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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Cosmopolis (2012) de David Cronenberg


Quando ouvimos uma das personagens de "Cosmopolis" dizer que "adora informação" ("I love information") percebemos logo que algo mudou desde que James Woods quis fazer da palavra vídeo carne ("the word video made flesh"). (Percebemos também que não haverá filme mais significativo este ano.) De facto, se sensivelmente até "eXistenZ", o realizador canadiano andava obcecado com as transformações que a tecnologia operava no corpo humano, ou o seu devir-máquina, devir-cyborg, parece que agora, usando uma imagem de McLuhan, e pervertendo-a, não é o medium que é extensão do corpo, mas toda a realidade que, à sua volta, se tornou medium (informação pura).

Em "Cosmopolis", não estamos num mundo feito de ecrãs, próteses, pacemakers, extensões mais ou menos visíveis de uma realidade ameaçada pela sua própria extinção, mas já num mundo feito ecrã, contra o qual o corpo resiste e reage, como um anti-vírus. A realidade ganhou uma nova pele: não é que ela seja extensão de algo, ela con-funde-se com esse algo. Mas esse algo é sempre estranho, leia-se, sempre exterior - uma alteridade ainda não plenamente inscrita nos corpos (impura informação pura). Giamatti dá conta deste desfasamento, entre a realidade feita ecrã e os corpos, quando resume a sua angústia: há sempre um eu e os outros, um é informação para outros, mas não entidades do mesmo mundo... isso nunca - e jamais?

É essa disjunção, esse agravante desfasamento, que "Cosmopolis" trata. Desde logo, porque é feita uma distinção explícita (pornográfica) entre o "dentro" e o "fora", entre o interior da limusina-escritório e o exterior que vemos "desfilar" através dos vidros do carro ou em informações dadas pelo "guarda-costas" do nosso protagonista. Esta "ecranização" do mundo não é amenizada pelo nosso ponto de vista: apesar de estável, e "presente", a vida no interior do automóvel, e o seu passo lento, fúnebre, apontam para um caminho sem retorno, em direcção à morte. Smoothly...

A imagem de Robert Pattinson (actor do ano, até ver), com o seu fácies pálido, os seus gestos minimais, as suas palavras automáticas - e sente-se o magnífico texto de DeLillo, sente-se mais como excreção cerebral do que como expressão humana... - contribui sobremaneira para a definição do sintoma: o corpo, isolado que está na sua carapaça metalizada, ou no seu sarcófago sobre rodas, por muito limpo, por muito sujo, por muito vivo que esteja, não sobreviverá à "ecranização" do mundo, ao devir-medium, ao devir-informação de tudo. O que Pattinson-herói procura resgatar e compreender é a tal "deformação", o que resta de irrepresentável neste mundo que nos é "enviado" sob a forma de gráficos, imagens de TV, imagens feitas TV.

Um mundo, como também se diz a certa altura, onde até a palavra "computador" soa anacrónica - a tecnologia desaparece com o corpo, para que uma realidade, uma hiperrrealidade parida em resultado desse confronto fatídico (corpo vs. tecnologia), venha produzir uma existência puramente vicária ou "informacional" (pós-"Videodrome"). Fala-se de cheiros, fala-se de sexo como parte de um "programa de vida" (um problema de soft ou hardware? Não, um problema desse ware chamado realidade), fala-se de segurança (ameaças, intrusos, "rats", etc.) e de irregularidades (o tal irrepresentável, a tal assimetria da próstata, grande lição de moral que salda o caminho auto-destrutivo do nosso herói). A ironia é fria como o metal, porque aqui a resistência, a grande Resistência, não está nos grupos que incendeiam as ruas, lançam tartes aos homens do Capital, todos eles pertencem já a essa realidade feita ecrã.

Esqueçam Che Guevara: Pattinson, na pele de um especulador multimilionário, "o homem da limusina", é o grande guerrilheiro libertário. Giamatti diz que esperava dele a sua salvação, ao mesmo tempo que o ameaça de morte, antecipando uma espécie de "crucificação" cínica não do "homem que destruiu o mercado" mas do homem que, confundindo-se com ele, se quis suicidar, pelo menos, "virtualmente". E isso porque ele acaba por perceber que o que está em jogo, sob pena de se perder para sempre, não é o "complexo" empresarial que dirige, nem a sua fortuna individual, nem o projecto de uma "ratazana como unidade monetária" da turba contestatária, mas sim o "sentir-se vivo" do seu corpo em dissolução num mundo-ecrã sem salvação possível - eis um tratado não sobre uma "fortuna", mas sobre a "Fortuna" do Homem.

