudar na sociedade portuguesa. Estudo de igual ou maior valor é a nova crónica que o Ricardo Vieira Lisboa redigiu, com vista a "pôr em perspectiva" a dimensão da indústria de cinema espanhola, por contraposição à indústria de cinema que não temos.

Para além disso, escrevi a análise possível a uma obra-prima que me supera: "Charulata" de Satyajit Ray. Nos posts conjuntos, remeto o leitor para a regressada rubrica Cadáver Esquisito, com um texto sobre os limites morais no cinema. A Sopa de Planos comemorou as mais variadas formas de celebração em cinema. Já hoje eu e o Ricardo Vieira Lisboa publicámos a nossa "revista do mês" na rubrica Actualidades.

Dos meus colegas, recomendo vivamente a leitura daquela que é, para mim, uma das melhores entrevistas alguma vez feitas a uma crítico de cinema, no caso, a primeira parte da conversa que Carlos Natálio teve com Adrian Martin. Quero ainda destacar dois textos: a intrigante recuperação, da autoria de João Palhares, de um título obscuro realizado, veja-se só!, por Saul Bass e o texto de homenagem a Nagisa Oshima, escrito por David Barros.

No próximo mês, esperam-se novas e picantes novidades.

A bit of the old ultra-violence

"Clockwork Orange" (1971) de Stanley Kubrick

"Death Wish" (1974) de Michael Winner

[Aqui fica, a minha singela homenagem a Michael Winner, desaparecido há dias, via aquele que foi, sem sombra de dúvidas, o seu sucesso maior, "Death Wish", o bom revenge flick (reaccionário comme il faut) protagonizado por Charles Bronson - em tempos, um habitué na televisão nacional, hoje remetido a um certo esquecimento.]

domingo, 27 de janeiro de 2013

The Revolt of Mamie Stover (1956) de Raoul Walsh


O que dizer sobre "The Revolt of Mamie Stover" que já não é dito nas excelentes duas intervenções, por Rabourdin e Noel Simsolo, em extra no pack de dois filmes (o outro é o já analisado aqui "You Are in the Army Now") editado pela marca francesa Opening? Os dois, sobretudo o primeiro, fazem o retrato deste filme na obra de Walsh, começando desde logo por afirmar o seu lado excepcional ou dissonante. De facto, não sendo este o único filme de Walsh protagonizado por uma mulher, é seguramente um dos seus filmes mais povoados por mulheres, não só Jane Russell mas todas as suas colegas do lupanar exótico onde se tornará estrela número um, figura mais cobiçada pelo olhar - e não só - faminto dos militares estacionados no Hawai, durante a II Guerra Mundial. Outra nota de dissonância com boa parte da restante obra de Walsh será o CinemaScope e, sobretudo, o Technicolor - como diz Rabourdin - quase sirkiano. O trabalho que Walsh desenvolve sobre a cor neste filme lembra-nos que este era, na sua vida particular, não só um apreciador e conhecedor de pintura, como um amador dessa arte, tendo produzido, diz Simsolo, algumas obras de apurado "refinamento" estético.

Apesar de ter a guerra como pano de fundo, "The Revolt of Mamie Stover" é um melodrama adulto, de facto, quase sirkiano, que estranhará os espectadores habituados a ver em Walsh sinónimo de "aventura e acção". Este filme aparentemente incaracterístico de Walsh conta a história da repentina ascensão social de uma prostituta de São Francisco numa ilha do Hawai e a forma como o súbito sucesso interfere com a relação amorosa que mantém com um escritor bem instalado na vida. Dito assim, feita esta sinopse, ao espectador mais atento às nuances walshianas começará a "soar a campainha", na medida em que não é caso único no cinema do realizador americano histórias sobre ascensões meteóricas de pessoas marginais ao sistema, bastando recordar um filme magnífico como "Silver River". A tensão entre amor e dinheiro, a pedra de toque temática deste filme, traça um arco dramático muito semelhante ao que é traçado nesse fabuloso western protagonizado por Errol Flynn. Por outro lado, o fascínio quase fetichista de Walsh - que diziam ser um bon vivant quando não estava "em serviço" - por lugares de prazer nocturno atinge o pico aqui, já que boa parte do filme - qual Hawks 100% heterossexual - se passa num luxuoso lupanar com as maiores beldades da ilha - onde, Hawks again..., o cativeiro é fixado internamente como condição de sucesso para o negócio. Se pensarmos em filmes como "Manpower", "You Are in the Army", "The Man I Love", etc. ficamos conversados quanto ao papel que os "nightclubs" desempenham no seu universo.

Posto isto, "The Revolt of Momie Stover" afirma-se por si mesmo como um drama inteligente sobre uma mulher determinada em mudar de vida, lutando no fundo contra o seu próprio passado (de novo, "soa a campainha" no espectador mais conhecedor de Walsh...). O trabalho pictórico é nada menos que soberbo e Jane Russell, mostrando o outro lado da "traveca" espampanante de "Gentlemen Prefer Blondes", consegue combinar sensualidade, feminilidade e poder como poucas actrizes.

A Angústia do Blogger Cinéfilo (V): o grande vencedor

Still de "The Freshman" (1925) de Fred C. Newmeyer e Sam Taylor (Ah, mas isso é uma cena de râguebi! Não é nada, é o moche que aconteceu logo após o último apito do árbitro, no jogo da grande final cine-futebolística!)

Final intensa, o jogo mais assistido na história do torneio!, que termina com um resultado expressivo da "equipa sensação" desta segunda edição da Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty: o Dial P for Popcorn.

O seu losango ofensivo produziu mais efeito que o da equipa adversária: Todd Haynes - Almodóvar - Terry Gilliam - PT Anderson deram uma lição de bola a David Lynch - Tarantino - Kusturica - Scorsese. A defesa ultra-premiada do Dial P for Popcorn também terá sido mais eficaz que a do Caminho Largo, onde a experiência e "classe internacional" da dupla de centrais, Polanski-Cronenberg, não teve o cinismo da duríssima dupla Haneke-Trier. Soderbergh, normalmente irrequieto, teve uma exibição muito mais descansada que Miyazaki, homem habituado a outros ritmos.

Está assim encontrado o grande vencedor, que fica assim responsável pela (re)organização do torneio dentro de um ano. O CINEdrio, como competidor e clube anfitrião da competição, dá os parabéns ao grande vencedor Dial P for Popcorn.

Quero agradecer a todos os concorrentes desta edição - foram grandes desportistas! - e a todos os votantes - o melhor décimo segundo jogador/autor do mundo!

Em breve, a votação do "onze ideal" da blogosfera cinéfila.

sábado, 26 de janeiro de 2013

You Are in the Army Now (1937) de Raoul Walsh


Será um dos filmes menos vistos e menos inolvidáveis de Raoul Walsh, mas foi bom tê-lo visto por duas razões: primeiro, porque sedimenta algumas ideias em torno da dimensão autoral do cinema de Walsh; segundo, porque me deu a oportunidade de ver e ouvir, graças a esta edição modesta de dois filmes de Walsh, um walshiano dos bons velhos tempos do Mac-Mahon, Dominique Rabourdin. Bem vistas, estas duas razões interligam-se: na entrevista/apresentação que dá a propósito de "You Are in the Army Now", para além de falar da adoração louca que um grupo de cinéfilos (onde estavam nomes conhecidos como Patrick Brion ou Jacques Lourcelles) prestava aos filmes mais obscuros de um cineasta já de si pouco popular chamado Raoul Walsh nas salas do velhinho cinema parisiense, Rabourdin revela o seu conhecimento profundo da obra do realizador norte-americano, traçando desde logo uma característica intrínseca ao herói walshiano e que está presente neste seu filme menor: a desobediência. Se pensarmos em filmes como "Desperate Journey" e a obra-prima "Silver River", para não falar de quase todos os gangster movies, temos dois exemplos de como Walsh é fundamentalmente um cineasta anti-sistémico, os protagonistas dos seus filmes se estão inseridos numa estrutura militar irão desafiá-la se isso significa fazer bem - para eles, para os outros, ou para ambos.

