segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XV): resultados da sondagem

"Requiem for a Dream" (2000) de Darren Aronofsky (sim, sim, Sísifo e tal... ai ai, tão simbólicozinho que ele é...)

Eu sei, eu sei, senhor Paulo Portas, as sondagens "valem o que valem" e quase sempre estão erradas. Pode ser que sim, senhor Paulo Portas. Mas, neste momento, posso-lhe dizer, com algum grau de certeza, que dos 35 votantes da nossa sondagem sobre o cinema no segundo canal a maioria considera insuficiente (15 votos, ou seja, 42%) a actual programação de cinema da RTP2. 12 (34%) acham a mesma muito insuficiente. Assim sendo, 76% dos votantes considera negativa a oferta de cinema naquele canal.

Por outro lado, 5 leitores (14%) consideraram suficiente os 2 filmes por semana, ao passo que 2 (5%) consideram mesmo boa esta mesma programação. Apelei a todos eles que se pronunciassem neste espaço sobre as suas razões, mas nenhum deles expôs os seus argumentos - e eu, tenho de confessar, permaneço muito curioso...

Apenas um votante disse que o assunto lhe era indiferente. Não deve ser português.

Até finais deste mês tenciono escrever o texto da petição e pô-la à vossa consideração. Penso que urge uma programação de cinema pensada, formativa e entusiasmante na televisão pública e não penso mas tenho a certeza que cabe a nós, espectadores assíduos de cinema, reivindicá-la.

Gambit (1966) de Ronald Neame


A comparação nunca será propriamente feliz, mas de momento não se arranja melhor: se King Kong só aparece no filme de Jackson passado mais de uma hora, Shirley McLaine não profere uma única palavra durante os trinta minutos iniciais de "Gambit", heist movie assinado pelo (director de fotografia de nomes de peso do cinema britânico, como David Lean e Powell & Pressburger, tornado) realizador Ronald Neame.

Já tinha avisado que a comparação podia soar forçada, mas, perguntará quem ainda tem fé nestas linhas, onde é que esta poderá resistir à mais completa derisão? Talvez - eu disse talvez... - a grande semelhança entre Kong e McLaine nesses filmes seja o facto de ambos os protagonizarem mas só tardiamente lhes ser dado... o dito protagonismo (na sua acepção tradicional). Ou, mais ainda, porque Ronald Neame vai mais longe na ousadia que Peter Jackson: a ausência de McLaine é apenas e só "vocal", ao passo que Kong apenas habita naqueles "longos" 70 minutos nas conversas dos personagens ou na cabeça dos espectadores que viram o original e outros remakes da história do grande gorila apaixonado.

Pois é, "Gambit" tem, a abrir, uma McLaine esfíngica na aparência, sepulcral pelo que não diz - que é nada, nem um gemido... -; depois, entra em cena uma McLaine a 200 à hora, de língua sempre pronta a disparar as mais certeiras tiradas. A primeira existe na cabeça de Caine, o ladrão inglês da high society e a segunda existe... EXISTE. A primeira nasce de um what if? seco e directo - com intriga demasiado simples para ser verdade - e a segunda é um what it is que vem destruir o plano do James Bond/Thomas Crown wannabe Michael Caine, inglês arrogante que toma a sua vítima - um árabe muito rico - por imbecil.

"Gambit" é a inversão de filmes como "Ocean's Eleven" (o de Soderbergh): primeiro assistimos ao golpe perfeito na cabeça de Caine e depois à sua destrambelhada concretização - porque McLaine, que é usada como isco, fala mais do que deve ou Caine pensa de mais nos seus planos impossíveis.

Enfim, Neame fez um cocktail interessante entre o heist movie e a screwball comedy, tirando partido de uma dinâmica muito especial entre dois grandes actores, apesar de, como o Kong - lá estou eu de novo com esta estúpida comparação... -, o filme ser dela por inteiro, quando fala e mesmo quando não fala.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Fodido da cabeça (eu?)

"Titicut Follies" (1967) de Frederick Wiseman

"Shutter Island" (2010) de Martin Scorsese

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

La danse - Le ballet de l'Opéra de Paris (2009) de Frederick Wiseman


Ver o filme de Wiseman - aliás, ver os FILMES de Wiseman - lembra-me sempre a forma como o documentarismo tradicional está dominado pela lógica do making of - ou será antes o contrário? Qualquer actividade que seja retratada, política, artística, social..., é ilustrada pelos pensamentos e impressões do momento de quem a pratica. Ou melhor, por norma, os documentários da televisão, e aqueles que sendo de cinema não merecem a grandeza do grande ecrã, enchem de ruído verborreico inútil as suas imagens, onde, também por sistema, os close-ups dos rostos muito subjectivamente se impõem à totalidade, aberta e plural, do plano geral "invisível".

Várias vezes, somos bombardeados por isto: documentários centrados no dispositivo, na palavra, no protagonista (e numa narrativa formatada dentro do modelo dos três actos à Hollywood), relegando para segundo ou terceiro plano a actividade que o motivou. Veja-se como na maior parte dos making ofs há mais cabeças falantes a regurgitar os elogios da praxe ao realizador e à equipa do que imagens destes a trabalhar."Ele é uma pessoa especial; trabalhar com ele é uma honra; não hesitei em aceitar o seu desafio; são todos fantásticos", frases feitas tão recorrentes como são em futebolês as tiradas "o futebol é assim mesmo; há-que levantar a cabeça e trabalhar para o próximo jogo; não há favoritos para o próximo jogo". Imaginamos que nas mãos da pessoa errada "La danse" seria isso mesmo: um making of sobre uns quantos espectáculos organizados pela companhia de bailado da Opéra de Paris.

Mas, felizmente, Wiseman estava no lugar certo à hora certa para, pura e simplesmente, desaparecer no ar com a sua câmara; tornar-se invisível até às paredes de cada divisão (mesmo as subterrâneas) da Opéra, que se revela, como muito expressivamente diz Luís Miguel Oliveira na sua excelente crítica, uma colmeia de actividade efervescente. Os processos de aprendizagem são postos a nu, levando a que o espectador sinta na pele as exigências físicas e mentais a que são submetidos E se submetem os bailarinos - bem a propósito num filme sobre raparigas e rapazes que treinam, diariamente, para serem "monges e boxeurs" ao mesmo tempo...

