sábado, 31 de março de 2012

"5 Noites, 5 Filmes", só na Páscoa?


Ao contrário do que noticiámos, parece que a RTP2 só retomará o espaço "5 Noites, 5 Filmes" durante as duas semanas correspondentes às férias da Páscoa. Uma comunicação da RTP emitida ontem dá conta, ainda que de modo pouco claro, desta muito infeliz notícia. Estaremos, contudo, atentos aos desenvolvimentos que daqui possam advir, porque, na nossa opinião, reabilitar um espaço com nome e com história para o matar logo a seguir é puro sadismo televisivo.

Se quer fazer algo para mudar esta situação, recomendo que deixe comentário nesse comunicado da RTP, manifestando a sua vontade e a vontade da maioria dos telespectadores do canal de que haja um espaço regular de cinema nesta estação de "serviço público".

Adenda (no dia 2 de Abril):

segunda-feira, 26 de março de 2012

A equipa de sonho da blogosfera cinéfila (inter)nacional

Mais de um mês depois, as votações terminaram e a equipa ideal da blogosfera cinéfila (inter)nacional está definida.

Antes de recortar para aqui o perfil traçado por cada um dos treinadores dos jogadores escolhidos para alinharem na melhor equipa cinéfila do mundo, tenho de agradecer a colaboração de todos, em primeiro lugar, das equipas que participaram na Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo e, em segundo lugar, todos aqueles (cerca de 30) que participaram nas votações, em particular, nestas votações, onde foi o leitor a tomar o lugar do mister.

Abaixo ponho em confronto a equipa vencedora da primeira edição da copa A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty e a equipa escolhida em sondagem.

CINEdrio FC (a preto) versus a equipa de sonho da blogosfera cinéfila (inter)nacional (a azul)


Guarda-redes (veja resultados aqui): Robert Bresson, jogador da equipa In a Lonely Place. O seu treinador qualifica-o de "imperturbável".

Defesa direito (veja resultados aqui): Manoel de Oliveira, jogador do Breath Away. O seu treinador escreve o seguinte sobre o centenário defesa direito: (...) tem três pernas, isto é, sendo uma de pau, pode ser sarrafeiro e provocar grandes estragos nos adversários, além disso o seu número de Charlot deixa toda a gente embasbacada e isso pode ser usado como estratégia de distracção.

Dupla de centrais (veja resultados aqui): John Ford e Clint Eastwood, jogadores do CINEdrio. O seu treinador - eu mesmo... - escreve o seguinte sobre Ford: peso pesado do classicismo, com porte físico intimidante, o "patrão da defesa". Também faz a direita... Já sobre Eastwood diz, por comparação com Ford: [é] mais ágil, mas ainda assim, nome forte do neo-classicismo de Hollywood (...). Também faz a esquerda...

Defesa esquerdo (veja resultados aqui): John Carpenter, jogador do CINEdrio. [F]az o corredor esquerdo todo partindo bem de trás, escrevi eu no seu perfil.

Médio defensivo (veja resultados aqui): João César Monteiro, jogador do numa paragem do 28. O seu treinador escreve o seguinte sobre este médio box-to-box: [m]uito criativo, por vezes brilhante, é algo preguiçoso e quezilento, entrando em conflito um pouco com toda a gente. Ainda assim, mereceu sempre a confiança do treinador e a verdade é que a bola passa por ele em quase todas as jogadas de ataque. Uma vez jogou de olhos vendados, sem perder, por isso, qualidade de jogo. Quando não está bem, a equipa ressente-se.

Médio direito (veja resultados aqui): Max Ophüls, jogador do numa paragem do 28. [P]õe a cabeça dos adversários a andar à roda com as suas fintas mirabolantes, escreve o seu treinador, dizendo de seguida: é um verdadeiro Paneira. (...) Muito regular e tacticamente perfeito, é um dos esteios da equipa.

Médio centro (veja resultados aqui): David Lynch, jogador do In a Lonely Place. Inspirado, o seu treinador caracteriza o seu jogo deste modo: um número dez iconoclasta e que, como os grandes números dez, parece jogar num mundo só seu.

Médio esquerdo (veja resultados aqui): Nicholas Ray, jogador do In a Lonely Place. No meio campo, onde o treinador desta equipa é claramente vencedor, eis um extremo esquerdo romântico (como os melhores extremos esquerdos).

Dupla de atacantes (veja resultados aqui): Stanley Kubrick (avançado) e Jean-Luc Godard (ponta-de-lança)*, jogadores do CINEdrio. Na sua equipa - ao contrário desta - Kubrick joga mais à frente e é implacável frente à baliza adversária - nada o detém. Godard, por sua vez, é rápido, imprevisível e, muitas vezes, genial, mas, outras vezes, algo apagado.

Comparando com a equipa do CINEdrio, noto que esta terá ganho o torneio graças à sua dupla defensiva (Ford e Eastwood) bem como ao seu ataque matador (Kubrick e Godard), que transitam para a equipa ideal da blogosfera - e com vitórias esmagadoras nas respectivas sondagens. Registo também a óptima performance de In a Lonely Place, equipa que perdeu nas meias-finais com o numa paragem do 28 por apenas um voto de diferença! O Breath Away vê o seu jogador português premiado com a escolha do público, solidificando a minha convicção de que, ao contrário do que se pensa, os adeptos gostam dos jogadores nacionais - João César Monteiro, o outro português que estava a votos, fica com a posição de médio defensivo.

Vitória do futebol nacional, por um lado, e vitória do futebol norte-americano, por outro lado. 6 dos 11 jogadores são indiscutíveis da selecção dos EUA. Dois jogadores franceses (Bresson e Godard) ocupam, respectivamente, a zona mais recuada e mais adiantada do terreno. Ophüls está só a representar a Alemanha. Nada que, no babélico futebol moderno, seja irresolúvel.

* - Godard teve a larga vantagem na votação, pelo que o coloquei a ponta-de-lança na equipa ideal da blogosfera, jogando assim à frente de Kubrick, o contrário do que acontece na equipa do CINEdrio.

sábado, 24 de março de 2012

"5 Noites, 5 Filmes" está de regresso à RTP2


Penso que esta é a verdadeira primeira grande vitória da Petição Pelo Regresso da Exibição Regular de Cinema à RTP2: o saudoso "5 Noites, 5 Filmes" regressa à antena da RTP2 a partir do dia 2 de Abril. A afirmação deste espaço na grelha do canal dá-me alguma segurança de como este não servirá para tapar, provisoriamente, o buraco deixado vago na programação pelo talk show "5 Para a Meia-Noite", até porque, espantem-se, a avaliar pelo teaser e outras informações do site da nova temporada, este também regressa em Abril, não na RTP2, mas na RTP1!

Com estas decisões de transferir aquela que era a jóia da coroa da direcção Wemans do segundo canal para o primeiro e de devolver a este um espaço digno - esperemos que o seja... - dedicado à exibição de cinema, a RTP2 volta a fazer jus ao seu passado, reaproximando-se dos objectivos, a que nunca se deveria ter furtado, de serviço público.

Mas, agora, se me permitem, também quero dizer isto: para quem nunca acreditou na nossa iniciativa por achar que ela não ia a lado nenhum, para quem achava que só fazendo rolar cabeças as coisas podiam mudar, para quem pensava que as críticas públicas que fiz a programas como "5 Para a Meia-Noite" eram "contas de outro rosário", aos cépticos e aos cínicos, aqui têm a resposta. Aos outros, muito especialmente, aos perto de 3000 cidadãos que subscreveram a nossa petição, endereço uma mensagem de parabéns e um grande obrigado por darem provas de que a opinião pública é livre, independente e pode fazer a diferença, nomeadamente, contra a ditadura da opinião publicada.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Zoom back, camera ou "a verdade no cinema não existe"

"Ningen jôhatsu"/"A Man Vanishes" (1967) de Shôhei Imamura

"The Holy Mountain" (1973) de Alejandro Jodorowsky

(Duas provas do cinema moderno que tive recentemente e que me deixaram algo abananado.)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Canal Hollywood e o programa Estreia da Semana: a indigência mental televisiveira


Até fico arrependido de já ter escrito algumas coisas, mas não posso. Por quê? Porque estou inocente: a mediocridade e a mais obtusa inanidade não me vão pôr aqui a engolir uma única palavra que escrevi sobre este ou aquele indivíduo, sobre esta ou aquela estação. Se já falei aqui no "grau zero" da apresentação ou divulgação do cinema em televisão, tenho então de inspirar bem fundo e dizer que a pobreza intelectual do que li neste post de João Lopes e depois na notícia do Diário de Notícias sobre o novo magazine (des)personalizado do canal Hollywood ultrapassa os limites da minha tolerância.

