sábado, 16 de junho de 2012

A Torinói ló/O Cavalo de Turim (2011) de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky (IV)


(7) o "tempo fechado" sopra... Talvez por me estar fresca na memória, lembrei-me da primeira longa-metragem de Ermanno Olmi, provavelmente a sua obra mais interessante, intitulada "Il tempo si è fermato". O título é suficientemente sugestivo - todo um programa estético-filosófico que importa analisar - mas a semelhança com este filme de Tarr vai para lá dele: no filme de Olmi, um homem velho e um jovem "inexperiente" guardam uma barragem no Inverno, isolados do mundo... e, a certa altura, também isolados do "exterior" por uma tempestade de neve que assola a região. Os dois protegem-se na barraca de madeira, que range por todos os lados, que grita a cada chicotada de vento, neve e frio. O tempo aqui "encerra-se" naquele cubículo, mas que tempo? O tempo deles, das personagens, e o tempo do filme, nosso.

A ideia de "tempo fechado" também me parece estar plasmada na experiência de "O Cavalo de Turim", ideia que traduzo na imagem metafórica da ampulheta. Nenhuma ampulheta é filmada, mas podia, já que a sensação da matéria que se "esvai", que se "desmancha" - como já o referi atrás - e a própria ideia de "encerramento temporal" - ou, enfim, da própria ideia de tempo como matéria... - fundamentam filosoficamente esta obra-prima final de Tarr.  Essa ampulheta invisível é "virada" sempre que pai e filha saem de casa para verificar o estado de saúde do cavalo, mas também aqui a esperança se desmancha sempre - e o filme mostra este esvaimento sem pingo de frustração, sem sinal condenatório, apenas como sintoma inelutável do mundo.

As personagens jogam com o tempo como mortos-vivos: depois de constatado que o estado débil do animal continua a não oferecer melhorias, recolhem aos aposentos - e Tarr deixa que o tempo se esvazie, lento, fechado entre aquelas quatro paredes, para as quais a janela é só a confirmação das razões para esse retiro forçado, essa contemplação do tempo, pelo tempo, sem fundo de esperança - Tarr haverá sempre de virar a ampulheta, mal o tempo ameace parar. As personagens estão ali, muitas vezes paradas, no mesmo sítio, mas o tempo não deixa de transcorrer, "degradando" na espera.


(8) transportam-se coisas na carroça... Quando o poço seca, o homem e a filha tentam "a fuga": colocam todos os bens na carroça e partem puxando a carroça com as mãos, com o cavalo ao lado, seguindo o passo dos homens. Este gesto é um dos momentos altos do filme, na medida em que o transforma, por momentos, numa inventariação de coisas, leia-se, numa inventariação de imagens. Coisas-imagens ou imagens-coisas que já conhecemos na sua função, na sua mobilidade e na sua imobilidade: a roupa, as batatas, a garrafa de Pálinka, etc. De repente, é como se as personagens ambicionassem transportar até às últimas forças dos seus braços todo o filme... numa carroça "sem cavalo".

Dir-se-á que elas, em desespero, procuram transportar o meio de transporte, entrando num vício tautológico (heresia ontológica!) impossível de resolver - daí o regresso. A viagem vai acabar onde começou, mas, de novo, Tarr não nos surpreende: o plano centrado na roda que gira antecipa o insucesso da "fuga" - as personagens "voltarão" ao ponto de partida, tornarão a repetir e a repetir-se. Esse plano devolve-nos - de novo, apetece dizer - ao filme, mas não só: também a câmara não se mexe, não sai de perto da casa, quando as personagens decidem "abandoná-la". Há também aqui uma ausência de fé, puramente formal, nessa aventura. De facto, essa viagem sem ou contra o medium estava fadada ao fracasso.



(9) a roda gira ao passo do homem... Como já vimos, tudo gira em "O Cavalo de Turim". As coisas, sempre "as mesmas coisas", repetem-se a cada novo dia, um pouco como o movimento dos planetas-homens nos primeiros minutos de "Werckmeister Harmonies". Esse movimento "de roda" - a roda..., imagem embrionária do cinema - está presente, desde logo, na música assombrosa de Mihâly Vig, o compositor de todos os filmes de Tarr, logo, em certa medida, também ele, aqui, em modo de "despedida" - não certamente tanto do cinema, mas, pelo menos, do cinema que o criou, o que já é muito. O tema principal é circular, "viciado", gira sobre si mesmo infindavelmente. É um ritmo circular, mas não alucinante, pelo contrário, há um peso na instrumentação que parece mimar os gestos arrastados do dia-a-dia dos protagonistas...

Nada mudará, também diz ela, sempre que reaparece no ecrã - o espectador perceberá que o encantamento das imagens é participado pela música de Vig e que, ambas, convergem nesse movimento pendular infindável, entre o acordar e o dormir, entre o vestir e o despir, entre estados de degradação, de aquisição, reaquisição da propriedade, começando pelo corpo e acabando no coche ou, na realidade, começando nos pratos circulares de madeira e acabando no cavalo, a personagem que se "desapossa" dos seus donos pela doença (uma depressão? A depressão do mundo, o desespero do mundo de Nietzsche, comoveu o bicho? Transferiu-se para ele? Há, como nos cavalos de Tarkovski, uma dimensão metafísica neste cavalo que recusa servir o transporte do Homem; que, sem freios, caminha, nobre e soberanamente, sobre as suas quatro patas.

(continua)

2 comentários:

Carlos Natálio disse...

Tenho de ver o filme primeiro para seguir esta verdadeira odisseia crítica. :)

Enaldo disse...

Achei maravilhosa a sequência inicial do filme. A cena "muda" do jantar, idem. Mas o longo discurso do visitante um tanto aborrecido, parecia alguém tentando me explicar sobre a decadência do capitalismo. Daí em diante, o filme perdeu o meu interesse.

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