Nesta comédia semi-burlesca de guerra filmada no Reino Unido, Walsh traz-nos uma personagem que faz da desobediência um modo de vida, desde o momento em que toma o lugar de um homem literalmente apunhalado pelas costas na sequência de uma discussão num casino ilegal gerido por mongoleses, até ao instante em que, já tornado num soldado exemplar - mesmo que debaixo de uma identidade falsa - decide "desertar" do exército britânico. Também de novo, e isso Rabourdin não refere, mas digo-o eu, temos uma personagem que ocupa o lugar de outra, que "troca de pele", que duplica, enfim, a sua máscara interpretativa - o actor interpreta uma personagem que interpreta outra. Já que estou embalado também diria mais: de novo, um herói walshiano sacrifica-se mais ou menos heroicamente, desaparecendo à nossa frente quase ao mesmo tempo em que cai o "the end" sobre a imagem. Como diz Rabourdin, este será o segredo melhor guardado desta obra de Walsh: a forma como o fim deste herói se alonga serenamente num único plano, o último que vemos de "You Are in the Army Now". É um momento estranhamente poderoso, já que de uma comédia ligeira passamos para um registo oposto, quase etéreo, no qual não morre apenas uma personagem mas duas - a personagem e a personagem que esta interpreta... até ao fim! Do corpo morto, duas almas se elevam ou apenas uma? Um plano vale um filme? Vale vários quando é simples e profundo como este.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

N word cowboy

"Sargeant Rutledge" (1960) de John Ford

"Django Unchained" (2012) de Quentin Tarantino

[Não embarco no histerismo cinéfilo face às declarações de Tarantino sobre as posições políticas que John Ford foi tomando ao longo da sua vida. Parece-me evidente a inclinação de Ford, o homem, à direita mais conservadora e, por outro lado, é indesmentível que há uma tomada de posição político-ideológica muito bem definida quando se entra num filme como "The Birth of a Nation", sobretudo vestido de "cavaleiro branco" do KKK. Uma posição também de natureza política e ideológica é tomada por Tarantino em "Django Unchained", mas num pólo diametralmente oposto, que é importante que quem vê a História retroactivamente perceba: Tarantino personifica um dos muitos "bad guys" racistas do seu filme, ora, no filme de Griffith os "guys" racistas não são "bad", pelo contrário, são os gloriosos salvadores de "último minuto" da Pátria. O que Tarantino quis dizer na tal entrevista polémica é que despreza - quem não despreza? - o posicionamento que, em dado momento, um Ford ou um Griffith ou, grosso modo, toda uma tradição clássica manifestou - ou, cobardemente, não manifestou! - em relação à história - que é a sua História - da miscigenação norte-americana. Posto isto, e acalmadas as histéricas consciências cinéfilóides, tenho a dizer que "Django Unchained" é melhor sucedido no statement ideológico - nomeadamente na personagem de Samuel L. Jackson, o reverso pervertido/subvertido da governanta negra de "Gone With the Wind" - que como exercício de género ou de cinema-cinema. A redundância aqui não é criativa, produtiva, profícua, mas redunda - e passo o pleonasmo... do pleonasmo? - numa operação que lembra o "enterro forçado" de "Kill Bill Vol. 2": camadas e camadas de "cultura cinéfila", sufocante e ruidosa - nada silenciosa, apesar do "d" do título - que tornam tanta escrita fílmica num texto perto da total ilegibilidade. Um texto que desfigura a clarividência, ou melhor, a economia dramatúrgica de um "Inglourious Basterds" ou "Death Proof". As excepções são as conversações iniciais de Christoph Waltz (genial, de novo!) com Jamie Foxx (o mais grave erro de casting na carreira de Tarantino) e o brilhante set piece perto do fim. De resto, "Django Unchained" é uma desilusão.]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

High Sierra (1941) de Raoul Walsh


Percebo o que quer dizer Jacques Lourcelles, no seu Dicionário do Cinema, quando conclui que o herói de "High Sierra" se inscreve mal no filão walshiano, porque lhe falta a desmesura, a monstruosidade e o aspecto picaresco ou a "passividade trágica" que são marcas indissolúveis das melhores personagens do realizador norte-americano. Para quem - como eu - tinha visto antes "Pursued", parece-me evidente tudo isto, contudo, pensando mais fundo - e percebendo onde quer chegar Lourcelles, isto é, ao "fraco argumento" de Huston, autor detestado por boa parte da crítica francesa - devo dizer que concordo na mesma medida em que discordo com essa ideia: aqui, Humphrey Bogart - actor cujo carisma, por acaso, só saltará à vista com Huston e Hawks - é demasiado altruista, demasiado "mole" e auto-comiserante para ser identificável com o tipo de homem walshiano, mas também é preciso dizer que a passividade trágica está lá, que esse altruísmo e moleza são, à sua maneira, quase patéticos.

Parece que ficamos reduzidos ao grau de fraqueza do herói masculino, porque, entendamos, os homens walshianos estão longe da planura viril de um Huston, por exemplo. Logo, só posso concluir que, apesar de tudo, Humphrey "Mad Dog Earl" Bogart está investido do olhar, do "olho singular" apetece escrever, de Raoul Walsh - menos que num "Pursued", apesar daqui também termos uma personagem "perseguida" pelo seu passado, menos que num "Desperate Journey", apesar de aqui também termos a história de uma viagem, de uma fuga a qualquer "reconhecimento", menos que num "They Drive By Night", mas também aqui Bogart lida com uma mutilação. É sobre esta mutilação que importa parar um pouco: no filme anterior que realizou com Walsh, também com Ida Lupino no elenco, Bogart era o "homem sacrificado", esta figura é cara a Walsh, bastando-nos para isso recordar o desfecho trágico de Cagney em "White Heat" ou "The Roaring Twenties", ou de Flynn no início e no fim de "Uncertain Glory" ou de Edward G. Robinson em "Manpower", etc. O sacrifício de Bogart nesse filme não se consubstanciava na sua morte física, mas numa espécie de morte mais embaraçante: uma morte fílmica. A personagem, após o acidente que lhe roubou um braço, quase desaparece de cena, esta negligência castigadora, implacável, volta a acontecer em "High Sierra", mas de forma significativamente distinta, porque o embaraçado continua em cena e é, precisamente, o herói.

Em "High Sierra", Bogart procura "arranjar" (fix) o pé defeituoso de uma rapariga com a qual se enamora. E, de facto, avança com o dinheiro para uma operação que acaba por ser bem sucedida. Bogart, que no filme anterior ficava sem braço, dá um pé à mulher que ama. É um gesto altruísta, talvez demasiado "caridoso" para um infame e cruel ladrão de bancos recentemente indultado de uma pena de prisão para a vida... À partida, não é um gesto muito walshiano, também porque significa uma acção, uma boa acção cristã, de ajuda a certa pobre casal de agricultores incapaz de pagar uma simples operação que restitua em pleno a feminilidade da sua bela filha. Bem, será, mas só aparentemente, porque, como se perceberá - mas nunca é assumido o "cinismo" dele, por inteiro - , Bogart procura uma recompensa: dá um pé e, em troca, almeja "a mão" da rapariga. Acaba por ser muito walshiana a forma como esta ingénua e doce menina dá a volta ao texto e anuncia que não ama Bogart, até porque o seu coração pertence há muito a outro homem. Dá vontade de dizer que a doce e inocente menina "dá-lhe com os pés".