Quem me conhece minimamente sabe que não coloco, à partida, reservas à existência de programas da TV privada com maior ou menor número de junkets ou que façam gala de passar trailers de filmes distribuídos pela Lusomundo. Já realizei uma conferência onde fiz questão de fazer representar no painel alguém ligado a esta vertente pipoqueira do jornalismo cultural televisivo. Diga-se que essa "alguém" foi Mário Augusto, pessoa que, nesta área, conseguia dar várias lições de seriedade e profissionalismo a qualquer uma destas novas caras do canal Hollywood.

Mas, recuemos: muita coisa me deixa incrédulo. Primeiro, tal como João Lopes, considero, no mínimo, desconcertante a ligeireza com que uma ex-apresentadora do "5 para a Meia-Noite", voluntaria ou involuntariamente, reduz ao mais embaraçoso vazio intelectual o trabalho que deve envolver qualquer espaço concebido para in-formar, pensar e dar a pensar o cinema. Se a rapariga, coitadita, não tem tempo para ver os filmes, a solução - segundo a mesma publicita às escancaras, sem pingo de pudor... - está encontrada: ver trailers e making ofs no YouTube, fazendo depois uma espécie de "share" no programa em questão... O leitor menos atento a estas coisas até poderá pensar que, se calhar, porque o trabalho parece tão ao alcance de qualquer pessoa da geração da apresentadora, esta só lá está ou porque tem uma cara bonita ou porque, tendo uma cara bonita, já apresentou outro programa do género.

Que a Luísa Barbosa, por ser da escola "5 para a Meia-Noite", jóia da coroa da televisão "de serviço público" RTP2, constitui uma mais-valia para programas deste género num canal que é uma playlist aleatória de filmes, não me surpreende, mas que revele "de onde vem" de forma tão pornográfica na sua primeira intervenção pública enquanto apresentadora do "Estreia da Semana", isso já me deixa bem mais preocupado. Estaremos todos assim tão insensíveis à irresponsabilidade e desonestidade intelectual das pessoas que fazem a nossa televisão? Haverá "crítica" capaz de despertar a consciência do espectador para este tipo de abusos discursivos?

É que a rapariga não está só nesta cena degradante. "Estreia da Semana" terá 4 apresentadores, cada com uma exigente pasta em mãos. Bernardo Mendonça tem a seu cargo os filmes de ação e guerra, Luísa Barbosa dedica-se às comédias e aos romances, a Maria de Vasconcelos competem os filmes de animação e infantis e Bruno Pereira está encarregue dos thriller e dos dramas. O objetivo é fornecerem um olhar personalizado sobre o filme em questão. Aguardamos impacientes pelo estilo "personalizado" que esta malta que nem se dá ao trabalho de ver os filmes irá investir nas suas análises aos seus filmes devidamente pré-etiquetados de "guerra" ou "infantil". Mais um contributo para o "engavetamento" - desta feita, "personalizado" - do cinema no espaço mediático.

Enfim, escusado será dizer que, mesmo antes da estreia - a deles no canal... -, este grupo de apresentadores já deu provas de ser um desastroso erro de casting mediático. Mas o que dizer de quem - no caso, alguém chamado Bruno Pereira - se orgulha de escrever os seus próprios textos, de não ser um "papagaio"? Então, não vai o Bruno Pereira papaguear nos seus textos, seguramente, muito "personalizados", as coisas que ele, a Luísa e companhia "apanham" na Internet? O que dirão os outros colegas do Bruno Pereira, os das outras estações, que, no fundo, são, numa frase, enfiados no saco dos "papagaios" da Sétima Arte? O que deve o leitor retirar disto tudo?

Desde logo, eu, enquanto espectador, retiro que o canal Hollywood só pode ser pessimamente gerido. Já pressentia isso face à progressiva redução de qualidade da sua programação estilo "playlist", mas depois desta amostragem fico mais do que convencido. Aliás, registo com quase igual estupefacção a intervenção do director de programação do canal, que diz que não passará - e não passa - cinema português porque o canal se chama Holywood. Faz sentido, é verdade, mas o mesmo canal passou durante anos e até há bem pouco tempo vários grandes clássicos do cinema mundial, como "Ran", "Fahrenheit 451" ou "A Noite Americana". Mas, se fazia algum sentido o que disse no início, Paulo Guedes - é o nome do senhor - apressa-se a concorrer em matéria de indigência mental com os seus pupilos: Temos espaço para outros produtos. Só em termos de filmes é que não podemos apostar tanto nos portugueses. O canal chama-se Hollywood... fará sentido um filme português se for mais comercial, com grande sucesso das salas portuguesas.

Não vou sequer entrar na discussão do quão relativo pode ser o critério "grande sucesso nas salas portuguesas", porque o disparate está no facto de só fazer sentido passar cinema português num canal chamado Hollywood se este se sair bem nas salas... Primeiro, não faz sentido: se é para não passar cinema não-americano, não passe, mas enganar o leitor e o espectador com retórica televiseira mal amanhada, isso é mais uma machadada na credibilidade de quem dirige o canal. Por outro lado, com essa observação ilógica e desonesta, o senhor director mostra ter a visão mais redutora e ignorante que podia haver da história do cinema nascido em Hollywood - para Paulo Guedes, Hollywood será sinónimo de blockbusters, é isso? - e, segundo, é a visão mais estreita e potencialmente desastrosa para um canal inserido num mercado, cada vez mais, de oferta única. Quer o canal oferecer o que os outros oferecem? Sucessos nas salas, sucessos nos outros canais. Estes são, como o director lhe chama, qual bom tecnocrata televisiveiro, os bons "produtos" do canal Hollywood.

O canal Hollywood não quer oferecer qualquer alternativa mas, muito pelo contrário, oferece a confirmação de todos os preconceitos televisivos em relação aos modos de ver e dar a ver o cinema, pensar e dar a pensar as suas imagens... Esta estação, com este discurso assassino do cinema, profundamente anti-pedagógico e insultuoso, nomeadamente, para o espectador, revela o paradoxo em que está caída: um canal de cinema que quer oferecer "produtos", americanos ou americanizados, que já toda a gente conhece e que quer veicular informação papagueada do YouTube e outros sites da Internet gaba-se da originalidade da sua política de aposta no que é nacional, no que "é nosso". Na parvoíce e na chico-espertice, originalidade não lhe falta.

(Na sequência desta asquerosa peça jornalística, decidi suspender por tempo indeterminado a recomendação de filmes do canal Hollywood na Newsletter do CINEdrio, bem como retirei o meu like da página facebook do canal. O canal Hollywood é uma estação privada de televisão, tem o direito de dar os pontapés que quiser em todos aqueles que trabalham séria e dignamente no, sobre e com o cinema, mas, felizmente, eu também tenho cá em casa um televisor e um computador que são propriedade privada... Enquanto espectador e utilizador da Internet farei o que estiver ao meu alcance para dignificar a pedagogia audiovisual, que tanta falta faz neste país.)

terça-feira, 20 de março de 2012

Contra o efeito facebook: pela preservação do melhor lado da blogosfera


Há mais de uma semana decidi deixar de publicitar - como publicitava - os posts do meu blogue na minha página do facebook. Considero que a intoxicação entre a reflexão que ainda se faz na blogosfera e a instantaneidade da comunicação tipo chat do facebook não é em nada benéfica à primeira, na realidade, tende a sobrepor-se àquela. Faço isto ciente de que perderei umas quantas visitas (de circunstância) ao meu espaço, mas convicto de que se tem de começar por algum lado para preservar espaços mais estáveis de reflexão na Internet.

Por tudo isto, deixo o repto aos meus outros colegas bloggers a fazerem o mesmo. Dir-me-ão que só usam o facebook como plataforma intermédia de publicitação dos vossos posts, mas, cá para mim, o que era medium está a transformar-se num fim em si mesmo e, com isso, perdemos na fidelização aos espaços e perdemos na coerência do discurso que neles vamos, post a post, desenvolvendo. A ditadura do "like" também limita a troca de impressões na caixa de comentários. Mais um gimmick do facebook que só esvazia os espaços organizados e não descartáveis de reflexão.

