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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Deus ex machina


A rubrica Passagens em 3.ª Mão anda muito calma nestes dias, por uma razão muito simples: tenho requisitado poucos livros das bibliotecas e, dos que requisitei, não tenho detectado sublinhados alheios que me motivem "o discurso". De qualquer maneira, parece que o destino me reservou uma passagem, um recorte..., que não é seguramente em primeira mão, mas que também não é em terceira. Digamos que a "mão" do meio não é uma "mão", mas um código, mais precisamente, uma "criação" da mais recente aplicação deste espaço.

Como podem ver, desde há uns dias para cá, tenho andado a testar uma espécie de índice que, por uma associação (muito livre, por vezes) com os posts já publicados remete o utilizador para outras leituras supostamante "relacionadas". É o "Poderá também gostar de..." que prefigura quatro títulos de posts redigidos há muito ou há pouco tempo, que são acompanhados também pelas respectivas quatro imagens "da praxe".

Numa dessas lotarias de imagens, chegou-me aos olhos uma montagem possível entre duas imagens processadas, assim, automaticamente... Montagem sine manu facta, quanto a mim, no mínimo, intrigante.

Dois fios de luz, um da paisagem trovejante de "3 Macacos", e outro da sala escura, de cinema, de "Sullivan's Travels". A luz misteriosa dos céus fundida, num raccord quase perfeito, com a luz fantasmática do projector. Deus ex machina na era do digital.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

The Sin of Harold Diddlebock (1947) de Preston Sturges


Cá está um case study algo esquecido na história do cinema: "The Sin of Harold Diddlebock" ou "Mad Wednesday". Dois títulos pelo qual é conhecido o último filme com Harold Lloyd, realizado e escrito por Preston Sturges. Como dizem os créditos de abertura: "An Original Screenplay Written and Directed by Preston Sturges". O rol de ironias começa aqui e apercebemo-nos disso logo a seguir: "Mad Wednesday" abre com... "The Fresman", longa-metragem realizada em 1925 com o célebre slapstick comedian do mudo, Harold Lloyd.

No seu tempo, Lloyd foi tão ou mais popular que Keaton, enchia salas com os seus filmes repletos de stunts tão arriscados - aqui não há CGI, meus pequeninos... - quanto arrojados, mas frequentemente mais delirantes que arriscados e arrojados. Ver a obra de Lloyd é um regalo para os olhos: o efeito especial aqui é o corpo de Lloyd, os mal-entendidos e o caos que aquele gera. "Girl Shy", "Safety Last" e, claro, "The Freshman" são algumas das suas maiores obras-primas. Sturges pega na última para começar um filme, mas não um qualquer. É o último filme de Lloyd e, estou certo, este sabia-o. Apesar de ainda ser novo em 1947 - tinha 52 anos - o actor saberia que não voltaria ao cinema, face à forma como o sonoro proscreveu as suas maiores estrelas - Keaton e Stroheim, só para dizer dois nomes.

Mas, voltando a este filme de Sturges, o realizador de "Sullivan's Travels" e "The Palm Beach Story" resolveu recuperar Lloyd e a memória do seu cinema; abriu o seu filme com as últimas imagens de "The Freshman", sendo que a nestas introduziu um conjunto de subtis reedições, por forma a conduzir um clássico mudo do burlesco para o presente, mais de 20 anos depois... Para o efeito, Sturges repegou na sequência antológica do jogo de futebol americano em que o "águas" Harold Lloyd, um caloiro ridicularizado por todo o campus universitário, se revela um feroz avançado que ultrapassa os seus adversários com uma técnica assaz sui generis.




Excerto de "The Freshman" (1925) de Fred C. Newmeyer & Sam Taylor


O mesmo excerto de "The Freshman" remontado por Sturges em "The Sin of Harold Diddlebock" (1947). ATENÇÂO: o presente excerto está sonorizado (música e som de fundo do público), contudo, não consegui incluir a banda de som na transcrição para a Internet. Apesar disso, este mal pode ter vindo por bem, já que esta sequência é muda "de raiz". A parte falada (perto do fim) está legendada. O excerto foi extraído do DVD da BACH FILMS.

É absolutamente obrigatório ver os dois vídeos em simultâneo


Comparando a sequência de 1925 com a de 1947, constatam-se algumas diferenças curiosas: Sturges, agora com a possibilidade do som, descarta intertítulos, usando pequenos artíficios (como um insert) para conferir clareza à narrativa. Altera um ou outro gag (nomeadamente o que diz respeito a um som que a personagem de Lloyd confunde com o apito do árbitro) e, muito importante, inclui uma personagem nova, um homem forte da publicidade que entregará a Lloyd, no final do jogo, o seu cartão, prometendo-lhe trabalho.