Este lado dúplice, mas silenciosamente programático, das personagens femininas walshianas estava presente em muitos outros filmes, mas aqui arrasa por completo o coração do nosso herói. O que acontece nos filmes de Walsh é que o homem é um lobo solitário que na travessia, física ou puramente moral, que enfrenta está sempre sujeito a acidentes, o primeiro desses acidentes (que muitas vezes é um "bom acidente") pode ser uma mulher, mas aqui esta é mais que um mero acidente: é o primeiro "fim" daquela personagem, do seu "man power". Bogart não é desmesurado, até é modesto nas suas ambições, também se revela muito menos egotista que outros heróis walshianos, o que se passa é que também é frágil e feminino como tantos outros. Não sendo nada próximo de uma obra-prima - estamos de acordo com Lourcelles -, "High Sierra" acaba por ser bem sucedido a situar, isto é, a relativizar a figura do herói na obra de Walsh.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A política de autores como 'política de si, por si'

Jean-Luc Godard, "Pierrot le fou" (1965)

Luc Moullet, "Brigitte et Brigitte" (1966)

Godard calls Bergman an 'intuitive artist' rather than a 'craftsman': 'The camera is not a craft. It is an art. It does not mean team-work. One is always alone; on the set as before the blank page*. And for Bergman, to be alone means to ask questions. And to make films means to answer them. Nothing could be more classically romantic.' Bergman's own comment on this passage is apt: 'He's writing about himself.'

Jim Hiller (ed.), Cahiers du Cinéma: The 1950s: Neo-Realism, Hollywood, New Wave, Cambridge, Harvard University Press, 1985, p. 175

(...) - En 55-65, rappelle-toi, les futurs cinéastes des Cahiers inventaient la politique des auteurs, tellement mondialisée aujourd'hui qu'on en oublie les bagarres qu'elle a suscitées.
- Et alors?
- Dans un premier temps, il fallait accréditer l'idée que l'auteur d'un film, c'est le cinéaste. Et dans un second temps, faire de la propagande pour une autre idée - Godard l'a reconnu sur le tard -, à savoir que l'auteur, le vrai, ce n'est pas tant le cinéaste que le journaliste en train d'inventer, là, en direct, cette connerie de politique des auteurs.
- C'est freudien, ton truc. L'auteur ne serait pas Walsh, méprisé à l'époque par toute la critique de cinéma, mais un critique mutant, Godard par exemple, en train d'inventer Walsh aux yeux du monde et qui dit en fait : «C'est moi, l'auteur, le cinéaste à venir, vous allez voir ce que vous allez voir.» Claire, c'est lumineux, ton truc.

Louis Skorecki, Walsh et moi: suivi de Contre la nouvelle cinéphilie, Paris, Press Universitaires de France, 2001, pp. 18 e 19

* - Etc.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Pursued (1947) de Raoul Walsh


"Pursued" é filme para merecer três ou quatro longos ensaios sobre o género (o gender como sexo e como género fílmico) ou a dimensão psico-sociológica do "sonho" (não, da "memória") do protagonista interpretado por Robert Mitchum. Mitchum, no rosto, na voz e na pose, traz ao filme a ambiência noir quase ao mesmo tempo que o jogo de contrastes, o preto-muito-preto da fotografia a preto-e-branco, e toda a reversão temporal - lá está, psicanalítica ou, se preferirem, "out of the past" - que espoleta a narrativa. No entanto, "Pursued" é, antes de mais, um western, constatação imediata dada pela paisagem, que, no entanto, vai sendo traída (a constatação e a paisagem) em toda à linha à medida que entramos no trauma e nos pesadelos do nosso "herói" - e as aspas já nos estão a colocar, de novo, no território do noir. Segundo especialistas como Scorsese*, este terá sido o primeiro western noir da história do cinema, o que denuncia de imediato um traço nem sempre tido em conta no cinema de Walsh (que já tinha salientado na minha análise a "The Big Trail"): o seu grau de rigor e "competência" paredes-meias com uma "fúria" secreta pela experimentação fílmica.

Se, como diz Jacques Lourcelles, "The Big Trail" funcionava como grande documentário épico, quase metafísico, disfarçado de filme de cowboys, "Pursued" é um noir atormentado, por vezes perverso na sua indiferença moral, que usa e se deixa usar pela paisagem do western clássico. Disse atrás "fúria" para caracterizar esse Walsh secreto que procura sabotar os géneros que tanto ajudou a cristalizar. Disse-o a pensar em "The Furies" de Anthony Mann, filme que me parece claramente dever o mundo a "Pursued" - aliás, se me tivessem mostrado este filme de Walsh, sem indicação quanto ao seu realizador, eu diria estar na presença de um filme de Anthony Mann, dada a carga trágica que corre nas veias de uma família que mutila e se auto-mutila... Mas não, é mesmo um "filme de Raoul Walsh". E como ver nele a sua assinatura, o seu "toque" autoral? Arrisco - porquanto dizer que Walsh é um auteur antes ou depois de um puro metteur en scène soará a heresia em certos círculos - começar pela personagem feminina, interpretada por Teresa Wright. É certo que Walsh é um realizador predominantemente masculino, mas, talvez por isso mesmo, as suas mulheres estão muitas vezes marcadas pela mesma dose de incompreensibilidade.

A personagem de Wright, por exemplo, no seu plano louco para se vingar do "amor da sua vida" revela a mesma neurose, o mesmo "desvio" que outras mulheres walshianas, como desde logo Ida Lupino no já de si esquizóide "They Drive By Night" ou Marlene Dietrich no ironicamente intitulado "Manpower". Este trio feminino, diria fatídico, traça em linhas carregadas um triângulo que vai apertando, quase até estrangular, o pobre macho walshiano, homem viril, certo, mas outrossim emocional e indefeso - a apoteose sendo James Cagney em "White Heat", ainda que não distante de Mitchum aqui, em razão da sua relação edipiana com uma "providencial" figura materna... Se a personagem feminina de "Pursued" é fria e calculista no seu plano revanchista para liquidar o "amor da sua vida", o homem aspira apenas resolver um enigma passado que o obceca ou que, como diz o título, "o persegue". A característica neurótica em Teresa Wright está, obviamente, na oscilação entre o amor e o ódio, como acontecia em Ida Lupino em "They Drive by Night" com a personagem de George Raft. As duas personagens recorrem ao homicídio com a mesma dedicação com que amam o "seu homem". A diferença fundamental aqui é que Teresa Wright pode ter Robert Mitchum, ao passo que Ida Lupino nunca conseguirá conquistar George Raft. (De qualquer modo, há qualquer coisa que liga as mulheres de Walsh aos "anjos fatais" de Otto Preminger...)

