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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

5 apostas para 2012

Vou ao site da SAPO e tenho estreias de todos os géneros marcadas até Junho. Dos perto de 100 filmes agendados, destaco cinco, excluindo, por já ter visto em sala, "The Ditch" de Wang Bing (visto no DocLisboa) e "Killer Joe" de William Friedkin (visto no Lisbon & Estoril Film Festival), dois filmes que irão marcar - e perturbar - este ano de cinema.

Coloco sérias reservas a quase todos os chamados "filmes oscarizáveis" deste ano, começando pelo regresso de Benneth Miller, autor do interessante "Capote", e que no dia 12 de Janeiro estreia em Portugal "Money Ball", um típico "sports movie" que será vendido por muita crítica - condescendentemente - como um "não-sports movie". Eu começo a ficar farto destes produtos, mas... who knows? Também "The Artist" não me diz muito, parecendo-me (pelo trailer) uma glamorosa revisitação da Hollywood clássica pejada de tiques maneiristas e piscadelas de olho "espertalhonas" para os amantes do cine-enciclopedismo se deleitarem. O facto de ser "mudo", truque que me soa a "demasiado fácil", só surpreende quem não viu, por exemplo, um "Juha" de Kaurismaki. Mas, como disse, who knows?

A avaliar pelo trailer e algumas reacções, "J. Edgar" de Eastwood, lamentavelmente, parece-me uma estopada, tal como, diga-se, o último Fincher. Oxalá esteja enganado... É também muito provável que espere que "Hugo" saia em aluguer para o ver, porque só o trailer me dá náuseas. O "War Horse" de Spielberg, por seu lado, dito simples e curto, parece-me uma piada por desencobrir... O resto (Jason Reitman, Alexander Payne ou, num nível bem inferior, Cameron Crowe) nem me aquece nem me arrefece.

Não sublinho aqui, mas estou relativamente expectante para: "Cave of Forgotten Dreams" de Werner Herzog, "Attenberg" de Athina Rachel Tsangari, "Le Havre" de Aki Kaurismaki, "We Need to Talk About Kevin" de Lynne Ramsay e "Outrage" de Takeshi Kitano. Espero, ainda assim, que mais estreias significativas apareçam em agenda nos próximos tempos.

1. "O Cavalo de Turim" de Béla Tarr - 16 de Fevereiro 2012

Veja trailer aqui

Tem tudo para ser "o filme do ano". É a obra de despedida de Béla Tarr - se não estou em erro, a única a se estrear comercialmente em Portugal - e, dizem, trata-se do seu maior monumento cinematográfico. É sobre o ocaso mental de Nietzsche e, diz quem viu, é como que um regresso a um tempo em que as imagens - e o tempo fílmico - tinham outra textura; devolução do espectador aos universos poeticamente assombrados de Murnau e Dreyer. Espero muito daqui.

2. "Take Shelter" de Jeff Nichols - 15 de Março 2012

Veja trailer aqui

História apocalíptica de paranóia que retoma a empresa de sucesso de "Histórias de Caçadeira", Jeff Nichols e Michael Shannon, e conta ainda com a bela Jessica Chastain ("The Tree of Life"). Razões suficientes para estarmos atentos.

3. "Dark Shadows" de Tim Burton - 10 de Maio 2012

Ainda sem trailer

Um conto gótico de horror... leio isto no início da sinopse no IMDB e fico logo entusiasmado. É este o habitat de Burton; é nele que nasceram alguns dos seus mais admiráveis filmes recentes ("Noiva Cadáver" e "Sweeney Todd"). Johnny Depp e Helena Bonham Carter estão no elenco ao lado de nomes relativamente menos burtianos como Michelle Pfeiffer e Eva Green.

4. "Martha Marcy May Marlene" de Sean Durkin - 5 de Janeiro 2012

Veja trailer aqui

O cinema independente norte-americano está em boa forma. Não é só por ter John Hawkes no elenco, mas este filme de Sean Durkin, vencedor do prémio de melhor realização em Sundance, pode bem ser uma espécie de "Winter's Bone" de 2012. Entre o trauma e o sonho, lê-se no trailer.