Habilmente, Wiseman torna "La danse" numa espécie de "High School 3", já que estamos, de novo, numa "instituição" escolar, mas, desta feita, virada para uma expressão artística específica; logo, um processo cativante - em cativeiro... - com todas as qualidades microcósmicas do típico habitat wisemaniano. Se antes tínhamos as reuniões com os professores de liceu e as aulas propriamente ditas, agora invadimos sorrateiramente o espaço de cada um dos funcionários da Opéra, desde o porteiro até à directora artística, passando natural e principalmente pelos alunos e professores - e aquilo que os separa e une; isto é, o ensino, que é, enfim, uma passagem de testemunho de ex-bailarinos consagrados para bailarinos que o irão ser - o que importa manter, perante as pressões financeiras "exógenas", transcolmeia, transParis, transFrança, transatlânticas..., é A qualidade do PRODUTO.

Ficamos à espera do filme sobre boxe, que faz todo o sentido depois deste "La danse", mas a certeza de que Wiseman continua em grande forma está à mostra.

(E, ó senhor Wiseman, aproveitando esta oportunidade, não deixe de liberar os direitos dos seus filmes para que estes fiquem finalmente acessíveis em DVD/Blu-ray!)

Nova trilha (XVIII): Tierney e Gallo

Gene Tierney (à esquerda, ao centro e dentro da cabeça e coração de Dana Andrews à direita) em "Laura" (1944) de Otto Preminger

(Otto Preminger é o realizador das mulheres bonitas; aliás, Otto Preminger TORNAVA as suas actrizes ainda mais bonitas. O segredo não era - como devem estar a pensar - "baba de caracol" ou inovadores massajadores faciais, o segredo estava... não sei bem onde, mas os resultados saltam à vista se compararmos Tierney em "Laura" - provavelmente a mulher mais bela do mundo - com a Tierney em "Leave Her to Heaven", realizado um ano depois por Stahl.)

domingo, 22 de agosto de 2010

sábado, 21 de agosto de 2010

The Last Airbender (2010) de M. Night Shyamalan (II)

Casting. Não correu bem em "The Happening": o próprio Mark Whalberg, no extinto talk show de Conan O'Brien, referiu que nunca se imaginou "professor de ciências". Eu não o via nem o vi, nem sei o que passou pela cabeça de Shyamalan para o ver... Um realizador que arrisca tanto como Shyamalan não deve cometer estes erros de palmatória, que só vêm contaminar toda a experiência cinemática que o filme tem para oferecer - e só pontualmente "The Happening" nos conquista. Antes, Shyamalan tinha acertado em cheio nas suas apostas, destacando-se Mel Gibson em "Signs" e a descoberta da luminosa Bryce Dallas Howard ou as duas oportunidades que deu a Phoenix para atingir a maturidade interpretativa que hoje lhe reconhecemos.

Os putos de Shy

Haley Joel Osment em "The Sixth Sense"

Rory Culkin em "Signs"

Noah Ringer em "The Last Airbender"

Tudou correu bem até... mas, diga-se, em "The Happening" Shyamalan até foi feliz ao revelar-nos a "assombrada" Zooey Deschanel. Aqui, neste "The Last Airbender", o problema não está nos protagonistas jovens. Shyamalan é, como bem sabemos de filmes como "Signs" e "The Sixth Sense", um grande "director de actores", sobretudo, os mais pequenos (sim, Haley Joel Osment e Rory Culkin, respectivamente, são magníficos nesses filmes).

De facto, para os actores, não são fáceis, ponto 1, as codificadas falas shyamalianas que podem fazê-los cair no ridículo e, ponto 2, dizê-las quase de frente para a câmara (veja-se o ponto I desta análise). Noah Ringer (o Avatar) e Nicola Peltz (Katara) estão muito bem nos seus papéis. O mesmo não se pode dizer dos mais velhos: a opção pelo comediante do Daily Show Aasif Mandvi para o papel de "segundo" vilão é desastrada, sendo quase embaraçosos os seus esgares forçados de malvadez; também o "slumdog" Dev Patel está desajustado no seu papel de "anti-herói" edipiano com coração de manteiga. Pergunto-me se não seria muito mais interessante ver o Shyamalan neste elenco com tantos indianos; seria, ainda mais interessante, vê-lo passar de "Messias" a vilão, ficando com o papel do pouco convincente Mandvi...

De facto, pela segunda vez consecutiva, Shyamalan não deixa a sua assinatura (qual Hitchcock) num filme seu - relembro que esta sua persona ganhava contornos extra-fílmicos muito curiosos, e muito irónicos, em "Lady in the Water", levando mais longe os cameos quase meramente "autorais" de, nomedamente, "The Village" e "Signs". Pergunto-me se este não será um sinal de menor envolvimento ou convicção do realizador nos projectos que tem encabeçado.

Hinduísmo (uma outra religião). Shyamalan, um indiano tornado cineasta na América, divide-se entre as religiões católica e hindu. Se o catolicismo parece habitar especialmente os dramas humanos dos seus filmes (o sacrifício, a contrição/culpa, a redenção/perdão), a iconografia e mitologia hindus parecem contaminar toda a envolvência fantástica, o que se comprova pelas suas narrativas sobre mundos conflituantes, Deuses vários (o politeísmo hindu) que fazem das criaturas da Terra veículos das suas manifestações terrenas (avatares). O universo dos animais, por norma bem delimitado, é sagrado para as personagens humanas dos seus filmes. Macacos nascidos das árvores ou cães-lobo raivosos que emergem da relva são os Deuses maus de "Lady in the Water", ao passo que em "The Last Airbender" temos um lémure-voador como companhia favorita do Avatar, criança que se move agilmente na floresta como um macaco que saltita entre galhos, e dois peixes como Deuses do mundo dos espíritos - almas puras, frágeis mas belas, que exortam os homens a serem humildes.

Uma das originalidades de Shyamalan - que se mantém aqui, nem mais nem menos "fresca" - é esta mescla exótica entre a viagem espiritual típica da narrativa cristã (pecado/culpa - sacrifício - redenção) e a iconografia/cosmologia hindu, que se presta à devoção dos elementos da Terra, à descoberta do Eu através da medi(t)ação Espiritual (viagem interior, que também se faz em "The Last Airbender") ou à sua renovação mediante processos de reincarnação (os tais avatares...).

A re-ligião. Para os ateus ou agnósticos, a obra de Shyamalan guarda uma descoberta universal: a re-ligião do Humano ou, se quiserem, a relação com o transcendente através do amor.

Amor e sacrifício em...