A violência daquela paixão levada ao paroxismo nasce de um traço que resulta particularmente perturbante: a natureza incestuosa da relação que une Mitchum a Wright. Mesmo sendo irmãos adoptivos, a relação que os une, como o protagonista do filme, faz-se à sombra do passado mais distante, isto é, das recordações da sua infância, que teria sido perfeita não fossem os ciúmes de Adam, o irmão natural de Wright. Se antes eram irmãos inseparáveis, agora preparam-se para se unir em matrimónio para toda vida ou, para ser mais exacto, "até que a morte os separe". Ninguém no filme se escandaliza particularmente com esta decisão, facto espantoso que nos relembra que neste filme pouca coisa há para lá do universo mental, factício, separado do real, de Mitchum. Face a um comportamento desviado, que transforma irmã em noiva, Walsh não se desvia um milímetro do percurso traçado pelo protagonista e que deverá desfechar com a resolução do mistério que o obceca. Esta opção, irrealizante, justifica-se, claro está, porque todo o filme se passa na cabeça de Mitchum: é ele que nos conta a forma como tudo se passou, é ele que "vindo do passado" (de novo pisco o olho ao filme futuro de Tourneur, também com Mitchum) nos presenteia - isto é, torna presente - a sua visão do que já lá vai. Dito de outro modo: ele é o metteur en scène aqui.

Mas a sua visão é, como todas são, uma parte implicada na experiência, logo, a naturalidade de um sentimento como o amor que sente ou o ódio que lhe é dirigido é destruída pelos excessos resultantes de uma realidade filtrada por um ego ferido e angustiado. A neurose de Wright é a neurose de Mitchum, resolver a segunda será resolver a primeira - e, por isso, Walsh não se desvia do percurso e, como bom cineasta das linhas rectas que é, dá pouca atenção ao significado psico-social (diferente de sócio-psicanalítico) das acções das suas personagens. Wright bem diz, no início, que Mitchum está a "imaginar coisas", ao que ele responde "não, estou só a lembrar-me". Depois o filme entra na "lembrança", mas não há nada de objectivamente distinto entre os produtos da imaginação e os produtos da lembrança, daí que as fronteiras morais ou uma certa consciência social "muito naturalmente" se fantasmagorizem à medida que a narrativa avança. Por tudo isto, entrar em "Pursued" é entrar em território proibido, onde as regras de género (do sexo e do cinema) são tão incertas quanto certas são as regras do nosso mundo, ele que é definido aqui da seguinte forma: tudo o que desabita a cabeça de Mitchum. Fora da sua zona de conforto, ao espectador cabe a missão de a habitar.

* - Refiro aqui o único extra da edição em Blu-ray de "Pursued", que pode ser adquirida aqui.

sábado, 19 de janeiro de 2013

A Angústia do Blogger Cinéfilo (IV): grande final

Still de "Parade" (1974) de Jacques Tati

Foi uma meia-final muito assistida, desde logo, o jogo que opôs o Dial P for Popcorn à equipa do Shut Up and Watch the Movies bate o recorde anteriormente estabelecido, com um total de 40 votos. E comecemos precisamente por esta disputa que esteve muito equilibrada até ao último minuto, quando - como já havia feito nos quartos-de-final - o Dial P for Popcorn arrasou com o adversário. No fim, ficou 27 contra 13.

No outro jogo, o desequilíbrio foi grande quase desde o início, tendo o Caminho Largo goleado a equipa da casa, vencedora da primeira edição do torneio, o CINEdrio. 18 - 9 foi o resultado final. [Consta que houve lenços brancos mais um lençol (ainda com o nome de Paulo Bento escrito num canto) e cânticos do género "Fool Fuller Fired!".]

A grande final está assim definida, sem nenhum favorito claro, já que o torneio tem sido quase um "passeio no parque" para ambos os finalistas. Vamos ver como se portam no mano-a-mano final. Votem! E decidam qual a melhor equipa da blogosfera cinéfila e, automaticamente, quem irá receber a terceira edição do torneio A Angústia do Blogger Cinéfilo.

Grande finalDial P for Popcorn (a preto) vs. Caminho Largo (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

Até à próxima sexta-feira, estão convocados todos os adeptos cine-futebolísticos para este encontro. Quanto aos concorrentes - e ex-concorrentes - fica o convite de anteverem esta grandíssima final e, como todos os adeptos, darem nota dos pontos fortes e fracos de cada equipa. Que o jogo comece!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Último plano: não haverá plano possível para lá do vilão

"Blue Steel" (1989) de Kathryn Bigelow

"Zero Dark Thirty" (2012) de Kathryn Bigelow

[Impressionante: passados mais de 20 anos, Bigelow retoma a mesma reflexão sobre a condição política da mulher face à violência e às relações de poder. Fá-lo, aliás, de forma magistral em "Zero Dark Thirty", esse filme de guerra com sangue de western na guelra - veja-se o grande assalto final ao "forte Osama". Contrastando com o bom filme falhado "Blue Steel", temos aqui a presença e o rosto de Jessica Chastain, cuja mais ou menos secreta fragilidade emocional é parte indissociável da sua magnífica potência feminina (diria que Jamie Lee Curtis, uma mulher de traços duros, muito mais máscula mas igualmente determinada, é menos potente dentro desse tipo de potência). A diferença entre Lee Curtis e Chastain é que a primeira nos dá pistas sobre uma política no feminino (pode ser comprovadamente uma mulher e até uma mulher bela, mas não é uma mulher feminina), ao passo que a segunda dá um passo em frente em direcção a uma poderosa política do feminino (ela é uma mulher feminina e administra a sua "feminilidade" como um instrumento de poder, shock and awe).
O rosto de Chastain, leve e luminoso (tão afirmativamente não-violento e claro), é o grande contra-campo estético e moral do lado mais obscuro (= que está para lá da mais vulgar maquilhagem político-mediática) da guerra contra o terrorismo. Este contra-balanço é mais evidente em "Zero Dark Thirty", mas o desenlace nos dois filmes aproxima quase ao ponto da indistinção a situação desses dois rostos-ecrãs: depois de morto o grande vilão, que era simultaneamente a sua razão de ser e o ser da sua desrazão, não ficam mais imagens por projectar, senão apenas as de uma existência que entretanto perdeu a sua qualidade fílmica. O filme só acaba depois de vermos desaparecer, num monólogo interior, de si para si, "a" nossa heroína - procurar quem? Resistir a quem? Ou pior: procurar o quê? Resistir a quê? Um final, num plano que já nada planifica (ou melhor: que só planifica ou antevê daí em diante o nada), desencadeado pela consciência de "fim de si mesma" da protagonista.]

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A Angústia do Blogger Cinéfilo: antevisão do jogo das meias-finais

Caminho Largo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

Chegados às meias-finais, depois de um embate muito complicado com a equipa do Narrador Subjectivo, todos os cuidados são poucos neste confronto com a toda-poderosa equipa do Caminho Largo, que no jogo anterior arrasou o seu adversário. Samuel Fuller disse, na conferência de imprensa, que reconhece valor ao ataque adversário, onde figuram aliás dois sósias de dois jogadores do CINEdrio - Tarantino e Eastwood - mas que desconfia da competência do seu meio-campo e defesa. Fuller, que parece querer fazer mind games com Ozu - o treinador da equipa adversária -, avançou algumas ideias polémicas sobre jogadores como Herzog, Scorsese, Wong Kar-Wai e Polanski: "O seu tempo passou. Há jogadores aqui que tiveram momentos bons na sua carreira, mas que hoje só querem é massagens e peladinhas no final dos treinos. Eu prefiro o profissionalismo e dedicação a tempo inteiro." É sabida também a antipatia especial que Fuller tem por jogadores "florais" como Zhang Yimou, de quem um dia disse: "Zhang quê? Não falo chinês, só inglês e futebolês - e isso, meus senhores, não é um jogador de bola."

domingo, 13 de janeiro de 2013

Recorte de falas (XXVI): They Drive by Night

Pois é, George Raft tem todas as razões para ser - ou para se ter tornado - daltónico: é camionista, "conduz de noite", e é protagonista num filme esquizóide a preto-e-branco de Raoul Walsh, o homem que se decidiu definitivamente pela realização (em detrimento da interpretação) quando perdeu um dos olhos num desastre de viação. Ele é daltónico, nós somos daltónicos ("color blind"): "They Drive By Night" (1940) conduz-nos, inicialmente, pela estrada do drama realista steinbeckiano, para depois se "estampar" num thriller noir onde o que ficou para trás... ficou mesmo para trás. Coincide que a primeira parte - o primeiro filme, apetece dizer! - termina pouco depois de Fabrini "parar" nos cabelos vermelhos de Cassie (Ann Sheridan) e é aí que a viagem termina, ou melhor, é aí que ele "settle down". De facto, o daltonismo é péssimo para quem conduz.