5. "On the Road" de Walter Salles - 31 de Maio 2012

Ainda sem trailer

Projecto que não atava nem desatava nas mãos de Francis Ford Coppola, que finalmente delegou a missão de adaptar ao grande ecrã uma das maiores obras-primas da literatura norte-americana do século XX no hábil cineasta brasileiro Walter Salles, que já se tinha mostrado à vontade "on the road" no bonito "Diários de Motocicleta". Agora, em vez de Che, filma Kerouac/Sal interpretado por Sam Riley, actor que fez de Ian Curtis em "Control", acompanhado por um elenco de peso: Kirsten Dunst, Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi, Alice Braga e o menos conhecido Garrett Hedlund na pele do mítico Dean Moriarty.

terça-feira, 9 de março de 2010

Alice in Wonderland (2010) de Tim Burton


A "alicemania" fervilha e, depois de ter arrasado o Box Office na primeira semana e na sequência da péssima prestação de "Avatar" nos Óscares, o filme de Burton parece ter obliterado de vez com a "Na'vimania". Burton enche salas como nunca e a crítica continua a olhá-lo como um auteur. Apesar deste hype em torno de um dos mais interessantes realizadores norte-americanos, o último filme de Burton só vem confirmar para nós aquela que é uma das fases menos inspiradas do realizador.

Faça-se a comparação com a amarga visão da América de um "Eduardo Mãos de Tesoura" ou com o auto-irónico exercício de género (politicamente picante) "Mars Attacks!" e tirem-se as devidas conclusões: no entretanto, o que se perdeu e o que se ganhou? Burton em "Charlie e a Fábrica de Chocolate" dá espaço a Johnny Depp para dar forma a uma das suas mais delirantes interpretações, a fazer lembrar um Michael Jackson retro-pop on acids, e em "Sweeney Todd" testemunhamos o negrume burtoniano levado ao extremo do gore, uma ópera sanguinolenta que aproveita bem aquela que poderá ser uma das grandes virtudes da estética CGI: os planos longos e vertiginosos que não conhecem os limites do cinema de cenários (e pessoas) reais. Burton usou bem a alta tecnologia na moda para potenciar no terreno do cinema a unidade espaço-tempo típica do teatro. Mas a ameaça instalou-se na nossa cabeça quando soubemos do seu projecto seguinte: uma versão em 3D de "Alice no País das Maravilhas". Primeiro, a escolha da história parece-nos completamente redundante numa obra que, de forma arrojada e por vezes corajosa, sempre soube "brincar" com o imaginário do clássico de Lewis Carroll.

A popularidade universal da história e personagens colocava a Burton um dilema: fazer jus à obra, e ao imaginário popular que a transcende, e refrear o espírito "dessacralizador" que sempre o caracterizou ou dar-lhe um enquadramento radicalmente novo, leia-se, "burtonizá-lo" dos pés à cabeça. Pensamos que, de modo politicamente correcto, Burton quis fazer as duas coisas e, com isso, ficou a meio caminho nas duas: tornou a "wonderland" numa "underland" e, com isso, satisfez os seus mais indefectíveis que o vêem como um auteur do "fantástico para adultos" (negro, irónico e freudiano) e, por outro lado, seguiu previsivelmente a narrativa mais repetida na história das imagens e impingiu ao espectador uns óculos de plástico (qual Charlie e companhia). Seremos só nós que não gostamos minimamente desta nova plástica de Burton?

É que em "Sweeney Todd" o CGI estava ao serviço da realização, aqui é um gadget de feira que surge requentado depois da riqueza e sentido do espectáculo visual que é "Avatar". Comparem-se os "bichinhos levitantes" nos dois filmes: no de Burton, é "efeito" de cosmética para sublinhar a "tridimensionalidade"; em Cameron, são "seres" que dão vida a um mundo que se assume como virtual (não será "Avatar" um grande filme sobre o fenómeno dos videojogos ou da projecção-identificação do espectador no que se passa no ecrã de cinema? Ou uma metáfora sobre um desejo de escape tão recalcado no homem do pós-11 de Setembro?). Burton quis conceber uma ride em underland, onde vemos aqui e ali um previsível Johnny Depp com figura e trejeitos à Beetljuice que, como os "bichinhos levitantes", é efeito estéril para nos lembrar (não da tridimensionalidade mas) de uma das figuras bidimensionais habituais no universo Burton: homem excêntrico em luta com traumas antigos que o conduziram ao isolamento e à misantropia. Um piscar de olho, auto-indulgente, para fã ver.

Toda a história em torno da predestinação de Alice e da metafórica alusão à dor de crescer revestem como um invólucro esta ride com marca Disney, que se refugia nuns copy pastes burtonianos para receber o aval da crítica. Lamentavelmente, a fórmula resulta no pior filme de Tim Burton até à data.

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