Já estamos aqui fora do universo do filme de 1925, do cinema mudo, do tempo em que Lloyd era uma Estrela planetária. Passamos, a partir daqui, como em "Sullivan's Travells", para a realidade dura num registo desencantado: Lloyd vai ter com o dito publicitário, para lhe reclamar o emprego prometido, mas bate com a cabeça na porta ou quase... O homem diz-lhe, cinicamente, que tem reservado para si um trabalho que lhe dará a gratificação de poder progredir na empresa. Lloyd, ou melhor, Diddlebock - é esse o nome do nosso protagonista - fica numa profissão precária e pouco estimulante de secretário durante vários anos.

O seu envelhecimento, sem glamour ou delírio, longe dos tempos de "The Freshman", culmina com o despedimento. A partir daqui, este homem bondoso começa a beber, não muito, na realidade, basta-lhe um copo para soltar a fera que estava adormecida dentro de si. Uma "quarta-feira louca", à custa de um copito de um cocktail de bar, transforma Diddlebock no freshman de outros tempos. Enérgico, tempestuoso, caótico, histriónico, desastrado, mas sempre com coração quente, Diddlebock envolve-se numa série de trapalhadas à volta de um circo que adquiriu quando estava ébrio.

"Safety Last!" (1923) de Fred C. Newmeyer & Sam Taylor


"The Sin of Harold Diddlebock" (1947) de Preston Sturges


O Lloyd acrobata, na corda bamba, regressa em pleno na cena vertiginosa do edifício, citação clara a "Safety Last!", filme que, como este, ironizava muito com o mundo cínico dos negócios e do marketing. O seu jeito com animais ferozes - um leão domesticado - é proporcionalmente inverso ao seu jeito com as mulheres, sobretudo, uma das mulheres que ama - as outras eram suas irmãs, "eu amo a mesma mulher, mas em vários corpos", aponta a certa altura Diddlebock. Aqui sentimos o "Girl Shy" de 1924 a descer sobre si: uma misoginia benigna que também podemos encontrar na screwball comedy de Hawks "Bringing Up Baby", onde as feras são um tigre - aqui é o tal leão - e a personagem feminina - por intimidarem a masculina... "Mad Wednesday" é, portanto, um dos mais inspirados filmes-filmes, um olhar terno - sem mágoa, mas muita ironia - sobre um grande homem que fez rir às gargalhadas - e continua a fazer rir! - gerações e gerações de espectadores.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sullivan's Travels (1941) de Preston Sturges

Publico aqui uma versão adaptada do artigo que escrevi para o site da Red Carpet e que pode ser lido neste link.

É recorrente nas análises aos filmes de Preston Sturges a referência a uma série de nomes associados à comédia clássica de Hollywood. Os mais citados são os dos mestres do género Ernst Lubitsch, Billy Wilder e, reservando o seu extraordinário eclectismo, Howard Hawks. O genial "The Palm Beach Story" (1942) e o menos conseguido, algo sobrevalorizado, "Lady Eve" (1941) são dois exemplos do estilo cómico de Preston Sturges, mas, a nosso ver, não abrangem com rigor a outra referência cinematográfica que sobressai em parte da sua filmografia: Frank Capra. "Christmas in July" (1940), “The Great McGinty” (1940) e "Hail the Conquering Hero" (1944), três retratos doce-amargos sobre zés-ninguém candidamente iludidos/embriagados por uma fama repentina, podem ser descritos como três filmes competentes, não mais, que Frank Capra não teve tempo de realizar.

Como se vê, falar de Sturges é inevitavelmente falar de outros realizadores do seu tempo. O facto de ser um nome menos sonante que qualquer outro que acima citámos talvez se deva à forma como a sua carreira sempre oscilou entre outros cinemas, o que terá dificultado, de alguma maneira, a afirmação da sua singularidade no seio de uma certa memória cinéfila. Assim sendo, é numa espécie de reinvenção dos registos dominantes que compõem a identidade do seu cinema que nasce um dos seus filmes mais frescos e acutilantes: "Sullivan's Travels" (1941), um filme de Sturges sobre a preparação de outro filme realizado por Sullivan, personagem interpretada pelo seu actor favorito, o grande Joel McCrea.

(...)