"The Last Airbender"

"The Village"

"Signs"

Será muito subjectivo dizê-lo, mas penso ser importante sublinhar o amor que Shyamalan deposita em cada personagem, a forma como o torna "motor" das suas acções, espécie de derradeiro "feitiço" contra o qual não se postarão obstáculos. Como num Dreyer, Shyamalan, por puro amor às suas personagens, não se inibe de devolver a vida a Rory Culkin em "Signs" e a Joaquin Phoenix em "The Village" - é o amor de pai para filho que "ressuscita" o primeiro e é o amor de homem para mulher que "ressuscita" o segundo. Aqui, em "The Last Airbender", temos, contudo, um desenlace mais duro - ou "o" desenlace ainda está para vir nas Partes II e III? - traduzido no sacrifício da rapariga de cabelos brancos - mas, como ela diz, o seu espírito irá "viver" além-túmulo, no mundo dos espíritos...

O milagre da multiplicação digital à "Ages of Empire"

Jogo "Ages of Empire"

"The Last Airbender"

"Troy"

"Flags of Our Fathers"

As referências re-ligiosas abundam em "The Last Airbender", o que, de novo, faz muito sentido na Obra de Shyamalan, ainda que estas surjam em formas muito menos interessantes, tão automáticas quanto alguns dos efeitos CGI de grande escala. Com efeito, parece que já vimos aquela frota de navios em "Troy" ou mesmo em "Flags of Our Fathers"; entretanto, o truque por tantas vezes usado e revelado - o milagre da multiplicação digital à la "Ages of Empire" - surge-nos muito gasto.

Um lugar na indústria. O cinema de Shyamalan é, está visto, fértil em dilemas, incongruências, contradições, e navega permanentemente entre o sublime e o ridículo, com um despudorado à-vontade. Para além das referidas questões ontológicas, esta "tensão" nasce também desse sonho misto, que se afigura cada vez mais impossível: ser um realizador de massas e, ao mesmo tempo, um experimentador pós-moderno das formas de filmar e contar histórias. O impasse está à vista: Shyamalan encontra-se numa situação muito complicada, já que "The Last Airbender" parecia ser a sua última oportunidade para voltar a atacar a indústria. O resultado tem sido catastrófico, tanto a nível de público mas acima de tudo a nível de crítica, e, desta vez, nem a Europa o está a safar.

Depois do incompreendido "Lady in the Water", Shyamalan parece ter-se confrontado com duas opções: ou continuar no registo de fábula fantástica de terror ("The Village"/"Lady in the Water") ou prosseguir na via thrillesca ("The Sixth Sense"/"Signs"). Decidiu-se, numa primeira instância, pela segunda opção, o que deu origem ao fracassado "The Happening". Depois, como quem volta atrás, Shyamalan envereda pela segunda opção, atirando-se de cabeça para este projecto de grande orçamento - e muito dinheiro significa pressão e menos liberdade -, um franchise baseado nuns desenhos animados da Nickelodeon que Shyamalan tem o DEVER de rentabilizar.

Neste momento, o "compromisso" com as sequelas desta história é mais uma prisão do que uma forma de o libertar para a conquista do tal sonho complicado: (continuar a) ser Tourneur, ser Epstein, ser Sjostrom, ser Dreyer e, ao mesmo tempo, ser também Hitchcock, Spielberg e Lucas... O meu desejo é que Shyamalan se reencontre consigo mesmo - meditando ou não... -; ponha de parte esse "complexo" tão americano com as etiquetas, e se aventure num filme que volte a fazer dessa invocação/evocação cinéfila a seiva que lhe alimente o imaginário.

AVISO: não entrar no covil do Bicho sem convite

"The Host" (2006) de Bong Joon-ho

"Rogue" (2007) de Greg Mclean

(Mclean, realizador de "Wolf Creek", o melhor slasher desde "Scream", fez um dos mais sólidos filmes com criaturas da Natureza desde "Jaws". Isso não interessa ao público português? Sim? Então por que NÃO vi "Rogue" em sala ou, vá lá, em DVD nacional? Esta pergunta é para a ECOFILMES, detentora dos direitos de distribuição do filme em Portugal.)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

The Last Airbender (2010) de M. Night Shyamalan (I)


De novo, Shyamalan NÃO divide a crítica, isto é, consegue (como se calhar nunca antes) pôr praticamente toda a gente a fazer trocadilhos com o título deste seu último filme: que este "Airbender" seja mesmo "O Último" da carreira do realizador. Não sou imune ao facto de mesmo aqueles que apreciaram "Lady in the Water" - filme que, peço desculpa, ninguém ama mais do que eu ou talvez não... - terem-se juntado às vozes dominantes, na realidade, tão dominantes que se tornam perigosamente dominadoras, mas vamos por partes.

Tema. Para quem viu em "The Last Airbender" um Shyamalan "irreconhecível" ou "descaracterizado" eu diria que vi precisamente o contrário, isto é, um Shyamalan por vezes totalmente translúcido quanto ao natural caos que é o seu universo, perdido entre as suas raízes indianas (hindus?) e o seu gosto - obcecante, como todos os gostos deste realizador - pelo entretenimento da descomunal Hollywood. Tematicamente falando - vamos por partes... -, não há que enganar: "The Last Airbender" é um filme de Shyamalan; poderá ser um filme desinpirado de Shyamalan, frágil e confuso, mas é um filme seu. Ou dito de outra forma: não há aqui marcas evidentes de um cineasta que se "vendeu" à indústria ou, como alguma crítica norte-americana andou a apregoar aos sete ventos, de um megalómano que quer ser um George Lucas ou só vê cifrões à frente.

Água

"The Last Airbender"

"Lady in the Water"

"Signs"

"The Last Airbender" tem várias coisas em comum com, desde logo, os seus dois filmes anteriores. A sua história fantástica em torno dos quatro elementos naturais parece ecoar algumas pontas já consideravalmente desenvolvidas em, desde logo, "Lady in the Water", fábula "marinha" sobre um mundo azul que protege o mundo dos homens. Uma personagem, Story, é o Messias desta narrativa - o seu Avatar -, na medida em que provoca uma interferência entre mundos para reconquistar a paz perdida.

Messias

"The Last Airbender"

"Lady in the Water" (Bryce Dallas e Shyamalan)

A reli-giosidade neste universo - simbolizada pela cena da cura e pela omnipresença dos media - é óbvia. Em "The Last Airbender" também temos uma ordem perturbada que precisa de ser harmonizada pela chegada de um Messias. Esse Messias - "o escolhido" - é Story em "Lady in the Water", e também é o próprio Shyamalan nessa história, já que será ele que - qual Barack Obama - irá insuflar de esperança um mundo minado pela apatia e a descrença. (É a realidade social e política da América que puxa as personagens para a fantasia, que ulteriormente a transforma - até porque poderá ter tudo passado de um sonho...)