Aqui, Pattinson (actor da saga "Twilight") continua a ser o "vampiro sexy no caixão": a sua sede de sangue, mesmo seu, a sua fome de sexo, a obsessão pelo seu "corpo humano" em extinção - nos exames procura ele a imagem gráfica dos seus órgãos ou a confirmação do seu médico de que está e continua vivo? - mais a fetichização do seu embalsamento metálico ("Crash redux"), o seu devir-limusina, convertem-no na representação alegórica mais desafiante do nosso mundo contemporâneo ("mundo demasiado contemporâneo", dir-se-ia, citando-se de novo uma das inúmeras tiradas deste texto magnífico). Ou, pelo menos, desde que Ferrara, outro apocalíptico de luxo, decidiu acabar com ele, às 4:44.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O esquizo-dis-curso da aranha

"Lilith" (1964) de Robert Rossen

"Spider" (2002) de David Cronenberg

(Dis-curso: corrida em todas as direções, como a da aranha para fazer a sua teia com que envolve as suas presas no seu abraço fatal!

sábado, 3 de dezembro de 2011

A Dangerous Method (2011) de David Cronenberg


Cronenberg diz que agora é ele que se adapta ao material que tem em mãos e não o contrário. É uma ideia com o seu quê de desconcertante para quem viu nele um dos universos autorais mais personalizados dos últimos tempos. O que se passa é que Cronenberg mudou de estratégia e essa estratégia é que agora Cronenberg, o realizador que jogava sempre no limite, é um "realizador estratégico". E pensa os filmes de dentro para fora e não de fora para dentro.

O que é que isso diz a um fã de "Videodrome" ou "Crash"? Bem, recorrendo ao senhor Freud, diz-me que o diagnóstico é simples: Cronenberg parece estar a reprimir Cronenberg; à procura de uma espécie de aceitação mais abrangente por parte de um público que este idealizou, diria, neuroticamente, como o seu "verdadeiro público". A mudança acontece sensivelmente desde "Spider", último filme onde senti que a psique tinha carne, onde senti que os fantasmas de Cronenberg passeavam, invisíveis mas não menos palpáveis, pelas "histórias feitas" que decidira adaptar ao ecrã. O que noto, desde "A History of Violence", é que o realizador canadiano parece estar "concentradíssimo" em realizar o seu "american dream fora do prazo": virou-se para o anonimato controlado, cirúrgico, impecalmente inafectado e inafectante afecto - e infecto - à ideia defunta de uma "gramática do cinema de género". O resultado é que, "A Dangerous Method"- falemos dele, já que ele não se cala - não é, como era "Spider", uma "mente" feita carne, mas sim uma mente esvaziada de qualquer corporalidade; uma mente, no limite, esvaziada de si mesma. O que resta é o vácuo existencial, a que Cronenberg se verga como um "velho funcionário de Hollywood", sonhando um sonho anacrónico, quase auto-flagelador por ser tão fina - quase inexistente - a sua consciência crítica.

Cronenberg virou as costas a Cronenberg. Viggo Mortensen, actor limitadíssimo, é o rosto mais visível do fracasso - voilá! algo visível neste novo Cronenberg ao serviço de Sua Majestade "A Indústria-das-suas-fantasias"! Neste "A Dangerous Method" - até o título, cheio de ironia fina, parece uma graçola espirituosa de mau gosto -, Viggo Mortensen interpreta um Freud dual, subtilmente revanchista e caricaturalmente básico, que, entre todo o falatório - textualmente muito didáctico, mas esteticamente liso e, de novo, sempre controladamente "entediante" -, até parece que se safa como uma verdadeira personagem. Mas, vejamos bem, a câmara só quer saber das neuroses do outro figurino, o senhor Jung, as suas taras amorosas pela paciente "irresistível" e as suas diatribes pequeno-burguesas com o mestre incompreendido. Na parte final do filme, ficamos conversados quanto ao louco desgosto amoroso que se vivia naquelas trocas de correspondência e relatórios (para)científicos entre médicos e dos médicos connosco espectadores - até porque, como fica patente, o diferendo entre Jung e Freud era coisa de classe, de raça ou de coração ou, ainda, de dor de cotovelo. O espectador foi enganado, mas nada de muito sério: ainda há lágrimas a derramar pelo amor proibido entre paciente e médico.

O plot básico, a que Cronenberg, o autor, nunca se poderia vender - ai jesus! tanto "ai jesus! não te partas!" que, do outro lado do ecrã, se ouve a ser mexido nervosamente com pinças! -, é prontamente "corrigido" pelo rosto e lágrimas finais de Jung, lágrimas que não comovem, lágrimas secas que celebram, vitoriosamente, a indiferença que provocam - ao que parece, para Cronenberg, a indiferença virou objectivo número um. O plot básico diria que esta é a história de um triângulo sentimental entre os pais da psicanálise e uma paciente, mas a coisa está tão escondida, tão controladamente recalcada que até parece ser mais alguma coisa do que isso - será? Cronenberg, realizador que agora joga xadrez com a banalidade, põe-se a jeito para ser elogiado por ter mudado sem ter, de facto, mudado! Que subtileza, que delicadeza, que mente! Eu, tal como não celebro a existência de qualquer coisa como chocolante-laxante (e cito um psicanalista), lamento, mas recuso-me a celebrar "Cronenberg, o anti-Cronenberg"!

Cronenberg vende, agora, a frustração do seu próprio cinema, porque isto não é cinema nenhum, quero dizer, é um "cinema de ninguém". O autor de "The Fly", outrora - e sublinho o outrora - grande leitor de McLuhan, transformou a viscosidade (protuberante, isto, é perturbada, leia-se, irregular e sulcada "na pele") numa acomodada assepcia estética (lisa, oca e reluzente). Como a história do pássaro no filme, Cronenberg precisa de se libertar de si mesmo, desesperadamente. Nem que, para isso, tenha de trocar todas as suas "velhas" obsessões por uma e apenas uma nova: a obsessão pelo vazio. Eu cá detesto o vazio e gosto do risco.

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