Se concorda, partilhe, em blogue ou página do facebook, a imagem deste post.

Os vencedores da Primeira Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo (IXb): a ponta-de-lança


Jean-Luc Godard, o meu Saviola.

Não está sempre na mais alta forma, mas também não precisa de estar para se perceber sempre que é um jogador de outro mundo. Estou em crer que o seu topo de forma já passou, mas também durou, pelo menos, três décadas, isto é, dito rápido e depressa: os anos 60, 70 e 80 são dele. Aqui no CINEdrio tem-se registado amiúde a (re)descoberta das suas maiores obras-primas e tem-se feito dos "recortes" de Godard ponto de partida para mais "recortes" de ideias e imagens - os fragmentos godardianos são multiplicadores, múltiplos nas leituras, mas nunca no sentido de um "um", mas de um "dois", ou melhor, complicando uma fórmula que lhe deve ser cara (é o esquizo-cinema em todo o seu esplendor!), de vários "uns dois". Fica, então, abaixo o índice do avançado genial da minha equipa de sonho. E fica assim completo o onze base que levou para casa o primeiro troféu da Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty.

Críticas:






O Cinema Revisitado:


Passagens:


segunda-feira, 19 de março de 2012

The Innkeepers (2011) de Ti West (II)


A tese já tinha sido adiantada por Ti West em "The House of the Devil", mas aqui ele baralha ainda melhor os dados da fórmula e faz-nos interrogar sobre o mesmo, mas de outro modo: e se este filme de terror não é um filme de terror?, esta é a pergunta que ocupava mais de uma hora de filme em "The House of the Devil", mas, com "The Innkeepers", surge uma interrogação que West desenvolve em cima dessa: e se esta ideia de um filme-de-terror-que-não-se-parece-com-um-filme-de-terror constitui o terror que nos aflige a todos nós, espectadores que - como se reflectia, e bem, no debate da Década dos Zeros - procuram no cinema apenas a confirmação das suas expectativas em vez de se disporem a vê-las desafiadas? "The Innkeepers" acrescenta esta interrogação, na medida em que o terror age sobre 80% do filme como um dispositivo para o drama, isto é, recorrendo à origem grega da palavra dráma, o terror - a promessa do terror - é a força que faz as personagens agirem e reagirem no espaço, isto é, constituirem-se como personagens de corpo inteiro.

Ingmar Bergman já nos ensinou como o medo de algo - de uma chegada, de uma partida, de uma aparição, de uma doença súbita... - pode ser o dispositivo dramático ideal para "aproximar" as personagens e obrigá-las ao confronto consigo e entre si. Ti West percebe isso melhor do que ninguém, na realidade, não cai na esparrela que muitos realizadores do terror caem: não é o drama que é dispositivo de terror, mas o terror que deve ser dispositivo do drama, presença fantasmática que liga e religa as personagens entre si. Ou seja, a primeira grande fantasmagoria de "The Innkeepers" é, precisamente, não o terror a descoberto, mas, bem pelo contrário, a sua ausência ou, se quiserem, pondo a tónica no espectador, a quebra protocolar da sua omnipresença mais-do-que-patente.

Ti West alinha-se aqui com realizadores como Quentin Tarantino, que com "Death Proof", genial filme que não me canso de rememorar, ensaia a mesma hipótese - e estes são cinemas pensados a partir do "acto da escrita", a partir da folha em branco, são portanto "partos difíceis", como há muitos anos o realizador de "Pulp Fiction" ilustrou bem numa entrevista a Jon Stewart. Mas, regressando à grande hipótese deste(s) cinema(s), diria que o que co-move estes autores, writer directors de mão cheia, é o gosto pelo adiamento e o gosto pela repetição. Adiamento desse tal "preenchimento de expectativas", jogando na vertigem de uma eventual violação do protocolo que todo o espectador tradicional - e tradicionalista - estabelece a priori com o que vai ver. Repetição, isto é, circularidade da acção, imagem formada em Hawks, continuada em Carpenter e que em Tarantino, até mais do que Ti West, é quase que apenas in-corporada no acto da escrita. As personagens falam, divagam com palavras, passeiam "no vazio" do seu próprio discurso (aparentemente) estéril, e, com isso, pouco ou nada "adiantam" em matéria de plot - que plot, se isto é um naco de vida?

Portanto, Ti West está alinhado com os melhores no que diz respeito à disposição dramática do terror (nesta ordem) nas suas histórias potencialmente nada terríficas e, exactamente por isso, profundamente aterrorizadoras. Ele não constrói suspense, muito pelo contrário, ele reprime-o ao máximo, porquanto o suspense já está na cabeça do espectador, mais do que construído e desconstruído, antes da sessão começar. Não é preciso construir ou destruir o que construído ou destruído está. A solução está na terceira via: não em construir suspense, mas sim em construir outra coisa qualquer. A comédia no caso de "The Innkeepers" ou "os eighties como filme de época" em "The House of the Devil". O MacGuffin (também) está aí: enquanto estamos a ver uma coisa que não encaixa com as nossas expectativas mais imediatas, vemo-nos detidos a decifrar, afinal, até onde essa coisa nos vai levar... mas, sempre, com receio - no meu caso, perfeito êxtase - perante a hipótese de não irmos ter a lado nenhum.

Este divertidíssimo impasse - um jogo "em suspenso" sem regras claras - está presente, pelo menos, nestes dois filmes de Ti West - talvez "Trigger Man" também se mova por estes territórios, mas de modo menos óbvio. Ora, dir-me-ão que é precipitado começar já a catalogar Ti West de "grande cineasta da sua geração" ou outro tipo de etiquetagens fáceis de dizer, difíceis de sustentar... certo, mas uma coisa fundamental joga a favor dele: West escreve, monta e realiza os seus filmes. O que fez até hoje não pode, por isso, ser fruto de uma absoluta coincidência ou de uma conjugação feliz de circunstâncias. West é o directo responsável por tudo o que nos aparece à frente - um pouco como Tarantino, realizador de quem nunca ninguém duvidou o génio, mesmo quando só tinha feito "Reservoir Dogs".

Ora, por tudo isto, sinto-me pronto a "responder" ao Ricardo Lisboa do Breath Away, movido por aquilo que alguns qualificarão de "excesso de confiança": não, tudo isto não é "um feito maior que o homem que o fez", aliás, o homem, este realizador de nome suspeito, será capaz de nos surpreender ainda mais e melhor no futuro próximo. Repito ou digo pela primeira vez: isto não é futurologia, é pura convicção cinéfila. Aliás, é só por ela que escrevo o que escrevo aqui, neste espaço.

(Há pessoas que dizem que a cinefilia morreu, eu digo que o que está mais morto do que nunca é a convicção cinéfila no cinema. O Bazin teria vergonha de mais de 80% das coisas que se escrevem hoje sobre cinema, não tanto pela maior ou menor riqueza informativa ou variedade adjectiva do conteúdo, mas pela ausência total de convicção... O que é fixe é escrever-se sobre cinema sem se acreditar nele ou só se acreditando nele como "coisa morta", "coisa de museu" ou "de manual de filosofia". Por isso é que pessoas como Bénard da Costa fazem tanta tanta falta... o que diria ele sobre Ti West?)

Shame (2011) de Steve McQueen (II): a crítica de Francisco Ferreira


Há coisas assim: sintonias quase perfeitas com as críticas dos outros. Com Francisco Ferreira isso acontece-me frequentemente, seja na positiva, seja na negativa. Eu daria três estrelas (a cair mais para as duas do que para as quatro) a "Shame", Francisco Ferreira dá um redondo zero, mas concordo com muito do que escreve no Actual do dia 10 de Março e que deixo aqui em excertos. Trata-se de um complemento perfeito àquilo que eu já tinha escrito no dia 2 de Março sobre o mais recente Steve McQueen, até ver, o filme mais sobrevalorizado de 2012 - mas eu disse que era um "mau filme"? Não, não disse...

