sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

(...) as palavras são tiros e os tiros são palavras*

Quentin Tarantino, "Inglourious Basterds" (2009)

[F]alar é combater, no sentido de jogar, e os actos de linguagem relevam de uma agonística geral.

Jean-François Lyotard, A condição pós-moderna (1979), gradiva, p. 30

*- Daqui. (Ou como a palavra/o saber é mercadoria que se transacciona dentro do fluxo narrativo de um filme essencialmente pós-moderno.)

Prémios CINEdrio 2010

O top CINEdrio de 2010 sai amanhã, mas antes publico os outros destaques deste ano de cinema.

Melhor filme: "Go Get Some Rosemary" - é um cinema sem trela, à deriva pelas ruas (da infância), à deriva por referências passadas, de um cinema bastardo, o do New American Cinema, mas, mais do que isso, é um convite perfeito para se entrar num universo feito, adulto, de dois jovens cineastas: Ben & Josh Safdie. Obviamente, o melhor filme do ano.

Melhor realização: Raoul Ruiz ("Mistérios de Lisboa") em ex aequo com Kelly Reichardt ("Old Joy") - de um lado, a sumptuosidade viscontiana/ophulsiana de um realizador em perfeito estado de graça e, do outro, a fragilidade dura e doce de uma grande cineasta nascente.

Melhor plano: Elia Suleiman em "O Tempo que Resta". Uma das pequenas narrativas, tatiescas, em apenas um plano: o do hospital, em que um doente anda de um lado para o outro entre corredores - pertence ou não pertence àquele lugar? Toda a problemática do conflito israelo-palestiniano na arquitectura de um gag visual de puro génio.

Melhor actor: Adriano Luz ("Mistérios de Lisboa") - quantos papéis interpreta Adriano Luz em "Mistérios de Lisboa", ou melhor, a quantos papéis Adriano dá Luz em "Mistérios..."?

Melhor actriz: Michelle Williams ("Wendy & Lucy") em ex aequo com Juliette Binoche ("Copie conforme") - uma jovem actriz praticamente sozinha, com o seu cão..., faz um filme, ao passo que uma actriz intocável, monumental, rebenta/desorienta/desfaz em pedaços o equilíbrio de outro.

A revelação: Reichardt e irmãos Safdie - por motivos já expostos.

A desilusão: David Fincher ("The Social Network") - conseguiu fazer um biopic-antes-do-tempo de um figura cujo principal interesse é o seu progressivo auto-anulamento quanto mais se envolve na sua torre de Babel cibernética, que tem convertido em ideologia uma era que se diz da transparência, das solidões interactivas, do "desindivíduo" (este, se calhar, inventei-o eu agora...). Interessante objecto? Muito interessante, mas Fincher perde-se em detalhes secundários (como a batalha judicial) e não tem coragem de lidar directamente com o bicho do momento: o Facebook e o seu criador mabusiano (no sentido de totalitário, omnipresente, "invisível") chamado Mark Zuckerberg*. Enfim, aquele que podia ter sido um brutalíssimo "Zodiac II" é, afinal, um biopic insípido by the book.

*- Acho graça a todos aqueles que elogiaram "The Social Network" pelo facto do Facebook "não estar lá", associando este filme a uma atemporalidade careta, completamente desfasada do real interesse que moveu quem fez e quem foi ver o filme, que é basicamente um "como andam estes tempos?" ou um "o que fazer com um futuro à imagem de Zuckerberg?". Enfim, come disto quem quer.

Beyond a Reasonable Doubt (2009) de Peter Hyams


Aqui está um exemplo de como um trabalho de argumento relativamente bem feito pode não resultar obrigatoriamente num filme bom. Este remake do "especialista dos remakes/sequelas/filmes de acção inanes" Peter Hyams, de argumento assinado pelo próprio, corrige alguns dos problemas de credibilidade do original de Lang, um filme com uma narrativa com tantos buracos quanto um queijo suíço. Por exemplo, os motivos das personagens são, agora, mais claros e convincentes, pese embora se mantenham algumas incongruências, no mínimo, dispensáveis: desde logo, Hyams não consegue abstrair-se do acessório, isto é, saber "quem matou quem", o que, para o "motivo central" da narrativa, é de uma irrelevância total.

Mas, pois é, estamos em Hollywood e não podem ser deixadas perguntas sem resposta mal as luzes do cinema se voltem a acender. Então, Hyams arranja uma história algo mirabolante, mas, ainda assim, mais convincente que o original, nomeadamente, quanto às razões que levam o protagonista a enveredar por uma tentativa de fazer implodir o sistema de justiça, expondo ao país um district attorney ultra-maquiavélico interpretado por Michael Douglas - uma interpretação que soa a "part-time job", ou naquilo que em bom português se define como "dar uma perninha", face às poucas aparições da super-estrela neste filme que, com um elenco de actores de quarta categoria e um cuidado visual próprio de um telefilme, parece ter custado cinco tostões.

Nem menciono todo o subplot inacreditável do capanga de Douglas, que é um pretexto para haver perseguições e tensão num filme que se devia, a meu ver, centrar na ideia original, eticamente contestável, do seu protagonista. Seria, a meu ver, muitíssimo mais interessante que todo o plano do jornalista corresse, no fim, depois de uns quantos imprevistos vá - tem de haver algum suspense, c'um raio! This is Hollywood, baby! -, digo, que o plano do jornalista corresse como previsto, mas que, MESMO ASSIM, com o paleio e jogo de cintura do district attorney este convencesse o júri a condená-lo. Seria este, a meu ver, o caminho a seguir num filme político - o de Lang era, coisa que este não é nem por um segundo - que pusesse em causa, de algum modo, o funcionamento da justiça americana. (No filme de Hyams há uma pessoalização excessiva no embate entre o jornalista e o district attorney que o esvazia de uma intenção mais geral ou extrapolável.)

Mas não, nada disso: "Beyond a Reasonable Doubt", apesar dos esforços claros de Hyams de tornar mais coeso o plot do original, é irrelevante como objecto cinematográfico e, mais do que isso, como parábola política.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Os rostos de 2010

Figura do ano (internacional)

Kelly Reichardt

Estreou "Wendy & Lucy" (depois de ter sido exibido no IndieLisboa), aquele que pode ser descrito como o seu "Umberto D.", e teve um desonroso lugar no mercado direct-to-dvd português deste ano, com a edição do magnífico "Old Joy". Disse desonroso? Se calhar nem tanto... se atendermos ao facto de outra grande descoberta do ano, Brillante Mendoza, ter visto o seu melhor filme, "Kinatay", vencedor do prémio de melhor realização em Cannes, ser lançado unicamente em DVD no nosso país - ao passo que "Lola" teve estreia comercial, vá lá! De qualquer modo, voltando àquela que é, para mim, a figura do ano, tenho a dizer que Reichardt é um dos grandes valores do actual cinema independente norte-americano, não só pela qualidade dos filmes estreados, mas também por aquilo que esta promete oferecer no futuro próximo, nomeadamente, o seu último filme, um western, muito elogiado em Veneza, chamado "Meek's Cutoff".

Figura do ano (nacional)

Manuel Cintra Ferreira

Sempre por amor ao cinema, Manuel Cintra Ferreira não deixou de dedicar os últimos meses, semanas e dias a levar mais longe a descoberta renovada que é, ou pode ser, o cinema, o grande e o pequeno cinema, indistintamente. Para o falecido crítico do Expresso, programador de excelência da Cinemateca, não havia bons e maus filmes, ou melhor, não havia filmes dispensáveis - o cinema não se dispensa, nunca. E, assim, com uma capacidade enorme de se deslumbrar com o mais improvável dos objectos - e de se espantar renovadamente, cá está, com os grandes clássicos que sabia acarinhar como poucos - Manuel Cintra Ferreira trilhou o seu caminho como um dos mais empenhados e democráticos críticos nacionais. A coluna deixada vazia no Expresso pesa sobre todos aqueles que o seguiram, semana a semana, em respeitosa concórdia ou em muito saudável discórdia. Cinco estrelas para ele.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Balanço caseiro do ano de cinema

Começo o balanço de um ano de cinema com as minhas grandes descobertas caseiras. Esta é uma elencagem puramente pessoal, do que melhor se viu aqui por casa, entenda-se.