Joe Fabrini: I always liked redheads.
Cassie Hartley: Red means stop.
Joe Fabrini: I'm color blind.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Modernidade? O elo que liga o motel do filho à casa da mamã

Alfred Hitchcock, "Psycho" (1960)

(...) the architectural locale of the two murders is by no means neutral; the first takes place in a motel which epitomizes anonymous American modernity, whereas the second takes place in a Gothic house which epitomizes the American tradition. (...) This opposition (whose visual correlative is the contrast between the horizontal - the lines of the motel - and the vertical - the lines of the house) not only introduces into Psycho an unexpected historical tension between tradition and modernity; it simultaneously enables us to locate spatially the figure of Norman Bates, his notorious psychotic split, by conceiving his figure as a kind of impossible 'mediator' between tradition and modernity, condemned to circulate endlessly between the two locales. (...) It is on account of this split that Psycho is still a 'modernist' film: in post-modernism, the dialectical tension between history and present is lost (in a postmodern Psycho, the motel itself would be rebuilt as an imitation of old family houses).

Slavoj Žižek, 'In His Bold Gaze My Ruin is Writ Large', in Everything You Always Wanted to Know about Lacan (But Were Afraid to Ask Hitchcock), NY/London, Verso Books, 1992, pp. 231-232

A modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno retorno e o imutável. 

Charles Baudelaire, O pintor da vida moderna, Lisboa, Passagens, 2004

A Angústia do Blogger Cinéfilo (III): meias-finais

Still de "The Great Dictator" (1940) de Charles Chaplin (sim, Hitler faz "mão" na imagem e devia ter sido expulso)

Com um dia de atraso publico o resultado dos jogos dos quartos-de-final entre as equipas de sonho da blogosfera cinéfila. O atraso é justificado: até há cerca de 24 horas tínhamos um jogo empatado, que, por isso mesmo, teve de ir a prolongamento e, deste modo, provocar um ligeiro atraso na publicação dos resultados. O leitor achará estranho que tal tenha acontecido face aos resultados bastante contundentes expressos na maior parte das ou mesmo em todas as partidas.

As votações foram bastante participadas, tendo o jogo que opôs o Keyzer Soze's Place e o Dial P for Popcorn batido todos os recordes do torneio com um total de 37 votos. Foi neste jogo que o empate persistiu passados os 90 minutos de jogo. No prolongamento, o jogo desequilibrou-se nitidamente para o lado da equipa do Dial P for Popcorn, que passará assim para as meias-finais.

O outro jogo mais animado foi aquele que juntou em campo as equipas do Caminho Largo e Rick's Cinema. 34 votos, sendo que cerca de 74% deles foram para o Caminho Largo, que muito serenamente parte, já com estatuto de favorito a estar na grande final, para as meias-finais da competição.

Mais equilibrada foi a partida que envolveu o CINEdrio e o Narrador Subjectivo. Apesar da excelente exibição - e estamos mesmo a ser objectivos - desta última equipa, o CINEdrio saiu vitorioso, reunindo 14 dos 24 votos depositados.

O jogo Shut Up and Watch the Movies vs. A Sombra do Elefante foi um espectáculo interessante, mas algo desnivelado. É que o grande Elefante foi silenciado com um total de 13 contra 6 votos, a favor do pouco "delicado" opositor.

Assim sendo, podemos avançar já para o alinhamento das meias-finais, abrindo a votação (que terminará na próxima sexta-feira, dia 18) a todos os adeptos e, claro, ex-concorrentes. (Os intervenientes, pela sua parte, deverão antever estas meias-finais, fazendo o devido raio X ao novo adversário.)

1.º confronto: Caminho Largo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

2.º confronto: Dial P for Popcorn (a preto) vs. Shut Up and Watch the Movies (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

Agora é só votar na equipa que, para si, merece chegar à final! Sem fruta ou café com leite!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Make my day: estará o 5 Noites, 5 Filmes de regresso à RTP2?


Já sem Wemans ao leme e com o cancelamento do ornitorrinco artístico-cultural "Câmara Clara", a RTP2 entra numa nova fase da sua vida. Quer dizer, isto se de facto não acabar por ser privatizada, extinta ou outra solução qualquer que o governo improvise entretanto em cima do joelho. Num momento em que se anunciam novas grelhas, não é evidente ainda o rumo que a programação do segundo canal vai tomar em 2013, contudo, os sinais que tem dado em matéria de cinema não oferecem ainda grandes garantias: se, por um lado, muito se lamenta o fim do programa "Onda Curta", por outro lado, perguntamo-nos se o regresso do "5 Noites, 5 Filmes" - que na próxima semana homenageia Clint Eastwood - é para ser levado a sério ou se este canal "de serviço público" continuará a usar o cinema - e essa rubrica histórica, tão acarinhada pelos telespectadores com memória - como tapa buracos da programação. Outro sinal pouco claro prende-se com o fim (definitivo? Não sei...) das sessões duplas de sábado, espaço que era usado, insidiosamente, pela anterior direcção para vender a ideia de que passava cinema em qualidade e em quantidade.

Das duas uma: ou este regresso de "5 Noites, 5 Filmes" é outra piada do canal, poeira lançada para os olhos dos milhares de espectadores que há anos pedem - exigem! - mais cinema na RTP2, ou então estamos na presença de uma mudança de política, que só dá razão a quem sempre associou a estagnação do cinema no segundo canal à direcção chefiada por Wemans e Paula Moura Pinheiro. Obviamente que o meu desejo é que esta segunda hipótese se confirme, porque, caso contrário, ficaremos definitivamente sem cinema no segundo canal, logo, estaremos condenados de vez à falsa oferta dos privados - até porque parece que em 2013 teremos menos cinema na RTP1. Não quero acreditar que se vá descer mais baixo e rasgar de modo ainda mais notório o contrato que vincula a RTP ao Estado, ignorando de vez a obrigação de dar a ver e a missão de contextualizar os grandes filmes da história do cinema.