Vento

"The Last Airbender"

"The Happening"

"The Last Airbender" fala-nos dos quatro elementos convertidos em quatro mundos; diríamos que Story caberia no da água - onde caberiam os extra-terrestes hidrofóbicos de "Signs"? - e diríamos mais: "The Happening" poderia ter sido despertado por um feitiço vindo de um bender do ar. Epstein falou (muito exoticamente) dessa magia superior que é o controlo sobre o tempo, ao passo que Shyamalan torna-se num "tempestaire" (in)visível no conjunto destes filmes ou faz, na sua cadeira de realizador, aquilo que L. Jackson faz, na sua cadeira de rodas, em "Unbreakable"...

Forma. Também aqui parece-me descabido dizer-se que "The Last Airbender" é uma completa aberração na obra do realizador. Aqui, mais uma vez, adjectivos como "descaracterizado" ou "irreconhecível" devem ser, quanto muito, preteridos a adjectivos como "desinspirado".

Campo/contra-campo frontal com uma ou mais personagens

"The Last Airbender"

"The Happening"

"Lady in the Water"

...


Meio rosto

"The Last Airbender"

"Lady in the Water"

Isto porque só Shyamalan filma os campos-contra-campo de forma quase frontal, num eixo horizontal de quase 180 graus. A certa altura, vemos Avatar a meditar e, em segundo plano, vemos "a rapariga da água". Shyamalan filma metade do rosto do protagonista como fez com as bestas verdejantes, nascidas da terra, (e a besta do crítico...) de "Lady in the Water". O interessante jogo de focagem/desfocagem em primeiro plano/segundo plano também não é o pão nosso de cada dia no mainstream. Por outro lado, praticamente só Shyamalan alonga daquele modo os planos - muito longos tendo em conta a média de duração dos planos que se pratica por estes dias em Hollywood. Os slow motions mais ou menos líricos também nos são familiares, se pensarmos em "The Village" ou "Lady in the Water". (Já aqueles zooms bruscos, computorizados, são uma ferramenta high tech algo estranha ao universo estético de Shyamalan.)

3D. Ainda dentro da forma, tenho que abrir um parêntesis para falar das três dimensões em "The Last Airbender". Sou da opinião que o maior foto-realismo das três dimensões seria melhor explorado - de um ponto de vista plástico - se os planos se prolongassem mais no tempo e no espaço, quebrando a estaticidade clássica - necessária... - da câmara. Uma das maiores críticas que faço ao "Avatar" nem é a utilização do 3D, já que este até tem uma importância substantiva na história, mas sim o facto de Cameron ter pensado visualmente o seu filme muito mais na construção de um universo do que na forma de o captar em planos.

O fragmentarismo tradicional é ultra-atordoante com o 3D, coisa que Robert Zemeckis já terá percebido há algum tempo, mas Cameron não aprimorou minimamente com o seu colossal filme - o que não espanta, visto que Cameron é, por norma, um realizador que pensa a história e o seu visual lato sensu, mas raramente é subtil a decompô-lo, ou não, em vários planos. O segredo de Cameron até poderá residir aqui: uma concepção brutamontes do découpage que vem endurecer - devastar, enegrecer, politizar - um universo de estufa fria, polidinho até à última folha da última árvore. Shyamalan detém-se menos na concepção dos universos que na sua "desmontagem" em planos. É, por isso, mais um operador - um realizador de câmara - que Cameron - que é um designer, um arquitecto de mão pesada.

"The Last Airbender" aparece totalmente desapegado da realidade, surgindo como uma espécie de profecia anunciada, previsível neste contexto criativamente rico/pobre (apolítico) pós-Bush. A única coisa que o prende a nós - relembro que todos os outros filmes, sobretudo "The Village" e "Lady in the Water", eram, também, parábolas políticas - é precisamente o fotorealismo do 3D assimilado pelo bailado da câmara no espaço, em continuum, com poucas interrupções - ao contrário de Cameron e ao contrário de Burton. Digo isto então para defender o seguinte: o 3D faz sentido aqui.

Montagem. Também aqui as variações são poucas, e talvez - por isso ou não - algo desinspiradas. Basta que comparemos "Signs" e a história do padre (Mel Gibson) à forma como nos é revelado o passado do jovem Avatar: analepses que surgem ao espectador sob a forma de flashes mentais. As personagens "sonham acordadas", assombradas por um evento passado (traumático ou não). Achei, contudo, interessante a opção de cortar o som nalgumas memórias e apenas incluir imagens soltas - algumas tocantes - ao som da banda sonora de James Newton Howard.

Diegese. Quanto à forma como a história se desenrola, também encontro paralelismo claros com "Lady in the Water". Ainda que muito mais submergido no seu próprio universo fantástico, "The Last Airbender" também é feito de pequenos mistérios que se vão colocando em linha progressiva - um atrás do outro - ao espectador. A técnica de storytelling é cumulativa, na medida em que o mundo ou os modos de lidar com ele vão sendo explicados pelas personagens até ao último minuto da história e não numa introdução alargada - ou exposição. Contudo, a confusão aqui é, por vezes, quase total. Shyamalan não consegue lidar com uma história que não é sua de raiz; lança-nos personagens como descodificações complexas do seu mundo numa cadência desenfreada, muito difícil de seguir. A alternativa é, por vezes, simplesmente, desligar e concentrarmo-nos no ritmo das imagens.

Personagens. Todas, quase sem excepção, ficam por trabalhar. Shyamalan parece perdido entre o desafio da "adaptação" e a necessidade - que é sua, por inteiro - de adensar as suas personagens, sobretudo, aprofundar as suas RELAÇÕES ou LIGAÇÕES. Aqui reside aquele que é, a meu ver, o principal problema dos últimos filmes deste realizador: a sua opção por histórias de viagem, mais horizontais que verticais. O filme estica-se em mapas sem fim - América, França, etc. ("The Happening") e aqueles quatro mundos ("The Last Airbender") - e as personagens, demasiadas aqui, perdem-se no espaço.

O fechado

"Signs"

"The Village"

"Lady in the Water"


O aberto

"The Last Airbender"


A concentração espacial do drama é fundamental no cinema de Shyamalan para lhe dar dimensão humana; no fundo, para o "credibilizar". Aqui ela está totalmente ausente, ao passo que em "The Village" (a vila é uma clareira na floresta impenetrável) e em "Lady in the Water" (o condomínio é uma clareira... idem) temos duas obras hitchcokianamente de cerco; aqui temos uma espécie de travelogue épico à la "Star Wars" - mas, repito, Shyamalan tem mais cinema no seu pior plano que Lucas nos planos todos que fez na vida... - ou à la "Senhor dos Anéis".