Safdie

No top do ano este nome estará lá, bem destacado. No balanço caseiro, tenho de destacar o meu primeiro "Safdie film": a média-metragem "The Pleasure of Being Robbed". Fabuloso "filme de rua" sem rumo certo, que se faz de saídas dentro de saídas, como que levado pela vertigem dos nossos tempos - mas a ideia de tempo aqui é alvo de brincadeira "irresponsável", como se também o tempo fosse uma, ou fosse "a principal", produção nostálgica dos irmãos Safdie.

Budd Boetticher

Quatro filmes que passaram no canal Hollywood e que tive oportunidade de ver este ano, sempre com fome de ver mais logo a seguir... "Buchanan Rides Alone" e "Ride Lonesome" parecem-me ser verdadeiros emblemas do melhor western dos anos 50: uso deslumbrante do scope, cores techcnicolor de nos fazerem rebentar o coração de nostalgia e encanto e temas de amargura e, precisamente, de avassalador desencanto. É o belo crepúsculo num género nobre, em si mesmo, tremendamente, ou, diria, fordianamente, crepuscular.

Musicais de Lubitsch

"The Love Parade" e "Monte Carlo", da caixa da Eclipse dedicada aos musicais do génio alemão. Estes são provavelmente os filmes mais arrojados que vi este ano. A música é diegética, prolongamento divertido e erótico dos diálogos que celebrizaram Lubitsch - e Hawks e Wilder e Sturges - na grande arte da screwball comedy. A dinâmica homem-mulher aparece pontuada com afiado sentido de humor, numa época em que os códigos de censura em Hollywood ainda não se haviam implantado. Liberdade e ousadia - coisas inestimáveis dentro do estilo clássico.

Eastwood

Dois filmes, fora dos mais recentes do "último dos clássicos", reciclaram o meu fascínio por Eastwood depois das desilusões que foram "Changeling", "Gran Torino" e "Invictus" - e antes da que mais que se adivinha que será "The Hereafter". Esses filmes foram "Escape From Alcatraz" (mostrado no canal Hollywood), realizado pelo primeiro mestre de Eastwood, o grande Don Siegel (realizador que vem do classicismo mais "seco" de Hollywood e que, nos anos 60 e 70, desagua na perfeição no rough style dos movie brats); e a obra-prima "Bronco Billy" (exibido no canal FOXNext), comédia realizada por Eastwood em 1980 e que tem tudo lá dentro: nostalgia por um passado que não volta mais e uma doce evocação, comovente mesmo, da infância-de-Hollywood-que-é-a-de-Billy. Todo o western reduzido ao acto performativo de um grupo de circo falido. Nada mais crepuscular. Também... (Eastwood é confesso fã de Boetticher...)

Lloyd por Lloyd e Lloyd por Sturges

"The Sin of Harold Diddlebock", editado recentemente pela BACH Films, em complemento do obrigatório "The Freshman", clássico slapstick do génio cómico Harold Lloyd, constituíram o double bill mais perfeito que fiz aqui por casa. O primeiro pega no final deste último e "alonga-o" em todo um "novo filme", celebração wacky q.b. de toda uma carreira que, com o sonoro, se eclipsou... até aos dias de hoje.

A pirâmide humana de Rouch

Obrigado )intermedio( por me teres dado a descobrir cineasta tão moderno. Para quem ainda se deslumbra, hoje, com as fronteiras ténues que separam documentário e filme de ficção, ora experimentem espreitar qualquer um dos documentários que Jean Rouch realizou nos anos 50 e 60, por toda a África francófona e anglófona, sobre a experiência (muitas vezes traumática) da desconolização, sobre o racismo do homem branco versus o racismo do homem negro, sobre as relações entre tradição e modernidade, entre "campo" e cidade, entre mulher e homem, jovem e velho... Está tudo aqui, devidamente "dirigido" por um realizador que se "imerge para fazer emergir" a realidade. "La pyramide humaine" (1961) é tudo isto e mais: uma espécie de "Tabu" da Nouvelle Vague francesa, filmado na Costa do Marfim, com estudantes brancos (franceses) e negros (costa-marfinenses), sobre, precisamente, a interacção entre brancos e negros num país (de)formado por eles (por ela). Este filme tem o lirismo trágico do filme de Murnau, a doce "itinerância" de um Rohmer ou Godard e o calor - melhor, A ENERGIA - do continente africano. Belo e intenso. Vérité ou não.

"Trilogia da Guerra" de Rossellini

Dificilmente alguém me convencerá que houve edição em DVD mais relevante este ano. Falo da "Trilogia da Guerra" de Rossellini, editada pela Criterion Collection com o rigor e "amor à arte" que lhe reconhecemos por inteiro. Redescobrir o grande cinema saído da experiência inominável da guerra é rever "Roma, Cidade Aberta", "Paisà" e "Alemanha, Ano Zero" (na sua versão original, isto é, em alemão) em excelentes cópias. Para quem conhece as outras cópias que havia no mercado - "Paisà" já nem se encontrava... - perceberá facilmente a dimensão desta renovação, que, para mim, foi uma revolução para os olhos!

The Red Badge of Courage

"The Red Badge of Courage" (mostrado numa das sessões duplas da RTP2) é, de longe, o melhor filme sobre a guerra civil norte-americana que vi. Mas vou mais longe: o mais honesto, brutal e belo retrato psicológico sobre o homem (ou o rapaz que se torna homem) no campo de batalha. Facilmente rivaliza com outros grandes retratos do indíviduo em face do horror inumano da guerra, como o velhinho "The Big Parade" e os recentes "Letters From Iwo Jima", "A Barreira Invisível" ou "Full Metal Jacket". Se dúvidas houvesse - no meu caso, nunca houve - está aqui provado o génio inesgotável de Huston.

Memories of Murder

O thriller que interessa. Filme de 2003 do realizador sul-coreano Bong Joon-ho, que estreou este anos nas nossas salas o excelente "Mother", mas que em "Memories of Murder" realiza uma verdadeira magnum opus dentro desse género tão predominantemente americanizado do filme obcecado em seguir o rasto de um serial killer de rosto anónimo. Não é o plot que me leva a colocar "Memories of Murder" aqui, mas o nível de inspiração de cada plano; no fundo, toda uma arquitectura visual, que é um assombro. Urge uma edição deste filme em Portugal.

10 Rillington Place

Richard Fleischer em Londres, tenebroso e gélido. Foi o filme de terror mais brutal que vi este ano, onde tanto John Hurt como, acima de tudo, Richard Attenborough têm interpretações que nos cravam a pele pela sua lancinante crueza. Fleischer é magistral a criar o ambiente sinistro adequado a uma Londres cinzenta, "sem estação", assombrada por uma série de homicídios cometidos na morada que dá título ao filme. Numa palavra,"10 Rillington Place" (mostrado no canal TCM) é um dos mais aterradores pedaços de "não-ficção" pós-clássica passada numa Londres sob a ameaça de um psicopata pervertido (superior a "Peeping Tom" e a "The Collector", e, talvez, maior que "Frenzy"...).

O noir do ano

Foi "Pépé le Moko" , provavelmente, o primeiro noir da história do cinema, entre o gangster movie norte-americano e aquilo que se veio a institucionalizar como um estilo autónomo dentro do estilo maior de Hollywood: o film noir. "Pépé le Moko" é obrigatório para seguidores do film noir americano, na medida em que abre portas para todo um universo que carece, hoje, de uma maior divulgação: os primórdios do noir, em pleno coração do realismo poético francês, de que um Marcel Carné e Julien Duvivier ( o realizador de "Pépé...") foram nomes cimeiros, mas que acabaram por ser engolidos por nomes como Vigo e Renoir. "Pépé le Moko" tem tudo aquilo que adoro nos clássicos do género, de Dassin, de Huston, de Lang, de Hawks, de Dmytryk, de Tourneur, etc.: estilizado labirinto mental, com EXPRESSÃO no cenário e no próprio plot, entre a sedução e o crime, a culpa e a redenção, onde as mulheres e homens são víboras e santos ao mesmo tempo. O final de "Pépé le Moko" ainda arrepia visto hoje - eu disse visto? Ainda arrepia recordado neste instante, enquanto escrevo!