Adenda (dia 13 de Janeiro): para minha felicidade, constato que a ausência de "Onda Curta" na programação da RTP2 terá sido apenas temporária. Este domingo e, pelo menos, nos próximos dois domingos o programa histórico da televisão nacional tem espaço garantido na antena da RTP2. Uma boa notícia.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Newsletter #18: Walsh


Eis o tão prometido regresso da Newsletter do CINEdrio (previsto para o dia 1 de Fevereiro) e, com ela, das melhores promoções, lançamentos recentes e futuros de livros e filmes vindos de todos os cantos do mundo graças ao maravilhoso - e miraculoso - comércio online. Esta segunda vida é celebrada com um autor enciclopédico, alguém cuja vida compreende uma boa parte da história do cinema: desde "The Birth of a Nation" do seu mestre D.W. Griffith até à eclosão do cinema moderno, passando, entrementes, pela consolidação de alguns dos géneros mais populares do classicismo norte-americano: o western, o filme de guerra e o gangster movie. Estas serão as três grandes áreas de especialização do cinema de Walsh, sendo que nele muitas vezes a especificidade é não haver, pelo menos aparentemente, uma e apenas uma especialidade. Enquadrar um cinema com este eclectismo é a tarefa desafiante que procuramos responder na próxima edição desta publicação agora renascida.

Bem, renascida sim, mas não revolucionada. O subscritor irá encontrar as rubricas de sempre, com lançamentos futuros, recentes e as melhores aquisições no mercado online de livros e filmes. As novidades e descobertas acumuladas são tantas - e tão boas - que não vale a pena fazer qualquer antevisão aqui. Vale? Ok, mas só umas pistas: Bill Morrison, Imamura, Jonas Mekas, Godard, Jancsó, Max Linder, Murnau, Kitano, James Whale, Nicholas Ray, Don Siegel, Hellman, Losey, Rancière, Badiou, Lourcelles, Agamben, Adorno, Deleuze, Margarida Acciaiuoli, Oliveira, Adrian Martin, Skorecki, etc. e etc.

A grande novidade que podemos adiantar prende-se com um reforço para a nossa equipa de colaboradores: Samuel Andrade, do blogue Keyzer Soze's Place. Ficamos felizes por ter aceite o nosso convite. A vinda do Samuel não invalida o repto que endereçámos a todos os amantes de livros e filmes: se gosta de escrever sobre o que vê e lê, então não se acanhe e candidate-se ao lugar de próximo colaborador da Newsletter do CINEdrio, seguindo estas indicações.

Para este nosso relançamento, iremos publicar as recomendações em matéria de filmes e livros por parte da filósofa Maria Filomena Molder. Prepare-se para excelentes descobertas.

Posto isto, resta-nos desejar que continuem a apostar na nossa existência, divulgando os meios para a nossa subscrição.




Objective, Burma! (1945) de Raoul Walsh


É muito fácil gostar e até gostar muito de "Objective, Burma", filme cuja acção tem lugar no palco asiático da II Guerra Mundial, mais especificamente, na Birmânia, ponto de choque, espécie de Estado-tampão, entre os aliados (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Índia e China) e o "terrível" império japonês. O objectivo no/do filme, contudo, não é a conquista desse território ou a vitória imediata sobre o inimigo, mas a história de sobrevivência de um grupo de militares ao longo de vários dias passados sem mantimentos em número suficiente e, a certa altura, com poucas expectativas de serem resgatados. Trata-se, em primeiro lugar, de um filme mais de sobrevivência do que de guerra, mais de choque com a envolvência agreste e selvagem do território do que com os métodos demoníacos do inimigo. Ainda assim, penso que Walsh podia ter vincado mais esta diferença em relação à maioria dos filmes do género, contendo-se de modo significativo no retrato bárbaro que faz do inimigo - não digo que ele não fosse "de facto" assim, simplesmente, há pouca vontade de, por exemplo, fazer deste filme uma reflexão mais distanciada sobre a natureza "desunamizadora" desta como de qualquer outra guerra.

Face a "The Thin Red Line" ou "Flags of Our Fathers", este filme de Walsh arrisca cair numa certa visão aligeirada da guerra, mostrando, no começo, os bons soldados americanos a massacrarem os seus inimigos com um sorriso estampado no rosto, como se estivessem a desempenhar uma tarefa rotineira ou natural, para depois se lançar na mais alta indignação e sentimento de horror e ódio face à barbárie cometida pelo inimigo. O jornalista no grupo chega a deixar fugir qualquer coisa como "gente desta devia ser eliminada da face da Terra". A câmara de Walsh não promove o contra-campo, moralmente justificado, aqui, porque para ela não parece haver dúvidas de que a chacina de japoneses é "entertainment" mas a morte de americanos constitui um momento político sério, mesmo que catártico. Preciso de o dizer: este desequilíbrio moral não sabe e não soa bem hoje.

Não consigo ser cúmplice do grupo de cinéfilos para os quais tudo é cinema ou um jogo de formas e sons, porque quando entramos no domínio da definição do Humano (ou do que resta dele), lamento dizê-lo, mas o cinema não basta. O caso deste filme de Walsh não é, seguramente, o mais grave - não é um "The Birth of a Nation", onde curiosamente Walsh entra no papel do assassino de Lincoln, filme paradigmático de alguns dos problemas que se podem interpor na relação da cinefilia com o mundo, principalmente uma certa totalização da experiência pelo cinema (como se este último, de facto, bastasse para esquecermos tudo o mais...).

"Objective, Burma!" é um filme de acção magnificamente montado, em registo semi-documental, que acompanha a operação militar do título a par e passo, absorvendo cada minuto com o sentimento de também nós, espectadores, estarmos ali, com aqueles homens e naquele lugar. De novo, Walsh filma uma travessia e os problemas - muito concretos - que se colocam aos seus heróis entre um ponto A e um ponto B. Na realidade, o filme é o somatório de todas essas dificuldades e o modo como estas vão sendo superadas pelos protagonistas. Envolvente, intenso, sem excesso de retórica - apesar da sua, já referida, notória natureza propagandista -, "Objective, Burma!" resume, fora a menor ou maior aderência à "visão do mundo" do espectador moderno, algumas das melhores virtualidades do filme de acção tipicamente walshiano.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Por uma definição justa de pirataria


A pirataria é um mal que paira sobre a Humanidade. Todas as semanas, navios de praticamente todas as nacionalidades correm grandes riscos de serem abordados por piratas somalis nos Mares Arábico e Índico. Enquanto isso é um atentado à integridade física de pessoas e um roubo de produtos físicos - e a também antiga contrafacção de artigos coloca em risco a vida ou a saúde das pessoas - os governos e entidades mais ou menos oficiais preocupam-se principalmente com um tipo de pirataria bem mais ofensivo ou perigoso: a democratização do conhecimento cultural, através da partilha de conteúdos digitais.

Os conteúdos digitais foram uma invenção da indústria. Dando variedade de formatos e portabilidade, tencionavam vender mais, mais depressa e com maior lucro. E tal como no tempo dos gravadores de VHS, os consumidores contornaram as regras. Se há vinte anos as revistas apoiavam o consumidor fornecendo capas e códigos para gravar à hora certa, agora são os próprios fornecedores de serviços televisivos a permitir a gravação e visionamento posterior com um mínimo de esforço. E isso é legal porque, apesar de os fabricantes de conteúdo não gostarem, como são empresas que o fazem pagam impostos, continua a ser negócio. Os consumidores agradecem o serviço prestado.

Vender DVD contrafeitos é ilegal. Porque nesse cenário não ganha quem faz o conteúdo, nem quem o vende paga impostos sobre o seu trabalho. O consumidor agradece pagar menos do que por um bilhete de cinema ou uma cópia oficial e, como os tempos estão difíceis, já sente que é justo cortar numa despesa “supérflua” como é o entretenimento.

Disponibilizar conteúdos online equivale ao anterior porque, atingindo determinada escala, começa a arrecadar quantias consideráveis de dinheiro com a publicidade.