John Sullivan é um famoso realizador de comédias em auto-questionamento sobre o sentido daquilo que faz. Segundo este, já não há espaço para o humor inconsequente num mundo marcado pela guerra e a pobreza; onde “a realidade” se tornou num “elefante” grande demais para ser ignorado. E daí a urgência de um cinema atento aos problemas da sociedade. Mas como pode um homem que viveu nas melhores casas, frequentou os melhores colégios e nunca fez outra coisa que não ganhar muito dinheiro com comédias de riso fácil ousar fazer um retrato rigoroso daquilo que é a verdadeira América? Nem Sullivan acredita em si mesmo, depois de ser chamado à razão pelos seus produtores. Contudo, como é sabido, não há obstáculos que se interponham entre um realizador ambicioso e as suas convicções: “não tenho a experiência do mundo real? Ok, então arranjo uma”.

Sullivan decide mascarar-se de sem-abrigo, viajar sem qualquer documentação pela América e, com isto, levar uma boa injecção de “realidade” no seu espírito impoluto. Quem o rodeia, agentes, mordomos, empregados, cozinheiros, não acredita que Sullivan aguente muito tempo longe da sua vida paradisíaca na “terra de todos os sonhos”. De facto, no começo desta aventura, Hollywood afigura-se como uma fatalidade para Sullivan.

(...)

A primeira investida deste corajoso – ou louco? – viajante pelo “real” sai gorada quando entra em cena Veronica Lake, uma louraça ofuscantemente bela que, por acaso, é uma actriz à procura de emprego e que, movida por um ataque de filantropia ou empurrada pela mão do destino, é acometida pela ideia estuporada de pagar o pequeno-almoço a um atraente vagabundo: sim, John Sullivan. O nosso herói fraqueja perante a deslumbrante Veronica Lake e revela a esta a sua verdadeira identidade, tal como os objectivos da sua (ainda muito curta) aventura. A jovem beldade comove-se com a rebeldia e determinação do cineasta e decide embarcar com ele numa segunda investida. De qualquer modo, não foi à primeira, nem será à segunda, que John Sullivan conseguiu escapar a Hollywood. Na realidade, vários serão os passos em falso neste seu projecto por uma nova mundividência.

Existe uma equivalência quase perversa entre o que Sullivan representa e a moral hollywoodiana. Produto de um sistema de princípios estandardizados – as hierarquias de poder, os códigos de decência, os géneros e os clichés… –, o protagonista de “Sullivan’s Travels” traduz uma das mais brilhantes desconstruções metonímicas de Hollywood. A primeira metade do filme é ocupada pelas tentativas falhadas de Sullivan em se libertar do meio cinematográfico, que aos seus olhos se vai revelando lentamente como uma ilha num mundo áspero e difícil. A realidade é o seu “Eldorado criativo”, mas para lá chegar Sullivan terá de percorrer um percurso tortuoso, justo para quem subestima a pobreza ao ponto de achar que a pode “comprar” ao virar da esquina.

Toda a sequência que começa com Sullivan a distribuir indiscriminadamente notas de cinco dólares pelos pobres que encontra nas ruas põe em monstruosa evidência a atitude paternalista dos que têm tudo face aos que nada têm. O castigo vem logo a seguir naquela que é, para nós, o mais brutal e imisericordioso retrato da ganância humana: de noite, um mendigo curva-se, sobre os carris, para apanhar cada uma das notas que roubou a Sullivan, sem se aperceber de que está a segundos de ser triturado por um comboio que se aproxima a alta velocidade…

A primeira morte de “Sullivan’s Travels” é o seu primeiro momento puramente não-cómico, que sela, por isso mesmo, a passagem de Sullivan para o tão apetecido reino da “verdade pura e dura das coisas”. Deixa de fazer sentido falar-se de Capra e, ainda menos, de Lubitsch quando o herói deste filme se transforma numa pessoa de carne e osso sujeita aos azares de gente comum. Sullivan sai dessa prisão chamada Hollywood para entrar, de seguida, metafórica e literalmente, na prisão da vida real, onde é tratado como um cão… mas não por toda a gente. Nos lugares mais horríveis e degradantes, Sullivan encontra pessoas com uma generosidade e um “amor à vida” que o deixam confuso. É com estas pessoas que aprende a lição da sua vida.

No fim, Sullivan percebe que não tinha razão quando apelidava de “inconsequentes” as comédias que o celebrizaram; entende, finalmente, que para muita gente, sobretudo, para as pessoas a quem a vida nunca sorriu, o riso é uma preciosa fonte de distracção. Agora estava pronto para voltar ao mundo do cinema e mantê-lo tal qual como o deixou. Sturges sublinha com esta conclusão a importância institucional do cinema, sem, com isto, o menorizar minimamente enquanto forma de arte: afinal, ele é o meio por excelência que concede a todos nós, ricos e pobres, a possibilidade de sonharmos (de olhos abertos) para lá da realidade.

Ler mais aqui: IMDB.

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