Diegese (o fim). "Lady in the Water" termina com a grande águia Eathlon que leva a ninfa salvífica, enquanto chovem lágrimas da despedida (e)terna a um Amor puro. Foi o último final definitivo, fechado, de Shyamalan. Em "The Happening" e neste "The Last Airbender" temos um epílogo. Curioso que se fale muito da possibilidade - apenas ditada pela sua performance no boxoffice internacional - de Shyamalan vir a fazer as duas sequelas desta história, quando ninguém falou em continuar "The Happening" - que, no campo da linguagem dos filmes de terror, GRITA por uma continuação.

Não sei, mas nesta minha "mania" - quem a diagnosticou que se acuse! - por Shyamalan, até estou virado para achar piada a estas obras "inacabadas" deste génio sem pátria definida e cada vez mais sem destino certo. É algo propositado ou ditado pelas circunstâncias do mercado? Epa, sei lá, mas alguém levanta essa questão quando olha para a truncadíssima e atribuladíssima carreira de Orson Welles?

(continua em breve)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O filme do ano (VIII)


Já temos mais algumas novidades sobre "John Carpenter's The Ward". Desde logo, o filme terá a sua estreia internacional na secção Midnight Madness do Festival de Toronto, que abre no dia 9 de Setembro. Na ficha do filme, vislumbramos uma foto oficial do mesmo e outro dado que não tínhamos ainda reparado: 86 minutos será a duração total do filme, o que fará dele, seguramente, uma das longas mais curtas do realizador.

Filmes que (não) vou ver em sala (III): L'Illusionniste"

Tati nunca fez animação? Tati está morto? Sylvain Chomet responde com um categórico "Não" a estas questões: a animação faz parte do ADN do cinema de Tati, por isso, bastou pegar num argumento escrito por si para que o resto surgisse tão naturalmente quanto... um "Les triplettes de Belleville". Na exposição que a Cinemateca de Paris dedicou à obra do génio cómico francês já havia visto um excerto de "L'Illusionniste", filme que continuava a mostrar um Chomet orgulhosamente 2D e um Tati mais vivo do que nunca - eis o Monsieur Hulot a tirar coelhos da cartola e a fazer os seus deliciosos disparates!

As críticas excelentes que recebeu no Festival de Berlim e a recepção positiva que já teve em Paris fazem deste "Tati revisitado" uma obra que gostaria de ver nas nossas salas, mas, como já disse, Chomet mantém-se "orgulhosamente 2D" - e as salas portuguesas perseveram, totalitariamente..., nas 3D. E se não é 3D, tem de ser "digital": veja-se a forma criminosa como o genial filme em "stop motion" "Fantastic Mr. Fox" foi relegado para o mercado DVD. Vamos lá acabar com os truques de feira - de Pavilhão do Futuro - e fazer com que a verdadeira MAGIA regresse às nossas salas.


Trailer de "L'Illusionniste" de Sylvain Chomet, já estreado em França.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Nova trilha (XVII): Swain e The Kinks

Dominique Swain em "Lolita" (1997) de Adrian Lyne


(Não ponho a "Lolita" de Kubrick, porque, por uma vez, este foi ultrapassado por outro realizador: Adrian Lyne.)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Uma farsa genuína: "I'm Still Here" com Joaquin Phoenix (I)

Escrevi neste blogue algumas linhas sobre as aparições acidentadas, inclassificáveis mesmo, de Joaquin Phoenix em certos talk shows por altura da promoção do brilhante "Two Lovers", de James Gray. Phoenix tinha anunciado o fim da sua carreira enquanto actor para se dedicar à música... rap, mais especificamente. Enfim, especulou-se muito sobre a autenticidade daquelas aparições públicas e da aparência e comportamento estranhos do próprio Phoenix, até porque, para onde quer que ele fosse, lá ia o senhor Casey Affleck atrás com uma câmara em ombros.

Pronto, à boa maneira de Hollywood, tudo isto foi fabricado - e o resultado está já em formato trailer no YouTube. O curioso é que este "I'm Still Here" não parece ser nem um documentário real nem um documentário ficcional, mas sim pura ficção - uma farsa genuína? Vejam o trailer e tirem as primeiras conclusões.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Filmes que (não) vou ver em sala (II): Bal

Penso que não me estou a precipitar ao incluir nesta rubrica o último Urso de Ouro, "Bal"/"Honey", terceira parte de uma trilogia que o realizador turco Semih Kaplanoglu iniciou com "Yumurta"/"Egg" (2007), a que se seguiu "Sût"/"Milk" (2008). Digo que não me precipito, porque apenas ouvi dizer que este realizador é um dos nomes grandes do cinema turco - do qual os espectadores portugueses apenas têm visto obras do excelente Nuri Bilge Ceylan.

Também acho que não me estou a precipitar porque o Urso de Ouro só por si não significa que as distribuidoras portuguesas se dêm conta deste filme, já que não seria a primeira vez que o premiado máximo de Berlim não estreava nas nossas salas (veja-se o exemplo de "Tuya's Marriage" de Wang Quan`an). Para adocicar os ânimos, cá está o trailer belíssimo.

Trailer de "Bal" de Semih Kaplanoglu.

domingo, 15 de agosto de 2010

Seconds (1966) de John Frankenheimer


As problemáticas da aparência (o exterior) e da identidade (o interior) estão presentes em variadíssimas obras da Sétima Arte. Normalmente, a mudança de visual - que poderá ter consequências mais profundas e imprevisíveis - nasce de uma urgência absolutamente legítima: a correcção de uma deformidade provocada por um qualquer acidente. Nesta categoria encontramos títulos tão emblemáticos como "Les yeux sans visage" de Franju e "The Face of Another" de Teshigahara, passando pelo recente (e outrossim brilhante) "Darkman" de Raimi.

Tudo filmes que, arrisco dizer, se centram mais nas questões do corpo e menos na questão da identidade que este não suficientemente divulgado filme de Frankenheimer. Contudo, todas essas pontes são pertinentes, nem que num domínio puramente visual, que, aqui, se consubstancia numa espécie de subjectivização hiper-expressionista do espaço fílmico, com a opção (radical, no seu tempo) por uma trepidante câmara solta, muitos planos apertados, subjectivos e curtos, muitas vezes, distorcidos por uma grande angular, que parece esticar até ao limite a diagonal da imagem (a sua pele...), desempenhando, bem a propósito, uma espécie de amplificação artificial do espaço. Dito de outro modo: o filme, propriamente dito, ainda que seja sobre, é mais uma plástica cirúrgica - de câmara - do que uma metafórica cirurgia plástica...