Para o próximo ano espero aprofundar a obra de alguns destes cineastas e de outros que tenho em vista, como Hong Sangsoo, Josef Von Sternberg, Mikio Naruse, Frank Borzage, Chantal Akerman e Joseph Losey. Até lá, bom ano!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXXV): "o problema" pode bem começar aí...

DOIS MIL QUINHENTOS E VINTE

As críticas de Pedro Borges, da MIDAS Filmes, ao estado da RTP2 são devidamente contextualizados pelo panorama actual dos modos de ver cinema em Portugal. Este artigo de Vasco Câmara só vem dar conta de uma urgência: o gosto de ir ao cinema está-se a dissipar. Não por falta de interesse - visto que ele é manifesto pela afluência das pessoas aos festivais, até aos mais "alternativos" - mas pela ausência de uma "cultura de sala", que tem impedido as pessoas de integrarem as idas ao cinema nas suas rotinas de fim de semana.

Pedro Borges chega mesmo a criticar a multiplicação dos festivais de cinema e, na minha opinião, com bastante pertinência: "O público dos festivais só vai a festivais, não vai ver os filmes no resto do ano. Houve uma altura em que as pessoas diziam que não esqueciam o ano em que viram no King o 'Chungking Express' [Wong Kar-wai] ou 'A Bela Impertinente' [Rivette]. Os filmes marcavam a vida das pessoas. Isso hoje não acontece. O cinema tem que existir 365 dias por ano e não existe. O Estado tem de descobrir, nas cidades fora de Lisboa, parceiros que queiram mostrar cinema 365 dias por ano".

Olho à minha volta e sinto, mesmo entre o público mais cinefilamente filiado ou pretensamente cinéfilo, um desinteresse crescente pelo que as salas oferecem, muitas vezes, tantas vezes, aliás, em virtude de idas ao DocLisboa ou IndieLisboa. Mas é um "ir ao cinema" como quem se atira de cabeça para o vazio; não há, a meu ver, uma verdadeira excitação em "seguir" o evoluir de um universo ou de um conjunto de obras - ou mesmo de uma indústria! Espera-se, sim, que tudo isto lhes surja em pacotes retrospectivos pela mão dos festivais da moda ou, pontualmente, pela mão de esta ou daquela editora de DVDs - mas, para uma oferta interessada, só temos a excelente MIDAS. A (fome de) descoberta é mínima e a capacidade crítica ressente-se.

Depois, ainda mais acertadamente, Pedro Borges acrescenta: ..."E outra coisa: durante anos havia um canal de televisão de serviço público que mostrava estes filmes. Quando se mostra regularmente esse cinema, está-se a criar público. O facto de a RTP 2 ter deixado de passar cinema é um descalabro para a distribuição. Era possível esse cinema existir com visibilidade porque as televisões estabeleciam parcerias com os distribuidores independentes. Nos outros países apareceram canais especializados em cinema. Em Portugal os canais privados são piores do que a TV pública".

Fiz um sublinhado a bold no que julgo ser fundamental entender, de uma vez por todas: se há alguma coisa que distingue uma (boa) programação cultural das demais é que esta tem a capacidade de CRIAR público. Em Novembro, numa entrevista concedida ao jornal Público, pela mão de Jorge Mourinha (nosso subscritor), Thierry Garrel, programador de cinema documental do canal ARTE durante 16 anos, presidente do júri no último DocLisboa, sublinha algo parecido: "Se aprendi alguma coisa na televisão, é que, quando se aposta no público, oferecendo-lhe obras novas, supostamente complexas, mas que falam essa tal língua universal, o público está lá sempre. Sempre. Não está lá instantaneamente; a televisão comercial quer sempre medir instantaneamente a presença dos espectadores em frente ao écrã, e isso não é possível. Mas precisamente através de uma programação podemos construir um público".

E depois acrescenta: "Apesar dos novos meios de comunicação e tecnologias nascidas da revolução digital - um mundo que é uma selva e que ainda não tem economia - acho que a televisão programada ainda vai viver muitos anos. Há 30 anos anunciava-se o fim da televisão com a video-cassette, há 25 anos era o cabo que a ia matar, de cinco em cinco anos aparece uma novidade tecnológico-civilizacional que me parece francamente empolada..."

Há uma filiação que é feita, que se reproduz com o passe a palavra, que se passa com os VHS - de irmãos mais velhos para mais novos, de pais para filhos... - e que, em última análise, nos fica na memória, por envolver objectos que vieram iluminar um pedaço da nossa vida. O "problema RTP2" pode bem ser o princípio de um problema maior, que os festivais maquilham mal: a falta de uma cultura de sala, crítica, activa e "programante" (no sentido de levar as pessoas a saberem programar os seus visionamentos), em Portugal.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Beyond a Reasonable Doubt (1956) de Fritz Lang


Não há fundamentalismos aqui. "Beyond a Reasonable Doubt" é um filme de Lang, com Dana Andrews, mas isto, só por si, não faz dele um bom filme. Numa palavra, a intriga é envolvente, mas a espaços grosseiramente incongruente, quase negligente. Num filme sobre a pena capital e os interstícios do sistema judicial norte-americano - no fundo, as suas brechas escandalosas que permitem a condenação à morte com base em meros indícios de circunstância e não matéria de facto... - impunha-se algum rigor à arquitectura narrativa.

Há uma incongruência nos factos, desde logo, no modo como decorre a investigação da morte de uma bailarina de cabaret, porquanto parece risivelmente superficial, ao ponto de só perto do fim ficarmos a saber o nome "verdadeiro" da vítima, quem é o seu "manager" e a história de um namorado "abusador"... então mas a polícia não fez investigação? Foi tudo mesmo um exercício de retórica por parte do district attorney, só isso e nada mais? A intriga, que tem uma ideia base, de facto, muito interessante, peca pela forma básica como retrata os próprios meios de investigação do sistema judicial americano. O espectador não sabe quase nada da rapariga e ficará sem saber até ao momento em que, já condenado um "suposto" inocente, alguém começa a fazer perguntas tão básicas como: quem era e com quem é que esta andava?

Depois, como se explica o final desconchavado, justicialista, em que ficamos a saber que aquilo que parecia forjado era, de facto, uma astuta manobra de diversão do assassino? O twist poderia ser inteligente, mas se a versão final dos factos (verdadeira?) fosse credível. Como é que ninguém - muito menos a polícia, não é verdade? ou o tão elogiado district attorney? - procurou encontrar a ligação entre o condenado e a vítima? Estamos na presença de um julgamento medieval, que, a certa altura, parece "gozar" com a inteligência do espectador pelo simplismo bárbaro dos seus procedimentos. Não é crível que a justiça americana alguma vez se tenha processado deste modo.

Outra ordem de incongruências. Desde logo, os fracos motivos dos dois homens envolvidos no plano rocambolesco, e sem dúvida empolgante, que estrutura a narrativa do filme. Sobre estes, questionamos a própria licitude do plano, e não vemos nele qualquer tipo de acto heróico contra a pena capital; apenas uma muitíssimo pouco ética, até terrorista!, tentativa de desmontar o sistema por dentro... Teria sido muito mais interessante se o "master mind" estivesse ciente do verdadeiro grau de culpabilidade do seu "parceiro" - como já deve ter reparado o leitor atento, estou a tentar não estragar a surpresa, mais que tudo, "as boas surpresas" do plot. Outra incongruência prende-se com a fraca caracterização da personagem de Joan Fontaine. Sempre deslumbrante, com um ar de princesa imperturbada - ela que, de súbito, enfrenta a morte do pai e vê o ex-noivo envolvido num homicídio brutal! Em momento algum, Fontaine evidencia a mínima prostração; é uma personagem esvaziada, quase desumana... plástica. Um adereço.

Lang não é totalmente bem sucedido neste filme, tal como não o fora em "While the City Sleeps", filme realizado também em 1956 e também com Dana Andrews no papel principal. Este díptico judicial, com toques de noir, peca pela fraca ligação entre factos, como pela artificialidade dos interesses que movem cada personagem. Ambos, contudo, atacam duas questões fundadoras da democracia americana: os limites da liberdade de imprensa e da justiça dos tribunais. Tendo em conta todas as inexactidões, e o registo excessivamente apressado, calcanhar de Aquiles de alguns dos mais ousados filmes da RKO (exemplo de "Angel Face"), estes filmes, mais precisamente "Beyond a Reasonable Doubt", testam ao absurdo a suspension of disbelief do espectador moderno, mas, com a disposição certa, são dois cativantes films noirs políticos de Lang - é mais por aí, do que pela via judicial "de substância", que importa reter estas experiências.