(...) Estamo-nos nas tintas para a narrativa como McQueen, mas há perguntas que assaltam: de onde vem a 'Vergonha' do título?, existe um trauma (um possível abuso de infância), comum a Brandon e Sissy?, um passado incestuoso fruto desse abuso?, não tenta em vão Brandon regressar à infância quando vê velhos cartoons em frente da TV?, é Brandon o protagonista do filme ou o que o protagoniza é a sua obsessão? Perguntas que o filme sugere. Perguntas a que não se digna responder. (...) Desconfia-se que "Vergonha" vive de uma aparência, de um gesto artístico erguido sobre paredes fictícias. O que se descobre ao tentarmos sair delas? Uma parábola pesada, enfática, moralizadora sobre a solidão e a tristeza do amor físico. Uma superfície em que os seres e as coisas não sobrevivem à fachada do sofrimento. Pior: um cinema de autor que se compraz em si próprio. (...) Filme indeciso, "Vergonha" refugia-se na elegância, não na frontalidade. Talvez nem se aperceba que, no alto das suas janelas envidraçadas, acaba por condenar Brandon com o seu 'vergonhoso' título.

O nosso (desumano) "projecto humanizador": la femme sauvage/the child

"L'enfant sauvage" (1970) de François Truffaut

"The Woman" (2011) de Lucky McKee

(E se "L'enfant sauvage" fosse uma sátira brutal ao decadentíssimo american way of life? E se "The Woman" fosse a verdadeira "história de violência" americana que Cronenberg não soube realizar, isto é, caricatura grotesca, animal, over the top da realidade sócio-afectiva da "muito cristã" sociedade norte-americana? Caricatura antropológica e, imagine-se, antropofágica - comer o homem, é essa a solução programática para mandar abaixo "a fachada"!)

domingo, 18 de março de 2012

The Innkeepers (2011) de Ti West (I)


Não me vou alongar - como devia... - nesta apreciação, até porque a impressão que o filme me deixou é qualquer coisa avassaladora, próxima da seguinte exclamação "de crítico", daquelas que se colam bem nos cartazes: "Ti West prova que é um dos maiores cineastas da sua geração" ou "Agora temos a certeza: Ti West veio para ficar!" ou... enfim, you name it.

De facto, este é um objecto muito raro no panorama actual do cinema norte-americano - ia escrever "de terror", mas voltei atrás porque comecei a pensar, confesso que com alguma irritação, em todos os pseudo-cinéfilos "academizados", cheios de preconceitos snobes, que vêem Tourneur ou Lang ou Sjostrom como quem bebe um Pinot Noir ou que falam de Hitchcock como se estivessem a recitar um poema de Rimbaud... a todos eles sugiro que comecem a prestar atenção àquilo que se faz HOJE, AGORA, invocando os mesmos conceitos cinematográficos. Olhe-se, então, HOJE E AGORA, para Ti West, que, com este filme, se afirma como um grande cineasta muito para lá dos limites do "cinema industrial de género" e muito para lá de muita coisa idolatrada pela elite snobe do cinema. Ponto final. Quer dizer, também não estamos no domínio "cult" do cinema de terror, ou melhor, de filmes de sustos e gore, aliás, com Ti West, nunca fomos levados para este território, mas se dúvidas houvesse, estas são exemplarmente desfeitas em "The Innkeepers".

West não se afirma aqui como um típico suspense builder, mas, antes, e muito inteligentemente - peso cada palavra para dizer, já agora, que não há cineasta hoje com mais balls e brains do que Ti West - , como alguém focado na dimensão dramatúrgica dos seus filmes híbridos, cada vez mais difíceis de etiquetar. Isto é, West investe tudo o que tem a ambientar o espectador ao espaço e às personagens, estas últimas tratadas com o rigor e a profundidade que reconhecemos mais facilmente em paragens que não as do género do terror. Ou seja, West acredita que, para se fazer um filme de terror - se calhar até mais: para se fazer UM filme -, o cineasta tem de se afirmar como um criador de personagens, tem de nos fazer "acreditar" nos seus gestos, no modo como cada uma delas age e reage no seu espaço, ou melhor, na maneira como elas "matam o tempo" - West não é chato, tem é o dom de transformar aqueles que são, para a maioria, "tempos mortos em cinema" em tempos de uma vivacidade fílmica extraordinária.

"The Innkeepers" começa naquilo que já é "um início à Ti West": não sabemos ao certo onde estamos, ou melhor, seguimos a apresentação dos sítios, das pessoas e das rotinas, mas não estamos cem por cento certos de que isto é, ou se venha a revelar..., um filme de terror. É que se fosse "apenas" isso, pensa o espectador, não passaríamos grande parte do filme a assistir, inebriados, a uma comédia, politica ou sociologicamente apimentada (A ghost story for the minimum wage, lê-se no cartaz), sobre dois jovens que trabalham num hotel decrépito, mais concretamente, uma rapariga luminosa e o seu amigo quirky que, pelas conversas amistosas que trocam entre si e com os poucos clientes, vão mostrando ter poucas ou nenhumas perspectivas de futuro, para a sua vida profissional ou até pessoal.

A solidão marca, desde logo, a narrativa de "The Innkeepers". A dupla de protagonistas é confrontada, várias vezes, com a sua frustrante - ainda que comoventemente benigna e honesta - existência, nem que seja, desde logo, porque os dois estão num emprego a prazo, num hotel que, em breve, dará lugar a um parque de estacionamento - e albergando, até lá, uma actriz has been, uma mãe e um filho em fuga de um pai qualquer, imaginamos, destemperado e, mais para o fim, um idoso que tem "ataques de nostalgia". Tudo é lúgubre, mesmo que da protagonista - que maravilhosa descoberta é Sara Paxton, já vos disse? - só emane jovialidade e uma beleza triste que nos faz, de novo o verbo..., "acreditar" nela - e ela reage sempre como nós reagiríamos e não como reagiria uma daquelas barbies americanas dos slasher movies mais convencionais, às quais desejamos o pior dos destinos nas mãos do Papão de serviço... Enfim, "The Innkeepers" faz da sua longuíssima, lentíssima, exposição, em jeito de "comédia social", com momentos de humor físico no limiar do slapstick finamente teatralizado - a cena do despejo do lixo é já antológica -, a grande matéria-prima do horror, um horror que - como em "The House of the Devil" - vem sempre "a seguir", quando menos se espera - ou quando já, por desistência, o espectador pensa que caiu redondo no "filme errado", no melhor dos "filmes errados".

Apesar disso, "The Innkeepers" não demora muito a encenar jump scares, alguns delirantes, porque perfeitamente MacGuffinianos - que assustam porque havia alguém que expressamente "não queria assustar"... O filme tem igualmente jogos de foras-de-campo que pertencem ao universo do (melhor) cinema de terror, certo, confirmo isso, mas também digo isto: enquanto cada um de nós é "todo ouvidos" (a utilização do som aqui dava outra crítica...) às histórias de assombrações ligadas àquele hotel, que dizem estar assombrado, enquanto tudo nos é "depositado" em doses pequenas, estamos entregues ao namoro pelas personagens e o nosso organismo, muito confuso, responde a elas não com "medo de morte", mas com risos abertos, respeitosos e compreensivos, provocados pela forma como estas ocupam o tempo. Afinal, elas estão ali para "matar o tempo" - o do hotel vazio, moribundo, e o nosso, espectadores-clientes de primeira classe, aqui, sublinho, de primeiríssima classe (what a ride!).

Mas, à medida que o tempo passa, o riso vai-se transformando em medo puro, medo nosso... pelas personagens, tudo para, no fim, o nosso coração, que já batia demasiado depressa, sair disparado do corpo, para ser endossado às nossas mãos trementes. Largará o espectador o seu próprio coração nos minutos finais? Essa é a pergunta que encerra esta obra-prima do cinema contemporâneo. Voltaremos a ela para nela nos (re)aprisionarmos, para nela nos deixarmos enganar de novo pelas mesmas mentiras doces.

(To be continued...)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Afinal, vou mesmo ver em sala...