Frankenheimer vivia, nos anos 60, aquele que terá sido o período mais brilhante da sua carreira, tendo realizado, quatro anos antes deste "Seconds", o clássico "The Manchurian Candidate". Nesse filme, o realizador mostrava já alguns destes elementos; uma espécie de esteticização da paranóia securitária da guerra fria, mediante a criação de um ambiente visual e sonoro sufocante. "Seconds" vai mais longe quando revela não só o mesmo apetite surrealizante de Teshigahara na sua obra-prima lançada precisamente nesse ano como quando não manifesta qualquer pejo em absorver o (mau?) exemplo que recentemente Fuller dera, ao deixar as suas personagens à solta na história, livres para exporem os seus podres, os seus arrependimentos e bestialidades - falo do "em si mesmo" catatónico "Shock Corridor". Ao mesmo tempo, Frankenheimer faz da câmara instável elemento fundamental ao envolvimento atmosférico da história. Uma espécie de update do que Polanski fizera com a banal história do tenebroso "Repulsion".

Nestes filmes de Polanski e Fuller, a redenção poderá ou não poderá acontecer; o "happy ending" não está - pode bem não estar, aliás... - prescristo. Ou seja, seguindo os conselhos desviantes dos seus colegas, Frankenheimer parece libertar-se com "Seconds" da moldura clássica e, logo nos primeiros minutos alucinantes e alucinados, lança a ameaça de conduzir o mais incauto espectador por territórios desconhecidos sem retorno.

Com efeito, o começo da narrativa de "Seconds" apresenta algumas semelhanças com a contextualização da personagem de Michael Douglas em "The Game" de Fincher: um homem, bem instalado na vida, com uma mulher, filha e casa modelares, mas que, APESAR DE TUDO, não é feliz. Qual a solução? Começar a viver a vida que sempre desejou ter, o que quer dizer que o velho eu daquele quadro perfeito do american dream terá de desaparecer. Uma empresa entra "em jogo" para concretizar o desejo que lhe ferve o inconsciente. Rapidamente, através da tal (miraculosa) cirurgia plástica, o velho amargurado transforma-se num Rock Hudson (ainda) atlético e garboso. Cá está a premissa-base de um thriller distópico transformado por Frankenheimer num ensaio cinematográfico sobre a identidade e os seus (im)possíveis metabolismos.

Esconderão estas ligaduras toda uma nova pessoa ou apenas uma pessoa nova?

"Tanin no kao"/"The Face of Another" (1966) de Hiroshi Teshigahara

"Seconds" (1966) de John Frankenheimer

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"O" diálogo ao espelho (de si para si)

a. Extracto de "Raging Bull" (1980) de Martin Scorsese



b. Extracto de "25th Hour" (2002) de Spike Lee

c. Extracto de "Pulp Fiction" (1994) de Quentin Tarantino (ver clip clicando na imagem)

Qual a sua escolha?


(Outros momentos aqui - vote!)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XIV): a batateira pública


Dizia eu há uma semana:

(...) deixo outro desafio: olhando para a sessão dupla desta semana, "Tess" de Polanski (que passou há pouco tempo no mesmo canal) e "Deus Sabe Quanto Amei" de Vincente Minnelli, queria saber junto de tão sapientes votantes e leitores qual a lógica (fora a da batata) deste double bill.

O desafio era, de facto, complicado. Mas no próximo sábado as coisas não melhoram: pela milésima vez, "Amarcord" e, antes, o recente "Almoço de 15 de Agosto". Um encontro (diria "forçado") entre dois filmes, simplesmente/simplisticamente motivado pelo facto de ambos serem... italianos?

Filmes que (não) vou ver em sala (I): introdução e Independencia

Recentemente fui ao King, coisa que não fazia há muito tempo. Este era um espaço onde podia encontrar uma programação diferente da que me oferecia a maioria das salas; mais cinema independente americano, mas, acima de tudo, mais cinema para lá de Hollywood. A ATALANTA - a distribuidora - tem no King a tradução mais imediata do seu sucesso/insucesso. Se, por um lado, os espaços foram melhorados - livraria e café -, o cinema propriamente dito nunca atravessou uma crise tão grande, em qualidade e em quantidade.

Entrar no King e ver cartazes de "Embargo" (novo filme de António Ferreira, que aguardo com grande expectativa) ao lado não de um, mas três cartazes de "Saraband" - inexplicavelmente, aparece este filme de Bergman ao pé das grandes ante-estreias que se avizinham - dá-nos a sensação de estarmos a entrar num cinema abandonado, por quem o gere e pelos espectadores. Mas vão repor a última obra-prima do mestre sueco? Ou é como os cartazes que podemos ver no corredor no andar de baixo, onde, ao fundo, está um desbotadíssimo cartaz de "O Caimão"? Não encontro imagem mais triste da decadência - abandono mesmo - a que chegou um cinema tão importante como o King, mas acima de tudo também é a imagem de um país cada vez mais consumido pelos multiplexes e o cinema pipoqueiro norte-americano.

A ATALANTA distribui nem um quarto do que distribuía quando eu ia regularmente ao King e os poucos filmes que distribui são (por norma) opções certinhas, sem o mínimo de arrojo - já agora, nesta vez, vi o péssimo "O Segredo dos Seus Olhos", um filme descabeladamente televiseiro (muito pouco) argentino que deve ter ganho o Óscar porque, de facto, a Academia americana está, neste momento, entregue a labregos que só entendem o cinema dentro da mais primária linguagem televisiva. De qualquer modo, o estado da distribuição em Portugal é calamitoso.

À decadência total da ATALANTA acresce a total falta de arrojo das demais distribuidoras: como é possível que "Fantastic Mr. Fox", um (brilhante, refrescante, genial) filme de animação com vozes de Clooney e Streep, tenha sido lançado directamente em DVD? Como é possível que não haja sinais de "Frozen River" no mercado português? Como é possível que os filipinos, tantos iranianos, romenos (menos, mas podia haver mais), tailandeses, taiwaneses, chineses, sul-coreanos, japoneses... estejam quase totalmente arredados das nossas salas? Sabem quanto tempo demorou "Whisky" a chegar às nossas salas?...