E se quem os coloca online não estiver a ter lucro, nem a roubar a ninguém? Esse era o caso do blog My One Thousand Movies. Os três mil filmes que tinha eram clássicos que não se encontram à venda nem passam na televisão. Pretendiam dar a conhecer o património cinematográfico da humanidade. Serviam para descobrir cineastas esquecidos e obras de culto, mas com pouca resolução para que ninguém se sentisse tentado a ficar com essa versão em vez de se dedicar a procurar no mercado convencional de importação uma versão melhor. Outra vantagem é que no My One Thousand Movies todos os filmes tinham legendas em português ou numa língua mais ou menos compreensível. Na importação não.

Dia 16 foi fechado pela Google sem qualquer aviso por incentivo à pirataria. Estamos a falar de filmes quase impossíveis de encontrar no mercado, que em nada rivalizavam com a versão comprada, se existisse uma, e que tinham no máximo uma centena de downloads provenientes de todo o mundo, não apenas de Portugal.

O que o My One Thousand Movies fazia era complementar (ou substituir) a missão da deficiente televisão pública de educar cinéfilos. Muitos bloggers recorreram a este repositório para rever um título acarinhado, ou, a partir do filme e da pequena resenha que o acompanhava, fazerem publicações com as quais muitas outras centenas de pessoas ficaram com vontade de descobrir um cinema marginal e esquecido.

Isto não é pirataria, é serviço público, e é preciso (re)definir o enquadramento legal adequado.

Se alguém errou no meio disto tudo foram as distribuidoras que não viram interesse em comercializar os filmes. Ninguém o pode ver porque não compensa comprar os direitos e fabricar para pouca gente? Sugeríamos que houvesse um videoclube online no qual, por um valor simbólico, se pudesse ver o filme contribuindo para a distribuidora.

A distribuidora não teria encargos com a manufactura de cópias físicas que ficariam a ocupar espaço em armazém.

Os consumidores exigentes encontrariam o que queriam imediatamente sem remexer em caixotes de promoções nas superfícies comerciais.

Os retalhistas não estão interessados em ter uma cópia única de milhares de filmes que poderão nunca vir a comercializar, mas estariam interessados em vender cartões pré-pagos de acesso a esse serviço, como fazem para as consolas.

Se o preço fosse suficientemente baixo toda a gente poderia espreitar e talvez descobrir algo único.

Enquanto este tipo de serviço não existir, estaremos sempre dependentes da boa vontade, dedicação e cultura de pessoas como o autor do MOTM. Mesmo que achem que isso vai contra a lei. De todos nós, obrigado.

Signatários

Ana Sofia Santos Cine31 / Girl on Film

André Marques Blockusters

António Tavares de Figueiredo Matinée Portuense

David Martins Cine31

Francisco Rocha My Two Thousand Movies

Gabriel Martins Alternative Prison

Inês Moreira Santos Hoje Vi(vi) um filme / Espalha-Factos

Jorge Rodrigues Dial P for Popcorn

Jorge Teixeira Caminho Largo

Luís Mendonça CINEdrio

Manuel Reis Cenas Aleatórias / TV Dependente

Nuno Reis Antestreia

Pedro Afonso Laxante Cultural

Rita Santos Not a Film Critic

Samuel Andrade Keyzer Soze's Place / O Síndroma do Vinagre

Victor Afonso O Homem que Sabia Demasiado

domingo, 6 de janeiro de 2013

A Angústia do Blogger Cinéfilo: antevisão do jogo dos quartos-de-final

Narrador Subjectivo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

Na antevisão do primeiro jogo do CINEdrio, o míster Fuller deu um murro na mesa - literalmente! - depois de interrogado sobre a sua alegada má relação com o ponta-de-lança da equipa, Quentin Tarantino. Se os dois já não se podiam ver à frente, depois de Tarantino ter dito que "odiava Ford", defesa central lendário do CINEdrio FC, Fuller terá esgotado a paciência, chegando mesmo a afirmar a um órgão de comunicação social que "Tarantino tem é de se concentrar no jogo que aí vem. Isto se quiser um dia chegar ao nível de um John Ford". De resto, Fuller diz que está confiante num resultado "positivo" frente à equipa do Narrador Subjectivo FC. O respeito pela equipa adversária é grande, já que esta dispõe de uma defesa sólida, com uma guarda-redes interessante mas ainda algo insegura, mas acima de tudo com um meio campo muito virado para o ataque (porventura demasiado "ofensivo"). "Talvez no meio-campo e no ataque o CINEdrio esteja uns furos acima do adversário", refere ainda assim Fuller, para depois concluir: "Vamos ter de explorar todas as fraquezas, se queremos seguir para as meias finais".

Uncertain Glory (1944) de Raoul Walsh


Errol Flynn nunca foi um actor da minha preferência, mesmo quando dirigido pelos melhores, como é o caso dos filmes de guerra que fez sob o comando de Raoul Walsh. "Uncertain Glory" consegue, contudo, fazer da maior fraqueza da super-estrela da Warner numa força, nomeadamente a sua fatal tendência para uma espécie de soberba oca ou cinismo vaidoso. Do rosto de Flynn está sempre um sorriso engatatão e um olhar difuso, para não dizer "vazio". Normalmente é plano tanto quanto é pouco versátil. Um Bogart ou um Mitchum sabe fazer da planura, do rosto e da voz, uma espécie de versatilidade dentro da gama de papéis que lhe couberam. Ora, Flynn não consegue fazer isso, mas Walsh consegue, salvo nalgumas desonrosas excepções (exemplo do inenarrável "Northern Pursuit"), distrair a acção da inexpressividade ou da expressividade linear, básica, deste actor. No caso de "Uncertain Glory" vai mais longe, servindo-se dela "de caras" para fabricar uma personagem completamente imprevisível do princípio até ao fim, alguém tão pouco fiável que mesmo nas suas nobres acções não nos convence minimamente.

Aliás, é comum descrevermos uma má interpretação com expressões semelhantes, do estilo "interpretação pouco convincente". Aqui a personagem quer-se pouco convincente, volátil, intrinsecamente cínica e indecifrável. A confissão de Flynn na igreja, toda ela "a big joke", é redimida numa segunda confissão, na qual Flynn diz que antes a "joke" era afinal ele, que também soa e se evidenciará falsa, montada, interesseira (mais que a primeira) ou gratuita (menos que a primeira). Flynn não diz nada com o rosto, logo, apenas diz para não confiarmos nele ou apenas nos diz que tudo nele é passível de ser projectado - a dúvida será, em potência, a sua arma secreta.