Amanhã, às 19h30, será mostrado, pela primeira vez, e provavelmente pela última vez em Portugal, o mais recente filme de Ti West, "The Innkeepers", obra que já antecipei aqui, com poucas ou nenhumas expectativas de o poder ver no grande ecrã. É uma grande notícia, que nos chega com a chancela do festival de ficção científica e terror Syfy Fest, que de hoje a domingo, ocupa o mítico São Jorge.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Docu-noir: procedimentos policiais para a procura do criminoso

"Naked City" (1948) de Jules Dassin

"Tengoku to jigoku"/"High and Low" (1963) de Akira Kurosawa

[Parece-me evidente que "High and Low" é um prodígio cinematográfico: uso magistral do CinemaScope, isto é, aproveitamento de cada espaço no ecrã - como diz Scorsese, não há espaços deixados vagos aqui- e uma iluminação a preto-e-branco primorosa, que culmina no diálogo na prisão, entre uma personagem e o reflexo da outra nos vidros de segurança. Para além disso, "High and Low" segue o receituário de "Naked City" de Dassin: noir de pulsão documental, com uma narrativa muito barebones, sem desvios espectaculares ou "dramatizantes" dos procedimentos policiais usados com vista à captura do criminoso que se mantém à solta na cidade. Se, no domínio puramente cinematográfico, Kurosawa leva a melhor; no outro domínio, o da disposição narrativa, Dassin parece mais esclarecido - e foi, sem dúvida, bastante inovador no seu tempo (recordo que com "Naked City" fez o primeiro filme americano rodado integralmente em Nova Iorque, para falar mais francamente da realidade muito real da cidade.)]

terça-feira, 13 de março de 2012

Recorte de falas (XVIII): Halloween IV

Depois do muito incaracterístico terceiro capítulo do franchise de horror "Halloween", em que Michael Myers - vai-se lá saber por quê - não consta do menu, o grande papão regressa para mais um massacre em noite de bruxas. Não estando nem por sombras próximo dos dois primeiros capítulos da série - se o I de Carpenter é um exercício conceptual sobre o mal, o II de Rosenthal é um western expressionista "de cerco" talvez até com mais condimentos carpenterianos clássicos que o primeiro -, "Halloween IV: The Return of Michael Myers" (1988) tem um subplot que desfecha numa inspirada troca de palavras que recorto para aqui. A jovem Rachel gosta de Brady, mas a sua melhor amiga Kelly também está secretamente de olhos em cima do rapaz. Quando Rachel dá com Brady na casa de Kelly a sua desilusão é dupla. E a raiva também... Quando volta a ter oportunidade para falar com a sua (ex-)melhor amiga, Rachel afia a língua e responde à letra ao comentário cínico dessa cabra traidora - exactamente como se Michael Myers lhe estivesse no verbo.

Kelly: I didn't know you and Brady had anything, ok?
Rachel: You knew. You just didn't care.
Kelly: He is not married. Besides, I have the right to do what is best for me.
Rachel: Don't you mean "what you do best"?

Os vencedores da Primeira Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo (IXa): a ponta-de-lança


Stanley Kubrick, o meu Isaías.

Lembro-me quando Isaías, em jogo contra o AC Milão, quase partiu um pé devido à força que investiu num remate a vários metros de distância da baliza italiana. Não foi golo, mas ele era matador e habilidoso. Um pequeno herói para mim, numa altura em que o Benfica ia derrapando para o fundo de uma depressão que, na época, enfraqueceu o meu benfiquismo. Mas, falando agora de futebol, também Stanley Kubrick era homem para pôr os seus actores a perderem uma mão ou uma perna para obter a cena perfeita - o estoiro mortífero no espectador. Foi com esse espírito que o "matador" Kubrick, um dia, varreu toda a história da humanidade em apenas um raccord, provavelmente a marca mais ambiciosa do seu pessimismo irresolúvel. Estou a falar do osso que se transforma numa nave espacial, isto é, na pré-história que se converte em ficção científica numa elipse genial, que me deixou de queixo caído quando era miúdo e que me deixa perplexo - extasiado - ainda hoje. "2001" é o maior filme de todos os tempos. E a ele gostaria um dia de fazer justiça não com um, mas com 100 posts. Contudo, rebobinando, Kubrick está agora aqui, na ponta dianteira desta equipa vencedora do CINEdrio FC para mostrar, sem medos, que não há adversários nenhuns que lhe façam frente.

O Cinema Revisitado:



Ficção/Não-ficção:


Pansignificação:





segunda-feira, 12 de março de 2012

Iko shashvi mgalobeli (1970) de Otar Iosseliani


Acho que não há imagem, ao mesmo tempo, mais exacta e mais inexacta que podia terminar "Era uma vez um melro cantor", obra-prima maior de Otar Iosseliani datada de 1970: o interior do mecanismo intrincado que faz um relógio dar horas.

Comecemos pelo fim: porque é que esta imagem, profundamente metafórica, é inexacta? Porque o cinema de Iosseliani funciona, muito anti-mecanicamente, não seguindo a lógica artificial, exacta, do relógio, mas seguindo a cadência que é própria à fluidez intempestiva, sempre-movediça, da vida, na sua abertura constante para todo o lado. Uma fluidez líquida, diria pensando em Jean Vigo, herói número 2 (o 1 é Tati - era preciso dizer? -) de Otar Iosseliani; líquida e sem sentido, ou melhor, sempre aberta a todos os sentidos possíveis - e digo-o agora pensando no tal herói número 1 do realizador georgiano e de todos aqueles que amam o cinema como expressão de vida ou que celebram, em embriaguez baudelariana, isto é, redentora e harmoniosamente desarmoniosa (como o cantar de um pássaro!), a con-fusão gerada pelo "moderno" entre os fluxos das imagens, aquelas que são do imaginário (do cinema) e aquelas que são postas no imaginário (pela vida). Enfim, a imagem do relógio é a metáfora perfeita do cinema de Iosseliani na medida em que, como dita a etimologia da palavra - meta-fora, pôr fora -, é justamente inexacta a captar o espírito caótico, sem "horas" - e o protagonista aqui bem luta com o tempo, ou melhor, bem dança com ele! -, do cinema de Iosseliani.

Agora voltemos ao princípio: porque é que a imagem do relógio é, pelo contrário, profundamente exacta? Já respondi em parte a esta questão: de facto, enquanto metáfora de todo um cinema, é inexacta na medida em que é totalmente exacta, mas, atenção, na orgânica viva do filme é exacta na medida em que é inexacta. O relógio, como símbolo do tempo (ou como instrumento de medição do tempo), é o amigo mais inconstante do protagonista: ele tenta chegar a horas a todo o lado, ajudando amigos, familiares, vizinhos, visitantes, colegas de profissão. Umas vezes consegue chegar "a horas", outras vezes - nem tantas quanto isso - aparece atrasado. Não podia haver, portanto, imagem que selasse, de forma mais finamente irónica, o destino de um filme, que, no caso, se confunde necessariamente com o destino do seu protagonista - o flâneur par excellence da Obra de Iosseliani!

Por outro lado, o relógio é incorporado no filme como coisa orgânica. Com efeito, quando o corpo do protagonista - AVISO: SPOILER - é atirado ao chão, na sequência do embate com uma viatura aparecida como que do nada, pressentimos o pior. O título em inglês (que varia) fala-nos de um "era uma vez..." (Once Upon a Time There Was a Blackbird) ou de um "em tempos houve..." (There Once Was a Blackbird), como se esta história tivesse uma qualquer estrutura parabólica que implicasse o sacrifício de alguém que amamos - no caso, o protagonista. Iosseliani não nos revela nada do estado do nosso herói, mas é aqui que sabe introduzir o elemento perturbador, docemente perturbador: o tal plano do relógio. Ele está a ser consertado por uma personagem que vimos antes, na travessia que o protagonista faz entre amigos e conhecidos. E ele, o relógio, é-nos dado pela imagem do seu mecanismo interno (muito secreto) e pela audição do seu som (que, citando Bresson, diríamos, é tão ou mais poderosamente ícone de si que essa imagem!).

O som do silêncio (a morte como avaria) é, de súbito, por um toque "mágico" no interior do relógio, interrompido pelo som que é soberanamente deste (a vida como resolução da avaria). A operação bem sucedida encerra este filme sobre um homem anónimo, igual a tantos outros, que nos conquistou o coração durante a hora e meia de filme de que ele se serviu para deambulação livre oferecida pelos amigos e a cidade (nesta ou noutra ordem). O som do relógio torna-se signo acústico de vida orgânica, mais concretamente, sinal de que o coração do herói, que de máquina tinha zero, já terá recuperado da avaria. O tempo - amigo menos amigo do protagonista - redime-se, assim, na imagem e no som desse plano. É ele que anuncia a salvação do melro cantor!

domingo, 11 de março de 2012

Os vencedores da Primeira Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo (VIII): a médio esquerdo


John Huston, o meu Ruben Amorin.