Cavaco is back and so is the good old cavaquês (V)

Cavaco, no último debate presidencial, diz que se compromete a exercer uma "magistratura de influência activa" caso seja eleito. Há cinco anos, o mesmo Cavaco prometeu uma "cooperação estratégica" com o Governo. Entretanto, desde que a crise estalou, Cavaco mudou a agulha: mandou dar uma volta à cooperação e dá vida, agora, a uma magistratura que se quer influente. No dito debate, com o candidato do PCP, Cavaco acrescentou um adjectivo: "activa".

A quantidade de latim que foi gasto a tentar descodificar, nos últimos 5 anos, o que raio era isso de "cooperação estratégica" dava para encher este blogue e afundá-lo no ciberlixo que nos intoxica os dias. Alguns politólogos e analistas já se começaram a entreter com a "magistratura de influência" como uma criança com o seu novo brinquedo. "Activa", Cavaco ponderou, reflectiu aturadamente durante dias, semanas, meses, e disse. Durante esse tempo claudicou entre "activa" e "passiva", ter-se-á decidido há dias. Nada será como dantes.

Imaginem se tivesse dito: irei exercer uma "magistratura de influência passiva". Seria o primeiro a influenciar passivamente algo ou alguém, mas Cavaco não se quis aventurar, como bom social-democrata da ala mais conservadora que se apanha. Ficou-se por uma influência activa. "Passivamente activa" - é a que se segue...

Programação de cinema na RTP2 (XXXIV): como dizem os jogadores de futebol...

DOIS MIL QUINHENTOS E CINCO


Pois é, quando iniciámos esta petição tive uma conversa com o meu compagnon de route Miguel Domingues e lembro-me bem de nos termos rido perante a possibilidade de virmos a ter sequer 1000 assinaturas. Dissemos que um número como 2000 ou 2500 seria algo de incontornável para a direcção da RTP2, mas, falo por mim, nunca acreditei que chegássemos lá - e tão rapidamente, em menos de 4 meses!

Muito tem acontecido dentro e à volta da petição. Mais assinaturas significativas - como a de Jorge Campos -, mas acima de tudo temos merecido alguma atenção mediática, nomeadamente, na coluna diária de Jorge Mourinha, a quem agradecemos.

A notícia da morte de Carlos Pinto Coelho marca, para mim, o momento mais doloroso desta iniciativa, porque, estou certo, se havia exemplo vivo da (resistência à) política castradora do segundo canal este era Carlos Pinto Coelho, alguém que, noutro contexto, ou melhor, no contexto certo, teria continuado a sua carreira enquanto brilhante comunicador e divulgador da língua e cultura portuguesas que era e sempre foi, abnegadamente. Por ele, queremos mais do que nunca tornar consequentes todos estes maravilhosos apoios.

Estamos todos, 2505 pessoas, no mesmo barco, a remar no mesmo sentido, ao sabor da mesma maré (desafiando os mesmos tubarões...). E, como já tive oportunidade de dizer, ainda vem aí um importante II Acto. Continue a seguir-nos, a assinar e a dar a assinar. Até lá, como dizem os jogadores de futebol, "estamos todos de parabéns".


E, tantas assinaturas depois, continuamos a dizer: senhores e senhoras da RTP2, "You're definitely in denial".

Someone's Watching Me! (1978) de John Carpenter


Foi a pensar em Hitchcock que Carpenter fez o telefilme "Someone's Watching Me!". Fez, nos anos 70, aquilo que Brian De Palma experimentou fazer no subvalorizado pastiche quase algorítmico "Body Double": tranformar o filme em espaço de convocações hitchcockianas ("Blackmail" + "North by Northwest" + "Rear Window" + "Vertigo" +...), postas "em abismo" em cada sequência, décor, adereço, sugestão de câmara...

O "fora de campo" é, naturalmente, rei aqui - já o era, entenda-se, no ultra-conceptual, mais ainda que "Birds", "Halloween". Uma mulher é assediada por um peeping tom invisível. Saber que está a ser vigiada por um vizinho de um dos prédios da frente não a ajuda na captura do "assediador", porque estamos em L.A., numa paisagem formada por grandes blocos de betão e vidro. Janelas defronte a janelas, janelas que convidam ao voyeurismo mais primário que corre nas veias de qualquer (?) homem solitário.

Incrível como Carpenter, num projecto para televisão, vai mais longe que De Palma em "Body Double". Leigh Michaels, a personagem feminina, é uma realizadora de televisão - profissão nada inocente, como veremos - que é perseguida pelo olhar indiscreto de um homem anónimo, que lhe envia presentes e cartas com o carimbo de uma agência de viagens-fantasma. A tensão vai-se avolumando à medida que Leigh vai colando os fragmentos, isto é, tomando nota da insistência compulsiva do remetente anónimo e das chamadas estranhas que tem recebido. Em suma, estamos aqui na presença de uma espécie de "Janela Indiscreta" invertida, visto que a perspectiva que o filme adopta é a de "quem é visto" e não a do voyeur.

Outro elemento fundamental na intriga é a personalidade de Leigh: não é a típica barbie histérica dos slashers da praxe; Leigh (excelente Lauren Hutton) é uma mulher independente, "de iniciativa", com um sentido de humor muito próprio, que esta tem como pouco atraente para os homens - talvez se tenha habituado a seduzir e não a ser seduzida. É uma "mulher à Carpenter", portanto; ou seja, é uma mulher que tem pouco a ver com o cinema americano, ainda menos, com o cinema americano de terror. Por isso, perante a inoperância das autoridades, tomamos como natural a iniciativa que Leigh toma de ir de faca em punho acertar contas com o assediador - e também tomamos como natural que o seu namorada e amiga não procurem demovê-la de tão incauta inciativa.

O que alimenta este filme de Carpenter é então o jogo de forças entre vítima (mulher activa e temerária) e agressor (passivo na agressão, um cobarde como todos os peeping toms...); ou melhor, é "a forma como este jogo é jogado". É quase um "gato-rato" entre quem vê e quem é visto, situação incómoda, tão ameaçadora quanto aviltante, para uma mulher, para uma realizadora... A violação é dupla, portanto, apesar de, mesmo sendo dupla, nunca se consumar fisicamente, nem consta que se "queira" consumada dessa forma pelo agressor.

Quem realiza este filme é o agressor (o homem invisível, que grava a acção da vítima, toma nota de cada uma das suas movimentações e a "dirige" virtualmente até ao seu encontro... tal como um realizador?) até que a vítima reclame a posição que é sua por direito próprio. A certa altura Leigh diz: "por estes dias até me esqueço que sou realizadora". A partir daí o caldo está entornado para o assediador; Leigh quer a sua vida íntima, mas acima de tudo a sua vida profissional DE VOLTA. Leigh está farta e, por isso, está mais do que disposta a assumir daí em diante a condução deste filme. Soberanamente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

On vacation: manual de sobrevivência para situações improváveis

"Open Water" (2003) de Chris Kentis

"Frozen" (2010) de Adam Green


(Confesso que acho piada a este subgénero quase artesanal, anti-CGI, do cinema de terror apostado em reconstituições cinematográficas do tipo de fait-divers que preenchem as páginas mais recônditas dos diários ou que, de quando em vez, ocupam, continuadamente, como uma soap opera da vida real, o espaço dos telejornais. São estórias sobre pessoas comuns apanhadas, por circunstâncias estúpidas, numa situação-extrema que vem activar as suas primárias aptidões de sobrevivência, ao mesmo tempo que, perante uma ameaça externa da Natureza (tubarões no primeiro, lobos no segundo...), constitui um teste à capacidade de co-habitação humana debaixo de um clima de puro medo.)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Cavaco, o apolítico? (IV)

Cavaco, escaldado com as críticas de Sócrates - e, nós sabemos, aquele é "vingativo", tal como o caracteriza a diplomacia americana, cortesia Wikileaks -, não remeteu o povo ao seu site ou aos seus discursos dos anos 80. Disse directamente que desde o início do seu mandato se tem preocupado com as questões da pobreza; que, no primeiro discurso do 25 de Abril, alertou "os políticos" (palavras dele) para a situação dos mais desfavorecidos. Cavaco é o político que está no poder há mais tempo em Portugal; está envolvido na gestão do Estado desde, pelo menos, os anos 80, ou seja, há perto de 30 anos que Cavaco se dedica, quase em exclusivo, à política.