O que acontece em "Uncertain Glory" já acontecera em "Desperate Journey", quando Walsh fazia da "troca de peles" o principal leitmotif do filme, mas neste caso a troca é moralmente mais complexa: um criminoso francês propõe ao inspector Bonet morrer não como um banal homicida, morto pela guilhotina (à francesa), mas como um herói francês da resistência, executado contra a parede, de olhos vendados (à alemã). Tudo resultará de uma espécie de negociação à la "Strangers on a Train" e numa "mudança de peles" no sentido da ocupação de um lugar vazio que urge preencher (o do sabotador que, se ficar por preencher, custará a vida de uma centena de inocentes). O que Flynn neste filme promete fazer - mas não sabemos se irá fazer, porque desconfiamos sempre dele, até mais que as outras personagens no filme... - é tornar-se não no "wrong man" hitchcockiano - com injustiça e desonra - mas num novo "right wrong man" walshiano - com justiça e honradez. O final, demasiado definitivo, é pouco habilidoso face ao jogo de ancas posto em prática ao longo de quase todo o filme, mas damos de barato o lacrimejo retórico e galvanizador num filme realizado no ano em que foi.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Recorte de falas (XXV): À Meia-Noite Levarei Sua Alma

Aos 12 minutos de "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964), Zé do Caixão antecipa uma reflexão de Rancière a propósito de "Histoire(s) du cinéma" de Godard, abrindo caminho a um processo de disjunção, "anti-representativo", entre imagem e palavra, que faz converter a palavra em carne e o corpo da imagem numa encriptação, ou seja, numa forma de escrita... Mas fá-lo incompletamente, como que enunciando apenas um esboço dessa "mudança". Zé do Caixão experimenta empiricamente a possibilidade dos misteriosos lábios de Terezinha (a imagem) serem tão rebeldes quanto as palavras que eles adornam (som e texto). Num filme de som assíncrono, é curioso que Zé do Caixão provoque esta brecha hipotética entre o que a mulher que quer possuir diz e o que os seus lábios (mudos) lhe fazem ver e sentir. A experiência acabará por não correr bem, já que os lábios de Terezinha eram afinal menos rebeldes que os seus dentes, que vão morder até sangrar a boca do "anticristo brasileiro".

Zé do Caixão: Quero ver se seus lábios são tão rebeldes como suas palavras!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Angústia do Blogger Cinéfilo (II): quartos-de-final

Still de "Offside" (2006) de Jafar Panahi

Caros concorrentes, caros adeptos, o sorteio já foi realizado. 

Entretanto, todos os concorrentes entraram em estágio nos seus respectivos espaços, onde se consolidam as opções tácticas e estratégicas. Poderão acompanhar a preparação clicando abaixo sobre o nome de cada blogue.

Mas, antes de mais, vamos ao resultado do sorteio.

Sorteio realizado via random.org

1.º confronto: Caminho Largo (a preto) vs. Rick's Cinema (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

2.º confronto: Narrador Subjectivo (a preto) vs. CINEdrio (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

3.º confronto: Shut Up and Watch the Movies (a preto) vs. A Sombra do Elefante (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

4.º confronto: Dial P for Popcorn (a preto) vs. Keyzer Soze's Place (a azul)

Decida o Vencedor Aqui

Agora que já sorteámos os primeiros confrontos, cabe a cada blogger concorrente publicar o seu duelo, postando:

1. a imagem e texto (com link para este post com todas as sondagens) do vosso confronto, e, se quiserem, deixem comentário sobre a vossa "sorte" - prognósticos e análise à Luís Freitas Lobos das principais valências e debilidades, "técnico-tácticas", do vosso oponente.

2. o anúncio do fim da votação: precisamente, na próxima sexta-feira (11 de Janeiro).

Agora cabe ao leitor determinar o destino de cada uma das peladinhas cine-blogosféricas. Vote, já! 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Não, há limites para o Deus misericordioso

"Edge of Darkness" (1943) de Lewis Milestone

"Roma, città aperta" (1945) de Roberto Rossellini

Desperate Journey (1942) de Raoul Walsh


Decerto alguns dirão que estou a sobrevalorizar um filme datado realizado quase em modo automático por Raoul Walsh, servindo-se de ou sendo servido por uma das maiores estrelas da época na Warner: Errol Flynn. Não me espantam, por exemplo, as duas estrelas que Tag Gallagher dá ao filme - e decerto a sua argumentação passará por "censurar" o tal tom datado e, talvez, algo naive do filme face ao acontecimento histórico que procura traduzir (isto é, trair) na linguagem cinematográfica. Essa crítica faria sentido se não cometesse em si mesma uma injustiça ou não se pudesse descobrir neste filme um ponto de luz em direcção a um mais-que-possível humanismo walshiano. Estou, neste particular, a pensar na rapariga alemã (Nancy Coleman) que dá guarida aos militares americanos, eles que, em disfarces alemães, em plena "boca do lobo", lá vão conseguindo ir bem para lá dos objectivos da missão para a qual foram destacados. Antes de se despedir do herói (Errol Flynn) e seus companheiros, a rapariga pede a estes para passarem a palavra sobre todos aqueles que, como ela, arriscam a vida para combater internamente o nazismo - e em que condições desiguais! Flynn fala alemão, mas ela também fala inglês, contudo, despedem-se os dois com um auf wiedersehen. (Se esta foi "a despedida" no cinema, esta foi "a apresentação" na vida.)

Começa aqui a outra nota da "honestidade" de Walsh (há bocado falava em humanismo, não receio a palavra, mas agora vai esta em sua substituição). Se na maior parte dos filmes americanos sobre a II Guerra Mundial que se seguiram a este os alemães falam um "inglês com sotaque", aqui a língua não só é respeitada nas suas devidas fronteiras culturais e políticas como, por assim o ser, se torna num dos principais instrumentos de acção ou, na realidade, de dissimulação do/no filme. Em "Desperate Journey" temos então, como o título indica, uma viagem toda ela feita nas barbas do inimigo, por isso, os nossos heróis ou se calam para sempre - isso seria um filme mudo e, de facto, no começo temos cerca de 10 minutos sem diálogos... só com a acção das bombas e dos corpos - ou só falam entre si ou, fazendo uso dos dotes linguísticos do líder interpretado por Flynn, muito literalmente se mascaram de alemães. Esse será o primeiro grande "cavalo de tróia": a língua. O segundo é o trabalho sobre a aparência deste grupo de soldados ingleses e americanos, algo que se resolve deitando ao chão meia dúzia de alemães e fazendo da guerra motivo para um carnaval antecipado. A partir daqui, as peles estão completamente trocadas, até entre os soldados inimigos - um dos generais prefere falar inglês com o seu inferior, para não ser percebido pelos outros presentes.

Este jogo com as peles - e com a língua, esse importante "músculo" da acção (aviso: não fui eu que citei aqui Tarantino) - atinge o ponto culminante na sequência impressionante desenrolada na fronteira alemã, quando os falsos soldados do Eixo são recebidos por pai e mãe da rapariga resistente anti-nazi, que referi atrás. Esta não chega a tempo de os receber, pelo que serão os seus simpáticos pais a dar as boas-vindas a esses verdadeiros heróis de guerra da Aliança, dando-lhes de comer e trocando palavras de esperança sobre um futuro livre da ameaça nazi. (Aviso spoiler) Quando a rapariga chega e pergunta de imediato - olhando para a "suposta" mãe - "quem é esta senhora?", os nossos heróis são mais rápidos que o espectador a recuperarem do choque provocado por esta cilada tão perversamente maquinada (era preciso jantarem todos juntos e terem trocado tanta afecção?). Afinal, naquela mesa, os oficiais da Aliança vestidos de soldados do III Reich foram surpreendidos por dois velhotes que no trato e nas palavras se faziam passar por resistentes anti-nazis e pais da rapariga insurrecta, duas coisas que, pelos vistos, estes não eram (fim de spoiler).

Aqui, de facto, a dissimulação é uma simulação constante, a mise en scène do cinema está aqui também ela travestida pela mise en scène (dialéctica) da História: hoje amigos, amanhã inimigos? Não, agora amigos, daqui a 5 minutos inimigos. Ou pior: agora amigos, agora inimigos! De resto, Walsh é impecável a traçar o continuum da acção, não dando qualquer margem para descanso ao espectador... como depois Steven Spielberg veio a fazer, no tempo em que estava no pleno das suas capacidades. (Penso até que está na hora de voltar à fonte e não estou aqui a falar de Ford, mas de Walsh. Aliás, desde quando Spielberg é/deve ser mais fordiano que walshiano?)

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