Faz todas as posições: westerns, filmes de guerra, thrillers, films noirs, melodramas, etc. Faz todas as posições muito bem? Nem tanto... mas se, por vezes, não foge à mediania ("African Queen" e "Key Largo" são obras sobrevalorizadas), noutros casos consegue brilhar mais alto do que a concorrência (há melhor film noir que "Maltese Falcon" ou "The Asphalt Jungle"? Não, não há. E "The Red Badge of Courage", não é um dos grandes filmes sobre os efeitos da guerra? É, pois claro... E não é "The Treasure of Sierra Madre" um Greed em versão western que "ensaia" brilhantemente sobre a febre do ouro negro? E "The Night of the Iguana", um dos maiores Tennessee Williams levados ao cinema? E...).

Há dias um grande treinador de bola chamado Quentin Tarantino afirmava categoricamente que não gostava do estilo de jogo de John Huston, mas depois o entrevistador perguntava "Então e "Maltese Falcon"?", "Bem, gosto, claro", "Então e "The Treasure of Sierra Madre"?", "Bem...". Huston é, de facto, nome subvalorizado do classicismo - e do pós-classicismo, tão bem que ele resistiu a esse "pós"! - norte-americano. Por tudo isso, pareceu-me bem tê-lo na minha equipa e prestar-lhe este pequeno - demasiado pequeno, diz-me a minha consciência - tributo.

Críticas:


O Cinema Revistado:


Tele-Visado:


Balanço do Ano:


Recorte de Falas:


sábado, 10 de março de 2012

Newsletter #13: Erice


É com indisfarçável emoção que coloco a foto de Victor Erice, enorme cineasta espanhol, no álbum dos heróis homenageados pela Newsletter do CINEdrio. Na minha opinião, não há obra igual - e aqui falamos de uma das mais "curtas", mas mais brilhantes, do cinema europeu - que espontaneamente analise as relações do homem com a memória, a memória da História, a memória do Cinema, a memória da Arte e da Magia. Encantatório, profundo e inesquecível - falaremos mais dele na próxima edição.

No mercado home cinema, posso já antecipar importantes anúncios de pré-vendas de raridades de Welles, Huston, Vidor, Fassbinder e, bem longe, mas vamos sublinhar bem sublinhado, Rafi Pitts. Estaremos ainda em cima de lançamentos recentes de caixas de Samuel Fuller, filmes individuais (raros) de Tourneur, André de Toth, Chantal Akerman e Ermanno Olmi, bem como algumas transcrições (algumas em Blu-ray) de obras recentes de Bruno Dumont, Nuri Bilge Ceylan, Terence Davies, David Fincher, Takashi Miike e mais, muito mais... Em matéria de pechinchas, damos a comprar - ao preço da chuva - westerns (de Mann e de Aldrich), dramas históricos metafísicos ("The New World" em Blu-ray...), documentários inusitados ou quirky (Errol Morris in the house...) e cinema, como dizem os americanos, internacional ou "art-house" (coisas tão variadas como "The Apple" e "Tout Va Bien"). Isto e muito mais!

Em matéria de livros, antevêem-se já importantes pré-lançamentos de livros de Gianni Vattimo, mais de 600 páginas de correspondência assinada por Walter Benjamin, trabalho colectivo fulcral sobre os limites do cinema dito independente, um livro reflexivo sobre "como devemos ver cinema" de David Thompson, etc. Pechinchas, descobertas, lançamentos recentes de obras várias também serão dadas a descobrir; obras de Vertov ou Harmony Korine (no cinema), David duChemin ou Umberto Eco (na fotografia), Hannah Arendt ou João Barrento (na filosofia)...

Para além dos livros e dos filmes, encontrados em livrarias, online ou offline, ou na TV, comprando ou mudando de canal na hora certa, publicamos a entrevista da praxe respondida pelo Flávio Gonçalves, estudante de cinema, jornalista cultural do DN e blogger do Sétimo Continente. Um obrigado a ele por esta valiosa colaboração.

Já sabe: só receberá esta e outras edições da newsletter se a subscrever; se já a subscreveu, também já sabe que esta publicação só crescerá com o seu apoio e a sua mais-poderosa-do-que-pensa capacidade para "passar a palavra".

Os vencedores da Primeira Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo (VII): a médio centro


Alfred Hitchcock, o meu Pablo Aimar.

Organizador exímio dos tempos e da respiração dos planos. Homem que joga sempre bem e põe qualquer mecanismo (qualquer equipa) a funcionar como um relógio suíço, Hitchcock é, sempre foi, o meu número 10. Foi ele que me pôs a ver cinema e a ler cinema - graças à exposição da estratégica e da táctica feita a outro jogador, François Truffaut, em livro de entrevistas que mudou a face do jogo... Aqui no CINEdrio, não lhe fizemos a devida justiça, porque a relação com Hitchcock "goes way back", alimenta cada post, cada respiração - de novo, a palavra "respiração" - deste devoto adepto da cinefilia. Se, como diria Daney, sou um cine-filho então Hitchcock é um dos meus cine-pais. Todos os pretextos são bons para recordar isso.

Críticas:



O Cinema Revisitado:







The Pawnbroker (1964) de Sidney Lumet


Que é um dos maiores filmes sobre o pós-Holocausto, tenho poucas dúvidas. Não é difícil dizê-lo, porque "The Pawnbroker" é um drama lancinante sobre um judeu que da Alemanha nazi, do campo de concentração de Auschwitz, mudou-se para a Nova Iorque problemática, da Bowery, como gestor de uma loja de penhores, gradeada, simultaneamente, isolada e "cheia de" mundo, isto é, outrossim concentracionária e de "clientela" socialmente diversa.

Rod Steiger - que, sem o habitual overacting patrocinado pela escola do Actor's Studio, tem um papelão monumental - empresta o corpo ao penhorista atormentado pelos "flashes de memória" do Horror de que foi testemunha nos campos, enquanto tenta "sobreviver" - como ele diz... - ao dia-a-dia convulso da cidade de Nova Iorque, mais concretamente, a toda a montanha de problemas debitada pelos seus clientes desesperados - velhos solitários em busca de companhia, prostitutas em conflito com os seus chulos, mulheres, também solitárias, reunindo apoios, "porta a porta", para instituições de beneficiência, drogados à procura de dinheiro rápido, etc...

A fauna é rica, heteróclita, e a personagem de Steiger assiste à Nova Iorque dos anos 60 - ela desfila à sua frente - do outro lado das grades: como numa prisão invertida, ele não está "privado do mundo", pelo contrário... o mundo persiste em não se privar dele. Sol Nazerman - é este o seu nome no filme - lida com o meio envolvente como uma droga para refrear as "vindas à superfície" da memória do Horror, mas o contacto humano faz-lhe tão bem quanto mal: o recalcamento de tantas imagens humanamente impossíveis, torna-o inapto para o contacto - o toque-a-toque - do social. Como se diz a certa altura, Sol Nazerman é um homem sem emoções, um "morto-vivo", como um velho moribundo lhe chama - e que tamanha dureza é ouvir tal coisa de um velho acamado, à beira da morte!

Dois instantes moldam Sol como uma daquelas personagens solitárias, em permanente "cativeiro existencial", que celebrizaram as obras-primas de Lumet (de "12 Angry Men" a "Serpico" ou a "The Verdict", por exemplo...). E os dois sucedem-se.

Primeiro: a viagem de Sol pela cidade, de metro e depois a pé, percorrendo a zona moderna da cidade - olhando retroactivamente, até parece que Ventura replica os seus passos na sua flânerie pelos edifícios de habitação social, em "Juventude em Marcha". Quando entra no metro, perante a imagem das massas humanas amontoadas dentro da carruagem, da cabeça de Sol irrompe uma montagem paralela perfeita (à la "A Greve" de Eisenstein): no lugar dos passageiros nova-iorquinos, passamos a ver corpos e mais corpos em carruagens que vão, sem qualquer perspectiva de retorno, no sentido do campo de concentração...