Acho muito interessante que se auto-exclua, como um trauma, da classe dos tais "políticos" a quem se dirige quando fala de pobreza. Cavaco refugia-se num suprapartidarismo completamente fabricado e num "apolitismo" ainda mais grave, na medida em que ele é, DE FACTO, o mais profissional e tecnocrata dos políticos nacionais do pós-25 de Abril; ele é o cientista que deu vida ao Frankenstein da Terceira Via chamado José Sócrates. Mas nem dessa obra ele se responsabiliza...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nobre com (boas) ideias para o país (III)

Ao contrário de Cavaco, que diz que ninguém o ouviu no passado mandato - não admira que não se ouça quem não diz nada! -, e até ao contrário dos restantes candidatos provenientes do actual - e muito enfermo - sistema político, Fernando Nobre tem falado de medidas que são, a meu ver, corajosas.

Uma delas passa por uma redução no número de deputados (100 é o número apontado), uma maior responsabilização, logo, acréscimo de qualidade do trabalho parlamentar e, não menos importante, uma aproximação maior entre representantes e representados (através da Internet, mas, acrescentaria eu, de iniciativas, como debates, visitas organizadas, etc., dos deputados, ministros, secretários de estado e, localmente, autarcas). Acho que é tempo de se institucionalizar uma verdadeira "política de proximidade", visto que esta, nos tempos que correm, parece só servir para o arrebanhamento de eleitores.

Ou seja, o que Fernando Nobre diz está muito próximo daquilo que eu defendo como uma das soluções mais viáveis para a reestruturação pacífica do Estado português. (A minha inclinação de voto para o nulo começa a mudar.)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

The Thing From Another World (1951) de Christian Nyby


O "The Thing" de Nyby, produzido por Hawks, é diferente do "The Thing" de Carpenter nalguns aspectos curiosos. Neste sci-fi de terror o "alien", espécie de vegetal sobredesenvolvido que vem perturbar os trabalhos de um grupo de exploradores norte-americanos, é usado como permanente "antecipação" do perigo. Isto é, o medo é gerado, sobretudo, na ausência da sua imagem. No fabuloso remake de Carpenter, o "alien" é frontalmente encarado pela câmara e só se torna verdadeiramente perigoso quando se instala no organismo dos protagonistas, virando-os uns contra os outros - situação clássica em Carpenter, como nalguns Hawks (exemplo de "Red River"). A imagem do inimigo vai-se confundindo progressivamente com a imagem do homem, mesmo do melhor dos homens.

Este jogo perverso está invertido no original: o "bicho" vai-se distinguindo cada vez mais da "forma" e, acima de tudo, do "conteúdo" humanos. Claro que a curiosidade e tensão que desperta vão lançar alguma discórdia entre os membros da comunidade humana, mas aqui o "bicho" é só um assunto, isto é, não se substitui materialmente aos protagonistas; não faz com que o próprio espectador se perca na acção, sem referências de "bem e mal". A perversidade de Carpenter é, obviamente, mais moderna, mas não nos iludamos: o clássico de Nyby-Hawks mantém uma frescura notável, tendo suscitado em mim outra ordem de evocações. Pensei mais em Shyamalan, e no seu "Signs", quando vi o "bicho", pela primeira vez, de corpo inteiro, já havia passado mais de meia hora de filme.

Apenas o vemos de relance, numa porta que se abre (as portas que se abrem... muito carpenterianas...), isto é, a primeira imagem do "bicho" é um flash de horror, como que mediado pela fronteira da porta, como o extraterrestre no filme de Shyamalan é-nos dado a ver, pela primeira vez, de corpo inteiro, num breaking news televisivo. Partilhamos, na qualidade de espectadores da televisão e da porta que se abre, duas janelas "virtuais" abertas pelo cinema - sobremediação... quem a controla? -, digo, somos levados a partilhar a exclamação muda de horror que abala o espírito das personagens. E o espírito é colectivo, e poderá ser medium, numa obra de terror desta natureza.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cavaco intervalou para se descavacar (II)

Finalmente Cavaco dispensa descodificação. Responde directa e objectivamente às acusações dos seus adversários a Belém, com uma particularidade: fá-lo com incisão e claramente. Dá nome aos bois (aos boys?): de facto, Alegre tem revelado uma estratégia "desesperada" (a palavra é de Cavaco) baseada numa atitude reactiva, quase primária, a cada intervenção ou não-intervenção de Cavaco Silva.

Se Cavaco critica os Açores por reivindicarem um "regime de excepção" no caso dos cortes salariais, vem Alegre defender (corporativamente, olhó "senhor da independência de espírito"!) o seu camarada de partido, Carlos César. (E terá ficado embaraçado quando viu que estava sozinho nesta contenda...) Já antes Alegre tinha adoptado a mesma estratégia. Cavaco devia chamar os partidos, para gerar consensos?

Pois, quando Cavaco os convoca, aparece Alegre, projectando as cordas vocais, em tom declamatório, a criticar que foi tarde demais, que ele tinha sido mais rápido. Alegre desafiou Cavaco a quebrar "o tabu" da recandidatura - acabem com isto, sempre que há Cavaco, lá vem a oposição de esquerda com a história do tabu...

Pois bem, o tabu foi quebrado, mas até lá Alegre não perdeu uma chance para acusar o Presidente da República de já estar em campanha eleitoral, e de se servir do seu lugar para granjear mais apoios. Cavaco tem razão quando fala em desespero da parte de Alegre. Neste ponto, vá lá, o senhor Silva falou português e deixou o cavaquês em casa(, a cuidar dos netinhos.)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

No cavaquistão falai cavaquês (I)

José Pacheco Pereira está para Manuela Ferreira Leite como eu espero vir a estar para Cavaco Silva no que falta até ao grande dia, em que este deverá ver renovado o mandato enquanto Presidente da República.

O que proponho - na sequência do que faço há muito entre amigos - é descodificar as suas sábias palavras aparentemente auto-evidentes ou la palicianas, mas, na verdade, seus ignorantes!, cheias de sentidos duplos e milhares de intenções contraditórias e complementares - é isso que certos politólogos, bichos estranhos..., e yes men do PSD e arredores nos querem fazer crer.... aahhhh, eis a seiva que nos alimenta os dias: a libido decorticandi do subtexto cavaquista.

Pego num título de uma notícia para lhe descortinar, nesta semiótica arriscada do cavaquês, a substância ou, como se diz na terra da minha mãe, a sustância.

Cavaco espera que promessas feitas às vítimas do mau tempo sejam cumpridas.

Descavacando... sugiro fazer o contrario sensu: Cavaco espera que promessas feitas às vítimas do mau tempo não sejam cumpridas.

Voilá.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

...e saíram. Saíram de lá apenas como fantasmas dos seus gestos

"Un condamné à mort s'est échappé" (1956) de Robert Bresson

"Escape From Alcatraz" (1979) de Don Siegel

(Estou ciente que tenho, pelo menos, uma falha grave a colmatar, mas neste momento sinto coragem para me aventurar na seguinte afirmação: aqui estão os dois melhores espécimes do prison genre movie.)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Wikileaks

A polémica Wikileaks é de uma hipocrisia atroz. Sugiro uma mudança de perspectiva para a desmontarmos: se um qualquer senhor jornalista recebesse até a mais irrelevante informação que o senhor Assange recebeu, não a publicava? Vamos lá, digam sinceramente: resistiam noticiar que corre entre diplomatas americanos a ideia de que Zapatero é isto ou aqueloutro ou que a China se inclina para uma ideia de reunificação da Coreia?