...Não, mais: 6 anos! Ok, vão-me dizer que não há público para este "tipo" de cinema. Ah não há? Já olharam bem para o caso de sucesso que é, neste momento, a Midas, tanto no campo da distribuição, como na edição de DVDs e ainda na produção de cinema? E já algum dos senhores da Lusomundo e companhia se interrogou por que carga de água tem-se assistido a um crescimento impressionante de tantos festivais de cinema que passam "coisas estranhas", como o Indie e o DocLisboa?

Da minha experiência nas salas comerciais, posso ainda dizer que há pouquíssimo tempo vi mais gente na sessão de "Shirin" que na de "Inception", o que é, quanto a mim, muito significativo. Enfim, fica o desabafo em jeito de intróito a nova rubrica: (trailers apetitosos de) filmes que (não) vou ver em sala.




Trailer de "Independencia" de Raya Martin (em exibição em França), extraído daqui.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Nova trilha (XVI): Politoff e Dean & Britta

Haydée Politoff (e Patrick Bauchau) em "La collectionneuse" (1967) de Eric Rohmer

Talk shows desportivos (I): o "Dia Seguinte" ou a selvajaria intelectual


Uma coisa é certa: a bola é redonda e no início há onze contra onze. Tudo pode acontecer, o futebol é assim mesmo.

Agora que o campeonato nacional de futebol já começou, voltam com ele os inenarráveis talk shows desportivos com os habituais comentadores (parciais e assumidamente facciosos) a representar cada um dos três grandes. O programa "O Dia Seguinte" é, de longe, o mais degradante produto televisivo dentro deste formato de abominável celebração fanática e fascizante do "desporto-rei" - por sinal, um rei absolutista... Há séculos que este programa mantém um formato quase inalterado e o mesmo painel - só há um ou dois anos o comentador do Benfica, Fernando Seara, mudou-se para a concorrente TVI 24.

Se há modelo, de facto, fascista de televisão é este: três adultos, "vendidos" como homens sérios - veja-se como gostam de puxar dos seus galões de juristas - defendem com argumentos de bradar os céus cada um dos seus clubes - como se fosse uma questão de vida ou de morte. As insinuações mais gravosas são feitas de forma genérica ("o sistema...", "eles") e intelectualmente infantil (cada comentador faz, por programa, a sua birra) sem que haja, da parte do "jornalista" moderador, qualquer tipo de pedido de esclarecimentos ou tentativa de elevar o debate dentro dos possíveis - no caso, muito, mas muito pelo contrário.

O contraditório é falsificado, porque todos eles dizem, todas as semanas, as mesmas coisas, repetem ad nauseam os mesmos disparates, lançam as mesmas insinuações criminosas (principal alvo: os árbitros, claro...) e entram nas mesmas discussões vazias em torno do "se não ganhamos, empatamos ou perdemos" e outras tiradas absolutamente néscias que tão ilustres juristas/políticos (por acaso, sobretudo, de direita) vomitam todas as segundas com a soberba de quem se julga muito inteligente e mordaz -- e, o que sinceramente me deixa de queixo caído, corajoso! Mordaz e corajoso, no mundo do futebol, é pensar-se pela própria cabeça e fazer-se comentário a milhas da "clubite aguda", que só instiga o ódio e o pensamento selvagem (o anti-benfiquismo, o anti-sportinguismo, o anti-portismo...).

Ouvir um destes senhores a chamar "corrupto", imputar actos de corrupção a dirigentes e árbitros é o pão nosso de cada dia. Mas pior são os raciocínios circulares em torno dos lances de arbitragem polémica: todos defendem a respectiva cor perante a "EVIDÊNCIA" das imagens, mas todos convergem numa coisa (esta é a birra que os une): os árbitros são parciais, não se sabe bem por quê, nem se sabe se DE FACTO são, mas são, porque erram "de propósito". Bem, então, se é assim tão EVIDENTE, porque é que tão ilustres senhores (e são juristas, minha Nossa Senhora do Caravaggio!) têm tantas dúvidas ou divergem tanto nos juízos que fazem a cada lance, mesmo através de mil repetições, em mil posições de câmara diferentes e em slow motion? Haja paciência! Parem com insultos à inteligência do espectador!

Pena que este modelo "arena" tenha contaminado o debate político, na Assembleia e/ou na Televisão. Cada vez há mais programas de debate político com representantes das forças políticas com acento parlamentar. A TV pública defende-se com o dever de pluralidade, mas que pluralidade há numa conversa onde ninguém está disposto a ouvir, onde todos têm o dever - e ai de... - de seguir a sua agenda partidária? Onde estão os valores da independência e da mínima decência moral e intelectual, senhores da televisão?

domingo, 8 de agosto de 2010

Nova trilha (XIV): Spacek e The Sound

Sissy Spacek (e Martin Sheen) em "Badlands" (1973) de Terrence Malick

Inception (2010) de Christopher Nolan

A síntese

"Inception" (2010) , etc.

"The Matrix" (1999)

"Inception" (2010)

"The Matrix" (1999)

Não vou perder muito tempo com grandes reflexões em torno de "Inception" - pelo menos, por agora. Antes de mais, escrevo motivado pela forma como, a meu ver, este filme de Nolan tem sido injustamente banalizado por alguma crítica nacional, que por estes dias tem respondido reactiva e preguiçosamente com nota contrária à recepção histérica de muita crítica norte-americana. Normalmente, como aconteceu com "The Dark Knight", as unanimidades no outro lado do Atlântico são mau presságio, mas a regra tem de ter as suas excepções - e a crítica, em geral, deverá estar aberta a abraçá-las.

Veja-se como "The Matrix" foi, no seu tempo, reduzido a "filme da moda" irrelevante por todos aqueles que queriam pertencer ao clube das cine-filiações exóticas e bem parecidas. Veja-se como quem criticou mais "Avatar" foi, precisamente, quem mais linhas gastou a reduzi-lo ao seu gimmick tecnológico, fazendo desta publicidade negativa - mas, caramba, má publicidade é boa publicidade - arma de arremesso contra todos aqueles que queriam olhar "para lá" da cortina tridimensional - e reflectir sobre o conteúdo, irónico e pessimista, logo, genuinamente Cameroniano, deste filme, que, está visto, até fez o favor de aniquilar as três dimensões.

Auto-conexão colectiva

"Inception" (2010)


"Avatar" (2009), etc.

"The Matrix" (1999)


Menciono estes filmes porque "Inception" engole-os tematicamente com a sofisticação formal que reconhecemos no melhor Nolan, que, de forma extremamente hábil, faz com esta sua última obra uma espécie de correcção de rumo depois de andar perdido por Gotham City.