Segundo: Sol sai do metro e faz então a caminhada até ao apartamento de uma das suas clientes, viúva que vive sozinha e que mostrou interesse em ajudar e "preencher" o vazio patente no rosto atormentado de Sol. Quando o protagonista chega ao apartamento, temos um momento poderosíssimo: ele quer abrir-se a ela, mas ele não acredita na humanidade, na "sua" humanidade - como acreditar naquilo que já não se tem? O corpo não se sabe "estar" naquela casa e a cabeça não sabe o que dizer: a paralisia é total, mas o movimento dessa paralisia está ali, nas imagens, bem visível. Este choque é depois acentuado quando a pobre mulher, de costas, estende o braço no sentido do corpo de Sol, antecipando uma resposta que a ampare - que os ampare - numa relação impossível, isto é, numa relação que nunca poderia resultar.

Sol saiu de Auschwitz, sobreviveu a Auschwitz? Não, quem saiu de lá foi um corpo, um nome (uma identidade), com um passado que ele nunca conseguiria carregar. Numa palavra, Auschwitz não saiu dele e ele ainda sobrevive a Auschwitz. Por quanto tempo mais?, pergunta o filme ao espectador, sem ilusões de conseguir dar resposta.

Deus ex machina VI: barbear


Aqui, peço ao caro leitor que faça raccord entre o primeiro e o último stills desta série, gerada aleatoriamente pela aplicação LinkWithin. Harrison Ford sai, agitado, do seu quarto de hotel em Paris, tentando perceber a quem terá respondido a sua mulher à porta, enquanto aquele cumpria as rotinas diárias de higiene. Ele sai do quarto de hotel com a espuma de barbear no rosto. No último still, comparo os irmãos Safdie e Cassavetes e encontro esta (dis)semelhança pansignificativa: se chez Safdie a gillette é o que se usa para barbear, chez Cassavetes as máquinas de barbear colhem a preferência - uma questão de "à vontade" financeira, claro, mas não só... Mas o que dizer desta conjunção movida pela necessidade, uma necessidade estética e higiénica? Na minha opinião, é assaz irónica, estando nós, aqui, no terreno do cinema.

Já repararam que, nos filmes, só muito raramente uma personagem que se começa a barbear termina essa tarefa tão terrena? Não estou só a pensar em "My Darling Clementine", estou a dizer muito axiomaticamente isto: no cinema, ao homem é subtraído o direito de terminar algo que o vemos começar e esse algo é muito dele - não me lembro de semelhante interrupção, muito ou pouco grotesca, infligida sistematicamente às personagens femininas. Contudo, de rosto semi barbeado, repleto de espuma ou não, ridículo sempre, o homem lá vai prosseguindo com o plot. Muito prático, muito ready-to-go.

Jazz e heroína

"The Man with the Golden Arm" (1955) de Otto Preminger

"The Connection" (1962) de Shirley Clarke

[Foi Preminger quem pôs o problema das drogas, especialmente, os efeitos do uso da heroína, na agenda do cinema americano. Contudo, foi Shirley Clarke quem conseguiu abordar o mesmo assunto desembarando-se totalmente de todos os (maus) tiques e o melodramatismo moralista do cinema clássico. Foi um prazer e um choque ver, em cópia nova (obrigado, Cinemateca Portuguesa), "The Connection", espécie de "falso-documentário" que se desenrola num apartamento habitado por junkies, pretos e brancos, jovens e mais velhos, músicos jazz ou ouvintes jazz, cujas vidas se gastam na espera pelo dealer, apelidado sem ironias de cowboy (= um negro cheio de pinta, pose real, óculos escuros e todo ele vestido de branco, qual santo suburbano...). Preminger e Clarke, de modos distintos, fazem a mesma mistura: jazz e heroína. Contudo, se no primeiro caso, o jazz surge como antídoto da droga (para largar o vício, a personagem de Sinatra agarra-se ao sonho de ser baterista numa banda jazz...), no segundo caso, a música é alimentada, high high, pelo efeito de casa dose (fix). A música con-corre nas veias massacradas dos protagonistas com a devastadora heroína anti-clássica: a droga, primeiro tabu quebrado por um certo cinema moderno, que já é, por natureza, de estilo jazzístico.]

Rosto do polícia de arma perdida

"Nora inu"/"Stray Dog" (1949) de Akira Kurosawa

"Magnolia" (1999) de Paul Thomas Anderson

Recorte de falas (XVII): The Legend of Lylah Clare

Eis uma mistura um-dois-três, desinspirada e caricatural, de "Vertigo", "Rebecca" e "Sunset Boulevard". "The Legend of Lylah Clare" (1968) é um melodrama, escrito com excesso de inspiração face à desinpiração da câmara de Aldrich e das sensaboronas interpretações de Kim Novak e Peter Finch; um melodrama sobre a segunda carne de uma estrela (cadente) morta tragicamente há mais de 20 anos. Trata-se, portanto, de um film on film, sem ponta de novidade, sem chama na forma como no tema, mas repleto de diálogos espirituosos, alguns muito acutilantes, ainda que excessivamente grandiloquentes (algo parecido já acontecia em "The Big Knife"). A certa altura, uma influente opinion maker do mundo do entretenimento comenta o evento pomposo que o realizador Lewis Zarken organizou em sua própria casa, a abarrotar de jornalistas, agentes do cinema e arredores, para lançar mediaticamente a actriz que irá (re)encarnar a lendária Lylah Clare. O comentário é veneno... e, como já todos adivinhamos, é veneno tanto para "eles" como para ela.

Molly Luther: Free food, free drinks, free press.

terça-feira, 6 de março de 2012

Os vencedores da Primeira Copa A Angústia do Blogger Cinéfilo (VI): a médio direito


Anthony Mann, o meu Nico Gaitán.

Consistente. Não há tiros falhados nos westerns de Mann: são todos bons ou são todos muito bons ou mesmo quando não convencem totalmente, a qualidade está lá, inigualável. Muita gente gosta de reduzir este género nobre do classicismo a um ou dois nomes - Ford e Hawks - deixando de parte a ferocidade, a fertilidade estonteante e a dureza de Mann. Há poucos cineastas tão esclarecidos quanto ao lugar que ocupam no seu tempo e na história do cinema: Mann era o western, duro, violento, sentimental, anti-sentimentalista, muito "what you see is what you get" nalgumas coisas, diria, nas coisas essenciais: na definição da paisagem, da espingarda, do amor, do dinheiro, dos laços quebrados... É bom ter alguém assim, na ala direita.

Críticas:



O Cinema Revisitado:



sábado, 3 de março de 2012

Recorte de falas (XVI): Juvenile Court

Numa sociedade católica até à medula, o que é estranho nesta resposta de um menor, Tommy, acusado de ter abusado sexualmente de uma menina ainda bebé? A resposta é um exercício - tipo teste de Rorschach, mas sem borrões, só com questões de aferição psicológica - e, como nos apercebemos mais à frente, ele "chumba" nesse exame. Chumba pelas primeiras duas respostas-desejos ou pela terceira? Direi que a terceira é de um racionalismo - de um pragmatismo - que choca com a exposição fundamentalista de fé - quase uma jihad católica - que se apresenta como desejo íntimo, profundamente íntimo, do rapaz, uma cabeça que mais tarde o juiz tem por "perturbada". "Sim, certo, todo o mundo católico; todo o mundo a portar-se como um "bom católico", mas, ainda assim, concedei-me, Deus ou Génio da lâmpada, mais um desejo: ter direito a mais três desejos". A resposta esconde a realidade psíquica do rapaz, parecendo traduzir o refúgio deste por trás da imagem-tipo, socialmente bem vista, do "bom católico" - é a espiral do silêncio a funcionar no sentido de outra espiral, a da loucura (termo pouco clínico que não vou agora procurar corrigir ou precisar). "E que três desejos mais pedirias?", talvez depois desta interrogação - que não vemos ser formulada - viessem as questões que interessavam ao tribunal mais do que ninguém. E, em "Juvenile Court" (1973), obra-prima de Frederick Wiseman, falamos sempre no contexto de um tribunal de família e menores - definitivamente, não um lugar qualquer...