Eu pergunto isto, depois de ouvir um jornalista chamado Miguel Sousa Tavares classificar as práticas do senhor Assange de "terroristas". Eu diria, em jeito de lamento, que é um acto "normal" do jornalismo que hoje se pratica; um jornalismo de secretaria - o Tintin já era, agora o que o jornalista faz é ficar na redacção o dia todo à espera que a notícia lhe venha por mail ou telefone... é um secretário -, que se deixa instrumentalizar pela exclusividade e explosividade dos furos noticiosos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O meu star-system

O outro dia falava sobre os meus critérios de gravação/aluguer de filmes na Box/vídeoclube. Tenho dois: primeiro, filmes de realizadores que aprecio, de realizadores "históricos" e de realizadores cujo trabalho conheço mal; segundo, filmes com actores que me enchem, quase sempre, ou sempre mesmo, as medidas.

Nesta última categoria incluo os seguintes nomes: Denzel Washington, Robert De Niro, Al Pacino, Gene Hackman, Gena Rowlands, John Cassavetes, Lee Marvin, Robert Mitchum, Sidney Poitier, Paul Newman, George C. Scott, Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Gostava de ver (mais) nomes não-americanos nesta lista - e mais mulheres - mas há pouco espaço para eles na nossa televisão e nos nossos vídeoclubes. Uma pena, porque acho que há público para outros cinemas, para outras caras...

domingo, 28 de novembro de 2010

A selvajaria intelectual continua e continua


Salvo um ou outro comentador do futebol, como Luís Freitas Lobo ou o treinador Carlos Carvalhal, a maioria dos opinion makers do futebol é, no mínimo, execrável. Mesmo não fazendo mais nada na vida - e provavelmente só conseguindo mesmo descodificar o óbvio num jogo de futebol -, certos comentadores exibem, sem que ninguém faça caso, uma clamorosa ignorância em relação não só ao passado longínquo como, o que é mais indesculpável, aos factos recentes do futebol nacional. Ouço na TVI algo como isto: "neste jogo o Benfica não está a acertar com os cantos".

Mas, ó senhor comentador, você, que não deve fazer mais nada na vida que ver jogos de futebol - coisa complexa, como todos sabemos... -, não viu o jogo do Benfica contra o Hapoel de Tel Aviv? Não viu quantos cantos o Benfica desperdiçou? Não viu a permeabilidade da equipa a marcar e a sofrer cantos? Cantos e livres, meu caro comentador, são o calcanhar de Aquiles do Benfica deste ano. David Luiz e Roberto - sobre o qual pende, hoje, a mais humilhante condescendência jornalística - que o digam.

Enfim, ocupam-se horas diárias a discutir algo que só merecia, quanto muito, uns minutitos de conversa, para depois termos de levar com a opinião ou mau jornalismo destes ditos especialistas da bola que raiam a ignorância fascizante ou um histerismo sabujo de bradar os céus (vide tudo o que o senhor Nuno Luz faz).
Pronto, já me queixei. Agora vou ver o Rui Santos comentar a jornada antes do "Tempo Extra", espaço onde Rui Santos - a gralha aqui é a televisão que temos - comenta durante mais de uma hora, precisamente, a jornada que acabou há minutos... Uma televisão com Alzheimer.

sábado, 27 de novembro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXXIII): na TSF de viva voz

DOIS MIL TREZENTOS E TRINTA

(clique na imagem)

Para quem percebe destas coisas do jornalismo, não é preciso eu dizer que uma estação como a TSF tem de citar Jorge Wemans no JN, porque este ignorou as suas chamadas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O declínio da aura

Abbas Kiarostami, "Copie conforme" (2010)

Este declínio [da aura] prende-se com duas circunstâncias, ambas correlativas à importância crescente das massas na vida actual. com efeito, encontramos actualmente nas massas duas tendências igualmente fortes: por um lado exigem que as coisas se lhes tornem espacial e humanamente "mais próximas", por outro tendem a colher as reproduções, depreciando aquilo que é único.

Walter Benjamin, "A Obra de Arte na Era da sua Reprodução Técnica" (1936), Parte III

(Sim, sou suficientemente pouco "original" para citar este texto. A razão é boa: o excelente último filme de Kiarostami, que está nas salas a partir de hoje.)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXXII): equívocos

DOIS MIL DUZENTOS E VINTE SEIS

Dois equívocos que tenho encontrado: 1. "não assino esta petição porque também falta teatro, música, literatura na RTP2"; 2. Uma fatia de pessoas parece considerar esta petição como coisa "pouco importante" (o cineasta António-Pedro Vasconcelos é uma delas).

Bem, quanto ao ponto 1, repito que as petições, como métodos democráticos que são, não podem ser EXCLUDENTES - a nossa não é excepção.

Quanto ao ponto 2, pergunto: num tempo em que estamos todos a apertar o cinto, não é importante denunciar aquilo que pode ser uma gestão irresponsável, danosa mesmo, de uma empresa 100% pública?

Como já disse, e repito, não podemos andar a brincar às televisões privadas no coração do serviço público. Não podemos.

Assine.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Vive Dreyer vive!

"The Village" (2004) de M. Night Shyamalan

"Stellet licht"/"Luz Silenciosa" (2007) de Carlos Reygadas

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Programação de cinema na RTP2 (XXXI): que RTP2?

DOIS MIL CENTO E CINQUENTA E DOIS

Jorge Wemans, director de programas da RTP2 destaca que a estação pública "é a única a emitir todas as semanas um filme às 22.30horas (mais nenhum canal emite cinema em prime-time)". "Emite em média 17 filmes portugueses por ano, além de dar atenção às cinematografias europeias - em média mais de 40 por ano", aponta, sustentando que a emissão cinematográfica na Dois se faz "dentro da contigência dos filmes disponíveis e das condições orçamentais".

Eu não sei como qualificar estas palavras do senhor Wemans. Só me ocorre dizer aquilo que acho que deve ser dito: absolutamente lamentáveis. Para além de fazer o auto-elogio absurdo de passar, em média, 17 filmes portugueses por ano - TANTOS! Não é? -, refere ainda que "dá atenção às cinematografias europeias", porque - lá vêm os números outra vez, qual empresário televiseiro - mostra, em média, 40 destes filmes por ano. Primeiro, este sistema de quotização, espécie de celebração acéfala da tecnocracia televisiva, é sintoma claríssimo da forma indigna como o cinema é tratado - é só mais um "conteúdo televisivo", não é verdade?

A retórica dos números funciona sempre bem, mas atendamos ao seguinte: senhor Wemans, 17 filmes portugueses por ano? Que filmes? senhor Wemans, 40 filmes europeus por ano? Que filmes? E, depois de me responder, pergunto-lhe logo a seguir: "E, senhor Wemans, de que forma os mostrou?". (Até foram buscar o Mário Augusto à "concorrência"... que, por sinal, lhe deve estar a sair muito barato... tendo em conta as "condições orçamentais"...)

Contrato de Concessão de Serviço Público - CCSP

Cláusula 10.ª
Segundo serviço de programas generalista de âmbito nacional

(...)

13. Tendo em conta o disposto nos números 1, 2 e 5 e nas alíneas b), d), c), g), h) e i) do n.º 2 da Cláusula 7.ª, o segundo serviço de programas generalista de âmbito nacional deve incluir, no mínimo:

(...)

c) Espaços regulares de divulgação de obras cinematográficas de longa-metragem do moderno cinema português, o que inclui produções dos vinte anos anteriores à transmissão;
d) Espaços regulares dedicados à cinefilia, com uma forte componente pedagógica, que contextualizem as obras difundidas na história do cinema;
e) Espaços regulares dedicados ao cinema europeu e a cinematografias menos representadas no circuito comercial de exibição;
f) Espaços regulares dedicados a curtas-metragens e ao cinema de animação
;


Ah, foi em "prime-time", num sábado à noite... Vejam só: "nenhuma estação passa em prime-time cinema". Pois claro, mas isso não evita que a RTP2, à luz do seu passado riquíssimo e à luz das exigências da LEI, seja hoje um canal descaracterizado, que é público, mas tem estratégia de um privado... de cabo. Não podemos andar a brincar às televisões privadas no coração do serviço público. Não podemos.