Se "Memento" era um exercício de montagem desafiante, "Insomnia" apostava num modelo formal de sobriedade clássica, assente numa história de mistério e acção centrada num inspector da polícia, que - e isto não é um pormenor, como o título bem indica- não conseguia dormir. Por um lado, tínhamos a montagem cinematográfica a juntar as peças do puzzle mental de Guy Pearce e, por outro, a história - línear, unívoca, não-fragmentária e ininterrupa como que em permanente "estado de vigília" - de um detective que precisava de resolver o mistério de um crime para, finalmente, fechar os olhos e dormir. No primeiro, Nolan exteriorizava a "condição" do seu protagonista; no segundo, surpreendentemente, resolvia interiorizá-la o mais possível, numa das melhores interpretações de sempre de Pacino, que, com o corpo, ia transferindo o interesse da história do crime para a sua batalha contra uma insónia (ou a sua consciência). Não era Pacino versus Robin Williams, era Pacino versus Pacino. Nolan mostrava-nos isso, inteligentemente, naquele final elegíaco.

Ok, falámos muito de outros filmes que não "Inception". Falemos então deste filme. Nolan, agora com os bolsos cheios de dinheiro, pôde voltar a estas temáticas, isto é, pôde voltar ao seu "universo", numa espécie de reafirmação autoral no coração da grande indústria, a mesma que se mostrou algo insensível quando lhe endereçou o convite para filmar o intragável "Batman Begins". Enfim, Nolan voltou a si mesmo e com vontade de fazer sínteses, ligando, armado com as mais talentosas estrelas americanas (adoro Page, Gordon-Levitt e acho Di Caprio um actor admirável - já para não falar dos Senhores Watanabe e Caine -) e os melhores efeitos especiais do mercado, o exercício formal de "Memento" ao assombramento interior, concreto, de "Insomnia".

(Di)visões oníricas (ou não)

"Inception" (2010)


"INLAND EMPIRE" (2006)

"Blue Velvet" (1986)

Nolan cola as peças do seu puzzle, que parecia esquecido - falo da sua obra, claro -, e eleva um dos edifícios narrativos e visuais mais arriscados que Hollywood construiu nos últimos anos. Eis uma elaboradíssima Arquitectura narrativa em torno de conceitos como os sonhos, as realidades paralelas, a memória e, finalmente, o próprio cinema - que é isso tudo ou quase.

Nolan faz, de facto, um "blockbuster de autor", mas a crítica não vê isso - porque, se calhar, já tinha o lápis, como a língua, bem afiado antes do visionamento. Arrisco-me a dizer que, "corrompido" por tantos dólares, Nolan vai mais longe que Lynch em "INLAND EMPIRE" na tradução espacio-temporal dos sonhos ou no questionamento (filosófico, não há que ter medo da palavra) das nossas realidades subjectiva e intersubjectiva.

Se Lynch se fica pela experiência sensorial, quase puramente plástica ou sugestiva - o mais freudiano "Alice no País das Maravilhas", qual Burton qual quê! -, Nolan torna-se "acessível" a uma intriga com pessoas lá dentro, concebendo uma obra em camadas que se vão amontoando na presença do espectador - em "INLAND EMPIRE", a certa altura, Lynch começa a brincar sozinho no quarto escuro com a sua casa de bonecas assombrada, enquanto nós, espectadores-voyeurs, assistimos a tudo isto perdidos, aprisionados, violados... entre-muros. É natural: somos expulsos de um território que deixou de ser nosso. Em "Inception" - porra, é um filme comercial -, estamos sempre em casa.

"Inception" (2010)

"eXistenZ" (1999)

Ao mesmo tempo, "Inception" é um exercício quase matemático, uma equação complexa que Nolan nos dará a desvendar muito depois das luzes da sala de cinema voltarem a acender - o mais lúdico T.P.C. É, também, um filme, ou melhor, é cinema. Digo: uma obra que, não se perdendo num excessivo auto-deslumbramento tecno-lógico ou ilógico, não cedendo à tentação de instrumentalizar a história de amor como um Deus ex machina esotérico, tão pífio quanto incongruente - o que acontece com o final desastrado de "The Matrix" -, vai surpreendentemente longe na concretização espacial da sua narrativa totalmente abstracta (ou mental). É que "Inception" tem cinema lá dentro, como nenhum filme de Nolan. É um "eXistenZ" sem o excesso viscoso, por vezes, auto-indulgente, de Cronenberg.

Arquitectura dos sonhos/a narrativa "matrioshka"

"Inception" (2010)

"Synecdoche, New York" (2008)


"Inception" é também um filme que Charlie Kaufman não escreveu, mas que podia tê-lo feito dentro da estrutura (i)lógica em estilo "matrioshka" de "Being John Malkovich" ou mais ainda de "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" ou do subvalorizado "Synecdoche, New York". Nas cenas do hotel ou entre divisões, lembra "The Matrix", mas, mais que tudo, a mise en scène de David Lynch, com semelhante cuidado na iluminação, na escolha de adereços e no posicionamento dos "corpos" no espaço.


"Inception" (2010)

"Shutter Island" (2010)

Curiosamente, "Inception" também poderá rimar com um dos grandes filmes deste ano, "Shutter Island". Nos dois, Di Caprio vê-se obrigado a enfrentar - em sonhos ou fora deles... - a memória da mulher recém-falecida e, em ambos os filmes, entrecruzam-se inúmeras linhas de acção, cujo denominador comum é, precisamente, essa "luta interior". Por outro lado, em ambos, o slow motion é usado como grande efeito especial - e aqui detectamos um retorno a um certo primitivismo hiper-cinéfilo (também o filme de Scorsese é um cocktail de referências e estilos cinematográficos, uns vivos, outros mortos).

Enfim, face a tudo isto, pergunto, especialmente aos detractores, o seguinte: se a indústria é uma inevitabilidade, não será melhor que o dinheiro seja canalizado para filmes com ideias, que nos põem a pensar (nos seus Conceitos/Imagens), ao invés de ser usado para financiar filmes de acção vazios, com ruidosos efeitos especiais e uma história previsível e, tantas vezes, repetitiva, a servir de pretexto a autênticas "demonstrações de software"; mais Emmerichs e menos Nolans? Como fundamentam o ataque a "Inception" em face do que é, hoje, o mainstream norte-americano? Enfim, ficam as perguntas. Quanto a mim, foi o blockbuster mais divertido e inteligente que vi em muito muito tempo: acima de "V for Vendetta" e, inclusivamente, acima de "The Matrix".

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