Psicólogo: If you have three wishes what would you wish for?
Tommy: Let's see... That everyone believe in God.
Psicólogo: What else?
Tommy: That everyone would go to church.
Psicólogo: Anything else?
Tommy: And... that I had three more wishes.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Shame (2011) de Steve McQueen (I)


De novo, Steve McQueen assina um filme com dois, três, quatro ou até mais (enfim, nem tanto...) planos memoráveis. Ainda assim, plasticamente, não negarei que considero "Hunger" um objecto bem mais impressionante. De qualquer modo, cá está McQueen, em "Shame", a mostrar-se como "cineasta de corpo inteiro". Digo isto sem hesitar? Não poderei ir tão longe: a verdade é que este seu último filme, que, rezará a boa sinopse, é um intenso drama interior sobre um homem consumido pelo seu desejo "descontrolado" por sexo, digo, esta sua "Vergonha", não sendo vergonha cinematográfica nenhuma - longe disso! -, tropeça nalguns problemas que já havia detectado em "Hunger".

E que problemas são esses? Desde logo, o filme coloca-se, e coloca-nos, numa certa posição moral e dela não sai, nem nos faz sair, à medida que o novelo dramático e narrativo se vai desenrolando à nossa frente. Não é preciso irmos longe: o título, "vergonha", coloca o cineasta - e nós, espectadores - como julgadores morais das acções do protagonista, sendo que a bitola que utilizamos, por causa do título mas não só, aparece como pré-determinada. Com efeito, muito tempo de filme é queimado naquilo que considero ser uma dualidade/tensão moralmente básica do cinema plasticamente portentoso de McQueen: aqui não faz sentido falar-se naquilo que, em linguagem de argumentista, se chamará "a exposição", porque todo o filme é uma exposição. De quê? De uma lista de sintomas que o título sentencia de "vergonhosos".

O grau da vergonha, ou a sua percepção, não é "um" mas "o" objecto para McQueen. E nós sentimos isso, se estivermos já conscientes do terreno pantanoso em que entra qualquer filme que conta a história de um solteirão yuppie que, em vez de se inebriar com mobílias IKEA ou tecnologia-onanista-à-Apple (vide Edward Norton em "Fight Club"), tem como primeira obsessão sexo, sexo pela net, em directo, em diferido, em filmes, ou ao vivo e a cores com prostitutas ou mulheres que ele seduz com três trocas de olhar (às vezes, menos!). Quando digo "obsessão" e não "gosto" ou "interesse" estou já a cair na ratoeira que, neste filme, o cineasta britânico nos coloca e, direi mais, se coloca a si mesmo. Vamos por fases.

McQueen faz um filme, ele mesmo, obcecado por este "tarado sexual", entenda-se, um tarado sexual que nada tem a ver com os assediadores de rua, com apenas uma gabardina vestida, que em tempos aterrorizavam jovens raparigas pelas ruas de Lisboa. Numa palavra, este é um tarado sexual pós-moderno. Fassbender dá-lhe corpo e McQueen não o desfeia nem um segundo, nem um milímetro. Face a isto, o facto de ele ter sexo com regularidade seria coisa natural, que não o torna imediatamente vergonhoso - está claro que se fosse um ser asqueroso como Philip Seymour Hoffman em "Happiness" a nossa primeira impressão dispensaria qualquer tratamento dramatúrgico mais aprofundado... Mas, com estes elementos, McQueen não consegue disfarçar que "Shame" tem desde o começo um problema em mãos: como tornar aos olhos de todos um businessman atraente, sofisticado e endinheirado num "sexual addict" vergonhoso?

Dir-me-ão que o problema é (no sentido em que se confunde com) o filme, mas, na minha opinião, o problema está na forma como McQueen o gere, na medida em que aquilo que era um problema-filme é, afinal, desmascarado o autor, um filme problemático. Algo parecido já tinha acontecido com "Hunger": quando a tortura infligida aos libertários irlandeses ameaçava atingir um ponto de saturação moralmente insustentável, McQueen filmava, disfarçando então o seu deslumbramento excrementício sub-humano, um polícia inglês a chorar que nem um perdido a desgraça dos presos, cujos corpos eram reduzidos a sangue e feridas pelas bastonadas e pontapés aplicados pelos oficiais "sem rosto". De dentro do filme vinha um sinal: naquele exacto momento, soavam os alertas, porquanto o grau de horror tornara-se insuportável mesmo para quem fizera dele, e desavergonhadamente, principal motivo estético.

Não o culpamos por isso: alguns dos planos de "Hunger" são pequenos milagres visuais, sobretudo, os planos apertados das mãos ou as desfocagens em segundo plano (uma "profundidade desfocada") que fazem relevar, no primeiro plano, pequenos detalhes, incluindo, partículas tão pequenas como, em "Shame", o bocado de cotão na camisola de Fassbender. McQueen tem olho, que diria indisfarçavelmente míope - ele vê melhor o que está perto, mas com uma nitidez "especial" -, para o detalhe. E só isso é suficiente para o continuarmos a acompanhar com curiosidade.

No entanto, e retomando o fio da argumentação, as questões morais "de grau" são tratadas sem a mesma clarividência. O que acontece em "Shame" é que o grau de horror é agora um grau patológico, uma espécie de medição à vista que McQueen faz: quando pisar aquela linha, Fassbender já é, aos olhos de todos, inequivocamente, um "viciado em sexo". MAS, quando essa linha é transposta, Fassbender cairá em si mesmo - a irmã, interpretada magnificamente por Carey Mulligan, mobiliza-o nesse sentido - e dará um passo atrás. Por ser excessivamente retórico (tudo é "convencimento de alguma coisa"), não penso que McQueen seja feliz a documentar a angústia interior do protagonista: ao mesmo tempo que nos diz "este homem tem um problema, já vão ver quão grave ele é!", também nos diz "já viram como, à volta dele, o mundo é composto por miseráveis vendidos: o patrão, que é um imbecil, quer ir para a cama com qualquer mulher que lhe aparece à frente - escondendo o facto de que é um "pai de família exemplar" - e as mulheres - não as prostitutas, simplesmente, as mulheres... - não buscam outra coisa que não a satisfação imediata de um acesso de desejo carnal?". Na vida pessoal como no trabalho, o protagonista está rodeado de cio, traição e falsidade - onde está a patologia aqui?, perguntava eu. Onde está a "vergonha" que o filme cola à testa de Fassbender como uma doença à procura de sintomas e não o contrário?

O final de "Shame" é, quanto a mim, próximo de vergonhoso. É McQueen a refugiar-se nos "bons truques do cinema moderno" e a deixar "a solução à audiência", dir-me-á a maioria cinéfila. Pois, certo, mas por quê? Lembro-me do irónico "I was cured all right" de "A Clockwork Orange", um final definitivo dissimulado de "final em aberto". Todos nós vemos um "I was cured all right" no desenlace em suspenso de "Shame", mas só McQueen pensa que nós podemos não ver assim... é lamentável cairmos numa ratoeira que foi montada por nós, mas, neste caso, penso que isso acontece e estrondosamente.

Não me cabe na cabeça que aquele evento traumático - que não vou aqui revelar - na vida do protagonista irá afastá-lo dos seus vícios, vícios que, diria eu, e apesar da insistência do realizador, serão naturais - face ao mundo em tons de "American Psycho" que McQueen nos descreve - e pequenos - ou aquilo que se passa na carruagem de metro não é sedução entre homem e mulher, acrescentaria a medo eu, "perfeitamente normal"? Do lado de lá, na hipótese de McQueen insinuar antes a cura miraculosa do tarado, parece que ouvimos ecos daquela cena do polícia lavado em lágrimas em "Hunger": tudo era demais para que este realizador, detentor de uma espécie de moral redentora, pudesse permitir que as coisas seguissem tal como estavam...

Estas duas vias remetem então "a escolha dos destinos do protagonista" ao espectador, mas a liberdade de escolha é, no fundo, uma falsa liberdade de escolha, porque, como vemos, só uma dessas escolhas é compreensível, à luz do grau e dos degraus de "vergonha" com os quais McQueen nos prendeu a atenção durante 90 minutos, na esperança de nos deslumbrar, lá para o fim, com um diagnóstico por nós e (mal disfarçadamente) por ele tido como "dado": afinal, repito, para deixar mais claro, o título é "Shame" e o assunto é sexo. Demasiado sexo. Quer dizer: "C'mon, he most certainly was cured all right!"

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