CCSP

Cláusula 6.ª
Objectivos do serviço público

Para além da sua vinculação aos fins da actividade de televisão a que se refere o artigo 9.º da Lei da Televisão, a Concessionária tem como objectivos específicos:

(...)

b) Promover, com a sua programação, o acesso ao conhecimento e a aquisição de saberes, assim como o fortalecimento do sentido crítico do público;
c) Combater a uniformização da oferta televisiva, através de programação efectivamente diversificada, alternativa, criativa e não determinada por objectivos comerciais;


Questões orçamentais, senhor Wemans? Não posso acreditar que invoque tal razão neste caso: é caro passar uns Tarkovskys e fazer uns "Filme da Minha Vida" versão século XXI? Não é gratuito, mas não consta que sejam gratuitos os talk shows nocturnos que produz, o único formato de talk show que conheço que tem uma equipa diferente por cada dia da semana - nem nos EUA isto acontece!

E, já agora, onde encaixa "5 para a Meia-Noite" e as séries todas que passa, duplicadas com vários outros canais do cabo, nas obrigações do canal? Passam 17 filmes portugueses, em média, por ano? E quantas séries americanas, das que também passam em Foxs e outros canais especializados, passa por ano? Não sei, mas 17 filmes portugueses, 40 europeus ou, que seja, os 98 que a Sessão Dupla passa por ano (segundo o JN) ao pé de mais de 300 "5 para a Meia-Noite" e muitos mais episódios de séries americanas estafadamente divulgadas e conhecidas do grande público por ano é, quanto a mim, mais do que suficiente para expor - se é preciso expor... - o absurdo desta argumentação, de novo, auto-vimitizante e pequenina.

sábado, 13 de novembro de 2010

Nova trilha (XXV): Streep e Ferré

Meryl Streep (e Clint Eastwood) em "The Bridges of Madison County" (1995) de Clint Eastwood


A versão de Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti - com um ending diferente - é magnífica e pode ser ouvida aqui.

Ruhr (2009) de James Benning


Nós estamos de tal modo "envenenados" com narrativas - dos jornais, dos filmes, da publicidade...- que me pergunto se um filme como "Ruhr" é o último degrau do cinema ficcional antes mesmo que o primeiro degrau do documentário. Olho para o plano da pequena rua na cidade alemã. Sou obrigado a olhar, a olhar mesmo, face à duração do plano. Cada pequeno objecto - um carro, uma pessoa, uma folha de uma árvore - que se mexe é um verdadeiro acontecimento, leva-nos a ver nele uma espécie de patético dramático do real, que ainda não tinha sido levado a ver noutros filmes.

A estase do plano fixo - fotográfico - é arrepiado por movimentos pontuais do objecto filmado. Quando tal acontece, parece que descobrimos pela primeira vez o cinema. Uma espécie de retorno primitivo à experiência da Sétima Arte: quando o cinema ainda era classificado como "fotografia em movimento". Num plano, Benning faz-nos viajar no tempo muito além do quadro apresentado. No fora de campo está, enfim, o Cinema quando a Fotografia entra em cena ou a Fotografia quando o contrário acontece. Isto parece-me, de facto, extraoardinário.

Por outro lado, Benning é um verdadeiro artista avant-garde. Os seus filmes questionam os limites do medium como poucos. A sua insistência num modelo formal rígido, que pouco ou nada mudou desde os anos 70, é uma postura eminentemente política, uma espécie de militância contra os "ritmos" das imagens do mainstream. E, de facto, Benning é um cineasta político tanto quanto é um cineasta "que filma paisagens perdidas" como "realidades de outra dimensão" ou "ângulos mortos da mente" (na acepção de Kracauer). Actualmente, voltando à nossa existência sobrecarregada de narrativas, pergunto quantos de nós perdemos alguns minutos a contemplar a rua a partir da nossa janela? Eu pergunto quem se atreveria, hoje, a procurar uma narrativa NÃO mediada; a parar, observar e encontrar no que vemos e tocamos uma forma de comunicação? A mediocracia é interrogada por Benning, quando este nos põe a pensar e nos leva, a mim levou, a concluir: eu só ACEITARIA ver a minha rua, a partir da janela do meu quarto, se alguém ma filmasse por mim daquele sítio; se alguém ma mediasse. "Olá, o meu nome é Luís Mendonça e sou mediadependente. Olááá Luís."

Os efeitos da mediação tecnológica são, assim, QUESTIONADOS por estas experiências avant-gardes. Curioso também que o avant-garde esteja hoje virado para a conservação do tempo, a diminuição ao mínimo desse ruído mediático e mediatizado, quando, nos primórdios do cinema, junto dos cineastas experimentais do surrealismo por exemplo ou depois junto dos cineastas beat (tão importantes para a estética do vídeoclipe dos anos 80), o que era motivo de desafio era precisamente romper com a barreira do tempo; o tempo era prisão. O tempo é, hoje, libertação - e um luxo. O espaço, por sua vez, parece surgir, finalmente como sujeito/assunto, na sequência dessa libertação.

E, com tudo isto, quero também dizer que estou a pensar escrever um filme baseado no plano de Ruhr que destaco acima. Se tiver dinheiro, um tio rico ou um produtor à mão, entre em contacto comigo. Tenha a bondade de auxiliar...

Texturas da pele e a sua geografia em close-up

Alain Resnais, "Hiroshima mon amour" (1959)

Any huge close-up reveals new and unsuspected formations of the matter; skin textures are reminiscent of aerial photographs, eyes turn into lakes or vulcanic craters.

Siegfried Kracauer, in Theory of Film: The Redemption of Physical Reality (1960), Princeton, p. 48

Etc.

pusssplimpluuumb brrruumplumplimm plummmmm vazuummm*

"Chappaqua" (1966) de Conrad Rooks

"The Trip" (1967) de Roger Corman

*- E assim sucessivamente...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os limites patéticos e convencionados do womanly feeling [Kurokawa's (un)fortunate man]

Kôji Wakamatsu, Kyatapirâ/Caterpillar (2010)

At last Aurelia is in serious perplexity as to what she ought to do. She still loves her Breckinridge, she writes, with truly womanly feeling--she still loves what is left of him but her parents are bitterly opposed to the match, because he has no property and is disabled from working, and she has not sufficient means to support both comfortably. "Now, what should she do?" she asked with painful and anxious solicitude.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Rio Bravo (1959) de Howard Hawks (II)

Como prometido, passo de seguida a palavra a quem sabe. Ao grande hawksiano do cinema contemporâneo: John Carpenter. Os excertos que apresento de seguida foram retirados do comentário áudio que este fez ao filme, para uma das suas mais recente edições DVD da Warner Brothers.

Dois apontamentos prévios são necessários: primeiro, o comentário áudio da edição supracitada é partilhado entre Carpenter e um teórico de Hawks, Richard Schickel, com especial enfoque para as palavras deste último, o que lamentavelmente retira espaço ao realizador de "The Thing"; segundo, a tradução que faço aqui é muito livre, face à dificuldade natural de estar a escrever e a ouvir ao mesmo tempo - atente-se mais às ideias que à forma, mas se procura precisão, então recomendo que adquire a dita edição.

Hawks coloca sempre as personagens à frente. O seu cinema é sobre personagens, gestos, troca de cigarros, troca de adereços.

Os seus filmes de aventuras são sobre homens profissionais em perigo. Eles definem-se pela forma como trabalham.

Aqui está John Wayne no seu traje típico de xerife. John T. Chance é o seu nome. Chance era o nome de uma namorada que Hawks teve nos anos 50.

Tudo é geograficamente simples e directo. O filme não sai da cidade, hotéis, prisão... só no fim, na cena do tiroteio, o filme se alarga geograficamente.

Como em To Have and Have Not, o romance acontece num hotel. Aqui também acontece num hotel. Algumas cenas e diálogos são iguais. Hawks faz isso muito; recicla as suas próprias ideias. Como ele dizia, "I like to steal from myself".

Chance and Stumpy. O amor entre homens é outro grande tema dos seus filmes.

Neste filme, o ritmo é lento. Hawks não tem qualquer pressa em contar as suas histórias.

Esta sequência é uma das minhas favoritas. Os dois homens fazem a patrulha na cidade, um paralelo ao outro. É uma sequência filmada com enorme simplicidade, mas resulta quase num ballet entre dois homens.

Os cenários não são muito trabalhados, autênticos, como num filme de Sergio Leone. Hawks filma as suas personagens em sets algo standardizados de Hollywood.

Como em To Have and Have Not, a ligação entre a personagem masculina e feminina acontece com base numa desconfiança da primeira em relação à segunda, que se revela infundada.

Angie Dickinson, uma das grandes actrizes de Hawks, junto com Lauren Bacall. Penso que ela tinha 19 anos nesta altura. John Wayne tinha 50 anos. É estranho pensar que aceitamos o romance, tendo em conta a diferença de idades.

Hawks era um engenheiro, ele abordava os filmes como um engenheiro. Um trabalho de câmara simples e straightforward. Tudo é pensado, não há excessos. Ele não sente qualquer necessidade de acelerar o seu ritmo nesta altura.

Chegamos a uma das maiores cenas de Rio Bravo. Dean Martin fere o criminoso perseguido, este esconde-se no bar. Wayne pergunta a Dean Martin se ele é "good enough", se tem confiança para fazer o que tem de fazer.

Aqui não sabemos o que acontecerá. É uma cena cinematicamente genial. Dean entra pela frente e Wayne por trás. Dean Martin faz as perguntas... Tudo muito funcional.

Lá está o homem que eles procuram. Hawks mostra-nos a nós, mas Dean Martin e John Wayne não sabem que ele está ali.

Toda a sequência é sobre reclamar a dignidade. Reclamar-se a si próprio... este é o apontamento moral que Hawks faz.

Temos a música de Dimitri Tiomkin, com um toque de jazz. Agora repete-se a sequência de To Have and Have Not, em que Bacall beija Bogart.
Começamos aqui com uma das sequências mais conhecidas. Replicando um gesto em Red River, Ricky Nelson atira a riffle a John Wayne.

Aqui temos uma das melhores cenas entre Dean Martin e Wayne. A sequência anda à volta de dois temas hawksianos: profissionalismo e competência.


Aqui temos a cena da redenção de Dude. É tudo feito sem palavras. É um momento magnífico.

Aqui começa uma sequência, que Hawks usa noutros filmes. Em Only Angels Have Wings, por exemplo. Quando uma personagem é admitida no grupo, num filme de Hawks, normalmente as personagens cantam e tocam. Em El Dorado Hawks volta a filmar uma sequência com as personagens a cantar. Mas o filho de Hawks disse "pai, um xerife não canta". E, por isso, Hawks tirou essa sequência.

Hawks odiava High Noon, porque nenhum xerife profissional anda para aí a pedinchar ajuda. Rio Bravo é como que uma reacção a isto.

Hawks costumava chamar os seus actores ao set e discutia com eles, "à volta de uma mesa", as falas desse dia. Parece-me um modo muito humano de trabalho.

Rio Bravo está a terminar. É Hawks e Tiomkin no seu melhor. É muito simples: são apenas homens a descer a rua. Mas a música é fabulosa, dá-lhe heroísmo. Não sei se não será influenciada por Yojimbo, não sei ao certo. Agora vamos para uma gloriosa sequência de acção: excitante, divertida... Agora o grupo reúne-se.

Hawks coreografa tudo. Sabe onde cada actor deve estar, mostra-nos a localização, mapeando o espaço para o espectador. É como olhar de cima para um mapa.

Hawks realizava com graciosidade e simplicidade. Como Clint Eastwood, a sua câmara está sempre na posição certa, sem chamar a atenção sobre si mesma.
Isto é um replay de To Have and Have Not. Wayne não quer que vejam Feathers vestida daquela maneira. Eles cimentam o seu amor aqui.

Rio Bravo é um filme cheio de humor, divertido, old fashion, vai beber aos anos 30 e 40, mas também tem as cores dos anos 60. Tem acção... tem tudo. Para mim, este é um dos grandes westerns de sempre. A performance de Wayne não estará ao nível de um The Searchers, mas é seguramente mais real.

É curioso: este filme reflecte o que há de melhor em Hollywood. Um filme divertido de ver, popular no seu tempo e ainda hoje. É lento e elegante, como um pedaço de música clássica.

Aproveito esta oportunidade para publicar na íntegra a análise que fiz a "Hatari!" (1962) para a revista Red Carpet há dois anos. Nela elenco muitas das características do universo Hawks já bem presentes em "Rio Bravo".

domingo, 7 de novembro de 2010

Não me esquecerei ou obrigado Manuel Cintra Ferreira


Nunca o conheci pessoalmente, mas sempre o admirei, pelo seu profissionalismo e dedicação à Sétima Arte. É o mais antigo e respeitado crítico de cinema nacional, mas isto é dizer pouco. Pelo menos, para mim.

Manuel Cintra Ferreira deu, muito recentemente e por mail, um contributo fundamental para a minha tese de mestrado. Foi exemplar a forma solicita e aberta com que o fez. Era um respeitado grande profissional da crítica e da programação cinematográficas? Sim, mas também era, estou certo disso, um grande homem. Gostava de o ter conhecido pessoalmente...

Não sou ninguém, mas quero dedicar-lhe, do fundo do coração, estas palavras.

Rio Bravo (1959) de Howard Hawks (I)


Sempre adorei "Rio Bravo", mas revê-lo hoje, passados alguns anos sobre o primeiro visionamento, é uma experiência superior. De facto, não só estamos num dos pontos mais altos da carreira de Hawks como temos um filme a provar uma coisa que parece escapar a muita gente: Hawks é um cineasta moderno. Fez, naturalmente, alguns dos melhores filmes clássicos, nomeadamente, fundando o género da screwball, mas é em 1959, quando o modelo clássico (griffithiano) de Hollywood retraía-se face às novas vagas europeias e a um novo cinema independente que, dentro de casa, a contra-atacava, dizíamos, é em 1959 que Hawks faz a sua obra-prima. Não quero comparar o feito alcançado com um "A bout de souffle"? Quero. Não quero comparar o feito alcançado com um "Shadows"? Também quero.

"Rio Bravo" sintetiza duas ideias, a meu ver, inovadoras para a época: primeiro, uma desarrumação da ideia de plot em três actos provinda da Hollywood clássica e, segundo, complementarmente, um filme construído todo a partir das suas personagens - para quê um Monument Valley, muitos índios e cowboys, se se tem para filmar a beleza inefável de Angie Dickinson? Não há um plot visível em mais de 2 horas de filme: que diferença substancial há entre o primeiro minuto e o último? Digamos que aquilo que Ford contaria em 10 minutos de filme, Hawks conta em 2 horas, seguindo a ideia de um cinema em continuum, quase em tempo real, sem compromissos com qualquer género pré-estabelecido ou receita popular.

Há um cerco e há personagens sitiadas que têm de viver com ele até à chegada do US Marshal que leve o encarcerado tão cobiçado (aqui há um deadline claramente hollywoodesco, mas não é usado para efeitos de suspense ou last-minute rescues hiperdramáticos, leia-se, hipermorais, no final). O que se passa entre o início (in media res) e o fim é personagens em co-habitação. Elas não deixam de dormir (assunto 1), não deixam de comer e beber (assunto 2), não deixam de sofrer com o passado e amar no presente (assunto 1+2).

Tudo isto já estava em potência, por exemplo, no Hawks de "Only Angels Have Wings", mas nunca atingiu este grau de pureza e ousadia - ei, quem diz que "A bout de souffle" é o primeiro filme da Nouvelle Vague ou que "Shadows" é o primeiro filme do novo cinema independente norte-americano? Se diz você, permita-me que discorde (vide "La pointe-courte" ou "Little Fugitive", para o efeito). Hawks faz da decadência de um sistema em que estava inserido, e onde era orgulhosamente apenas mais um "tarefeiro", o pico da sua força: um cinema Do tempo e Do espaço, no fundo, Das personagens.

Como diz Luc Moullet, este é um cinema "da estagnação", característica que o próprio atribui à ideia de cinema moderno, na medida em que Hawks está muito menos preocupado com o plot do que com a exposição das personagens. É isso: "Rio Bravo" é mais de 2 horas de exposição. Claro que os vapores do cinema clássico estão aqui, mas é mesmo só isso: vapor. O corpo é sólido e inerte. Hawks não hesita nem mexe um dedo no modelo estilístico que o rege desde os primeiros minutos. É uma espécie de estado zen do cinema pós-clássico norte-americano, que é radical na sua absoluta falta de radicalismo.

Na parte II deste comentário passo a palavra a quem sabe.

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